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As espadas e o Judas explosivo

L., espadeiro renomado de Bonfim de Feira, distrito de Feira de Santana, no sertão baiano, ensinou o ofício aos três filhos quando eles eram crianças. Da fabricação de fogos de artifício bem simples – os “furicos de taboca” – até as espadas feitas com bambu, carvão, salitre, enxofre, limanha de ferro ou de alumínio e barro de formigueiro socado para evitar que a carga saia por baixo, M. levou mais de 10 anos para aprender. Hoje se orgulha de fazer peças de até 1,2 quilos, que expelem fogos e faíscas por até 25 minutos.

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A cremação do Ano Velho

No distrito de Bonfim de Feira, a 34 quilômetros de Feira de Santana, uma festa criada por um agente funerário há 47 anos, se transformou na mais inusitada despedida de Ano Velho do Brasil. Este ano, centenas de pessoas saíram em cortejo pelas ruas, carregando um caixão com um manequim e sambando.

Depois de substituir o boneco pelo “defunto do ano”, o pecuarista José Augusto Moura, 66 anos, que representou 2019, e carregá-lo até a Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, sempre ao som de música, o caixão foi colocado na praça principal e incinerado.

A folia continuou com a apresentação do grupo Quixabeira da Matinha, formado por trabalhadores rurais que criam sambas marcados por ritmos de manifestações como a bata do feijão, folia de reis, cantigas de roda e boi da roça.

Gilmário Moreira da Silva, 70 anos, servidor público federal aposentado pela Funasa, foi quem inovou o que era uma simples brincadeira inventada por Vidal Carneiro de Souza, que herdou do pai a única funerária de Bonfim de Feira, para não deixar passar em branco o Ano Novo.

“Em 1972, ele pegou um caixão velho, roído de cupim e saiu com um grupo de amigos pelas ruas, batendo palmas e cantando assim: “O Ano Velho morreu, morreu, morreu…”. No final, queimou tudo. Depois de cinco anos, a participação ainda era pequena. Ele me procurou e perguntou se eu queria assumir a festa. Afirmou que não tinha mais interesse, mas continuaria a doar um ataúde todo ano. Sempre fui festeiro e já tinha umas ideias para incrementar o final do ano. Aceitei o desafio” – conta Gilmário.

A primeira inovação foi colocar um boneco dentro do caixão para fazer o papel de defunto. Também resolveu homenagear uma pessoa da comunidade, levando-a dentro do esquife, enquanto o povo seguia atrás sambando. Na primeira vez, encontrou dificuldade. Os moradores consideravam um mau agouro. A questão foi resolvida de forma simples: Gilmário foi o primeiro a representar a morte do Ano Velho, em 1977. Outro fator ajudou a quebrar a crença de que participar da brincadeira poderia atrair a morte verdadeira: estava todo mundo bêbado.

Daí por diante, outras funerárias passaram a oferecer os adereços fúnebres, incluindo a urna, a cruz e a sentinela. Hoje, duas empresas de Feira de Santana se revezam na entrega dos produtos. Um caixão é queimado e outro é guardado por um ano na casa de Gilmário “Boca de Traíra”, o que provoca reclamações da família. Cada urna custa cerca de R$ 800.

Antes de se tornar tradição, a festa da cremação do Ano Velho sofreu um baque. Dois motivos fizeram Gilmário deixar o comando do evento, embora ele frise que deu um tempo na atividade para atender a mulher, a irmã e os filhos, que se queixavam por ele não os acompanhar no Réveillon na Praia de Guarajuba, em Camaçari (BA).

Amigos próximos, porém, contam que o organizador estava preocupado com a falta de segurança e com uma onda de delitos registrados, à época, na região. O servidor aposentado não conseguiu convencer ninguém a substituí-lo e Bonfim de Feira ficou sem festa de final de ano durante 19 anos (1996 a 2014).

Atendendo pedidos dos amigos, no entanto, voltou a promover o evento em 2015. Hoje, com o apoio da comunidade, das emissora regionais de rádio e  TV, da Polícia Militar e da prefeitura de Feira, que banca a principal atração musical, Gilmário está mais tranquilo.

O defunto do Ano Velho é escolhido por uma comissão de sete pessoas (Gilmário, Beto Chaparral, Borracheiro, Paulo de Lindaura, Gílson Reis, Cristóvão e Nem de Ovídeo). Eles sugerem nomes, que são definidos por votação com um ano de antecedência. O de 2020 está definido: será o pecuarista Estevão Ferreira.

