Autor: Paulo Oliveira

Os espantadores

Uma função chama a atenção na Cooperativa dos Produtores do Vale de Itacuruba (Coopvale), no sertão pernambucano. Afinal, o que faz uma espécie de espantalho humano dentre os criadores de tilápias da cidade que foi reconstruída há cerca de 30 anos, após a Itacuruba original ter sido submersa pelas águas da barragem de Itaparica?

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A fazenda despedaçada

O site Meus Sertões recebeu 100 fotos e seis vídeos curtos, enviados pelo artesão, músico e responsável por projetos de manifestações culturais do Departamento de Cultura de Jeremoabo Flávio Luiz Silva Passos, 51 anos. Este material mostra o abandono da fazenda Caritá, lugar onde Cícero Dantas Martins, o Barão de Jeremoabo nasceu e passou a infância. Ali também foi instalado um dos primeiros engenhos de açúcar da Bahia.

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Seu Zé – Capítulos I, II e III

Mal a lua crescente, propícia para plantar milho, arroz, feijão e tomate, deixou o céu, o beato Pedro Batista da Silva chamou o agricultor José Rodrigues dos Santos e pediu para tirá-lo da cama e sentá-lo em uma rede. Nos últimos quatro anos, Seu Zé, homem de confiança do “Padrinho Pedro”, cuidava do homem santo responsável pelo desenvolvimento de Santa Brígida, cidade do sertão baiano.

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Cemitério dos Anjos

O poeta gaúcho Mário Quintana escreveu que em um portão de cemitério se encontram uma estrela, quando se nasce, e uma cruz, ao morrer. Prosseguiu, ressaltando que muitos que se encontram lá hão de emendar que seria mais correto por uma cruz no princípio e a luz da estrela no fim. No Cemitério dos Anjos, construção mais antiga de Araci, município do sertão baiano, a maioria dos que repousam nas covas, muitas delas pequenos murundus marcados com pedaços de galhos, não tiveram tempo de carregar o madeiro nem ver o brilho dos astros.

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Homens que falavam com os mortos

Em cerca de cinco horas de conversa durante três dias da Semana Santa deste ano, em Santa Brígida, no sertão baiano, o agricultor José Rodrigues dos Santos, 97 anos, homem de confiança do beato Pedro Batista, contou 18 histórias que ouviu desde criança de seus pais, seus avós e de seu líder espiritual. A maioria tem como personagem direto ou indireto o padre Cícero Romão Duarte, o Padrinho Ciço, no qual deposita muita fé.

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Tanque das Pedras

Não há sinalização em Teofilândia que conduza o visitante ao Tanque das Pedras, local que deu origem à cidade, situada a 202 quilômetros de Salvador. A chegada ao belíssimo cenário só foi possível porque fomos guiados pelo artista plástico e professor de artes Raimundo Carvalho, um entusiasta e defensor da preservação da natureza.

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O resgate do aluá

O aluá é uma bebida fermentada e refrescante, preparada com milho ou abacaxi, adoçada com rapadura ou açúcar mascavo. Sua origem é controversa em função de existirem preparos semelhantes entre os indígenas brasileiros, os povos africanos e os europeus.

A bebida foi incluída na Arca do Gosto, catálogo mundial que identifica, localiza, descreve e divulga sabores ameaçados de extinção. A iniciativa visa contribuir para recuperar alimentos e ressaltar a riqueza de produtos que a terra oferece.

Sete anos antes da criação do movimento de preservação de sabores (1996), o historiador Sebastião Gonçalves Passos, 85,  já lutava para preservar o aluá, que junto ao refresco de gengibre, eram os únicos “refrigerantes” no tempo em que ele era criança e brincava nas ruas de Jeremoabo, no sertão baiano, onde vive até hoje.

No início dos anos 40, a bebida era feita por três irmãs negras – Eutímia, Suru e Cota – e por uma feirante, vendedora de doces diversos, chamada de Vovó Maria. Após o catecismo, aos domingos, as crianças iam para casa de Eutímia, onde um pote de barro com refresco era rapidamente esvaziado.

As velhas senhoras ensinaram, a quem quis aprender, como fazer o aluá. Depois que morreram, a tradição foi sumindo. O tempo passou e o refresco deixou de ser produzido. Até que Sebastião, há 30 anos, resolveu resgatá-la da forma como lembrava, usando apenas milho e água.

“Um dia me lembrei do aluá e disse: “vou tentar fazer”. O mais importante é o pote de barro, onde o milho é fermentado. O último vasilhame que comprei não deu certo. O gosto do refresco não ficou bom. O tipo de barro é importante. O aluá é delicado, qualquer coisinha se perde. Voltei a fazer no pote velho mesmo” – conta.

Sebastião lembra que as senhoras que faziam o aluá na primeira metade do século passado, faziam como os antepassados. Colocavam palha de banana no chão, em local limpo, colocavam o milho pousado nela, depois molhavam e cobriam com mais palha.

Oito dias depois, quando o milho estava germinando, era levado para o pilão. Em seguida, picado até virar xerém (farinha de milho). O milho moído era colocado em um pote de barro, onde ficava de molho por três ou quatro dias. Um pano braco era amarrado à boca do pote, tampando-a totalmente.

Sebastião, 85 anos, luta para preservar o aluá.
Sebastião, 85 anos, luta para preservar o aluá

Sebastião não segue à risca a primeira parte da receita. Para acelerar a preparação, que do jeito dele leva seis a oito dias, ele compra dois pacotinhos de xerém. Assim, pula a parte da germinação e do pilão.

