Cadê os livros?

Cadê os livros?

O trabalho de Luiz Santana Correia, 52 anos, tratador das piscinas do Hotel da Biliu, em Caldas do Jorro, é frenético. Ele limpa os ladrilhos ajoelhado nas bordas, varre o chão, aplica cloro. Faz tudo isso no mesmo ritmo que responde as perguntas. Quer terminar logo.

Há 11 anos, Luiz foi contratado para ser o gerente do hotel. Há dois, quando os sobrinhos da proprietária resolveram assumir o comando do estabelecimento, foi transferido para cuidar das piscinas. Mas não é isso que mais o aborrece.

O guardião tem mágoa maior: queria ser reconhecido como escritor. Ele conta que escreveu três livros. Estreou com a história de João Chima, o primeiro morador do Jorro. Depois, escreveu sobre Antônio Conselheiro. Imprimiu exemplares e vendeu nas escolas da região.

Ganhou gosto e fez o terceiro, que define como educativo por tratar da importância do ensino. A tiragem teria sido um pouco maior. Mesmo sem  ajuda oficial, conta ter vendido tudo.

Sobraram apenas os originais, feitos à mão. E eles foram levados para Salvador. Nunca mais voltaram.

Luiz conta que falou de seus escritos para uma hóspede do hotel, que se apresentou como professora. A mulher se prontificou a fazer a revisão de tudo para uma segunda edição e não devolveu.

Cansado de ligar para o número de telefone que a “professora” deu e não ter respostas, pediu ajuda a um policial civil.

A revisora foi localizada, na versão de Luiz, trabalhando em uma farmácia, em Salvador. Disse que teve problemas de saúde na família e não concluiu o trabalho. Comprometeu-se a devolver o material corrigido. Mentiu.

A história do tratador de piscinas tem pontos confusos. Ele diz que mandou imprimir pelo menos quatro mil exemplares de seus livros  –  alguns seriam de cordel – , mas não guardou nenhum. Também não conhece ninguém que tenha um exemplar. Prefere lamentar e desistir de tudo:

“Estou me acabando nessa terra. Se morasse em outro lugar, seria reconhecido”

Jornalista, 57 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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