Jornalista, 54 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.

Resistente como couro

O primeiro benefício que o artesanato trouxe para Maria Regina Soares foi ajudá-la a superar a síndrome de pânico iniciada depois que a livraria e o bar que ela abriu com um de seus irmãos, em Jeremoabo (BA), faliram. Os sintomas começaram depois que ela se mudou para Prado, no sul baiano, onde o irmão mais velho morava e tentou uma nova atividade comercial, mas viu que o movimento de fregueses terminava com a temporada de verão.

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Luta para reconhecer quilombo

Até onde a memória alcança é muito sofrimento e algumas tréguas. Antônio do Carmo, 68 anos – 65 na carteira de identidade e nos outros documentos porque demorou a ser registrado – se emociona, chora e faz longos silêncios ao contar a história de sua família. Quatro gerações forjadas na escravidão, na vida em tocas, na fuga para escapar de perseguições, na fome, na separação de seus irmãos e na disputa de terras. …Visualizar o restante

As marcas da ferrovia

É muito difícil encontrar um morador de Iaçu que não tenha uma história relacionada com a ferrovia que corta a cidade. André da Caçamba, por exemplo, passou 23 dos seus 60 anos, trabalhando como agente de estação, liberando a saída de trens. Telegrafista, hoje caminhoneiro, mora em uma das casas que eram destinadas aos antigos empregados da Rede Ferroviária. …Visualizar o restante

Cordas e mosquetões

Itatim passou a ser conhecida como a capital baiana da escalada a partir da realização do 8º Encontro de Escaladores do Nordeste, realizado em outubro de 2009. O primeiro evento foi realizado no Parque Estadual da Pedra da Boca, na cidade de Araruna (PB), em 1999, com o objetivo de aproximar os escaladores nordestinos, permitindo a troca de experiências. O evento itinerante chegou a 16ª edição este ano. …Visualizar o restante

Quando a caatinga vira carvão

Geraldo (nome fictício), 17 anos, cava uma caieira para produzir carvão vegetal em um povoado baiano. Ele não fica à vontade com a chegada de MEUS SERTÕES. O jovem sabe que o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis) e o Inema (Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos) proíbem a produção de carvão com lenha retirada da caatinga. A necessidade, porém, fala mais alto. …Visualizar o restante

Arte quilombola

As mãos das irmãs Selma Teixeira de Araújo, 37 anos, e Silvana Teixeira Brandão, 40, se movimentam numa velocidade espantosa. Em alguns momentos, o ritmo do entrançar da palha chega a ser mais rápido que a fala. As artesãs do povoado de Campo Grande, em Santa Teresinha (BA), têm pressa. Elas precisam confeccionar 60 peças –malas, bolsas, bocapius (sacolas), tapetes e esteiras – que serão enviadas para uma feira em Salvador.

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Um pedaço do sertão no Rio

Há duas versões sobre o surgimento da Feira dos Nordestinos, oficialmente chamada de Centro Municipal Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, que hoje é frequentada por cerca de 300 mil pessoas/mês, segundo seus organizadores.  Uma delas diz que a ela surgiu no dia 2 de setembro de 1945, quando o poeta paraibano e ex-combatente Raimundo Luiz do Nascimento, o Raimundo Santa Helena, leu o folheto “Fim da Guerra” para um grupo de soldados e nordestinos que aguardavam condução, em São Cristóvão, no Rio de Janeiro. …Visualizar o restante

A arte de trançar palha

São seis mulheres que preservam a cultura da palha em Iaçu, cidade de 26 mil habitantes a 280 quilômetros de Salvador. Elas estão reunidas em torno da Associação Palha Viva, fundada em 2002 e presidida pela professora e artesã Rosângela Aragão Guimarães, 61 anos, que mantém a alegria mesmo depois de ter enfrentado problemas com a prefeitura.

A associação, um antigo sonho de Rosângela, começou a se tornar realidade depois dela ter sido afastada duas vezes da prefeitura porque seu marido fazia oposição aos prefeitos. O primeiro afastamento dos quadros da secretaria de educação ocorreu em 1992. Rosângela entrou com ação na justiça para ser readmitida ao mesmo tempo em que se preparava para o concurso de funcionária da secretaria municipal de fazenda, no setor de IPTU.

Aprovada no processo seletivo, não chegou a tomar posse porque o resultado não foi respeitado. Resolveu se dedicar ao trabalho de artesã, que fazia desde criança.

“Decidi que não ia ficar ociosa em casa. Disse para mim mesmo: ‘Vou sair por aí’. Comecei a fazer eventos em Iaçu, preparar festas e participar de feiras culturais” – conta.

ARTE NA INFÂNCIA

A primeira arte que Rose, como é chamada, aprendeu foi crochê, mas detestou. Passou para tapeçaria, corte e costura, trabalhos de cartolina – casinhas e igrejas para serem colocadas em presépios – e de barro. Daí vem sua versatilidade para trabalhar com palha, tecidos, jornais, biscuit (massa de porcelana fina).

