Currais humanos

Currais humanos

Os campos de concentração cearenses de 1915 e de 1932: uma história de isolamento nas secas 

Leda Agnes Simões*

Eu venho lá dos sertões onde a saudade se perdeu / Naquela estrada empoeirada que doeu / Feito uma flor que resistiu, assim sou eu – Flávia Wenceslau, 2014

Este artigo é fruto de parte da minha dissertação de mestrado defendida no CPDA/UFRRJ. Por isso, encontraremos aqui fontes históricas, dados, mapas. Uma linguagem acadêmica para um assunto que pertence a todos nós, e principalmente ao povo do Nordeste. Essa mancha na nossa história, é um tema que deve ser estudado, conhecido e falado fora do Nordeste e fora do mundo acadêmico.

Os campos de concentração do Ceará foram implementados nas secas de 1915 e posteriormente na de 1932. Os historiadores Kênia Rios e Frederico de Castro Neves adentraram esse tema e nos mostraram diversos lados dessa história. Podemos, com esses autores, entendermos os campos de concentração por meio de uma política de higienização social, bem como observá-los pela exploração do trabalhador sertanejo nesses locais e como os mesmos não foram apáticos ao contexto histórico de ausência de uma ação efetiva do estado brasileiro e das elites locais, em meio a calamidade de uma seca.

Não foi nada fácil permanecer isolado nesses campos, as fontes nos mostram que havia falta de verba, falta de alimentação, falta de condições de higiene e falta de trabalho para os sertanejos, ou seja, condições claras que levaram a morte ou a migração de milhares deles. Foi dessa forma, a partir dessas referências e desse olhar que também me aventurei a estudar os campos de concentração cearenses.

É sempre importante que possamos divulgar essa parte da história do Brasil e sabermos que existem pesquisadores importantes, graduados e pós-graduados, que têm se debruçado sobre esse tema que exige entender não só os campos de concentração em si, assim como a própria temática das secas, dos semiáridos e do olhar que as elites têm sobre esses locais. Bem como, na atualidade, existem populações sertanejas, como as de Senador Pompeu, que lutam pela memória das pessoas mortas na seca de 1932.

Uma dessas pessoas é o advogado e ativista Valdecir Alves, que tem se empenhado constantemente pela divulgação, pelo tombamento, e pela história do campo de concentração de Senador Pompeu e do cemitério das pessoas mortas na seca de 1932; história que contaremos melhor a seguir.

Sendo assim, duas secas foram emblemáticas no Ceará: a de 1915 e a de 1932, porque não tendo como controlar a grande massa de retirantes que se deslocavam para a capital Fortaleza, se criaram campos de confinamento de flagelados, chamados pelos governos de campos de concentração. O primeiro foi implementado em 1915 pelo governador do Ceará Benjamim Barroso e foi chamado de Campo do Alagadiço. Em 1932, sob a égide do governo provisório de Getúlio Vargas e seu Ministro da Viação e Obras Públicas José Américo de Almeida, criaram-se sete campos de concentração espalhados pelo Ceará: Crato, Senador Pompeu, Quixeramobim, Cariús, Ipu e dois no centro de Fortaleza, Urubu e Tauape.

Primeiramente em 1915, o campo de concentração do Alagadiço foi criado para que os retirantes da seca não migrassem para Fortaleza e para que a ajuda pública ou particular e a distribuição dos alimentos, chamados por eles de rações, fossem realizadas de maneira mais organizada. Barroso era filho de militar e também exerceu a carreira se tornando general.

Já havia ocorrido anteriormente famosa seca de 1877 no Ceará e com ela os mesmos episódios de retiradas em massa de sertanejos para Fortaleza, que se repetiram tanto em 1915 quanto em 1932. Em 1877, quando os sertanejos começaram a aglomerarem-se no centro da cidade, o governo para controlar essa “massa”, criou abarracamentos espalhados pelo Ceará, para que os sertanejos recebessem assistência. Esses abarracamentos – barracas que ficavam amarradas embaixo de cajueiros em várias partes da cidade – acabaram se tornando centros de ociosidade e morte, visto que eram péssimas as condições de higiene e de distribuição de alimentos e não havia trabalho nas obras públicas para quantidade de sertanejos que saiam dos sertões. Muitos dos alimentos apodreciam e muitas doenças se disseminaram pelos locais.

Ofícios vindos diretamente de Fortaleza em 1877 e em 1888 atestavam a criação dos abarracamentos para organizar e conter a “multidão de emigrantes indigentes” e mostravam as condições de insalubridade dos distritos onde havia as barracas. No ofício de 1º de outubro de 1877, o comissário do 2º distrito que ficava no Pajeú e no Alto da Pimenta relatava ao presidente da província que foram construídas “110 palhoças, sendo no Pajeú, 45” além de uma casa maior pertencente à província, e no “Alto da Pimenta 65 e mais uma igualmente coberta de telha com 300 palmos de frente e que foi ultimamente construída para enfermaria dos emigrantes.

O total de emigrantes de ambas as secas é de 1.688” (BRASIL, Ofício do Comissário do 2º Distrito, 1877). Em 26 de junho de 1878, a Comissão Domiciliar do 8º distrito descrevia que havia 21 famílias com 65 pessoas nesse distrito que necessitavam de emprego.

Em ofício da Comissão de Distrito, pediu que fossem enviadas verbas para fornalha da cozinha do abarracamento sob sua jurisdição e o fornecimento de seis pilões para o pilamento do milho, para assim organizar a distribuição das comidas. Levando em consideração que os abarracamentos eram espalhados em distritos, a Comissão do 5º distrito em ofício pedia também fornecimento de madeiras para os abarracamentos.

Outro ofício do 4º distrito em 1878 mostrava a organização do pessoal entre: secretário, administrador, chefe de turma, inspetor de família, serventes, carpinteiros e pedreiros. No ofício de 14 de setembro de 1877, relatavam as condições dos alimentos, que em grande parte estavam imprestáveis, dizendo:

“A farinha, além da má qualidade, não se poderão tragar pelo mau gosto e pugnante cheiro, isso porque havia se molhado por água salgada na ocasião do embarque” (BRASIL. Ofício do informe de compras ao presidente da província do Ceará,1877).

A figura abaixo mostra o mapa de abarracamento da 8º turma no Ceará 

Fonte: BRASIL. Ofício da Comissão de Socorros Públicos Fortaleza, 1877.  Arquivo Público do Estado do Ceará.

A desorganização da distribuição dos sertanejos em diversos distritos acabou dificultando os socorros e a higienização de cada localidade. As condições de higiene dos abarracamentos eram péssimas. Como mostra a figura acima, os sertanejos ficavam confinados em um pequeno terreno com várias barracas localizadas a esmo, e muitos ofícios reclamavam enfermarias, distribuição de alimentos e trabalho para a população.

