A tradutora visual de Alagoas

A tradutora visual de Alagoas

Se você é do tipo formal que quer informações sucintas vou lhe dar a alternativa de conhecer um pouco mais sobre a fotógrafa e designer Flávia Correia, 43 anos, que estreia hoje a exposição sobre o sertão alagoanona seção Galeria, do site Meus Sertões.  Basta acessar na internet a página  http://www.flaviacorreia.com/sobre . Mas se você gosta de um proseado, preste bem atenção na história que vou contar sobre como Flávia se encontrou com a fotografia documental. 

Flávia Correia: máquina fotográfica a tiracolo e carregando seriguelas. Foto: Arquivo pessoal

Desde pequena, Flávia se acostumou com a mãe documentando tudo sobre ela e os quatro irmãos. A preocupação ia muito além das festas de aniversário. Cresceu observando a preocupação materna com a linguagem visual. Talvez tenha sido este o motivo que a levou estudar design gráfico no Hunter Institute of Technology, em Newcastle, no estado de Nova Gales do Sul, na Austrália. A instituição oferece cursos técnicos e superiores.

Foi no curso de design que foi exposta pela primeira vez a questões técnicas de fotografia, mas ainda não foi dessa vez que despertou para a atividade que hoje consome 90% do tempo que dedica ao trabalho.

Ao regressar para Maceió, em 2003, se empregou em uma agência de publicidade. Em seis meses descobriu o que não queria fazer. Preferia ser algo que chama de tradutora visual.

Assim, começou a trabalhar por conta própria, criando capas de CDs, catálogos de exposições, portfólio de artistas. E vieram as primeiras fotografias porque os clientes não tinham o material que ela precisava para produzir as peças gráficas.

DIVISOR DE ÁGUAS

Dois projetos do Sesc (Serviço Social do Comércio) a fizeram ficar tocada pela fotografia, ainda que não profissionalmente. No primeiro, ela foi convidada para produzir material para o catálogo da exposição Artes e Fatos – Artesanato Kariri-Xóco, indígenas que habitam na margem esquerda do rio São Francisco, em Porto Real do Colégio (AL).

Em sua primeira incursão, nem máquina fotográfica tinha. Usou uma antiga Canon de uma amiga. Lembra até que incluiu no orçamento 20 rolos de filme. O resultado, porém, foi espantoso. O Sesc gostou tanto que incluiu algumas fotos da designer na exposição. E a chamou para participar de uma nova missão: viajar para seis municípios nos extremos do território alagoano para registrar Brinquedos e Brincadeiras Populares, tema da exposição que viria a seguir.

 “Considero que essas duas experiências me fizeram desejar fotografar sempre que eu pudesse”

O real batismo ocorreu, segundo Flávia, em 2006. Ela inscreveu uma das fotos sobre brinquedos e brincadeiras no edital Alagoas em Cena, que incluía um prêmio para fotografia. Ficou em segundo lugar e ganhou mais confiança, pois foi avaliada por pessoas que não conhecia.

“Alguém considerou que aquela fotografia era interessante. E aí, aos pouquinhos, fiquei mais confortável para assumir a fotografia.  Ainda é um pouco difícil eu dizer que sou fotógrafa. Fico um pouco tímida porque eu acho que precisa de muito mais. Enfim…”

MUDANÇA

(Enquanto conta sua história pelo telefone, imagino que os olhos da fotógrafa que nunca vi estejam brilhando. Ela fala de seu trabalho de forma apaixonada)

Não foi só o texto que mudou de ritmo. A vida de nossa personagem também.  No final de 2007, Flávia foi para o Rio de Janeiro. Ficou lá quatro anos. Participou da produção de curtas-metragens e videoclipes. Ainda coordenou e organizou o material gráfico para o Programa de Promoção do Artesanato de Tradição Cultural (Promoart), no Museu do Folclore.

Maceió novamente a colocou por trás das câmeras fotográficas. Duas coisas foram responsáveis por isso: o projeto de salvaguarda do patrimônio imaterial de Alagoas, do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), e o programa de documentação de quatro comunidades indígenas afetadas pela duplicação da BR-101.

A proposta do Iphan, na verdade um projeto piloto para mapear todo o estado de Alagoas foi realizado por três equipes, formadas por engenheiros, ilustradores, arqueólogos, jornalistas, psicólogos, designers e fotógrafos. A de Flávia, que ficou responsável pelas cidades cortadas pelo Rio São Francisco, o litoral norte e outros municípios avulsos, tinha 24 integrantes. O trabalho de campo durou um ano.

“Em cada viagem, visitávamos até seis municípios. Minha função era produzir fotos legais. Usei uma Canon 70D. A menina que fazia dupla comigo tinha uma DSLR e no grupo havia outra máquina fotográfica que ficava circulando entre os integrantes do grupo. A primeira fase foi de pesquisa e contatos. Depois, tivemos um tempo para fazer os relatórios. O último foi entregue mês passado. Foi um trabalho lindo”.

Ao mesmo tempo que fotografava as cidades do estado, Flávia foi contratada pela empresa responsável pela gestão ambiental da duplicação da BR- 101 para fazer fotos documentais sobre as áreas indígenas cortadas pela estrada. O trabalho iniciado em 2014 está em execução até hoje. É bem flexível e permite que a fotógrafa  tenha outras atividades.

PLANOS

Embora admita ter dificuldade para pensar em termos de edição, Flávia faz planos de utilizar o material que produziu em excesso sobre as cidades do rio São Francisco. Pensa até em voltar à região, após ter navegado de Piranhas a Penedo. Talvez inclua as cidades de Delmiro Gouveia e Piaçabuçu. A princípio, pretende dividir o trabalho com fotógrafa sergipana Melissa Warwick.

Há um ano, Flávia Correia “teve coragem” de criar o Instagram “retratopaisagem” depois que alguém pediu para ver suas fotos profissionais. Só então deu conta que elas estavam misturadas com as imagens que fazia da família.

O convite para enviar material à revista Graciliano, que fez uma edição especial sobre fotografia em seu último número, colaborou para ela avançar no processo de definir como usar melhor o que produz.

Flávia diz que o design continua em sua vida, mas escolhe bem os projetos em que se envolve. Segundo ela, é preciso que tenham um sentido de verdade. Quanto à fotografia, considera “irreversível”. Uma reviravolta interessante para quem antes trabalhou cinco anos em um shopping center sem ver o pôr do sol.

GALERIA: EXPOSIÇÃO ALAGOAS

 

Jornalista, 57 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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