Os padres sertanejos e o beatismo – Capítulo de transição

Os padres sertanejos e o beatismo – Capítulo de transição

Não é por acaso que muitos dos responsáveis pela mudança – para melhor – da realidade do sertão são religiosos. A História mostra uma existe uma conexão entre o beatismo (fenômeno ligado ao catolicismo popular) e os projetos sociais e de organização de trabalhadores, realizados pelos padres Airton Freire e Pier Antonio Miglio, segundo a professora Enaura Quixabeira, doutora em Estudos Romanos pela Universidade Stendhal Grenoble III e uma das mais conceituadas intelectuais de Alagoas.

Enaura Quixabeira. Reprodução
Enaura Quixabeira.

Coordenadora do projeto binacional (Brasil-França) “A utopia cristã no Nordeste Brasileiro: a trajetória do Beato Franciscano e do Beatismo em Alagoas”, Enaura ressalta que a motivação que impele os dois religiosos é o mesmo sentimento que moveu os padres José Antônio Pereira Ibiapina, figura central do fenômeno gerado a partir da mudança de foco de parte da Igreja que deixa de priorizar as elites para se aproximar do povo, e os beatos Antônio Conselheiro, José Lourenço e Antônio Fernandes Amorim, o Franciscano.

Os beatos eram empreendedores. Eles construíam e reformavam igrejas e cemitérios, organizavam comunidades e trabalhadores, principalmente pequenos agricultores. Mais recentemente, erguiam orfanatos e abrigos e davam conselhos para seus seguidores. Antônio Conselheiro e seus fiéis, segundo levantamento feito pelo professor e pesquisador José Calasans, construiu ou reformou 18 igrejas, oito cemitérios e construiu  e reformou as capelas do caminho da Santa Cruz, acesso ao santuário que fica no alto (500 metros de altura) do Monte Santo, na cidade com o mesmo nome, na Bahia.

A diferença da nova geração de religiosos que transformam a realidade do sertão está na modernização da forma de atuação, incluindo o uso de novas tecnologias. Padre Antonio se comunica com pesquisadores especializado em criação de tilápias e propaga seu trabalho em sites como o da Organização de Voluntários de Bellinzago Novarese, na Itália. O religioso organizou o sistema de trabalho dos aquicultores em Jatobá, Belém de São Francisco e Itacuruba, em Pernambuco, de modo que todos repartam por igual o fruto de seus trabalhos.

Já Padre Airton Freire, tema da próxima série Meus Sertões/Projeto Headline, utiliza redes sociais para arrecadar fundos, vender produtos (livros, vídeos e lembranças diversas da Fundação Terra, captar financiadores, ampliar o alcance de suas pregações e atrair jovens para o seu instituto de formação de leigos e religiosos. Ele também dedica um dia da semana para atender fiéis e dar conselhos variados sobre questões pessoais e até sobre investimentos. Muitos empresários o procuram para saber se devem abrir ou não um novo negócio.

Enaura conta que o Padre

Padre Ibiapina. Reprodução
Padre Ibiapina. Reprodução

(1806-1883) foi juiz de direito em comarcas do interior e se ordenou aos 47 anos. A professora explica que Ibiapina introduziu mais cultura e abrangência ao beatismo, formando homens e mulheres, beatos e beatas e liberando-os para pregar e atender os pobres, a partir de como eles se relacionavam com o divino. Todos evangelizavam e saíam para romarias e pregações.

“Eu acho isso muito importante porque a mulher naquele tempo era bastante marginalizada. Naquela época, a rezadeiras elas eram olhadas pela hierarquia da Igreja como feiticeiras. Alegavam que não se sabia quem elas invocavam, por isso havia uma conotação de Malleus Maleficarum (guia usado pelos inquisidores como roteiro para perseguir, torturar e matar as acusadas de práticas de magia) – ressalta.

