Beatriz Tuxá – Universos diversos

Beatriz Tuxá – Universos diversos

“Não sou tua indiazinha
Nem tua Iracema
Não sou tua Pocahontas
Nenhuma das tuas lendas
Sou filha dessa terra
Pronta pra retomada
Se ficar de papo torto
Vai tomar uma flechada”

Essa rua é minha – Kaê Guajajara

À beira do gramado da Arena Fonte Nova, Ana Beatriz Santos Padilha, 25 anos, anima a torcida do Esporte Clube Bahia. Desde 2018 até a pandemia de covid 19 interromper as atividades do grupo, ela participou dos jogos na Arena Fonte Nova e Pituaçu. Apaixonada pelo clube desde que cruzou os 655 quilômetros de estrada que separam a terra natal, Ibotirama – palavra que na língua tupi significa “flor promissora” – e Salvador para estudar produção cultural/comunicação, na Universidade Federal da Bahia (Ufba), Ana foi eleita a Voz do Esquadrão, quatro anos depois.

A cantora e compositora descobriu que tinha talento ao participar do concurso de calouros realizado pela prefeitura de Ibotirama. Tinha nove anos quando os pais a levaram da aldeia a sede do município, local da competição. Beatriz Padilha, nome usado antes de fazer de suas músicas e poemas parte de sua militância, surpreendeu a todos.  Ela cantou “Porto Solidão”, de autoria de Zeca Bahia e Ginko, sucesso na voz do ídolo Jessé, e ficou em terceiro lugar. O prêmio foi um troféu, chocolate e R$ 150, usados para pagar as pizzas consumidas na comemoração em família.

Aos poucos, a jovem aperfeiçoou seu estilo. Incluiu toantes (cantos rituais) em suas composições. Também trocou o nome artístico para Beatriz Tuxá, reforçando a militância em favor dos direitos de seu povo. Influenciada pelo irmão, Mizael Lorrã Padilha, que ela define como o “Léo Santana da Aldeia”, conheceu e passou a gostar de outros estilos musicais.

Beatriz divide o apartamento na capital com cinco pessoas, quatro indígenas e uma quilombola. E transita entre diversos universos: o étnico, o popular e o acadêmico. Carrega consigo as características dos Encantados, seres que se deslocam por dimensões diferentes e se transformam na hora certa, assim como Avati, o herói que virou milho para salvar a nação guarani da fome.

Beatriz Tuxá é a primeira personagem na nova série de Meus Sertões sobre jovens indígenas e quilombolas. Há muito o que aprender com eles.

A TRANSFERÊNCIA

Segundo estudiosos, o povo Tuxá pertence à nação Proká, remanescente das etnias agrupadas nas missões católicas ao longo do rio São Francisco, no século XVII. Uma delas, a de São João Batista, deu origem a Rodelas (BA). O primeiro cacique foi Francisco Rodelas, que teria lutado ao lado de Felipe Camarão contra os holandeses, na histórica Batalha de Guararapes.

Até o final dos anos 1980, os tuxás eram donos de trinta ilhas e cultivavam 100 hectares férteis, além de considerar as ilhotas temporárias do São Francisco como casas naturais. Nesses locais sagrados, enterravam os antepassados e realizavam rituais.

Em artigo publicado na revista Antropos, David J. Phillips revela que quando Rodelas foi coberta pelas águas do lago de Itaparica, em 1988, os indígenas não receberam as bombas de irrigação necessárias para irrigar as terras secas onde seriam assentados, prometidas pela Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf).

A questão foi resolvida com a construção da aldeia com casas de alvenaria na cidade nova e a transferência de dois outros grupos para Ibotirama (BA), a 970 quilômetros de distância, e para Inajá (PE). Noventa e seis das 240 famílias da aldeia original seguiram o cacique Manoel Novaes até a Fazenda Morrinho. A mudança foi feita de ônibus, em duas remessas.