A participação em feiras de outras cidades começou em 1994, dois anos depois de ter sido afastada. A primeira foi em Utinga.

Em Itaberaba, seus trabalhos encantaram tanto os organizadores que foi levada para a Feira Baiana de Negócios (Feban), em Vitória da Conquista. Foi lá que disse ao pessoal do Sebrae e do Instituto Mauá que gostaria de fundar uma associação.

Em 1998, a justiça dá ganho de causa para a professora e ela é reincorporada à prefeitura. Quatro anos depois, o Sebrae pede para que Rosângela seja cedida e passe a ser representante da cultura de Iaçu. Logo em seguida, a associação é fundada e começa a procura por um imóvel para abrigá-la.

“O prefeito da época tinha sido vice-prefeito quando fui afastada da secretaria de Educação. Esse mesmo político foi quem nos deu a mão para fundar a associação. Até hoje a prefeitura paga o aluguel (R$ 300) da associação. Você vê que ironia? ” – diz.

Eram 16 artesãs no início. Hoje são seis, contando com a presidente. A mais velha é Elza Nogueira, 81 anos, as outras são Marilene Araújo da Silva, Elma Amorim, Balbina e Denice.

Além de produzir e vender artesanato, a Palha Viva ministra cursos. As aulas de diferentes técnicas duram 22 dias. É cobrada uma taxa simbólica de R$ 30. Também é desenvolvido trabalho social com pacientes do Centro de Atendimento Psicossocial (Cras). Segundo Rosângela, o artesanato é ótimo para reduzir o nível de estresse.

A renda complementar das artesãs era maior nos primeiros anos de funcionamento da associação porque elas eram levadas para feiras em outras cidades e estados (São Paulo e Minas Gerais). Com a redução de investimentos do governo estadual na área cultural, as viagens minguaram na mesma proporção que diminuiu o número de sócias.

TIPOS DE PALHA

As artesãs de Iaçu trabalham, principalmente, com palha de ouricuri (ou licuri), de pindoba e com a fibra de bananeira (mais escura). São confeccionadas cestas de pão, jogos americanos, bolsas de passeio, esteiras, bocapiu, vassouras, porta-joias e porta-licor. Tudo é feito manualmente, com exceção dos chapéus.

Das etapas de produção, as mulheres da Palha Viva aboliram a fase de buscar matéria-prima no mato. Os molhos de palha são comprados de outros artesãos ou de comunidades carentes.

Há três fornecedores, em Iaçu. A baixa oferta tem a ver com desmatamentos na região. Os feixes prontos para serem trançados são vendidos a R$ 2,50, a unidade. Em Utinga, a 155 km de distância, eles custam R$ 12, mas a palha é maior, tem mais qualidade e o molho equivale a cinco unidades iaçuenses.

Na loja da Palha Viva (rua Castro Alves, 109) também são comercializadas pelas de trabalhadoras manuais de Itaberaba, como bonecas e pesos de porta. O objetivo é ajudar as colegas e oferecer mais produtos.

VALOR INCALCULÁVEL

As obras da mãe de Rosângela, Angelita Maria de Lima Aragão, que morreu em setembro passado, aos 79 anos, também estão à venda. Angelita era professora aposentada, artista plástica e escritora e incentivou a filha a fazer trabalhos manuais. Seus quadros são vendidos a preços que variam de R$ 100 a R$ 200. Um deles, no entanto, não está à venda. É o que retrata Rosângela produzindo um cesto de palha.

“O governador da Bahia Rui Costa veio aqui, viu o quadro e falou que era lindo. Disse que queria comprar. Respondi que aquele não estava a venda porque foi uma homenagem que minha mãe me fez, em 2007. Esse quadro não tem preço” – conta.

Marilene Araújo da Silva, a Fia, é outra integrante da associação. A velocidade com que trança a palha é espantosa. Em alguns momentos sequer olha para os talos.

Outra artesã da cidade, Luciene, trança uma matéria-prima diferente: sacos plásticos de salgadinhos. Marilene é fã do trabalho da colega e mostra o chapéu e descansos de panelas feitos com material reciclável.

As baianas e jarros com tulipas, em tamanho natural, feitas com jornal, decoram a associação. O conjunto foi produzido por Rosângela em dois meses. Decoração é outra atividade do grupo de artesãs. Elas utilizam folhas e palha verde para embelezarem cerimônias de casamento e diferentes ambientes.

A associação Palha Viva pretende implantar nos próximos meses um curso de biscuit (artesanato com massa de porcelana fina). Outro projeto é se transformar em um polo de arte, onde os artesãos da região possam expor seus trabalhos.

LOJA DA ASSOCIAÇÃO


Endereço da Associação: rua Castro Alves, 109, Iaçu (BA). Telefone: 75-3325-2496