A professora acrescenta que os mais pobres, em determinado momento, cansaram de participar das celebrações litúrgicas em latim e do acesso quase impossível aos missais e à Bíblia:

“O povo ficava à margem, apenas via um espetáculo que não entendia. A necessidade em criar uma forma de se comunicar com Deus, enveredando por questões práticas, o fez criar benditos e ladainhas. As carpideiras expressavam tristeza, compartilhavam a dor do outro e confortavam as pessoas. Surgiu o catolicismo popular” – explica.

De acordo com Enaura, a adesão dos padres ao catolicismo popular ocorreu rapidamente em ordens mais simples como os Franciscanos e Capuchinhos. Outras como os Dominicanos foram mais resistentes. Com o passar do tempo, o fenômeno foi sendo incorporado por outras áreas como a literatura. Ela cita como exemplo o livro “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto.

Oficialmente, a aproximação com o povo só ocorreu mais de um século depois, quando o Papa João XXIII convoca o Concílio Vaticano II (1961) e faz surgir uma Igreja com maior participação dos leigos na ação eclesial e maior presença nas questões sociais, gerando uma igreja inculturada e preocupada com a condição social dos trabalhadores, dos órfãos e dos marginalizados. Uma igreja voltada particularmente para os pobres.

Em “A utopia cristã no Nordeste Brasileiro (…)”, Enaura sintetiza que enquanto o direito canônico determinava que a Igreja Católica elegesse beatos cristãos cuja vida servisse de exemplo para a construção da santidade de comunidades, na região Nordeste, os sertanejos selecionavam os próprios beatos fora da hierarquia oficial. Essa escolha levava em conta a espiritualidade com base na fé, no trabalho e na partilha fraterna. Com isso, segundo a professora, construiu-se uma utopia de busca da terra prometida, que em muitos casos se transformou em guerra fratricida com o poder civil

"Eu sou o servo". Cena do curta sobre padre Ibiapina. Reprodução
“Eu sou o servo”. Cena do curta-metragem sobre o padre Ibiapina. Reprodução

A pesquisadora ressalta ainda a figura de Antônio Conselheiro (1830-1897), que se deslocava a pé por estados nordestinos e fundou um arraial, em Canudos, na Bahia, que atraiu cerca de 25 mil pessoas. Ela conta que Ibiapina e Conselheiro se conheceram e que o então juiz tirou o beato da cadeia quando lhe imputaram um crime que ele não havia cometido.

“Os dois são importantes porque um formou-se no beatismo e o outro o adotou sob o ponto de vista religioso, dando-lhe mais conteúdo, mais conhecimento bíblico e treinando as pessoas com base na religião para que não agissem só por impulso” – revela.

Os “coronéis” – latifundiários que dominavam a política e a economia da região à força – e a aristocracia, insatisfeitos com a perda de mão de obra barata para comunidades formadas por beatos criaram uma imagem terrível deles, explorando o fanatismo e a ameaça à República e deixando de lado questões relevantes como caridade e irmandade, bases do fenômeno.

“Antônio Conselheiro, sobretudo, sofreu muito porque temia-se que o Arraial de Bom Jesus resultaria em perigo para a República por defender que a monarquia era uma forma de governo mais humana. O beato nunca lutou. Quando começou a perseguição e invasões ao arraial até os cangaceiros se juntaram para defender o “padrinho”, que consideravam um homem bom. Canudos foi dizimada de forma atroz. O Exército massacrou a população de Canudos motivado por uma construção da figura de Conselheiro que nunca existiu” – diz.

A morte de cerca de 25 mil pessoas não foi o único extermínio em massa resultante da ação dos beatos no Nordeste.

GENOCÍDIO

Outro episódio, praticamente desconhecido pela maioria dos brasileiros, ocorreu em Caldeirão de Santa Cruz do Deserto, no município do Crato, no Ceará. Duzentos soldados do Exército e PMs, apoiados por dois aviões da Aeronáutica, que bombardearam o local, exterminaram entre 700 e 1.000 romeiros, flagelados da seca e camponeses que se estabeleceram em terras doadas pelo padre Cícero Romão Duarte, na década de 1920.