O ritual para obter a aprovação do “homenageado” consiste em consultá-lo e conferir se a companheira dele concorda. Tudo acertado, começa a divulgação do “futuro defunto” no distrito, através de carro de som. Imprevistos podem alterar a escolha. O morto de 2019 foi a terceira opção. Os dois primeiros desistiram. Um deles ficou adoentado e o outro perdeu um parente. O argumento para convencer a pessoa a deitar no caixão inclui o fato de que não há gastos. Cada um coloabora como e com quanto puder e quiser. A única exigência é o uso paletó na hora de deitar no caixão.

De maneira geral, os ex-defuntos dizem que a experiência é boa, mas algo diferente acontece. Veja no vídeo abaixo o depoimento deles, de pretensos candidatos e de gente que não aceitaria de jeito nenhum entrar em um caixão.

MORTOS, PRETENDENTES E “DEUS É MAIS”

despedida do ano velho

Bebidas alcóolicas e um ensopadão são distribuídos gratuitamente no velório do Ano Velho, que começa ao meio-dia e termina por volta das 17 horas do dia 31 de dezembro.

Núbia Gonçalves dos Santos, 49 anos, e Célia Santana, 59 anos, são as responsáveis pela comida. Este ano foram 40 quilos de carne, doados pelos comerciantes do distrito, 40 quilos de quiabo, abóbora, batata, chuchu, pimenta, jiló e batata doce, além de seis quilos de arroz. Para beber, seis caixas de litrões de cerveja, cachaça e licores diversos.

O movimento do velório, no Mercado Municipal, aumenta da metade para o final da tarde. Às 14h45min, 60 pessoas estavam no local. Comiam, bebiam e dançavam a valer. Até o “defunto” José Augusto Moura, 66 anos, era um dos sambadores. Mas a sensação da folia era a dupla Antônio de Santinha, 63 anos, e Edivaldo Júnior dos Reis, 82 anos, nascidos e criados em Bonfim. Entre um gole e outro de cerveja, mostravam a habilidade no samba.

“Para esses velho não têm hora. Nós dançamos em qualquer lugar” – diz Santinha.

Uns poucos reverenciavam o “morto”, fazendo sinal da cruz e conversando com o boneco do caixão.

Nascido em Aracaju, o pecuarista José Augusto foi morar em Feira de Santana quando tinha sete anos. A família da ex-mulher era de Bonfim, que ele visitou pela primeira vez em 1972. Divorciado, pai de quatro filhos, está morando no distrito há 22 anos. Ele considera o local como sua terra. Vizinho de um cemitério, diz não acreditar em assombração.

samba e cachaça no velório

O RITUAL

A última missa do ano termina cerca das 22h30min. Hora do minitrio elétrico, puxado por Paulo de Lindaura sair pelas ruas. Depois de um aquecimento diante da igreja, o arrastão parte em direção ao Mercado Municipal para pegar o caixão. O povo segue dançando e requebrando. São pessoas de todas as idades. A agricultora Leonça de Jesus, 66 anos, andou uma légua (6 km) até a sede do distrito. Ela adora samba. Diz que dança em qualquer lugar, mas que não há festa melhor do que o Réveillon de Bonfim.

Da praça ao mercado são 200 metros de pura alegria. Poucas pessoas são autorizadas a entrar no local, dentre elas repórteres e os homens que vão segurar na alça do caixão. José Augusto é o primeiro a sair, carregando a cruz com seu nome e o ano que representa. A música não deixa ninguém ficar parado. De volta a praça, estouram morteiros. A queima de dois conjuntos de fogos de artifício é feita à meia-noite. Dura três minutos. Pouco importa o tempo.

O ponto alto vem a seguir. José Augusto entra no caixão. Comenta que o forro é confortável, enquanto amigos ajeitam calcinhas e as garrafas de cachaça que o acompanham. Ele é levado até o adro da igreja e retorna à praça para trocar de lugar com o boneco.

Um policial espalha dois litros de gasolina sobre o manequim e o caixão. Só uma pessoa pode acender o fósforo: o “defunto”. Ele tenta cinco vezes e falha. O fogueteiro pega a caixa de fósforo. Acerta de primeira.

As labaredas sobem. O povo canta, dança e bebe.