Em Ibotirama, as casas ainda não estavam prontas. O grupo foi alojado em um local distante da nova aldeia. Os utensílios domésticos ficaram nas ruas do município, cobertos por lona. As residências foram concluídas sem banheiros. O jeito foi improvisar sanitários externos, cobertos  de palha. Os banhos eram tomados em tanques. Para mitigar os problemas, a Chesf pagou uma quantia mensal para cada grupo familiar. A compensação equivalia a R$ 461, em 2005.

Dados da Secretaria Especial de Saúde Indígena dão conta que a população na Aldeia Tuxá Kiniopará era de 792 habitantes, em 2013. As principais atividades do grupo são a agricultura familiar e a criação de animais. A língua original se perdeu. Hoje há movimentos, principalmente na Aldeia Mãe de Rodelas, para recuperar o vocabulário Dzubukuá.

Beatriz Tuxá nasceu em Ibotirama, sete anos depois da mudança de seus parentes. Cresceu ouvindo a mãe contar as histórias sobre a inundação. Relatos marcantes a ponto de estar produzindo, em parceria com o escritor Vitor Oliveira Tuxá, um áudio livro sobre as dores que povoam a memória dos mais velhos.

Recentemente, a estudante também trabalhou no projeto “Ñañike (saudades em português): entre poemas e sons”, idealizado por Mizael Lorrã e contemplado por edital da Lei Aldir Blanc. Sãi três vídeos, cada qual com uma música, uma poesia e o relato de uma anciã sobre o passado. Um deles reúne três gerações dos Padilha: a avó Beatriz, a mãe Betânia e a irmã Karuana.

Herdeira dos nomes da avó paterna (Ana) e da materna (Beatriz), a jovem recorda da infância, do tempo em que corria com os cabelos despenteados e só de calcinha pela aldeia:

“Eu acordava bem cedo e saia para brincar no quintal dos outros. Eu demorava e meus pais me gritavam: ‘Ô Ana, ô Ana, vem almoçar menina’”

Suas brincadeiras preferidas eram subir nas árvores para pegar goiaba e azeitona roxa; jogar castanha de caju (consiste em formar um monte com as castanhas e jogar algo para derrubá-las ou tirá-las do bolo, as extraídas passam a pertencer ao arremessador); e o taxi ball (parecido com o jogo de taco, no qual duas duplas tentam derrubar uma lata para correr com o taxi – pau em português – e tocar em um buraco, marcando pontos a cada toque).

Sem dinheiro para comprar presentes, a menina apelava para a imaginação e vestia palitos de pirulito com pena de galinha e pedaços de plástico. Já os meninos preferiam “petecar” (caçar passarinhos com estilingue) na mata. No entanto, não havia nada melhor do que banho de chuva.

Beatriz entrou para a escola da aldeia no tempo em que os professores eram os mesmos da cidade. Atualmente,  todos os educadores são indígenas. Com o crescimento dos filhos, os pais decidiram morar no centro de Ibotirama para favorecer os estudos deles. Seu Manuel, que cuida da roça e da criação de galinhas, e dona Betânia, técnica de enfermagem, se deslocam todos os dias para a aldeia.

NARUMURÁ

Como toda integrante da aldeia tuxá, Ana Beatriz também tem um nome indígena dado pelos Encantados, seres espirituais que se manifestaram em uma cerimônia feita por uma pajé. Eles podem ser antepassados que se tornaram parte da natureza ou entidades sobrenaturais.

Depois de perguntar como seria chamada na língua indígena, a cantora ouviu as palavras Narumurá. Ela conta que a revelação foi feita em um processo bem intimista, relacionado com a questão espiritual. E que não procurou saber o significado do nome. Pesquisa feita por Meus Sertões mostrou que a primeira parte da palavra em tupi-guarani, que não é a língua original dos tuxás, quer dizer noite. A segunda não foi encontrada.

Beatriz Tuxá considera que o talento está no sangue. Os irmãos cantam, a mãe escreve cordel e declama e Ana, a avó paterna, tem “falas poéticas”. Ela lembra que para desenvolver o seu dom, Betânia comprou um aparelho de DVD, um microfone e uns dois discos de karaokê, usados até o fim. A cantora também crê que a pisada ritmada do Toré e os maracás usados em cerimônias diversas foram fundamentais para ditar o ritmo nas conquistas obtidas em diversos concursos.

