Outros Sertões

Arte abandonada

É preciso se posicionar a alguns metros de distância para vê-lo por completo. Para senti-lo é necessário que se aproxime. Ao aumentar o seu campo de visão, o viajante vai observar em detalhe todas as histórias contadas em uma das três partes do painel, em forma de mural, finalizado em 1967 pelo artista plástico Lênio Braga, com participação do ceramista alemão Horst Udo Knoff, na Estação Rodoviária de Feira de Santana. Versos e figuras em cordel, cores e textura são uma aula de “sertanejidade”, de “feiradesantanidade”, de “nordestinidade”. …Visualizar o restante

Cantos de Oxóssi

Mãe Nair é gente de santo em Xique-Xique. Sincrética como boa religiosa baiana, filha de Oxóssi e devota ardorosa dos seus “Cosmes”, abre a sua casa alegremente para quem crer e deseja a saúde.

A rezadeira e mãe de santo cura dores no corpo e cabeça. Também é capaz de livrar os viventes do rasto de sol. Para quem não sabe, o raio direto ou indireto de sol é capaz de adoecer uma pessoa ao tocá-la em partes do corpo. Pé, cabeça, perna…

O tratamento é feito com reza e tocando a área afetada com um vidro ou copo virgem com água.

Neste vídeo, a médica e pesquisadora de cultura popular Helenita Monte de Holanda nos mostra os cantos que Mãe Nair entoa para chamar seu orixá. O deus caçador de uma flecha só, senhor da floresta e dos seres que nela habitam é cultuado no Brasil, em Cuba e em países que a cultura iorubá prevaleceu.

Òké Aro!

Terra sagrada

Camacan é uma cidade do sul baiano bem próxima ao sertão (fica a 67 km de Potiraguá). Fundada em 1961, foi uma das maiores produtoras de cacau do país na década de 70, mas entrou em declínio 20 anos depois por causa da praga “vassoura de bruxa” que dizimou as plantações.

Também é conhecida por causa da violência no campo e conflitos de terra. Um novo confronto parece ser iminente após o quarto despejo das 36 famílias do assentamento Terra Sagrada Guanabara I, realizado ontem (1º de junho). Os agricultores, que recuperaram a mata nas margens do rio Pardo e tornaram a propriedade produtiva, divulgaram a “Carta de Luta e Resistência do Nosso Povo!”, pedindo ajuda aos governos federal e estadual.

O coordenador da Pastoral Rural da Juventude e colaborador de Meus Sertões, Joabes R. Casaldáliga, passou quatro dias no local e conta esta história através de vídeos e fotos que produziu no local.

Sem-terra esperam barco para levá-los para uma ilha do município de Mascote (BA)

“Pude acompanhar a movimentação nos dias que antecederam o despejo. Conversei com crianças, jovens, adultos e idosos e registrei seus sentimentos e angústias. Vivenciei a dor de quem tem que deixar sua plantação, criação e amargar prejuízos Trago comigo somente a esperança, que Deus e os “encantados” do rio Pardo (como crê Jucélia, a líder do assentamento) os protejam”.

As famílias despejadas foram para uma ilha do rio Pardo no distrito de São João do Paraíso, em Mascote (BA). No entanto, esperam voltar.

JUCÉLIA, A LÍDER do grupo

MARINALVA E VALCI ALVES CAMBRA, AGRICULTORAS

MARINILZA, QUATRO DESPEJOS E AMEAÇAS
SUPOSTOS JAGUNÇOS

VAQUEIROS ESPIÕES E ROUBO DE GANSOS

 

Nota: Após o prazo dado pela justiça para o despejo, os sem-terra que tinham deixado o local voltaram para a propriedade no domingo (4/6/2017). A estratégia é permanecer até que o governo federal desaproprie a Terra Sagrada.

Superproteção

A origem da figa ainda hoje é incerta, embora estudos encontrem a sua presença mais remota entre os etruscos. Este povo viveu na Etrúria, na península Itálica, na área equivalente à atual Toscana, por volta do século VII Antes de Cristo.

Inúmeros desses objetos foram encontrados nas ruínas de Pompéia.

Símbolo de fertilidade (o polegar entre os dedos indicador e médio sugerem a penetração peniana na genitália feminina) originalmente era usado por mulheres e crianças, servindo para afastar o “malefício da infertilidade”, considerada verdadeira maldição.

Com o passar do tempo, a figa foi “ganhando poderes”, passando a servir como objeto protetor (amuleto) contra qualquer infortúnio, principalmente contra mau olhado.

O português colonizador a trouxe para o Brasil e logo foi adotado pelas religiões de matrizes africanas como amuleto que “fecha o corpo”.

Em maio de 2014, ao ser interrogada em um ambulatório sobre o amuleto, a mãe do bebê de 26 dias (foto acima), uma jovem de 19 anos, explicou:

“A figa dourada mode decorar e figa verdadeira de pauzinho de arruda mode olho ruim.”

Este objeto também foi passado, no sertão paraibano, por ciganas para seus filhos, pois acreditavam ser capaz de evitar agressões físicas e espirituais, afastar feitiços e influências negativas.

Recomenda-se que seja levado junto ao corpo para servir como proteção. Quando uma figa se parte deve ser jogada fora, pois já cumpriu sua função. Se perdida, não deve ser procurada.