Quilombo com curso superior

Quilombo com curso superior

Os tabuleiros da feira que começa no dia seguinte estão montados na praça principal do distrito de Laje dos Negros, a 96 km de Campo Formoso (BA). Das lojas comerciais, só dois bares, vazios, mantêm as portas abertas. Movimento mesmo, sábado à tarde, só no último andar do prédio que abriga o Mercadinho Muniz e Souza.

A estreita escada desemboca no local onde funciona o Centro de Educação Manancial Quilombola. Em três pequenas salas, jovens assistem aulas de pedagogia e administração, dois dos cinco cursos oferecidos pela instituição, que são ministrados à distância e, quinzenalmente, de forma presencial.

Joelina, dona do centro, professor Elias e alunos. Foto: Paulo Oliveira

O Centro Manancial pertence a professora Joelina Celestino Barbosa, 61 anos. Graças à parceria com diferentes instituições da Bahia e de Pernambuco oferece curso universitários de baixo custo para os moradores de Laje, comunidade quilombola com cerca de 16 mil moradores e oito mil eleitores, formada por 23 povoados.

Os cursos superiores, instalados a partir do início dos anos 2000, fazem parte de  um dos poucos distritos e povoados contemplados com creches, escolas de primeiro e segundo grau e faculdade. Apesar da melhoria educacional dos últimos anos, no entanto, os problemas de Laje estão longe de soluções.

O distrito tem potencial para exercer grande influência política. O número de eleitores permite a eleição de até quatro vereadores, cerca de um quarto da Câmara de Campo Formoso. No entanto, em 2016, conseguiu colocar no legislativo municipal só um representante.

Talvez seja por isso que sofra com a falta de transportes, com as péssimas condições da estrada que faz com que o percurso de 96 km seja percorrido em quatro horas, com a falta de saneamento – a maioria das casas do distrito até 2012 não tinha banheiros – e a precariedade de serviços diversos. Educação é o melhor, mesmo assim enfrenta problemas que a impede de deslanchar.

ENTRE RIACHO DO INFERNO E TOCAS DO SUMIDOURO

Joelina, formada em pedagogia, psicopedagogia, teologia e história, conta que Laje dos Negros foi fundada por dois escravos “semialforriados”, em 1846. Eles se chamavam Luís dos Santos, o Luisinho, e Francisco Sales

“Esse Francisco trazia o nome Sales por causa de Salinas do Salitre, onde trabalhava em fábricas de pólvora. Luisinho veio de Santa Efigênia, perto de Campo Formoso. Era vaqueiro de Nzife de Barros e de Misael Fagundes, senhores de terras que tinham vindo do sul do país. Os vaqueiros ganhavam de um a três cabeças de gado por serviço prestado. Lusinho vendeu seu rebanho e comprou terras de Misael, depois que casou. Consta que os senhores não queriam que os filhos de um negro vivessem juto com os deles por isso concordaram com o negócio” – relata a professora.

Outra versão dá conta que Misael deixou que Luisinho e Francisco tomassem posse de 2.200 km² de terras, entre o riacho do Inferno e as tocas do Sumidouro, para saber o que acontecia naquela região onde escravos fugidos se escondiam.

A questão das terras é um tema delicado em Laje dos Negros, onde muitas pessoas foram mortas em disputas de propriedades no decorrer dos anos.

Ainda segundo Joelina, Luisinho teve 14 filhas e cinco filhos. Francisco e sua mulher geraram outros tantos descendentes:

“Laje dos Negros foi formada por duas famílias. Aqui todo mundo é parente. Só começou a haver mistura por causa do garimpo, com a chegada de pessoas de vários lugares. Eu mesmo tenho uma filha que é casada com um descendente de italiano. Minha família hoje é misturada. Quase todos meus netos são pardos” – diz.

ESCOLA SEM BANCOS E LIÇÕES DE PRECONCEITO

Joelina nasceu, se criou, casou e mora até hoje em Laje dos Negros. É de um tempo em que não havia escolas na região e os fazendeiros ricos se cotizavam para trazer professores de fora para alfabetizar os filhos.

Em 1961, porém, a futura empresária do setor de educação iniciou os estudos na primeira escola pública do lugar com a professora Doralice Andrade Ferreira, recém-saída da adolescência e de Campo Formoso. Joelina começou a estudar aos cinco anos, bem cedo para os padrões da época, porque o avô, Odilon Pedro dos Santos, queria que ela fosse professora.