Sendo assim, a ideia de concentrar sertanejos impedido que permanecessem a “perambular” pela capital Fortaleza nasce de maneira mais concreta nos abarracamentos da seca de 1877, principalmente a sua utilização como mão de obra para construções, como a estrada de ferro Batutiré. No entanto, as formas de controle se aprimorarão na seca de 1915 e mais sistematicamente na de 1932.

O medo de que acontecesse a mesma proliferação de sertanejos a pedir moradia, alimentação e trabalho nas ruas de Fortaleza, e o receio de que se espalhassem as “doenças da seca”, fizeram com que na estiagem ocorrida no ano de 1915 se criasse o primeiro campo de concentração do Ceará chamado de campo do Alagadiço. Seriam confinados em um só local todos os migrantes sertanejos e de lá seriam enviados para as obras públicas a cargo da Inspetoria de Obras Contra as Secas (IOCS).

Segundo Rodolfo Teófilo, farmacêutico que viveu no período das secas de 1877 e 1915, “ficou resolvido que os retirantes seriam recolhidos a uma grande área arborizada e cercada nos subúrbios da Capital”(TEÓFILO, 1980, p.52). Nesse mesmo período, a IOCS (criada em 1909) era quem regulamentava a criação de obras para combater as secas em que o Nordeste era exposto. Por isso, o campo de concentração do Alagadiço foi atrelado necessariamente às obras públicas instituídas pela Inspetoria, ou seja, o campo serviu como centro aglutinador de retirantes/trabalhadores que eram enviados para as obras públicas ou recebiam passagens para migrarem para o Sudeste e para Amazônia. Porque, era necessário que se ocupasse o braço do sertanejo com trabalho, sem que se estimulassem as esmolas e uma “vida” de “ócio”.

Os campos regulamentavam a entrada desses sertanejos acostumados a uma vida “sem disciplinas” de trabalho, nas construções de açudes e estradas de ferro, era o que justificava a concentração dessas pessoas. Concentrar os retirantes no campo do Alagadiço também foi uma medida que acalmou os ânimos das elites do Ceará. O terror das secas e da massa de retirantes nas capitais se tornava ainda maior nas notícias dos jornais.

No Correio da Manhã de 1915, uma reportagem relatava que o êxodo da população do Ceará era cada vez mais intenso e seu aumento chegava a ser assustador. Descrevia em números a quantidade de pessoas a vagar e pedir ajuda do governo em Fortaleza. No campo do Alagadiço, segundo o jornal, havia 5.411 retirantes e nas ruas perambulavam mais. Descreviam que os trens que vinham do interior traziam um grande número de sertanejos “em seus bandos” e que era cerca de 80 mil o número de pessoas que necessitavam de auxílio para não morrem de fome. Tal número, segundo o Correio da Manhã, se elevaria para 120 mil pessoas, antes do fim do ano.

O jornal reivindicava que era necessário empregar cerca de “15 mil operários e em dezembro elevar este número para 23 mil aproximadamente” (CORREIO DA MANHÃ, 1915, p.6). Desta forma, os jornais acabavam por aterrorizar ainda mais com as notícias sobre a fome e as migrações, quantificando o número de pessoas para mostrar a grandeza desmedida da seca. Nesta reportagem do Correio da Manhã, o sertanejo já era chamado de operário e a notícia clamava que estes fossem colocados em obras públicas. O medo era a melhor arma para manter o flagelado longe das elites das cidades, e o trabalho a melhor forma de dignificá-los do mal da miséria.

A existência do campo do Alagadiço foi justificada precisamente por um relatório do governador Benjamim Barroso, onde o mesmo colocava que havia excedido o número de três mil pessoas no Passeio Público, localizado em Fortaleza, assim que a seca assolou em 1915 e, por isso, era necessário retirar os sertanejos e colocá-los no Alagadiço, local afastado do centro que logo se chamou de campo de concentração.

A propriedade do Alagadiço, narrou Barroso, era do Sr. João de Pontes Medeiros que o cedeu para que o governo, “para fim tão humanitário, criasse o Campo de Concentração” que “por muito tempo comportou permanentemente mais de oito mil pessoas” (BARROSO, 1915, p.7-8). Para tal propósito, a organização deu-se da seguinte forma: foram feitas instalações elétricas que facilitariam a fiscalização do local, e os homens e rapazes sadios, apesar de abatidos pela fome, eram mandados para trabalhos de terraplanagem nas ruas e praças da cidade.

Para compensar tal trabalho que, segundo Barroso, era de poucas horas por dia, tinham em contrapartida alimento, auxílio médico e farmacêutico. Havia também distribuição de roupas não só pelo governo, mas também por particulares. Para complementar, teriam no campo acompanhamento espiritual do Arcebispo de Fortaleza, Frei Ignácio, mostrando como a Igreja Católica foi uma forte aliada na construção da ideia de moralidade na vida dos sertanejos, que vivam sobre a égide de seus próprios conceitos sobre religião, moral e costumes.

O governador deixou claro que os trabalhadores eram separados entre os mais fortes e os mais fracos, e os mais fortes, segundo ele, eram também os que possuíam pequenos lotes de terra no interior e seriam encaminhados para obras maiores, como nas estradas de ferro, onde receberiam um salário. Os menos saudáveis, mas ainda aptos aos trabalhos, eram colocados em obras menores, sendo assim, só o trabalho lhes garantiria, o direito à alimentação e assistência médica. Os que não tinham condições nenhuma de trabalhar não são mencionados no discurso. Pode-se inferir que até os ditos “aptos ao trabalho” poderiam não ter as mínimas condições para exercê-lo, o que constituiu um trabalho forçado e o que pode ter contribuído para as muitas mortes nas obras e no próprio campo de concentração, visto que esses “não aptos” acabavam vivendo a própria sorte dentro do campo.

Barroso, ao afirmar em seu relatório a justificativa para a instalação desse campo, acabava por “ajustar” suas medidas com as maneiras de controle social. Primeiramente, o campo foi instalado numa área afastada da capital. Isolados, deveriam ser vigiados para que o local não se tornasse um centro de “promiscuidade”, a moralidade estaria também imposta. Segundo, para que recebessem alimentos e ajuda médica era necessário que trabalhassem o que lhes garantiam o benefício pelo mérito do trabalho. Controle e vigilância de costumes e dos hábitos de trabalho serão medidas que se aprimorarão quando se trata do uso da mão de obra sertaneja em período de seca, como acontecerá em 1932.

Rodolfo Teófilo advertia ao governador Benjamim Barroso que “aglomerar os retirantes era matá-los” (TEÓFILO, 1980, p.52) Em seus escritos, explicava que não compreendia porque o Alagadiço convencionou-se chamar de campo de concentração, já que os retirantes foram postos a esmo em uma pequena área, expostos também em “abarracamentos” (como em 1877). O próprio povo o chamava na verdade de curral, um curral dos bárbaros como apontou o autor Frederico de Castro Neves.