Além de prêmios, a primeira participação em um show de calouros lhe proporcionou algo que não tem preço: a amizade do professor, roteirista e psicólogo Jarbas Éssi, um grande incentivador de Beatriz. Impressionado com a atuação da menina, ele dirigiu até a aldeia atrás da “molequinha” que arrasara no festival. Éssi conheceu a família da pequena cantora e passou a dar dicas sobre cursos gratuitos de violão e sobre como aperfeiçoar as letras das músicas e, posteriormente, as poesias que ela fazia.

Também ministrou aulas de processo criativo para jovens na cidade, iniciativa fundamental para os bons resultados que Beatriz conquistou no Festival Anual da Canção Estudantil (Face) e nas edições do Tempo de Artes Literárias (TAL), promovidos pela secretaria estadual de Educação.

“Quando eu escrevia algo que parecia ruim, ele dizia que não era. Bastava uma pequena melhora. Dava opções de desenvolvimento de texto e isso foi abrindo a minha mente” – conta.

Aos 15 anos, Beatriz participou do show de calouros de Ibotirama pela última vez. Segundo ela, os produtores do evento  atenderam as reclamações de que “a índia sempre ganhava” e modificaram o regulamento. Passou a valer a regra de quem fosse premiado não poderia participar da edição seguinte. No evento posterior, Beatriz Tuxá foi convidada para fazer a apresentação da competição, marcado pela estreia da irmã Karuana, 6 anos. A menina venceu a categoria infantil com “Chão de Giz”, de Zé Ramalho.

Parar de concorrer nos shows municipais não foi problema. A talentosa adolescente buscava espaço em outros certames.  Foi com “Retratos”, de sua autoria, que Beatriz ficou em primeiro lugar na etapa local e na municipal do Festival Anual da Canção Estudantil (Face). Na fase estadual, na Concha Acústica, em Salvador, ficou entre as três finalistas e conquistou o título de melhor intérprete feminina. A façanha rendeu elogios de Jandair Tuxá, no site Índios Online:

“Os indígenas da Bahia estão conquistando as mais variadas batalhas a favor da sua inclusão e cidadania plena, ainda tem tempo para adentrar de forma respeitosa e vitoriosa nos espaços que há muitos séculos os colonizadores tentam os excluir. (…) Que outros indígenas se espelhem na talentosa Tuxá Ana Beatriz, a fim de promover nossa inteligência, competência e potencialidades”.

Graças ao Face, a tuxá teve as primeiras aulas de canto. A aprendizagem com a professora de canto, instrumentista e compositora Manuela Rodrigues, durou uma semana.

Incansável, a cantora e poetisa indígena também participou de várias edições do Festival de Música Popular de Ibotirama (Fempi) e do Festival de Poesias de Ibotirama (Fepi). Os melhores desempenhos  no Fempi aconteceram em 2017, quando Beatriz e Karuana conquistaram o título de melhor letra, melhores intérpretes e o primeiro  lugar  na etapa local. As duas indígenas ficaram em sexto lugar na fase nacional, interpretando a música “Punhal de Poesia”, composta por Beatriz e Jarbas Éssi.  Individualmente, Beatriz repetiu as classificações obtidas nas duas fases do concurso, em 2019, interpretando “Um canto para Tupã”.

Já no concurso de poesia, as melhor colocação foi o terceiro lugar com “Coração Kiniopará ” na fase local e o oitavo, na nacional, em 2013.  O poema”Corpo-território” ficou em quinto e quarto lugar, respectivamente, em 2020.

Com as premiações que recebeu, a cantora ajudou a comprar um sofá e uma mesa para computador para mobiliar a casa dos pais.

As participações nos concursos e a militância fizeram Beatriz se reconhecer como indígena. Novamente, Jarbas Éssi teve um papel importante nesse processo. Foi ele quem questionou porque a jovem não usava o nome do povo dela como sobrenome artístico. A decisão, inicialmente, revelou o preconceito existente contra os povos originários.