“Nos primeiros anos, não tinha bancos escolares. As crianças levavam tamboretes na cabeça ao ir e voltar da escola” – lembra.

Uma das primeiras coisas que Joelina teve de aprender foi a lidar com o preconceito. Segundo ela, seus colegas eram meninos de “cor clara”, filhos dos senhores da época.

“Sofri muito. Eles me maltratavam, me chamavam de negrinha e não queriam fazer as tarefas comigo. Até a professora me dava menos atenção do que aos outros. No entanto, sempre fui muito inteligente e consegui reverter tudo através do conhecimento. Eu me tornei líder na sala. Ganhei a confiança de dona Doralice porque respondia tudo certo. Aí me aceitaram. Considerei que o saber era essencial para superar todas as dificuldades” – recorda.

Quando terminou o primário, a avó Aurora Maria de Jesus não deixou Joelina ir estudar em outra cidade, pois “mulher não podia sair de casa”. Para não ficar parada, a menina repetiu quatro vezes o equivalente a quarta série.

Seu sonho começou a ser realidade quando aos 15 anos, foi chamada pelo líder comunitário da localidade de Casa Nova dos Amaro para dar aula de alfabetização. A avó só concordou em liberá-la para trabalhar como professora leiga e percorrer cerca de cinco quilômetros de Laje a Casa Nova porque a irmã do responsável pela escola morava no povoado e podia ficar de olho nela.

A experiência de ensinar em “lugares menores” foi muito boa para a jovem professora. Ela conta, dando um panorama de como sua profissão era respeitada, que era tratada como uma autoridade, apesar de ser adolescente. Participava de reuniões, convocava os pais e era sempre ouvida com atenção. Tinha cerca de 30 alunos. E até hoje se lembra de muitos pelo nome.

Além disso, ao término das aulas, levava dois de seus irmãos de bicicleta – um na garupa, outro no quadro – para casa. Eles almoçavam e seguiam para a roça da família, onde os três trabalhavam até o início da noite. Permaneceu nessa lida por três anos até ser transferida para uma escola construída pelo estado nas proximidades de casa. Depois, foi alfabetizar crianças em uma creche.

“A deficiência na nossa educação hoje é a falta de professoras eficientes para alfabetizar” – avalia.

Em 1973, a prefeitura deu um curso de 30 dias e realizou concurso público. Joelina foi aprovada.

“Passei e fiz os cursos que a Secretaria Municipal de Educação oferecia. Não perdia oportunidade. Cursei o Haprof (Habilitação do Professor de 5ª a 8ª série). Aí veio outro, do governo do Estado, por meio das prefeituras. Era o Logus II, um curso de magistério que durava quatro anos” – conta.

SEQUÊNCIA DE FORMATURAS

Com o emprego garantido, a jovem professora não parou de estudar. Anos depois, se formou em pedagogia e psicopedagogia. As aulas eram de manhã à noite nos meses de férias (janeiro/julho/janeiro). Fez ainda teologia, história e mestrado em ciências da educação. Nessa maratona de cursos superiores, estudou em Juazeiro (BA), Senhor do Bonfim (BA), Petrolina (PE).

Nem a sequência de nove filhos em 11 anos foi empecilho para Joelina, que optou por trabalhar com carga horária reduzida para poder dar conta de ser mãe de cinco meninos e quatro meninas.

Acordava às 4 horas para fazer o almoço. Às 7, estava tudo pronto. As crianças saíam para escola, ela também. Os mais velhos ajudavam a cuidar dos menores, enquanto o marido, Eugídio Alberto Barbosa, trabalhava em garimpos.

História foi o último curso de graduação, cursado entre 2006 e 2010. Professores de Petrolina (PE) davam as aulas em Laje dos Negros. O modelo é o mesmo adotado pelo Centro de Educação Manancial Quilombola e formou 100 historiadores na comunidade desde então.

Já o mestrado, concluído em 2015, foi feito na Faculdade João Calvino, cuja base é em Barreiras, com a supervisão da Universidade Intercontinental do Paraguai. O tema de sua dissertação foi “Cultura e Educação nas Comunidades Quilombolas”.