Teófilo sempre que tratava do tema colocava o campo entre aspas. No entanto, a ideia de concentrar os sertanejos em um só local se deu apenas em 1915, os abarracamentos de 1877 eram espalhados por diversos distritos do Ceará, reiterando mais uma vez que, concentrar, neste momento, era isolar os incômodos da pobreza que a seca trazia para o povo sertanejo.

O próprio farmacêutico relatou que em sua primeira visita ao campo conseguia perceber que seria um lugar de mortes e se tornaria, prontamente, um “Campo Santo”. “Em um quadrilátero de quinhentos metros de face estavam encurralados cerca de sete mil retirantes” (TEÓFILO,1980, p.60) que foram se abrigando embaixo dos cajueiros ou alguns conseguiam armar uma barraca que, segundo ele, era tão paupérrima que não tampava os raios de sol. Criticava ainda a cozinha construída a esmo e o local onde eram depositadas as fezes que ficavam expostas perto dos abarracamentos, às moscas.

Em seu romance O Quinze, Raquel de Queiroz também narrou a saga dos sertanejos na seca de 1915, e retratou o campo de concentração. Em um trecho aonde a personagem Conceição havia acabado de sair do campo retrata bem os aspectos do lugar. Conceição ia todos os dias para ajudar na entrega dos socorros:

                                         (…) o mau cheiro do campo parecia mais intenso (…) Quando transpôs o portão do Campo,                                                e se encostou a um poste, respirou mais aliviada. Mas, mesmo de fora, que mau cheiro                          se sentia! Através da cerca de arame, apareciam-lhe os ranchos disseminados ao acaso. Até a miséria                                           tem fantasia e criara ali os gêneros de habitação mais bizarros. Uns debaixo dum cajueiro,                                          estirados no chão, quase nus, conversavam. Outros absolutamente ao tempo, apenas com a                                  vaga proteção de uma parede de latas velhas, rodeavam um tocador de viola (…) (2013, p.63)

Por isso, muitos sertanejos também morreram pela falta de condições mínimas de higiene, nesses campos, bem como nos abarracamentos da seca de 1877.

A ideia de concentrar esses “indesejados” mostra que no Brasil a pobreza sempre foi tratada como criminalidade, tendo como a única solução seu “aprisionamento” e disciplinamento contra qualquer ato de “barbárie”. No caso do campo do Alagadiço, a vigilância, o próprio local que era cercado por arame farpado, as próprias condições de insalubridade em que eram expostos os sertanejos exemplificam como o problema da seca em si passava a ser secundário mediante o extremo estado de pobreza em que se encontravam os sertanejos, cabendo, então, como medida principal acalmar os ânimos dos flagelados controlando suas ações para que não incomodassem as elites locais e nem o próprio andamento/normalidade das cidades.

Passados 17 anos da implantação do campo do Alagadiço no Ceará, Getúlio Vargas enfrentou a seca de 1932 e através da Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas (IFOCS), ligada ao Ministério de Viação e Obras Públicas, liderado por José Américo de Almeida, criou-se sete campos de concentração, que segundo Frederico de Castro Neves, foram espalhados por lugares estratégicos do Ceará: ao sul, o de Crato, no centro os de Senador Pompeu, Quixeramobim e Cariús, ao norte, o de Ipu e os dois do centro de Fortaleza, Urubu e Tauape.

Mapa dos sete campos de concentração do Ceará de 1932

Fonte: MOTA, Lidiany Soares Mota. O DeterminismoAmbiental Verificado nos discursos sobre a seca e os campos de concentração de flagelados do Ceará –
1910 a 1940. UFPE, 2009.

O Ministro José Américo de Almeida destacava que era imperioso que os sertanejos permanecessem nos sertões e que lhes fossem oferecidos trabalho. Nesse período, muitos sertanejos se aglomeravam nas cidades pedindo ajuda do Governo. Américo de Almeida colocava:

 

                                                            Concentrei todos os sem trabalho, porque a seca não passa de desemprego rural.                                                          Cessando as chuvas, cessam as atividades agrícolas (….) O Sertão ficava numa                                                     verdadeira prostração. Desorganizava-se todo o trabalho. Mas eu não somente concentrei                                          o pessoal como distribuí enxadas, cimentos. Mas, para mostrar como o sertanejo é apegado ao Sertão, quando chove, esteja onde estiver ele volta (1984, p.216)

No ano de 1932, o estímulo do próprio governo federal era que os sertanejos permanecessem no seu lugar ou, em outra instância, fossem desbravar como novos bandeirantes as terras do Amazonas com seu ímpeto de homens fortes e lutadores. Por isso, Américo de Almeida dizia que havia acabado com a evasão e teria concentrado o pessoal para que permanecesse na zona. Segundo Verónica Secreto, era necessário que cada um tivesse um lugar no Brasil de Vargas, e para isso o mesmo se utilizou de uma metáfora espacial, “o Brasil em que cada um tinha seu lugar contrapunha aquele do passado em que nem todos os tinham. O Brasil da unidade era um somatório de lugares. O lugar do sertanejo era no sertão” (SECRETO, 2007, p.75-76).

Nesse sentido, no Brasil onde o lugar do sertanejo era o sertão, a ideia de concentrá-los e isolá-los seria utilizada como forma de controle e vigilância para que não esmolassem pelas ruas e não disseminassem a pobreza, a doença, a mendicância.

Para tanto, os campos de concentração deste período ficaram mais organizados. Na entrada dos sertanejos, foram necessários alistamentos sistematizados, homens, mulheres e crianças, expostos nas concentrações, eram mandados para as obras públicas na construção de açudes e estradas de ferro. Segundo Frederico Neves, os campos “eram cercados e vigiados por homens armados, sob o comando do próprio chefe de polícia, na capital, e dos prefeitos” (NEVES, 1995, p.114).

Levando em consideração também que muitos dos capangas que vigiavam os campos de 1932 eram os próprios sertanejos, Kênia Rios (2001) nota que os que se adaptavam mais facilmente à nova ordem eram beneficiados com melhores rações. Dessa forma, a legitimidade da ação só foi posta em prática porque havia sertanejos que acabaram por aceitar e se adequar ao modelo dos campos imposto pelo governo federal e pelos municípios.

O Ministro José de Américo, em uma entrevista à Aspásia Camargo e Eduardo Raposo et.al., justificou a criação dos campos dizendo que conseguia, com eles, parar a evasão das muitas pessoas que ele não queria que partissem dos sertões e, porque não havia obra suficiente para tantos retirantes, foi necessário mantê-los em algum lugar. Américo ainda ressaltava que forneceu inclusive nos campos enxovais para casamentos. Os flagelados namoravam e também casavam, tendo como resultado positivo a diminuição das retiradas.

