Mães aprovam modelo CPM, filhos nem tanto

Linda Gomes e Paulo Oliveira

A minha alma tá armada
E apontada para a cara do sossego
Pois paz sem voz, paz sem voz
Não é paz, é medo!
Minha alma (A paz que não quero) – O Rappa

O medo do envolvimento dos filhos com drogas e outros crimes ou de que sejam vítimas da violência é um dos principais motivos para as mães aprovarem a proposta de ensino cívico-militar. A estratégia de instalar o método em escolas localizadas em áreas de elevados índices de criminalidade amplia a defesa da militarização do ensino.

Na Bahia, o discurso das autoridades de que são os pais que decidem onde os filhos devem estudar, portanto a vontade de crianças e adolescentes não é prioridade, encontrou eco em um contexto de violência, vulnerabilidade e precariedade de serviços.

Em Campo Formoso, a 405 quilômetros de Salvador, é comum ouvirmos moradores e professores citarem que o maior número de assassinatos da cidade ocorria nos bairros no entorno da escola Professora Maria do Carmo de Araújo Maia.

Aline, mãe representante, dá depoimento para a comunidade escolar. Foto: Paulo Oliveira

Segundo a ex-diretora Florineide Andrade de Oliveira, em 2017, um ano antes da assinatura do convênio de gestão compartilhada entre a Polícia Militar e a prefeitura, foram registradas seis mortes violentas na região. As vítimas eram estudantes ou parentes deles.

Diante desse cenário, Meus Sertões constatou que, principalmente as mães, elogiam o método adotado pela escola Maria do Carmo. Algumas até preferem um “colégio militar de verdade”, como o CPM de Juazeiro, distante 153 quilômetros dali. A aprovação da maioria, no entanto, não livra a prefeitura e a corporação de críticas diante de ocorrências de bullying e agressão.

Os bairros no entorno da escola sofrem ainda com a falta de saneamento básico. As obras de construção da estação de tratamento de esgoto e de recuperação das redes coletoras na sede do município ficaram paralisadas por 10 anos e a previsão é de conclusão a partir de 2023.

sem punição

A orientadora social Laís Silva se entusiasmou com a notícia da militarização do estabelecimento de ensino frequentado pela filha mais velha. Ela passou a se sentir mais segura.

“Antes da chegada dos militares, os alunos usavam drogas dentro da escola e quebravam cadeados e carteiras. Tinha negócio de briga com faca. Depois, a gente não ouviu falar mais disso” – disse.

A suposta tranquilidade foi quebrada quando a filha de Laís passou a sofrer bullying e foi agredida na escola:

“Minha menina sempre foi tranquila. Mas, ano passado, passamos por um processo muito difícil. Ela começou a sofrer assédio moral e ser humilhada por causa do nome incomum e por ser gordinha. Um menino chegou a dar um chute nela. Reclamei na escola. Depois disso, o agressor pediu desculpas, mas não foi punido” – contou.

Auditório do novo colégio. Foto: Paulo Oliveira

Outro fator de descontentamento foi a mudança do colégio para o prédio da antiga escola rural Gilcina Carvalho, na estrada de acesso ao vizinho município de Antônio Gonçalves. Laís foi uma das poucas a se posicionar contra. O restante da comunidade não questionou o prefeito Elmo Nascimento (DEM) quando ele disse que a transferência atendia a demanda de novos alunos.

Embora reconheça que as instalações do novo prédio são maiores, mais confortáveis e incluem a climatização das salas de aula, Laís enumerou uma série de problemas criados a partir da mudança:

“Os tutores disciplinares não acompanham os alunos nos ônibus escolares, não há aulas de reforço para quem se atrasa como no início, as portas dos banheiros femininos não têm trincos, a qualidade dos uniformes dados pela prefeitura deixa a desejar e faltou merenda nos primeiros dias de aula”.

O pior, no entanto, foi o recrudescimento da violência nos bairros próximos à antiga escola. Com relação a isso, moradores relataram que o prefeito anunciou um acordo com a PM para intensificar as rondas da 54ª Companhia Independente para não diminuir a presença da polícia no bairro. Mesmo assim, uma facção criminosa teria se instalado na área.

Major Ângelo palestra no colégio. Foto: Paulo Oliveira

O major Miguel Ângelo de Souza Veloso Monteiro, comandante da 54ª CIPM, avaliou que a cidade tem uma realidade que não difere do restante do país e sustentou ter reforçado o policiamento com rondas motorizadas. Segundo ele, não houve prejuízo para a segurança da localidade.

Tudo isso, porém, não tirou a confiança de Laís nas escolas militares ou militarizadas. Ela gostaria de matricular a filha mais nova, que já faz exercícios de ordem unida com a irmã, no CPM de Juazeiro.

“A escola daqui não é totalmente militar. Por isso, as questões do fardamento e do transporte ainda não foram resolvidas. O meu sonho é colocar minhas meninas em uma escola da Polícia Militar de tempo integral para que elas tenham mais chances de se transformarem em cidadãs de bem”.