LUTA E CONQUISTAS

Tudo que Laje dos Negros conquistou foi devido a protestos e campanhas feitas pelas associações de moradores e trabalhadores.

Uma das maiores manifestações ocorreu em 1991, quando os jovens se organizaram e fizeram um protesto para exigir uma escola de 5ª a 8ª série. Sem o colégio, eram obrigados a estudar em Juazeiro e Campo Formoso, o que os obrigava a viajar até oito horas diariamente.

Com faixas nas quais se lia “A Laje está na UTI” e “SOS Laje”, dezenas de jovens foram para as ruas, com o apoio dos pais que ameaçavam votar em branco na eleição seguinte. Além da escola, tinham outras reivindicações.

O barulho mobilizou a classe política. Foi realizada uma reunião com o prefeito da época e dois vereadores. Trinta dias depois, uma exigência foi atendida: a comunidade recebeu uma ambulância.

No mês seguinte, começou a ser construída a escola Rosalvo Rui Celestino. O restante veio com o tempo: posto policial (hoje desativado) e posto de saúde. A energia elétrica foi a última conquista. Chegou sete anos depois.

nível superior

Conversando com amigos da área de Educação, Joelina soube que seria possível instalar cursos superiores em Laje dos Negros, em parceria com faculdades e universidades, através de EAD (Educação a Distância) e aulas presenciais quinzenais nos finais de semana.

Em 2002, foi instalada a primeira instituição de nível superior no distrito. A professora atuava como coordenadora de núcleo, mas há quatro anos resolveu fundar o próprio centro educacional :

“Como tem muita gente que não tem preocupação com a qualidade de ensino, só com o dinheiro, resolvemos criar nosso instituto. Já tem quatro anos e até aqui o Senhor tem nos ajudado, tem sido uma bênção. Ele se chama Centro de Educação Integrado Manancial Quilombola e oferece cursos de Educação, Pedagogia, Serviço Social, Psicopedagogia e Letra. Tenta ainda formar uma turma de Educação Física. Isso está mudando a história de nossa região” – acredita.

O centro educacional tem, atualmente, 430 estudantes, divididos pelas unidades Laje (250), Sento Sé (120) e em Delfinos (60), distrito de Umburanas.

Érica e Mônica alunas de pedagogia e administração. Foto: Paulo Oliveira

Érica dos Santos, 18 anos, e Mônica Costa Sales, 20, são alunas dos cursos de pedagogia e administração, respectivamente. Suas famílias pagam R$ 180 e R$ 160 de mensalidades. Para se matricular, fizeram prova de redação e outra de diferentes matérias.

Antes de ser aceita, Érica fazia planos de ir trabalhar em Jaguariúna (SP), mas os pais disseram que ela só viajaria após completar o ensino médio. Quando concluiu esta etapa ganhou de presente a matrícula na faculdade e mudou os planos. Agora pensa em fazer estágio em uma escola quilombola e dar prosseguimento aos estudos em Juazeiro, Campo Formoso ou Salvador.

Mônica pretendia se mudar para Paulo Afonso (BA), onde procuraria emprego e tentaria fazer um curso superior. Mãe e tia foram contrárias a ideia e se esforçaram para mantê-la em Laje dos Negros.

“Eu precisava de motivação. No início, me inscrevi para fazer enfermagem. Pretendia trabalhar no posto de saúde da comunidade, mas não formou turma. Minha tia que fez pedagogia, em Campo Formoso, me incentivava a ficar. Comecei a estudar administração e me identifiquei. Tinha outra ideia do que era fazer faculdade” – diz a jovem que pretende se aperfeiçoar e usar o que aprendeu para gerar melhorias para o distrito.

As duas estudantes acreditam que o preconceito com os cursos de EAD diminuiu muito. Argumentam ainda que a qualidade profissional depende do aluno. Dizem que trocam conhecimentos através de grupos de WhatsApp, mas não deixam de se preocupar com a tendência de concentração de profissionais nas áreas que o Centro Manancial forma – principalmente em pedagogia, história e letras – e com o reduzido mercado de trabalho em Campo Formoso.

“Ainda que aqui não tenha mercado suficiente para todo mundo que se forma, aonde elas chegarem já terão uma porta aberta de emprego. O maior número de formados aqui está na área de pedagogia. A prefeitura não faz mais concursos, só contratos de prestação de serviço. Nas comunidades menores há mais oportunidades” – contra–argumenta a dona do centro de ensino.