Na mesma entrevista, dizia com ênfase que obrigou os retirantes a vacinação de tifo e disenteria: “às vezes, para vacinar, era preciso até amarrar” e “depois ficaram fazendo a vacinação sistemática e as endemias foram sendo mais ou menos dominadas” (ALMEIDA, 1984, p.215) colocou ele.

Atestando tal fala do ministro, observa-se que, entre diversos ofícios e relatórios inspetoriais encontrados no ano de 1932, a maioria deles recorria à preocupação com o problema da higienização. Em grande parte, solicitavam vacinação e revacinação e assistência médica nos campos de concentração de flagelados e nas obras públicas. Isso se deu porque, para os engenheiros da IFOCS, como relatava Luiz Vieira, o sertanejo não tinha hábitos de higiene e quando se amontoavam nas obras acabavam por gerar surtos epidêmicos de diversas doenças:

A aglomeração rápida em local não preparado convenientemente, a falta de hábitos de higiene na população sertaneja, o seu depauperamento físico, a falta de aparelhagem suficiente para tratamento do considerável volume de água a ser consumido e por último a escassez desse elemento, deram origem a surtos epidêmicos violentos principalmente de tifo, paratifo e disenteria.(VIEIRA, 1934, p.53)

No mesmo relatório, ele descreveu a situação sanitária do açude Feiticeiro ao ministro José Américo de Almeida expondo que havia piorado a situação dos operários: “Minha última inspeção tive oportunidade observar que o estado sanitário nos núcleos de trabalhos tem piorado sensivelmente atingindo em certos pontos aspecto alarmante, como açude Feiticeiro, que conta acima duzentos doentes, parte paratifo parte suspeito” (VIEIRA, 1934, p.54).

No boletim de serviços de saúde pública do Ceará, de 16 a 21 de maio de 1932, constava que foram vacinados 662 homens e 242 mulheres, totalizando 905 pessoas. No mesmo mês, dos dias 23 a 28 do corrente ano, foram vacinados 304 homens e 463 mulheres, totalizando 767 pessoas. Em todo o mês de maio, foram vacinados nos campos de concentração, segundo Diretoria de Saúde Pública contra a profilaxia de varíola, doença que ocasionou milhares de mortes em 1877 e 1915, 2.393 homens e 1626 mulheres, resultando no número de 4.019 sertanejos.

No mês de junho, ofício do dia 4, mostrava a tabela com 226 homens vacinados e 246 mulheres, finalizando 472 pessoas, até aquele presente momento. Em todo o corrente mês e ano, foram vacinados 817 homens e 728 mulheres, totalizando 1545 vacinados contra profilaxia. Em julho, durante todo mês foram vacinados 398 homens e 371 mulheres, 769 vacinados, totalizou-se no mesmo mês 6351 vacinações contra tifo e contabilizou-se 292 obtidos.

No mês de agosto, há uma listagem referente do boletim dos serviços executados nos campos de concentração de Pirambu (localizado na capital Fortaleza em um bairro pobre e afastado, chamado também de campo de concentração do Urubu), Ipu, Cariús, Patu e Crato (Burity) constando o balanço de consultas clínicas de obstetra, otorrino, pediatria e clínica geral, resultando em 22 partos, 3 abortos, 10.417 consultas clínicas totais, além da vacinação antitífo ter sido no número de 3.641, com o número de óbitos de 545 sertanejos.

 Boletim de serviços executados nos campos de concentração – maio a agosto de 1932

Fonte: Fortaleza: Diretoria de Saúde Pública, 1932. Arquivo Público do Estado do Ceará.

Getúlio Vargas, em seu discurso pronunciado no Ceará em 1933, dizia que foram organizados campos de concentração onde transitaram mais de “um milhão de pessoas atendidas com serviços profícuos de higiene e assistência, sendo grande número delas localizado em diversos estados do Norte” (VARGAS, 1933. p.378-379). Havia nos campos “postos médicos, cozinha, barbearia, casebres separados por família” (RIOS, 2001, p.113) de modo que os flagelados não precisam de lá saírem em nenhuma hipótese. A regra era a higienização, purificação e disciplinamento para o trabalho.

No Correio da Manhã, estimava-se o número de retirantes dos campos. Em Fortaleza, 2.500 homens; Ipu, 5.000; Senador Pompeu-Patu 3.200; Cariús, 19.000; Buruty, 24.500. Do mesmo modo que ocorria em períodos anteriores, como até mesmo na seca de 1915, foi necessária uma vigilância também nos hábitos de higiene desses sertanejos tidos como pessoas sem costumes educacionais mínimos de limpeza. Em outra reportagem do Correio da Manhã, de 1933, o jornal ressaltava a resposta da IFOCS, ao pedido de maior cuidado com saúde dos flagelados:

O Serviço de Assistência Médica aos operários das Obras Contra as Secas bem como as populações concentradas, compreenderá 19 postos sanitários, quatro hospitais regionais e cinco residências sanitárias localizadas nos campos de concentração existentes, além das unidades centrais de direção, contabilidade, farmácia, almoxarifado e expedição (CORREIO DA MANHÃ, 1933,p.4).

Percebe-se que as formas de organização tanto da vigilância quanto da disciplina, seja ela do trabalho, da moral ou da higienização, se deram de forma muito mais sistemática e organizada. Hospitais, residências sanitárias, obras públicas de diversas repartições foram criadas para deter o flagelo e impor um modelo de vida “moderno” nos sertões, em contraposição a um mundo “atrasado” em que viviam os sertanejos.

De acordo com Kênia Rios, o discurso da higienização e institucionalização da higiene começou com a seca de 1877, mas a preocupação efetiva com a saúde do sertanejo que se deslocava se consolidou em 1932. Por isso se dizia que o projeto da Inspetoria para os sertões era de fim humanitário, protetor e civilizador. Logo, a IFOCS tratou de realizar um plano de vigilância sobre os corpos dos sertanejos, para que se obtivesse uma mudança no seu comportamento em relação à higienização.

A autora analisa que muitos sertanejos não usavam os banheiros das concentrações, mostrando primeiro que eles iam contra as medidas de higiene, e segundo que seus hábitos eram diferentes, porque a maioria deles não possuíam, naquele período, banheiros em suas residências. Ainda se referiu ao banho, uso do sabão e as raspagens dos cabelos dos homens como medidas de controle e tentativa de engendrar novas maneiras de noção do corpo, da intimidade, e da noção de vergonha entre as mulheres e os homens nos campos de concentração.

Mais uma reportagem do Correio da Manhã de 1933 destacava bem a visão das elites daquele tempo e o medo das epidemias. Relatava a reportagem que os campos de concentração dispunham de uma assistência médica e sistematizada, que todas as pessoas eram obrigadas à vacinação e teriam sido contratadas comissões de médicos e corpo de enfermeiras para os diversos hospitais de emergência que estavam em funcionamento. Para Kênia Rios, “o discurso de higiene servia de justificativa para quase todos os (ab)usos do poder durante a seca de 1932”(2001,p.113) destacando que o discurso médico, aliado ao capitalismo, tentava formar um novo homem sertanejo, dentro da ótica da moralidade e da modernidade.

