Fora de rota

Fora de rota

Sábado, 27 de abril de 2019, rodoviária de Arcoverde, no sertão pernambucano. Às 19 horas, encosta o ônibus da Viação Progresso, número de série 6141, placa NYX-1179. O motorista desce agitado do veículo. Só há dois passageiros para o embarque. Eu e o fotógrafo Severino Silva. Nosso destino é Paulo Afonso (BA). A passagem custa R$ 49,90, incluindo os R$ 6,30 da taxa de embarque.

O motorista que tem nome de um ex-jogador da seleção brasileira nos explica o motivo de seu desassossego: é a primeira vez que ele foi escalado nesta rota e não sabe o caminho direito. Penso que é brincadeira, mas diante do nervosismo dele começo a me preocupar. Pouco antes de dar a partida, sobe mais uma passageira. Ela vai visitar o pai em Inajá, a 133 km de distância.

Três passageiros embarcaram em Alvorada. Dois chegaram a Paulo Afonso. Foto: Paulo Oliveira
Ônibus viaja praticamente vazio. Foto: Paulo Oliveira

O piloto pergunta para a jovem se ela conhece bem o caminho. Ela diz que sim e lhe dá algumas indicações. A tranquilidade acaba em Ibimirim, quando o veículo acessa uma estrada de terra malconservada. A escuridão, somada aos buracos e à falta de sinalização confundem. O ônibus se arrasta, enquanto o motorista tenta localizar alguém para perguntar se está no caminho certo.

Saio do assento no meio do veículo e vou para a frente do veículo. Ao perguntar o que está acontecendo, a passageira faz uma piada sem graça:

“Não se preocupe porque logo, logo seremos assaltados”.

Ela brinca com algo sério. Os roubos são comuns na região. Caminhões são saqueados e motoristas, feitos de refém.

Os 53 km entre Ibimirim e Inajá deveriam ser percorridos em 57 minutos. Uma hora e quinze depois ainda estamos sacolejando entre buracos, quebra-molas e desviando de bodes que cruzam a estrada.

CASTIGO

Ao deixar a passageira em Inajá, o motorista revela que foi escalado nesta rota como punição por ter apresentado atestado médico para justificar uma falta. Não é só ele que desconhece o itinerário. Funcionários do setor de venda da Progresso que atendem no número 08007669000 orientam os passageiros a comprarem passagens no guichê da rodoviária de Alvorada:

“Essa rota das 19 horas de sábado é nova e não consta aqui. É melhor confirmar no guichê da empresa no terminal rodoviário.”

O piloto é funcionário da Progresso há cinco anos, motorista fixo da linha Arcoverde-Araripina, cidade situada na divisa entre Pernambuco, Ceará e Piauí. Ele revela que a ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) está monitorando a empresa de ônibus porque ela cortou rotas menos lucrativas. A criação do horário das 19 horas para Paulo Afonso, via Inajá, é uma das consequências da fiscalização. Outro veículo para Paulo Afonso sai aos sábados, às 16 horas. Vem de Recife. No dia 27, estava lotado.

A agonia do motorista aumenta em Paracatu, pois o centro da cidade está bloqueado para a realização de uma festa. Ele reclama que é difícil manobrar o veículo em ruas estreitas e para pelo menos três vezes a fim de perguntar como se chega ao trevo em direção a Petrolândia.

Eu e Severido, os dois únicos passageiros a percorrerem todo o trajeto. Foto: Paulo Oliveira
Eu e Severino, os dois únicos passageiros a percorrerem todo o trajeto. Foto: Paulo Oliveira

A agonia aumenta quando o GPS sai do ar próximo de Jatobá e ele perde a entrada para Itaparica. Retira do bolso um papel amassado, onde um mapa desenhado à caneta. Tenta se localizar, ao mesmo tempo que mexe no celular para reativar o rastreador. Com o apoio dos braços, tenta controlar o volante. Vez por outra não consegue. O ônibus ziguezagueia.

A esta altura sou eu quem o socorre, pois gravei o caminho na ida, entre Paulo Afonso e Jatobá. Dou orientações até a divisa de Alagoas e Bahia. Mais adiante, o motorista resolve seguir um ônibus da Rota.

“Não sei onde fica a rodoviária de Paulo Afonso, nem a garagem da Progresso” – explica.

Próximo do destino, o piloto relaxa. Conta que tem outras profissões – padeiro e açougueiro – e que morou no Rio de Janeiro por 12 anos. Nas férias, veio visitar Alvorada, sua cidade Natal, e não voltou.

À 0h23min, o ônibus encosta no terminal. Ufa!

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Meus Sertões fez contato com a Auto Viação Progresso. O repórter foi direcionado ao setor de tráfego, onde falou com Marcos. Este funcionário disse que caso seria analisado e que a empresa daria retorno através de uma pessoa chamada Queila. Até agora nenhuma resposta foi dada.

Jornalista, 56 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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