Um radialista de Ibotirama, que pretendia entrevistar a cantora, perguntou como deveria falar com ela: marcando a conversa com pisadas fortes dos pés nos chão ou batendo com a mão na boca? A estupidez chocou a Beatriz. Ao mesmo tempo a fez perceber a importância de lutar para garantir espaços historicamente negados aos indígenas. Em outra ocasião, a acusaram de usar poemas feitos por outra pessoa nas competições.

“Eu ficava muito triste com isso. Parecia que tinha de provar meu talento o tempo todo. Para os detratores, eu não tinha condições de fazer belos textos e composições porque era indígena. Na verdade, nem chamavam de indígena, mas de índia. Levou um tempo para eu entender que não precisava provar nada.” – desabafa.

A visão distorcida de não-indígenas também se revelava em outras ocasiões. Em uma manifestação por direitos indígena, em Brasília,  Ana Beatriz começou a ser filmada por uma mulher que a tachava de “índia falsa” por causa do cabelo encaracolado.

“Senhora, primeiro, sou indígena sim. Meu cabelo é louro porque eu quero. Em que mundo a senhora vive? Qual foi o livro que a senhora leu que só tem indígena de cabelo liso, olhinho puxado e pele de uma única cor?”. Nem bem acabou de falar e outros manifestantes se aproximaram cantando gritos de guerra. A mulher entrou no carro e foi embora.

Até mesmo na Universidade Federal da Bahia, onde começou a estudar no segundo semestre de 2016, uma funcionária da cantina perguntou se ela era adotada, quando a viu com trajes indígenas ao lado de outros parentes. Esse tipo de conclusão ocorre com frequência relativa entre alguns dos 4.884 seguidores de Beatriz no Instagram. Ela lamenta que as pessoas tirem conclusões precipitadas, sem a conhecer bem:

“O pai biológico de minha mãe não é indígena. Minha avó o conheceu quando foi trabalhar como cozinheira em casa de família, em Salvador. Ele era de Minas Gerais, um homem de pele bem escura” – conta.

Não à toa, a ideia de que os indígenas tem tom de pele específico é desmistificada em postagens na página da Aldeia Kiniopará no Facebook. Em uma delas, a resposta para “Qual a cor de pele indígena?” é um cartaz com várias tonalidades.

Quem também trata desse tema em suas redes sociais é a fisioterapeuta e artesã Carla Wany Tuxá, de Rodelas, que foi taxada de “branca que se faz de indígena” por um seguidor.Segundo Beatriz, as redes sociais têm gerado muita visibilidade para as causas dos povos originais e isso também atrai pensamentos retrógrados, que são combatidos.

DIFERENTES DIMENSÕES

 

EXPERIÊNCIA CAPITAL

A mudança para Salvador ocorreu após Beatriz passar para o curso de produção cultural da Universidade Federal da Bahia. Ela tinha como estratégia sair de casa para entender o que ocorre em uma grande cidade, adquirir conhecimentos relevantes na faculdade e compartilhar com os integrantes da aldeia. Logo nos primeiros dias de aula, a estudante sofreu um baque:

“Sempre estudei em colégio público e eu não sabia nem fazer um fichamento (registro feito em fichas, onde se reúne citações e/ou se inclui tópicos para expor uma análise crítica de determinado texto). Eu sentei em frente ao restaurante universitário e chorei. Liguei para minha mãe e disse que ia voltar para Ibotirama. Ela foi firme: “Tá maluca, você vai ficar aí sim. É sua primeira semana. Vamos ver o que vai dar”.