Sabe-se que, apesar das incursões médicas, muitos sertanejos morreram nessas concentrações porque nelas as condições higiênicas básicas não existiam. Também havia muita resistência dos retirantes à vacinação, e diversas manifestações contrárias a obrigatoriedade da disciplina médico-sanitária ocorreram nesse período. Os sertanejos entendiam de uma maneira própria a ideia de doença e cura, muitas vezes ligada a uma religiosidade própria.

Um relatório da IFOCS de 1932 discorria que o estado sanitário dos sertões do Ceará havia piorado, principalmente em relação às populações das construções das obras da Inspetoria. O estado sanitário das obras estava alarmante, com as moléstias contagiosas como a tifo-disenteria. Uma comissão havia sido mandada para as obras para a vacinação com a educação sanitária dos sertanejos, que era vista como a salvação dos sertões.

Américo de Almeida justificou também em seu discurso sobre os campos de concentração que deu enxovais para casamentos. Em todos os campos, havia assistência da Igreja Católica, aliando disciplina à moralidade cristã. Kênia Rios (2001) salientou que, desta forma, se congregava a higienização e a disciplina em conjunto com o discurso da própria Igreja Católica, principalmente no que se refere ao sagrado e ao profano. Os sertanejos não viam no matrimônio a mesma importância que os clérigos. Como muitos viviam em localidades em que a Igreja não conseguia abranger sua atuação, estavam acostumados às suas próprias experiências religiosas, sem levar em conta os sacramentos.

Vejamos o exemplo abaixo: a imagem ilustra como a Igreja Católica esteve presente e atuante nos sertões. A foto foi retirada de uma reportagem do Correio da Manhã de sete de dezembro de 1933. Posando para foto estavam Monsenhor Fabrício e os sertanejos. A imagem na imprensa não era utilizada em vão, se queria mostrar o flagelo em todas suas instâncias, incluindo retratar a pobreza e o estado de calamidade da população, buscando atingir o leitor com os meninos pobres, magros e maltrapilhos ao lado do padre; bem como ressaltar a importância da Igreja no processo de ajuda humanitária nesses sertões (assunto este que não trataremos aqui, mas que é um tema para muitas pesquisas).

A Igreja e os pobres na Bahia retratados pelo Correio da Manhã    

Fonte: Correio da Manhã, O convento de São Francisco da Bahia e obra de misericórdia que ali é feito aos pobres. Rio de Janeiro: Ano XXXIII, nº11.979, 17 de dezembro de 1933, p.8. Hemeroteca Digital, Biblioteca Nacional.

O medo que pairava sobre toda a elite exigia vigilância das multidões a pedir comida e trabalho. Por isso, os sete campos de concentração foram cercados por arames farpados, e diversas instalações foram aproveitadas como estruturas de casas e feiras das regiões.

Em outra imagem (figura abaixo) tirada de uma reportagem do Correio da Manhã, na Paraíba, há aspectos interessantes a serem percebidos:

Sertanejos, na Paraíba, retratos pelo Correio da Manhã

Fonte: Correio da Manhã, Os horrores do Nordeste. Rio de Janeiro: Ano XXX, nº 11.073, 27 de janeiro de 1931, p.1. Hemeroteca Digital. Biblioteca Nacional.

 Primeiro, a imagem passa ao leitor um aspecto de “feiura” e de “tumulto” com a entrada de retirantes na cidade de Iorgá[1], na Paraíba, a própria legenda dizia: “multidão de flagelados em Iorgá, recebendo uma ração de farinha e embaixo crianças famintas esperando alguma coisa que lhes mitigassem a fome”. Observa-se também que a segunda imagem, as crianças parecem olhar para a câmera, como se fosse pedido que posassem para o jornal.

Não seria de se estranhar, mais uma vez, como devemos dar importância à análise de como a imprensa, segundo Chartier, passou a ser uma “nova espécie de tribuna”, onde tudo é verdade; seria a legitimação da “razão contra as paixões”, “uma nova maneira de exercício do poder”(2003, p.23 e p. 29) E nessa perspectiva, as cenas retratadas por diversos jornais fossem eles a “favor” ou “contra” a multidão flagelada acabavam por influenciar as medidas a serem tomadas em relação aos sertanejos em períodos de seca, dentre elas, principalmente, aquelas que viam o sertanejo como avesso a modernidade, adepto a viver um modelo rudimentar de vida não só economicamente, mas em seus costumes, seria ele o eterno matuto, retirante, desbravador de terras alheias.

Era de se esperar que os campos de concentração se tornassem uma maneira viável. Então, dentro desse contexto, a imprensa se tornou um meio importante de legitimação de tais medidas de controle e ordenamento das cidades nordestinas, principalmente, com a seca. Incluindo o fato de que na Paraíba, Américo de Almeida também implementou campos de concentração.

Por isso, pelo medo das “multidões”, pela disciplina apurada necessária para o controle do povo sertanejo que migrava em busca de condições melhores de vida é que, na cidade de Senador Pompeu, as casas dos operários que haviam ido construir o açude do Patu em 1919 foram reaproveitadas para o campo de concentração de 1932. A obra tinha parado anos depois por falta de verba e os casarões dos operários da obra estavam sem utilidade até então. A imagem abaixo mostra a fundação da barragem do Patu, em 1919:

 Fundação do Açude do Patu, Senador Pompeu.

Fonte: Fortaleza: Acervo Instituto do Ceará.

No relatório dos trabalhados realizados em 1922, Miguel Arrojado Lisboa descrevia a estrutura em torno da obra:

          BARRAGEM DO PATU- Estado do Ceará – O boqueirão do Patu, sobre o rio do mesmo nome, é estreito e dotado de excelente terreno de fundação para uma barragem de alvenaria, conforme   atestaram diversas sondagens feitas com máquinas do mesmo tipo das empregadas em Quixeramobim. A jusante dele já se  construiu diversas casas par alojamento do pessoal administrativo e operário, e edifícios para o almoxarifado, oficinas mecânicas, usina de força e luz e fábrica de gelo.(LISBOA, 1923, p.14 e p.19)

Válido mencionar que o açude só foi inaugurado no ano de 1986, praticamente 67 anos depois do começo de sua construção, ratificando mais uma vez a desordem que eram as obras de combate à seca, já que o referido açude seria a solução para falta de água da região.

Segundo Kênia Rios (2001), os campos funcionavam como uma prisão: os que lá chegavam não poderiam mais sair, ou melhor, só tinham essa permissão para se deslocarem para as obras públicas.  Nas imagens a seguir, retiradas no ano de 2014[2], mostram o campo de concentração de Senador Pompeu, próxima à barragem do Patu, e afastado do próprio centro da cidade, ressaltando que a pé até o local é necessário, atualmente, mais de uma hora de caminhada.