“Hoje o milho já tá pisado, então tem mais facilidade. Boto de molho hoje; amanhã, lavo bem lavado em quatro, cinco ou seis águas. Em seguida, boto no pote de barro por três dias e amarro o pano na boca da botija” – ensina.

No tempo antigo, na etapa seguinte, o pote ia para o fogão a lenha, onde ficava por duas, três horas, cozinhando em fogo brando. Hoje, o historiador tira o milho do pote e coloca em uma panela de alumínio, levando-a para o fogão a gás. Depois de 20 minutos de cozimento, começa a mexer. O produto vai ganhando consistência como uma canjica.

“Você tem que continuar mexendo para não pegar. Aí quando começa a bufar, fazendo plac, plac, plac, mais ou menos uma hora depois que foi ao fogo, tiro da panela de alumínio e recoloco no pote de barro, sem que ele tenha sido lavado” – explica.

Agora é deixar esfriar por 12 horas mais ou menos. Se foi feito pela manhã, por volta das 11 horas da noite o vasilhame de barro está frio. Hora de voltar a fechar a boca com pano branco e deixar três dias descansando. Após esse período é pegar o milho, que fica igual à massa de polenta, colocar em um copo, dissolver com água gelada e colocar açúcar à vontade.

O aluá, acrescenta Sebastião, é uma bebida festiva. Normalmente era feito para ser consumido nas festas juninas, aniversários e no Natal. Hoje, o historiador faz quando tem vontade. Serve para família e para os amigos como o coronel João Carlos Gama de Oliveira, que mora em Salvador, mas lhe visita toda vez que retorna a Jeremoabo, a fim de beber aluá.

Sebastião ressalta que ele e um de seus irmãos sabem preparar o antigo refresco. Diz que não conhece ninguém mais que o faça. Ele admite que só não gosta muito quando tem que mexer a bebida no fogo porque ela exala um cheiro desagradável.

“Mas beber é gostoso e compensa todo o trabalho” – garante

ORIGENS PROVÁVEIS

O site Slow Food Brasil, que divulga a história dos alimentos que fazem parte da Arca do Gosto, ressalta que os indígenas brasileiros preparavam bebidas fermentadas de milho, mandioca e frutas nativas há séculos. As técnicas de fermentação variavam, de acordo com os pesquisadores, de acordo com as regiões e os ingredientes, podendo utilizar enzimas da saliva ou leveduras espontâneas.

Na África, prossegue o Slow Food, bebidas fermentadas eram feitas à base de cereais, seivas de palmeiras e frutas. Posteriormente, povos como os Ovimbundu, do sul de Angola, passaram a usar produtos da América como o milho e o abacaxi. Lá, bebida parecida com o aluá é chamada de kissanga e vendida em locais públicos.

Os colonizadores portugueses também faziam refrescos, fermentando pedaços de pão e cereais, acrescidos de especiarias, aromas e beterraba. Essa é a provável origem do “aluá de pão” até hoje presente nas mesas do interior cearense.

No século 19, o aluá ficou popular em todas as classes sociais. Com baixo teor alcoólico, passou a ser consumido até por crianças. Ainda segundo o Slow Food Brasil, o refresco é citado em diversos livros. Em um deles, Eloy de Souza relata que no Rio de Janeiro era vendido “em potes de barro muito limpos, à cabeça das negras velhas”.

O aluá se espalhou pelo Brasil durante a ocupação e colonização do Nordeste. Também está presente nos rituais de religiões afro-brasileiras, onde é oferecido às divindades e participantes.

No distrito de Morro Vermelho, em Caeté, Minas Gerais, desde o século 17, são realizados ritos onde há o consumo de aluá, produzido a partir da fermentação de frutas, restos de alimentos e rapadura. A bebida é servida em copos de barro durante a Festa de Nossa Senhora do Rosário, em outubro.

Independente das variações regionais– muitas delas utilizam especiarias nas receitas -, o aluá faz parte da cultura brasileira. Sua preservação é importante para perpetuar a tradição indígena, quilombola e nordestina, além de resgatar uma bebida saborosa e saudável.

 BOM EXEMPLO

RECEITA

Em levantamento feito por Meus Sertões, esta é a receita atual mais simples:

Ingredientes
1 kg de milho seco
1 kg de açúcar mascavo
Cravos-da-índia
Gengibre
Erva doce
Água

Modo de fazer
Torre o milho no forno por uns 20 minutos. Em seguida moa os grãos e despeje-os em um pote de barro. Acrescente a água e o açúcar. Deixe descansar por 24 horas. Depois  desse tempo coloque as especiarias  (cravo – gengibre e erva doce) também moídos e deixe por mais um dia. Se achar  necessário, coe a bebida com um pano e na hora de servir acrescente gelo.

Romeiro escapa de onça por milagre

O agricultor José Rodrigues dos Santos, em atividade aos 97 anos, é um personagem grandioso. Nascido no povoado de Cajueiro, viu o local se transformar em distrito de São José da Tapera, pertencente ao município de Pão de Açúcar, Alagoas, e depois se emancipar. Foi lá que conheceu o beato Pedro Batista, que seguiu até Santa Brígida, na Bahia, e de quem se tornou homem de confiança e cuidador.

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Especial seca

A série “Especial Seca” mostra a realidade dos produtores rurais e criadores de animais durante o período de estiagem no sertão baiano. Dos seis capítulos, cinco têm nomes de fazendas e sítios, com diferentes realidades.
O único que não segue esta regra é a entrevista com o padre Alberto, de Canudos, nascido da região e que, a partir de sua experiência com os  sertanejos, faz uma análise muito interessante sobre a convivência com o semiárido.

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