Categoria: Outros Sertões

João pescador

SOTAQUE DE UM POVO NAS BARRANCAS DO VELHO CHICO

Beirando o cais,
João vai à ipueira,
Formoso, cada vez mais,
Leva na mão uma esteira.
Na cabeça, o chapéu,
Admira, contempla o céu.
O remo aos ombros largos,
No rosto um afago.
Lá vai João buscar o troféu.
De cuia na mão,
Camisa comprida,
Com destino à lida.

Lá vem João,
sem nada à mão.
Remou,
Pescou,
Agradeceu a Deus,
Pediu pelos filhos seus.
Nada pegou.
Lá vem João,
Com as mãos na cintura,
Sem perder a formosura.

Terra e sangue

SOTAQUE DE UM POVO NAS BARRANCAS DO VELHO CHICO

Há anos em que o alagadiço da Ilha do Gado Brabo, nas margens do Velho Chico, vem sendo uma arena de grandes rixas por questões de terras. Em violentas batalhas sangrentas de famílias, homens trocam facãozadas no meio da estrada, reivindicando o direito de continuar sendo o mandante das terras. No fim das contas, uma tentativa inútil.

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Beiradeiro pornô

SOTAQUE DE UM POVO NAS BARRANCAS DO VELHO

O Velho Chico, rio que corre em minhas veias, além dos seus mistérios, segredos e encantos, tem seus navegantes contadores de causos, que em certos momentos chegam a ser surreais, como conta Mané Pescador:

“Corre um boato aqui donde eu moro que Madalena Pomba Roxa, teve um filho nas coxa. E que lá pras banda do Catu, Salete, rapariga do cabo Chiquim, teve um fi bem pertim”.

“Pertim de que, compadre Mané?”

“Das coxas, compadre Zé. E devia de ser mais adonde?”

“Quando o senhor disse que foi no Catu, pensei que ia da rima, compadre.”

“Diz que o homem que faz fi nas coxas é porque num levanta mais a cigana.”

“Aonde, moço! Quem num levanta mais o cegonho, num fais fi nem no joelho, quanto mais nas coxa.”

“Pior foi lá na Pinguela de Baixo que nasceu um menino sem osso.”

“Então foi feito de língua!”

“E é só língua que não tem osso é? Deixe de ser mobral!”

Coisas de Xique-Xique na Bahia.

Vento danado

SOTAQUE DE UM POVO NAS BARRANCAS DO VELHO CHICO

Às vezes a gente custa a acreditar em certas coisas. E, eu, confesso, só vim acreditar na história que Carlos Beiju me contou depois que outros pescadores confirmaram.

Muitos anos atrás, era comum, depois da piracema, uma parte dos moradores da comunidade de Paramelos se mudar temporariamente para os ranchos de pescarias de Pau Seco, Pereiro e Mangue Fundo.

Nesses locais de lances de rede, eram comuns histórias de livusias, mal-assombro, merecendo destaque a de um finado que gostava de cutucar os outros por detrás.

Mas, eu vi a coisa feia de nego perder o rompante, foi naquele dia. Era boca-da-noite, durante o dia já tinha batido um vento mouco, e eu pitano um cigarro enquanto me preparava pra lida.

Quando pensa que não, eu escuto o beiço do barco bater no outro lá na beirada do rio, quando alguém gritou de lá:

“Vigia aí, que o vento vem acabano com tudo.”

Era mulher puxano os meninos para dentro das casas. Portas batendo. Cavalos quase rompendo cabrestos. Galinhas, porcos e cabritos amoitano em busca de abrigo.

Quando eu corri pra fechar a porta não deu tempo, o redemoinho foi tão medonho que abriu o cadeado da mala de Maria de Coló e carregou a camisola dela, pegou no Pereiro e foi jogar no Mangue Fundo.

COISAS DE XIQUE-XIQUE NA BAHIA.

A ‘celveja’

SOTAQUE DE UM POVO NAS BARRANCAS DO VELHO CHICO

Nas minhas andanças a serviço da Educação, tive a oportunidade de ouvir diálogos, com sabor natural da nossa terrinha. Viajando de Xique-Xique ao povoado de Utinga, na carroceria de D20 – carro que substituiu as “rurais” nos areões do tabuleiro -, tive o privilégio de ouvir prosas gostosa como esta:

“Êta estradinha ruim essa da Utinga. Tá assuntano. Tem que andar subrileve. Se açulerar atola, se atolar entra até o semi-eixo. O tabuleiro é falso, engana qualquer um. Aqui o motorista tem que ter munheca, e o passageiro, se não sustentar, cai…”

“Silvano, eu não vejo a hora de chegar em Xique-Xique pra beber uma água friinha da lejadeira.”

“A celveja lá também é fria…”

“Muié oi, eu só vou neste Xique-Xique porque é obrigado.”

“Eu também só vou uma vez no mês pra tirar o dinheiro do cartão e fazer a feira.”

“Este povo quando chega lá parece que chegou no céu, acampa naqueles bloco do cais e enche o rabo de celveja.”

“Muié, você me deixa! Eu não sei o que esse povo acha nesta tal celveja. A bicha já cai no copo barbuiano, quando a gente bebe já sente o amargo na boca, ela desce rasgano, depois fica freveno dentro do estombo. Eu tenho é visto, viu… Tem deles que ainda é uma falta de educação pra beber: pede logo aquelas garrafona de um lito.”

“Hum, hum, hum! Já chegam é gritano’me dá um litrão aí’.”

“Um dia eu com uma sede tão grande no mundo, inventei de tomar um veneno desse. Mar muié que que disgraça foi aquilo, bebi uns quatro copo antes do de-cumê, veio logo um arroto, parecia que tava saindo fogo das ventas, friviano. Eu disse, isto é que é ser, viu. O diacho é que vai ficar aqui, mas não eu. Ajeitei minhas coisas pro mode eu ir. Subir pra riba da carroceria deste carro e disse: gente vamo simbora… Quando este carro pegou a estrada. Mar mulé! Me deu uma tontura. Eu via os pés-de -pau correno mais que o carro. Eu disse: valeime minha Nossa Senhora! É mal assombro. Ainda bem que este carro chegou ligeiro, porque quando eu desci, sa cambaleando, parecendo uma cobra mal matada.”

COISAS DE XIQUE-XIQUE NA BAHIA

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DICIONÁRIO BEIRADEIRO

Açulerar – Acelerar
Friviano –
Efervescendo, fervendo, borbulhando.
Subrileve –
Levemente, por cima, calmamente