Segundo historiografia e depoimentos de sobreviventes, o campo era cercado ficava também em uma parte superior do terreno, de forma a isolar de fato os sertanejos. Dados do Correio da Manhã estimavam que nesta concentração havia mais de 3.500 sertanejos, ora como em uma casa onde caberia uma família com no máximo 10 pessoas foram confinados, sobre a justificativa de um “fim humanitário”, milhares de sertanejos.

Não seria espantoso a quantidade de mortos ressaltados em ofícios relacionados a todos os campos de concentração daquele ano? Seria impossível que os sertanejos adoecidos pela fome e sede, não se contaminassem e acabassem falecendo no local. As figuras abaixo mostram as casas que foram utilizadas para a organização do campo de Senador Pompeu.

Ruínas do Casarão da Inspetoria de Obras- 1919. Controle do campo de concentração em 1932

Imagem registrada na 32ª caminhada da Seca. Senador Pompeu, Ceará, 2014. Acervo do autor.

Ruínas do casarão do terminal ferroviário de 1919. Utilizado como uma das estruturas pertencentes ao campo de concentração de 1932  e para continuação das obras do açude do Patu

Imagem registrada na 32ª caminhada da Seca. Senador Pompeu, Ceará, 2014.  Acervo do autor.

Ruínas da casa de eletricidade em 1919. Utilizado como uma das estruturas pertencentes ao campo de concentração de 1932  e para continuação das obras do açude do Patu

Imagem registrada na 32ª caminhada da Seca. Senador Pompeu, Ceará, 2014.  Acervo do autor.

Ruínas da casa de pólvora em 1919. Utilizado como uma das estruturas do campo de concentração de 1932  e para continuação das obras do açude do Patu

Imagem registrada na 32ª caminhada da Seca. Senador Pompeu, Ceará, 2014.  Acervo do autor.

Ruínas da casa dos engenheiros de 1919. Utilizado como estrutura para o campo de concentração de 1932 e para continuação das obras do açude do Patu

Imagem registrada na 32ª caminhada da Seca. Senador Pompeu, Ceará, 2014.  Acervo do autor.

As estruturas usadas para os campos de concentração de Senador Pompeu revelam que, nesse período, as formas de controle foram mais organizadas, apesar de não ter evitado milhares de mortes. As ruínas das estruturas utilizadas para o campo de Senador Pompeu são memória viva do fato ocorrido, são construções datadas do início do século XX, estruturas amplas, bem organizadas para época, mas que não poderiam comportar a quantidade de sertanejos retratados nas fontes. As casas mostradas nas imagens não ficam próximas uma das outras, esse campo de concentração teve uma ampla área de abrangência, ao longo do trecho as ruínas vão se mostrando para quem está no caminho.

A maior parte das estruturas estão ao longo de todo o “sítio histórico” dessas ruínas e a barragem fica relativamente distante das casas do campo de concentração. Na obra da barragem do Patu, em 1932, utilizou-se a mão de obra dos sertanejos que eram isolados nesse local. A barragem não foi concluída, como mostrado, mas as estruturas para sua construção foram mantidas como locais de confinamentos dos trabalhadores sertanejos.

A IFOCS, em 1932, em um dos seus relatórios enfatizava a criação dos campos de concentração porque a extensão do flagelo só aumentava com seu cortejo de misérias, sendo necessário que se estabelecessem socorros imediatos “com a organização rápida de novos serviços, assistência direta, transportes, concentrações, enfim todas as medidas prontas e decisivas para impedir o êxodo em massa” (VIEIRA, 1934, p.42)e para evitar também que os flagelados em multidão pudessem invadir as cidades, com seu perigo de disseminação de epidemias, de banditismos, das misérias conhecidas em secas anteriores. O incomodo estava na própria figura do sertanejo que era vista sinônimo de doenças e epidemias e o como sinônimo de “banditismo”. Essa ideia causava o medo das multidões, dos saques e das revoltas que aconteceram desde 1877 e que isso pudesse ocorrer também em 1932.

Em 1923, por exemplo, segundo Frederico de Castro Neves, muitos sertanejos tentaram assaltar trens em Senador Pompeu. O autor nota que os sertanejos aprenderam a manifestar-se e suas reivindicações passaram a ter a praça pública para o protesto. Com isso, negociavam “através da pressão direta, dos pedidos e exigências, dos saques e, especialmente, da exposição pública de suas misérias, que a seca aguça e dá visibilidade” (NEVES, 1998, p.7). Mais uma vez, a seca passava a ser um problema secundário diante do medo das elites locais e do próprio governo federal, o medo do inoportuno flagelo.

Kênia Rios destaca que na seca de 1932 havia a tentativa de consolidar um discurso do civilizado, para que não se permitisse que os flagelados se tornassem bandidos. O projeto procurava, “disciplinar os retirantes, buscando ser humanitário e civilizador, ou seja, moderno, em sintonia com o progresso” (RIOS, 2001, p.37).

No Correio da Manhã, uma reportagem de 1932 falava sobre a importância dos campos de concentração, já que não havia serviços para toda “população faminta”. O jornal também relatava em números, dizendo que eram “mantidos, no Ceará, 65.000 pessoas nos campos de concentração custeados pela Inspetoria”. Alegando que esses campos foram resultados da mais perfeita organização do governo do Estado, “até que seja adquirido material de construção completo para todas as obras em andamento” (CORREIO DA MANHÃ, 1932, p.5). Havia campos próximos aos bairros mais pobres de Fortaleza; Kênia Rios destaca que dois deles, localizados na capital, eram os mais disciplinados: “esses campos chegaram a fazer parte do roteiro turístico da “Noiva do Sol”, conquistando elogios e doações de visitantes” (2001, p.59).

Segundo Linhares e Teixeira da Silva, o que se tinha nesse momento era concepção de que o homem tradicional do campo era visto como um problema, um entrave ao desenvolvimento pleno do Brasil. “Para os homens que assumem o poder na década de 1930, o desenvolvimento é sinônimo de indústria, de população bem alimentada, saudável e de erradicação do analfabetismo e de endemias”(1999, p.112.).

Em 1933, em notícia do Correio da Manhã e em ofícios encontrados no Arquivo do Ceará mostram que o interventor Carneiro de Mendonça estava mandando esvaziar os campos de concentração do Ceará, com as possíveis chuvas que começavam a cair naquele ano. Foi o fim dessa medida.

Acrescentado todos esses fatores, havia ainda as visões deterministas ligadas a um discurso que via a natureza como problema, entendiam os sertões como sinônimo de seca e intervieram com políticas públicas que mais foram paliativos contra a seca, do que resolviam seus verdadeiros problemas. O discurso da ausência de chuvas como a maior dificuldade dos sertões, e o estímulo a construções de açudes não resolveram a ausência de água. Até os dias atuais os sertões nordestinos sofrem com a falta de planejamento e manejo correto da água.