Sobreviventes de Caldeirão. Reprodução
Sobreviventes de Caldeirão (E) e beato José Lourenço (D)

Caldeirão chegou a ter dois mil habitantes, que viviam em sistema de mutirão, produzindo o que precisavam e dividindo tudo de acordo com a necessidade de cada um. Assim como Canudos, os latifundiários, integrantes da classe dominante e membros da Igreja Católica conservadora, ligadas aos poderosos, descreviam o líder do grupo, o beato José Lourenço Gomes da Silva, como um perigoso líder comunista e acoitador de foragidos. Ele não passava de um penitente analfabeto.

Em 11 de setembro de 1936, soldados expulsaram os moradores, incendiaram e saquearam as casas de Caldeirão. Aos poucos, os seguidores de Lourenço retornaram e entraram em conflito com um grupo de militares, enviado para espionar o povo. Um oficial, três praças e cinco camponeses foram mortos. Incitados pela elite e pela imprensa, o governador do Ceará, Meneses Pimentel, pediu ajuda ao Ministério da Guerra.

Ao amanhecer do dia 11 de maio de 1937, o povoado foi metralhado e bombardeado. Sobreviventes foram caçados e degolados por policiais e jagunços a serviço dos “coronéis”. Os corpos foram enterrados em cova coletiva. O Exército não guardou registros da operação e até hoje nega o genocídio. O beato conseguiu fugir e se estabeleceu em Exu, cidade pernambucana, onde morreu 11 anos depois, vítima de peste bubônica.

A experiência Antônio Fernandes Amorim, o Beato Franciscano, que fundou uma comunidade chamada de Vila de São Francisco, entre Quebrangulo e Paulo Jacinto, na zona da mata alagoana, também terminou em tragédia.

Antônio sonhava em ser frade, no entanto, o máximo que conseguiu foi trabalhar como serviçal nos conventos Capuchinho, em Recife (PE), e Franciscano, em Salvador (BA). Tendo conhecido Padre Cícero e passado 30 anos por conventos, voltou para o estado natal, onde teve um sonho com um padre que pedia para ele construir uma capela para depositar os ossos desse religioso, que não foram sepultados em “terra santa” porque ele se suicidara.

Beato Franciscano. Reprodução
Beato Franciscano. Reprodução

Sempre usando um crucifixo na mão direita e vestindo um hábito preto com um grande rosário pendurado no pescoço, Franciscano passou a pregar e a atrair centenas de pessoas desassistidas. Estabelecido em Serrinha, o beato não contava que denúncias falsas dos “coronéis” da região, dando conta que ele acoitava 300 cangaceiros, aliciava trabalhadores e exercia ilegalmente a medicina.

O major enviado para combatê-lo, esteve no local e constatou que haviam mentido sobre o beato. No entanto, o convenceu a deixar o local e permitir que os seguidores se dispersassem. Orientou ainda que Franciscano conversasse com o padre José Bulhões. Nesse encontro, soube que estavam tramando seu assassinato.

Decidiu então se fixar no sopé da Serra Grande, onde comprou uma propriedade, batizada de Vila São Francisco, e construiu a igreja que sonhara e um orfanato para 50 crianças. Também fez investimentos em agricultura, organizou mutirões para construção de casas e plantios de roça. Aos poucos, os romeiros voltaram. Na vila predominava a solidariedade e todos se alimentavam. Consumo de cachaça, fumo e palavrões eram proibidos. Havia ainda missas regulares, celebradas pelo vigário de Quebrangulo. O beato também contribuía para obras da Igreja Católica e realizava festas em homenagem a São Francisco.

Franciscano ganhou influência política e seu apoio significava a vitória de um candidato. Insatisfeitos, políticos derrotados tramaram seu assassinato, que ocorreu no dia 30 de julho de 1954.

 

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A entrevista com a professora Enaura Quixabeira foi realizada em 2019

Jornalista, 58 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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