Categoria: Outros Sertões

Perambulando

SOTAQUE DE UM POVO NAS BARRANCAS DO VELHO CHICO

De primeiro, quando eu era moço andador, perambulava feito peixe nas primeiras águas.

Nas andanças pelas comunidades ribeirinhas das barrancas do Velho Chico, podem-se ver paisagens contraditórias.

No alto. Manhãzinha cedo, mulheres de saias arregaçadas, de pote à cabeça, vindas da fonte; meninos pançudos, brincando de rumar pedras nos bichos ou de mastigar barro.

Na beirada. Lavadeiras com roupa no quarador; beiradeiro arrastando alpercatas, de remo e cuia à mão ou a torcer carretel, fazendo fieira para remendar fubeca, sonhando em ganhar seu quinhão na partilha do peixe como se fosse a derradeira vez.

Na água. Passam cardumes de piaba, pela veia d’água; gaivotas beijam a gordura do engodo n’água. De tardezinha; patos mergulham e sacodem a cabeça; árvores frondosas arriadas sobre as águas, na quebrada da mareta.

Na crôa. De noite o silêncio no meio-do-mato permite ouvir e avistar o bater do beiço do barco n’água; uma roda humana à beira do fogo, sob o alumiar da lua; pescadores com rostos vagos, mudáveis, saudosos e malhados, como se as malhas da rede mudassem para suas feições.

COISAS DE XIQUE-XIQUE NA BAHIA

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DICIONÁRIO BEIRADEIRO

Alpercata – Chinelo de couro
Fieira – Corda fina de caroá trançada por carretel
Fubeca – Rede velha de caroá
Mareta – Marola, rolo de água empurrado pelo vento no rio
Crôa – Coroa, bancos de areia que se formam no meio ou à margem do rio.

Navalha na carne

SOTAQUE DE UM POVO NAS BARRANCAS. DO VELHO CHICO.

Era uma noite quente e sombria. Na calada da noite a matraca corria solta, comendo no centro, matraque…matraque… catraque…catraque…

João Mirou puxava a lamentação. Parando de estação em estação, em meio a benditos e pai-nossos. O trinado das lâminas, que regia a “disciplina dos pinitentes”, zunia aos ouvidos. O encarnado nas anáguas brancas, era visível, o sangramento denunciava a autopunição. Afinal, são  sete anos para se livrar dos pecados cometidos e dos que lhe foram atribuídos.

Na Semana Santa, precisamente na Sexta-Feira da Paixão, tive que correr do Hospital Julieta Viana até a Praça Luiz Viana, pra não ser cortado por um penitente. Caí na besteira de levantar a cabeça, durante a passagem em um corredor polonês feito pelos penitentes, e a ordem era não olhar em seus semblantes, para não reconhecê-los. Como descumprir a ordem levantando a cabeça, fui perseguido por um deles. Quando percebi o perigo, gritei:

“Zé de Queró, penitente. Deixa de traquinagem, joga essa navalha  pra lá…”

“Falou meu nome vai ser punido.”

“Deixe disso. Esse home parece que tá com outro dentro dele.”

“No claro não. Mas no truvo eu pico-lhe a navalha pra dentro. Se souber rezar pode começar. Porque Zé de Queró é pinitente respeitado.”

“Hômi, atende o poder de Deus.”

“Eu tou atendendo é a ordem dele mesmo… Você vai escapar dessa, mas sábado de aleluia, num vai ser Judas, que vai ser malhado não. Você vai entrar no cacete.”

E a navalha trinava igual pandeiro sem couro.

E perna pra que te quero…nunca corri tanto em minha vida. E nunca mais esqueci do penitente Zé de Queró.

COISAS DE XIQUE-XIQUE NA BAHIA.

 

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Os penitentes são homens que se auto-flagelam na Semana Santa. O ritual consiste em retalhar as costas com navalhas pequenas e afiadas, amarradas a uma tira de couro, que é jogada de lado ou por sobre os ombros para atingir as costas.