Um exemplo dessa desordem que é configurada nos sertões pode ser vista, atualmente, na cidade de Senador Pompeu no Ceará, no açude do Patu. Após demora de 67 anos para ser construído efetivamente, hoje em dia ele não tem resolvido o problema da população da cidade, o reservatório de água que deveria atendê-los em período de crise tem períodos que fica prestes a não ter reserva. A foto abaixo, de 2014, mostra a situação da barragem:

Barragem do açude do Patu, em Senador Pompeu

Imagem registrada na 32ª Caminhada da Seca em Senado Pompeu

A força das águas da barragem chega, aproximadamente, entre a segunda e terceira laje (de cima para baixo) de concreto da primeira imagem, e cobrem as pedras da segunda foto. Deste modo, os sertões do Ceará passam por mais uma seca (2014), considerada uma das maiores depois da seca da década de 1950, e ainda não tem, na solução do açude, remédio ao antigo problema da falta de água. Tal fato mostra, mais uma vez, que a ausência de um planejamento para distribuição de água impõe ao semiárido nordestino a estar eternamente fadado a “secura” da natureza agreste, sem resolver os problemas sociais da rede que se beneficia em tratar os sertões como região problema, e culpar a natureza pela pobreza dessa região.

Pensando novamente na questão dos campos de concentração, quando nesses campos se selecionava quem era o mais apto ao trabalho nas obras e o que não era, acabavam por classificar o sertanejo e segregá-los, “descartavam”, desta forma, os “não aptos” que passavam a permanecer confinados nos campos de concentração à revelia da assistência médica e dos socorros alimentares. Os “não aptos” eram os que não tinham mais condições de exercer o mínimo trabalho que fosse e acabavam morrendo dentro dos campos de concentração.

Um exemplo das centenas de mortes ocorridas nas obras públicas e nos campos de concentração está revelado, até os dias atuais, em Senador Pompeu, no chamado campo santo, onde estão enterrados os mortos da barragem do Patu e os mortos do campo de concentração. Desde 1982 que ocorre na região a Caminhada da Seca em memória dos que morreram em Senador Pompeu devido à grande seca de 1932. Foi realizada, primeiramente, pelo padre italiano Albino Donatti que era pároco da Igreja Matriz de Senador Pompeu. O padre percebeu a devoção da população pelas “almas da barragem” e passou a fazer uma caminhada até o cemitério do açude do Patu que fica a quatro quilômetros do centro da cidade, para que as pessoas fizessem suas orações e seus pedidos para essas “almas”.

ALMAS E MILAGRES

A população de Senador Pompeu acredita que almas da barragem operam vários milagres na região e são, verdadeiramente, santas. Devido ao sofrimento que passaram com a falta de água e comida, ao chegarem ao cemitério os devotos começam a derramar água sobre as cruzes no chão, que são os túmulos dos sertanejos. Segundo relatos, os sertanejos foram enterrados em covas rasas, no chão, a esmo.

Os populares também depositam pão em uma capela em memória desses mortos e para que não se repita a falta de alimento na cidade. Muitos vão descalços todo o caminho, simbolizando os sertanejos que, segundo os dizeres, viviam descalços em suas grandes retiradas pelos sertões. Por fim, acendem as velas e nelas fazem os seus pedidos para as almas. “É povo santo, é o santo do povo”, como muitos dizem no caminho.

Na atualidade, além da devoção religiosa, a Caminhada da Seca tem um fator político e é uma crítica velada aos governos e as políticas públicas. Cada Caminhada tem um tema a ser tratado e remete as questões que estão passando a cidade de Senador Pompeu na contemporaneidade. No caso da 32º Caminhada da Seca, em que pude participar em 2014, o tema era “Pela preservação das águas do Patu, fonte de vida e construção da liberdade – Em defesa da dignidade humana”, remontando ao fato de que o Ceará passa por uma grande seca, sem planejamento e preservação da água da barragem, como mostrado acima nas fotos da própria barragem do Patu.

A luta atual da cidade é pela preservação do sítio histórico da barragem e das estruturas do campo de concentração, pelo seu tombamento pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e pela memória da batalha do povo sertanejo em meio às secas. As imagens a seguir mostram a caminhada e a simbologia existente nela:

Foto do início da procissão às 5 horas da manhã, em frente a Igreja Matriz de Senador Pompeu

Fonte: 32ª Caminhada da Seca. : “Pela preservação das águas do Patú, fonte de vida e construção da liberdade – Em defesa da dignidade humana”. Senador Pompeu, Ceará 2014. Acervo do autor

Os pés descalços que simbolizam as retiradas dos sertanejos a pé pelos sertões.

Fonte: 32ª Caminhada da Seca. Senador Pompeu, Ceará, 2014. Acervo do autor.

A água derramada sobre as covas simboliza a sede dos que morreram, para que não se repita.

Fonte: 32ª Caminhada da Seca. Senador Pompeu, Ceará, 2014. Acervo do autor

O pão depositado na capela do cemitério, simbolizando a fome dos sertanejos da seca de 1932

Imagem registrada na 32º caminhada da Seca. Senador Pompeu, Ceará, 2014. Acervo do autor.

As velas acesas embaixo do cruzeiro para que os pedidos sejam alcançados

Imagem registrada na 32º caminhada da Seca. Senador Pompeu, Ceará, 2014. Acervo do autor.

Essa Caminhada e a própria crença dos sertanejos de Senador Pompeu nas “almas da barragem” revelam a ressignificação de um povo em meio a sua própria história. Essa construção da significação, segundo o Roger Chartier “reside na tensão que articula as capacidades inventadas dos indivíduos ou das comunidades com as restrições, as normas, as convenções que limitam (…) o que é possível pensar, enunciar e fazer” (2003, p.167).

Por isso, quando os sertanejos acabam por construir sua própria visão sobre a história de Senador Pompeu, por exemplo, eles estão legitimando sua própria cultura, suas crenças e costumes, pois “a memória coletiva é, sem dúvida, uma das maneiras mais importantes pelas quais os povos se localizam num espaço geográfico” (LITTLE,1994, p.6).

Ressalta-se também que os sertanejos de Senador Pompeu acabam por selecionar, como toda História Oral reconhece em suas análises, o que deve ser lembrado e o que deve ser esquecido na construção de suas memórias e histórias de vida em relação à seca de 1932. É preciso um estudo mais amplo sobre a caminhada da seca, que leve em consideração todos esses fatores e toda simbologia sobre a seca de 1932.