Perguntada se as filhas não deveriam ser consultadas sobre a questão, Laís Silva repetiu o argumento amplificado pelas autoridades:

“Se elas não quiserem participar de uma escola que tem ordem, que tem disciplina, alguma coisa errada está nelas. Então vai dos pais. Elas não têm de querer. Quem manda é o pai e a mãe”.

Por enquanto, a orientadora social está contente com a primogênita, que pretende ser policial para defender as mulheres. E elogia o papel desempenhado por dois tutores disciplinares que se tornaram amigos de sua família.

Aline: preocupação constante com o filho. Reprodução do Zoom

A babá Aline Gláucia da Silva, 37 anos, matriculou o filho Emanuel, 13, na escola militarizada quando ele terminou o ensino fundamental I. A opção pela única das 118 escolas municipais que funcionam em parceria entre a PM e a secretaria municipal de educação foi feita porque ela considera os outros colégios muito liberais.

“Levei em conta as amizades que ele pode fazer e o fato de que lá não tem esse negócio de palavrão” – disse.

Aline admite que o filho ficou assustado quando soube que seria matriculado no colégio Maria do Carmo. O adolescente não queria cortar o cabelo e temia o rigoroso regulamento que prevê punições para quem chega atrasado, deixa de zelar pela apresentação pessoal e não atenta para a postura e compostura, além de outros 66 tipos de transgressões.

“Expliquei que as exigências fariam bem para o corpo e o intelecto e ele aceitou” – relatou.

Na sexta série só houve atividades remotas. Este ano, Emanuel voltou a ter aulas presenciais. Nos primeiros dias, sentiu cansaço por causa do tempo que passa em pé durante os ritos de entrada e saída e a prática de ordem unida.

Mesmo pertencendo ao Clube dos Desbravadores [1], da Igreja Adventista do Sétimo Dia, onde faz exercícios semelhantes, o menino reclamou de cansaço nas primeiras semanas.

“Ele disse que na escola era diferente, que o negócio era “pancadão”. Então perguntei se ele gostava. A resposta foi sim. Considero que é uma boa forma de gastar energia” – concluiu a mãe, que cria o filho sozinha e toma conta de dois bebês.

Integrante do conselho escolar, Aline disse que está satisfeita com o método militarizado porque crê que a presença dos policiais da reserva impede que as drogas entrem na escola. Ressalta a qualidade dos professores e diz que seria maravilhoso se o sistema fosse estendido para o ensino médio. O tema foi debatido no grupo de Whatsapp da família e a babá falou que seria bom que o estado e o município “entregassem o pacote prontinho”

Quando fez alusão à própria experiência de aluna no Colégio Estadual Polivalente, a babá reforçou a ideia de que a escola pública só foi boa até a sua época e deu a entender que os alunos de hoje são mais rebeldes. Para isso contribui, a seu ver, o excesso de liberdade dado pelos pais. Aline diz que hoje tem medo até de levar o filho para brincar na pracinha, portanto considera fundamental a presença de policiais em todos os lugares.

Novamente há semelhança com o discurso do prefeito Elmo Nascimento:

“A rede municipal registrou, ao longo dos anos, relatos de professores ameaçados por alunos. Muitos não conseguiram mais dar aulas. Os PMs, além de proporcionarem um ambiente mais seguro, trabalham forte na rua e até acompanham o que ocorre na casa dos estudantes” – afirma.

Nos colégios visitados por Meus Sertões, a maioria dos tutores disciplinares se declarou evangélico. Levando em conta que o convênio da PM com a União dos Municípios da Bahia (UPB) prevê que a escolha dos policiais da reserva será feita pela corporação, fica perceptível a utilização da disciplina e de conceitos religiosos na formação dos estudantes. Gláucia não vê problemas neste aspecto por também ser evangélica.

A palestra do coronel

No dia 22 de março, quando as aulas começaram na escola modelo CPM, o major Ângelo fez palestra para diretores, professores, tutores, funcionários e pais de alunos. Na introdução, o oficial ressaltou que o projeto de gestão compartilhada ainda não possui uma fórmula definitiva.

Reforçando a questão do medo, disse que a violência e a droga estão nas escolas e que a PM não dará respostas se não tiver o apoio de todos. Em pelo menos três oportunidades, o policial alertou que as escolas modelo CPM são mais visadas e que as cobranças aumentam quando há ocorrência envolvendo alunos.

“Hoje tudo dá imprensa, WhatsApp e Ministério Público. Basta alguém querer prejudicar a gente” – declarou. Em seguida, sugeriu encontro com a participação de promotores e do Conselho Tutelar para tirar qualquer dúvida.

O oficial pediu para as conversas sensíveis com as meninas sejam feitas pelas diretoras porque não há mulheres no quadro disciplinar. A ausência de tutoras se dá pelo reduzido número de PMs femininas na reserva [2], segundo a PM .

Ângelo também fez comentários sobre pontos polêmicos do regulamento e da cultura militar. Segundo ele, acordar cedo nunca matou ninguém. Referia-se à participação dos estudantes nas paradas matinais.

