Os carros de boi de Seu Durval

Os carros de boi de Seu Durval

O carro de boi é um dos meios de transporte de pessoas e cargas mais antigos ainda em uso no sertão, principalmente, em zonas rurais. Também conhecido como “carreta”, remonta a povos antigos como egípcios, babilônios, hebreus e fenícios.

O primeiro governador-geral do Brasil, Tomé de Sousa, trouxe carpinteiros e carreiros práticos, sendo que em 1549, o rangido dos carros de boi eram ouvidos nos primórdios da cidade de Salvador.

Durante a colonização, as carretas movimentavam a indústria açucareira; conduziam famílias de um povoado para outro e serviam de carro-fúnebre, ambulância, transporte de alimentos e munições. Sua utilização começou a perder espaço em meados do século XVIII para as tropas de burros, mais leves e mais rápidas. O declínio se acentuou a partir da lei que proibiu sua utilização no centro das cidades, os deixando restrito ao campo.

A produção de veículos e a construção de estradas, praticamente extinguiu o antigo meio de transporte. No entanto, Durval Caetano, 81 anos, é um dos artesãos que mantém a tradição de construí-los.

Atualmente, segundo seus filhos e neto, ele é o único construtor de carros de boi, carros de bode e carretas ornamentais de Malhada de Pedras, município do centro-sul baiano. O outro construtor, irmão de Durval, está afastado das atividades por causa de problemas na visão.

Durval segue o ofício do pai Joaquim Caetano e do avô. Começou a fabricar as carretas na juventude e há 61 anos se mantém no ramo. Na Carpintaria Caetano, no centro do município, seus filhos e neto trabalham fabricando móveis, portas e peças diversas de madeira. Seu Durval, no entanto, constrói pelo menos um carro de boi por mês, mesmo quando não há encomendas.

Os carros são feitos com jatobá e baraúna, madeiras resistentes, e barras chatas de ferro que envolvem as rodas. O marceneiro também utiliza ferramentas antigas como o serrotão de mais de 100 anos, que pertenceu ao avô dele, João Batista. Do que aprendeu, só largou de fazer canga de boi. Justifica que “não compensa mais”.

Os principais fregueses moram nos povoados e distritos de Guajeru e Rio do Antônio, cidade que realiza desfiles de carros de boi. No aniversário do município, 118 carretas se reuniram na Fazenda Olho d’ Água.

Os carros baianos, diferentemente dos utilizados nas fazendas de Minas Gerais, são conduzidos por apenas uma parelha. O espaço para transporte é bem menor.  O tamanho das rodas varia de 66 cm a 1,10 m de altura. E se tem algo que os compradores exigem é que elas ranjam bem alto.

Segundo seu Durval, os anos 1960-1970 foram os anos mais lucrativos para os fabricantes de carros de boi. Na mesma época, surgiram os carros puxados a bode, mais baratos:

“As pessoas viajavam para Brumado, a 41 km de distância. Também podiam carregar até 400 kg de cargas diversas. Depois, surgiram os carros de bode para levar carga mais leve. Quando os carros a gasolina ficaram comuns, as vendas caíram” – conta.

Hoje, um carro de boi grande custa R$ 1.500. Já o de bode sai por R$ 500 e as carretas artesanais pequenas, usadas para decoração, custam R$ 250.

Perguntado por qual motivo ainda constrói carros de boi, seu Durval não pensa duas vezes:

“Não sei ficar parado, gosto de trabalhar. Faço porque esta é a minha profissão”

Jornalista, 56 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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