Como consequência da obediência, Ana Beatriz se aproximou do Núcleo de Estudantes Indígenas (NEI) da Ufba. Lá, discute-se temas como a entrada e permanência dos estudantes na universidade e a qualidade da produção acadêmica. Em encontro realizado com caciques das principais etnias foi debatido a relação dos saberes tradicionais indígenas e a academia. Do cacique Babau Tupinambá, de Olivença (BA), os estudantes ouviram o seguinte:

“Meu avô nos ensinou que perdemos nossa terra porque não tínhamos o conhecimento do branco, só sabíamos do que era nosso. E falou pra gente: “É preciso que vocês vão às escolas deles e aprendam o que eles sabem”.

A mente de Beatriz Tuxá se abriu para o mundo.

Também foi na capital que a jovem indígena conheceu um grande amor: o Esporte Clube Bahia. Em evento no Centro Administrativo da Bahia (CAB), a cantora viu as Tricolíderes, animadoras de torcida do clube, se apresentarem. Ficou encantada e comentou que elas eram lindas. A coordenadora do grupo ouviu e perguntou: “Por que você não pode ser uma delas?” Beatriz pegou um pompom e fez uns passos de dança. Recebeu elogios e informações sobre o processo seletivo. Em pouco tempo estava participando dos jogos na Arena Fonte Nova e em Pituaçu.

“Foi mais um espaço conquistado por uma mulher indígena” – avalia.

O concurso organizado pelo clube para escolher a “Voz do Esquadrão” entre funcionários, sócios e animadoras de torcida consolidou a paixão pelo Tricolor de Aço. O regulamento da competição previa que cada participante teria que gravar uma música escolhida por um atleta e enviar para os organizadores. Beatriz fez parte do time Clayson, atacante que esta semana foi negociado com o Cuiabá (MT).

Em dois dias, aprendeu a letra, decorou e gravou a música “A fila anda”, de Thiaguinho. Após passar pelas três fases do concurso, Beatriz Tuxá derrotou os concorrentes no voto popular e foi aclamada como a voz do Bahia. Para comemorar,  fez um vídeo de agradecimento, cantando o hino do clube.

O gosto pelo pagode, ritmo mais festeiro que o samba, demorou um pouco mais para cair no gosto da tricolíder. Quando a jovem tuxá descobriu que o irmão Mizael Lorrã estava cantando em uma banda de Ibotirama, desaprovou por achar que muitas letras eram depreciativas. Um dia, em um evento na roça, ela se deu conta que deveria apoiar Lorrã.

“Melhor incentivar do que entrar em conflito” – pensou na época.

Igor Kannário, cantor nascido no bairro da Liberdade e adorado por adolescentes e jovens da periferia de Salvador a ponto de ser eleito deputado federal, em 2018. foi o primeiro a chamar a atenção. Assim, a fã de Jessé, Elis Regina, Cássia Eller e das cantoras indígenas Kaê Guajajara (hip hop, samba e funk) e MC Souto (rapper) virou partideira e começou a incluir interpretações diferenciadas de pagodes em vídeos postados no Instagram.

Beatriz também se apegou ao rap (gênero musical popular e urbano que consiste em declamação rápida e ritmada de um texto) e ao trap (variação do rap que combina. sintetizadores, melodias desalinhadas, onomatopeias e arranjos da música eletrônica, deixando as músicas mais dançantes). No entanto, garante que em seus shows apresentará apenas MPB e composições próprias.

No dia da entrevista para Meus Sertões, Beatriz Tuxá usava pintura – um traço amarelo no meio do rosto e no queixo –, brincos, pulseira, um colar e um cocar com penas de gavião branco e de outra ave que ela não soube identificar. O ornamento da cabeça foi presente da avó.

Assim como os outros objetos, com exceção dos brincos, o cocar foi batizado na mata com fumaça de cachimbo, orações e jurema (árvore sagrada, cujas folhas, cascas e raiz são usadas para fazer uma bebida). O ritual tem como objetivo proteger quem utiliza os utensílios.

As unhas, pintadas em preto e branco, também chamam a atenção. Perguntada se tinham alguma ligação com as cores do cocar, Beatriz sorriu e falou que tinha até vergonha de responder. Na verdade, trata-se de modismo entre as jovens da cidade grande que reproduzem com esmalte a textura do couro de vacas malhadas.

Jornalista, 59 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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