Meninas usam boné e coque com redinha.Reprodução do Facebook

Quanto ao uniforme, explicou que foram levados em conta questões religiosas para defini-los. Um tutor explicou que a altura das saias para evangélicas é maior. Por fim, falou de uma questão crucial: o corte de cabelo e os penteados permitidos.

“Haverá padrão de cabelo? Sim. E se não corta por questões religiosas e culturais? Neste caso vamos sentar com alunos, pais, pessoal da disciplina e o jurídico. Temos que ter habilidade, sensibilidade para atingir o objetivo. O padrão é máquina um na parte inferior e dois na superior para os meninos. Se não tiver condições de pagar, a gente providencia o barbeiro. Aluna pode usar coque com rede”

VISÕES DIFERENTES

A comerciante Eide Barreto elogia a escola de gestão compartilhada Professora Laura Ribeiro Lopes, em Conceição do Jacuípe. Foi lá que matriculou a filha por indicação de professores:

“O mundo hoje está bastante difícil. A tecnologia está acabando com tudo, principalmente porque as crianças amam um celularzinho, um Tik Tok. Lá, o desempenho e a qualificação dos alunos melhoram” – disse.

A vendedora de pizzas e licores contou que, nos primeiros dias de aula, a adolescente, que gosta de se enfeitar, usar batom, relógio e de arranjo nos cabelos, estranhou.

“No início tivemos essa ‘dificuldadezinha’, mas conversei com ela, expliquei como seria o processo e tudo foi superado. De lá pra cá, tem sido muito bom, ela está amando o colégio” – contou.

Com relação às regras disciplinares, a mãe considera muito importante, principalmente as que tratam do comportamento na saída do colégio. De acordo com Eide, o marido também gosta muito do sistema porque ajuda a família a educar as crianças. Ela defende que o rigor seja mantido, embora perceba que nem todos os pais e estudantes estejam satisfeitos.

Já a auxiliar de enfermagem Gerlanda Leal, mãe de um aluno da mesma escola, considera que as regras são muito rígidas. Para ela, deveria haver flexibilidade até o jovem se adaptar ao sistema.

“O adolescente sai de um lugar que dá liberdade para abraçar, beijar, brincar, e vai para outro onde tudo é proibido. Isso é um susto para ele” – comentou.

Gerlanda contou que o filho pede o tempo todo para mudar de colégio, mas ela não tira por considerar a rigidez ruim, mas acreditar que seria pior ele se envolver com drogas.

“Eu sei que com a presença dos militares isso não vai acontecer. Eu gostaria que a prefeitura colocasse o mesmo sistema  no ensino infantil para os alunos se acostumarem com o método quando chegarem ao ensino fundamental” – pontuou.

Forma e ordem unida no colégio Sérgio Cardoso. Reprodução

Alunos das escolas Laura Ribeiro e Sérgio Cardoso ouvidos por Meus Sertões reclamaram dos exercícios de ordem unida e das paradas matinais que são realizadas debaixo do sol. Outras queixas estão relacionadas com o excesso de regras e por não poderem fazer quase nada.

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[1] O Clube dos Desbravadores faz parte da Igreja Adventista do Sétimo Dia. O grupo trabalha com educação cultural, social e religiosa de crianças e adolescentes entre 10 e 15 anos. Semelhante ao escotismo, pratica ordem unida com os seguintes objetivos: proporcionar deslocamentos em ordem, praticar a disciplina, permitir que o clube apareça em público de forma elegante e marcial.

[2] – A PM baiana só passou a aceitar mulheres na tropa em 1990. Daí o reduzido número de policiais femininas na reserva remunerada.

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Esta série de reportagens foi financiada pelo Edital de Jornalismo de Educação, uma iniciativa da Jeduca e do Itaú Social.

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LEIA A SÉRIE COMPLETA

PARTE I

A militarização das escolas na bahiaO avanço para o interior O exemplo goiano Diferentes escolas militares e militarizadas

PARTE II

A elitização da primeira escola militarizada A história do Colégio Maria do Carmo Fundamental I e ensino médio na mira

PARTE III

Conceição do Jacuípe: boletim expõe alunos O regulamento e a cartilha Muita fé e só uma mulher entre 466 tutores Tutor disciplinar barra aluna negra

PARTE IV

Escola troca nome de vítima da ditadura Mais unidades da PM do que infraestrutura Entre a esperança e o bafo da milícia Inquérito 1.14.001.001281

PARTE V – FINAL

Miriam Fábia: “Impacto brutal na formação dos jovens”Major Fabiana: ‘Disciplina como ferramenta para a vida’O governador emudeceuDepoimentos de ex-alunos do CPM

Linda Gomes Contributor
Integrante da Rede Latino-americana de Jovens Jornalistas. Doutoranda em estudos de gênero e políticas de igualdade. Mestra em produção, edição e novas tecnologias jornalísticas, com passagem em veículos da América Latina e da Europa.
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