Cabe ressaltar algumas questões que são importantes e que perpassam a história dos sertões. Primeiramente, o eterno dilema dos açudes que eram construídos, em sua maioria, em propriedades particulares resultando na barganha do uso da água, fator recorrente nas relações paternalistas ou clientelistas que assolavam os semiáridos de todo o Nordeste. Tal problemática, muitas vezes, fadava o pequeno produtor, o pequeno dono da terra, a viver das relações de dependência com os grandes fazendeiros.

Segundo, as verbas das obras públicas de combate à seca. Muitas dessas obras demoravam anos para serem concluídas. Quando vemos jornais da época e as elites locais, clamando socorro aos “pavores da seca”, reafirmando uma visão fatalista sobre o Nordeste como sinônimo de seca, pobreza e atestamos que, por diversas vezes, essas próprias elites agrárias disseminavam essas visões para conseguirem verbas públicas e as desviarem para outros fins. Ou seja, quanto mais pavor, mais cenas de mortes, crianças magras com fome, terras secas, sem vegetação, mais comoção isso gerava e mais fácil se conseguiam as verbas para combater as secas, e foi assim que se consolidou o que conhecemos como “indústria da seca”.

Gostaria de mostrar, por fim, que nos sertões existem geografias plurais. Guimarães Duque relatava em seus escritos que os sertões continham chão amarelo ou vermelho, coberto de seixos rolados, capins e leguminosas rasteiras. No inverno aparecem as árvores e arbustos. Josué Castro coloca, que há uma área que contém poucos elementos nutritivos e solo pedregoso, em conjunto com uma área mais fértil “de solos argilosos, onde se desenvolvem três tipos de vegetação: o agreste, a caatinga e o alto de sertão” (CASTRO, 1984, p.167).

A caatinga é onde há maior aridez. Já o agreste é uma área de transição entre a área úmida e o semiárido, onde consegue se perceber maior número de rios. No alto do sertão, há uma vegetação de savana, com áreas verdes e um clima menos árido. Seu clima é caracterizado pelo “inverno seco e quase sem chuva, com duração de cinco a oito meses, e verão chuvoso, com quatro a sete meses de precipitações pluviais” (AB´SÁBER, 1999, p.10).

Para Guimarães Duque, “em comparação com a caatinga, o sertão mostra uma flora menos raquítica, com menos cactáceos e espinhos; quando a altitude ultrapassa os 300m as condições mudam e surge a caatinga ou a serra” (DUQUE, 2004, p.89).

Josué de Castro chama também de “pequenos oásis” uma parte dos sertões que compõem uma geografia com montanhas, contendo maior índice de pluviosidade e mais umidade. Pode-se encontrar nessas áreas: mangaba, araçá, cambuí, uva silvestre, como exemplo as serras do Araripe, de Baturité, Borborema, no Ceará, tendo nelas também pêssegos e melões, frutas do clima temperado. Mas o autor conclui que, apesar desses oásis, a flora do sertão não pode se igualar ao Nordeste da mata tropical, onde há fartura de alimentos e frutas.

O que é comum nos sertões é o agricultor que planta milho, feijão, mandioca, batata-doce, fava, verduras e que se difere dos grandes proprietários da cana-de-açúcar que “sempre olharam com desdém, chamando depreciativamente a este tipo de policultura do sertanejo de “‘roça de matuto’” (CASTRO, 1984, p.180).

Ora, há alimentos suficientes para população, há precipitação de chuva para que se tenha água nos açudes e há terra para o plantio, então, quem se beneficia em retratar um semiárido sempre “triste” de um povo que tem por sina viver a migrar para o sudeste, ou a viver em meio a secura? Os sertões sinônimos, principalmente, de seca garantem a sustentação de valores e estruturas sociais que transpassam a vida do homem sertanejo. Como Celso Furtado ressaltou em suas análises, o semiárido não é uma região árida, e a precipitação pluviométrica é relativamente alta.

Dessa forma, a população acaba por morrer de fome e de sede por falta de um ajuda pública. Como os sertões vivem da agricultura, quando a seca assola não há como fugir da falta de estrutura para manter as plantações, mas segundo o autor é principalmente no Brasil que não se previne a calamidade para que a população não morra de fome; outras regiões semiáridas no mundo possuem políticas para enfrentá-la. Dessa forma, o atraso em uma política concreta para os sertões ocasiona o benefício de determinados grupos dirigentes que acabam por se favorecer com a seca, direta ou indiretamente. Dessa forma, Celso Furtado poderia elucidar/completar essas considerações finais quando diz:

Nunca se fez um estudo para medir o custo humano real de uma seca. Geralmente, isso é ignorado, ocultado. A classe política nordestina tem um complexo muito grande com respeito a certas coisas, oculta tudo, não gosta que se estude isso. Porque tem consciência de culpa. Sabe que há tanta coisa que podia ter evitado, mas tem medo que tudo também desmorone, que o mundo deles venha abaixo. (1998, p.24)

Bibliografia

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(*) Pernambucana, desbravadora dos sertões e amante da história do nordeste brasileiro. Fã de Ariano Suassuna e Manoel de Barros. Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em História Social da Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FFP/UERJ), iniciado em 2016. Mestre no Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento Agricultura e Sociedade (CPDA/UFRRJ), concluído em 2015. Bacharel e Licenciada em História – Universidade Federal Fluminense (UFF), concluído em 2011. Experiência na área de Brasil, especificamente século XX, com enfoque em análises de discursos, em semiáridos nordestinos, e em secas. Atualmente, pesquisando a relação entre regiões semiáridas no Brasil e na Argentina.

[1]  Vale ressaltar que em meio às pesquisas não foi encontrada a localização desta cidade na Paraíba. Parte-se da premissa de que ou o nome da cidade foi escrito de maneira incorreta pelo jornal, ou a cidade pode ter mudado de nome posteriormente. A única cidade localizada de nome “semelhante” é a cidade de Ingá, mas não se pode afirmar se é esta à cidade que a reportagem se refere.

[2] As imagens foram retiradas na 32º caminhada da seca em 2014, na cidade de Senador Pompeu, no Ceará. Essa Caminhada acontece todos os anos, desde a década de 1980, em memória dos mortos do campo de concentração de Senador Pompeu. As legendas das imagens foram retiradas na própria Caminhada, e por meio de documentários feitos por Valdecy Alves, advogado e ativista das causas sociais de Senador Pompeu, que pude conhecer naquela ocasião. Valdecy Alves luta há alguns anos pelo tombamento da área e é um estudioso do tema. Em diversas entrevistas, o advogado ressalta a estrutura das casas da barragem do Patu e apoia a Caminhada da Seca, como forma de manter a memória viva do fato ocorrido.  Um dos documentários está disponível em: Caminhada da Seca Virtual – Aos mortos do campo de concentração (ver abaixo).

Leda Agnes Contributor
Doutoranda em História Social – UERJ-FFP. Mestre em Ciências Sociais -CPDA/UFRRJ. Bacharel e Licenciada em História – UFF. “Não troco meu “oxente” pelo “ok” de ninguém” Suassuna

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