GRAVIDEZ PRECOCE INTERROMPE ESTUDOS

Érica e Mônica são minoria entre as jovens de Laje dos Negros. Elas reconhecem que são poucas mulheres que decidem fazer curso superior na região. Um dos principais fatores para isto é a gravidez precoce. A professora Joelina confirma o fato e diz que já foram registrados casos “absurdos” de meninas prenhas aos 12 anos.

“Nessa região, as garotas ficam grávidas cedo e sofrem muitos abusos. Em 2016, quando começou a construção do parque eólico, conversamos abertamente com os líderes da empresa responsável pela obra. Dissemos que íamos fazer denúncias de que funcionários abusavam de menores e as abandonavam quando elas ficavam grávidas. Eles construíram um alojamento e levaram todos os homens para lá. Equiparam com sala de jogos e outros recursos para evitar que eles viessem para Laje” – recorda.

Um fator cultural presente nas comunidades mais carentes também leva à evasão escolar. É comum em famílias com muitos componentes, os pais deixarem estranhos levarem suas filhas para casar.

 “Isso vem do tempo em que não era dado valor às mulheres e que os mais pobres incentivavam as filhas a casar e ir embora para poder sustentar os demais” – conta Joelina.

A FORÇA POLÍTICA DO QUILOMBO

Laje dos Negros tem eleitores suficientes para eleger quatro vereadores, mas na eleição de 2016 só um candidato foi eleito. Jaci Muniz de Souza (coligação de nove partidos, encabeçada pelo DEM – Democratas), o mais votado do município, teve 2.596 votos.

Joelina também foi candidata pelo PSC (Partido Socialista Cristão), na mesma coligação de Jaci. Obteve uma longínqua suplência. Esta foi a terceira vez que disputou o cargo de vereadora. Na primeira, em 2008, pelo nanico PRB (Partido Republicano Brasileiro) teve o melhor desempenho: 869 votos.

Na última vez que (2016) concorreu acreditava que seria eleita, pois conseguira levar para Laje uma escola de ensino médio, os cursos universitários, o primeiro Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) quilombola e 10 poços tubulares. Os benefícios foram obtidos através de uma Central de Associações que ela fundou para fazer convênios com as diferentes esferas de governo e empresas públicas.

“O pessoal estava empolgado, mas o preconceito e o dinheiro falaram mais alto” – avalia.

Nos decorrer dos pleitos, os votos da professora minguaram. Em 2012, foram 582 (18º lugar). Na eleição seguinte, 357 (34ª colocação). Os dados são do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Mesmo sem nunca ter tomado posse, a professora empresária diz continuar a luta para obter recursos para a comunidade.

problemas de infraestrutura

Eis alguns dos principais problemas de Laje dos Negros hoje.

TRANSPORTE – Só há dois horários de ônibus para Campo Formoso – eles são particulares e circulam em péssimo estado. A ida é às 3 horas, a volta, 14h. Quem estuda em outras cidades é obrigado a viajar de carona na carroceria de caminhões.

SANEAMENTO – Não há saneamento. Projeto de uma lagoa de tratamento aprovado pela Chesf não foi adiante. Até 2012, não havia sanitários nas casas da maioria dos povoados. A falta de saneamento provoca doenças.

HABITAÇÃO – Projeto Minha Casa Rural previa a construção de 400 casas. Funcionários do Incra fizeram cadastramento, mas a obra não foi feita por decurso de prazo.

ESTRADA – Apenas metade da estrada que liga Laje a Campo Formoso é asfaltada. A pavimentação só foi feita até Lagoa do Porco. A distância de 96 km leva até quatro horas para ser percorrida por ônibus velhos.

VIOLÊNCIA – A desativação do posto policial teve como consequência o aumento de casos de roubos e a intensificação do tráfico de drogas.

Uma reflexão sobre “Quilombo com curso superior&rdquo

  1. Maria Dalva de SouzaDisse…
    Replied on

    Dona Joelina, mulher guerreira. Lutadora por seus ideais e pela comunidade e toda a região. Fiz graduação e pós na instituição trazida por essa grande Mulher.

    Linda história ela tem pra conta pra seus netos.

    Parabéns! !!!!!

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