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Prece para o
rio São Francisco – Editorial

“Senhor, fazei-me instrumento da vossa paz”

Hoje é dia de São Francisco de Assis (1182-1226), o religioso italiano que fundou a Ordem dos Franciscanos. Filho de um rico comerciante de tecidos da cidade de Assis, Francisco renunciou aos seus bens e passou a se dedicar a Deus e aos pobres. Em 1224, deixou a direção da irmandade que criou para viver em contato com a natureza. Consta que, em sua presença, os peixes saltavam da água e os pássaros pousavam em seus ombros.

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Dívidas de fé

Por Helenita Monte de Hollanda e Biaggio Talento (vídeo) e Paulo Oliveira (texto)

A prática de pagar promessas com ex-votos, presente dado ao santo de devoção por alcançar uma graça, começou no século VI (6), a partir de apropriação de prática pagã feita pela Igreja Católica. Nos séculos XVII, XVIII e XIX (17, 18 e 19), ela foi predominante na Europa e nas Américas, difundindo-se nas colônias do novo mundo, incluindo o Brasil.

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Formosa do Rio Preto: posseiros pedem punição para fazendeiros após atentado

Por Paulo Oliveira e Thomas Bauer

Jagunços que estariam a serviço de grandes fazendeiros incendiaram casa dos posseiros. Foto cedida pela comunidade
Jagunços que estariam a serviço de grandes fazendeiros incendiaram casa dos posseiros. Foto cedida pela comunidade

Geraizeiros de Formosa do Rio Preto, município do extremo oeste da Bahia, realizaram manifestação na manhã desta quarta-feira, exigindo punição para fazendeiros responsáveis por atentado, atos de vandalismo, roubos, destruição de residências, árvores frutíferas e de um vasto buritizal. A ação dos pistoleiros ocorreu na última sexta-feira (3/9/2021). Os criminosos deram prazo para os posseiros deixarem o local até a data de hoje. E ameaçaram voltar caso não fossem obedecidos.

Os jagunços fazem rondas na região há dias. Encapuzados, impedem os posseiros de recolher as criações de animais. Há suspeitas de que o grupo atue a mando dos donos das fazendas interessados na expulsão da comunidade tradicional.

Formosa do Rio Preto está localizada há 1.019 quilômetros da capital baiana (Salvador). É o maior município do estado (15.634 km²), segundo maior produtor de soja do país e o 11º em Valor de Produção Agrícola, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e nota técnica do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

A ocupação da região pelo agronegócio se expandiu a partir da grilagem de terras. Nos últimos 20 anos, grandes fazendeiros investiram contra as terras em posse dos geraizeiros, normalmente alagadas e impróprias para plantações em grande escala, mas importantes para o cumprimento da lei que determina a preservação de 20% da mata nativa das propriedades.

Sem cumprir essa exigência, os latifundiários não conseguem obter empréstimos, nem outros benefícios. Para cumprir a legislação, empresários do agronegócio tentam tomar os territórios de povos tradicionais que desenvolveram a habilidade de cultivar às margens de pequenos cursos de água e sobrevivem do extrativismo, criação de animais soltos e da agricultura de subsistência. A prática é conhecida como “grilagem verde”.

“Essa história vem de muito tempo. Entre 2002 e 2004 eles [os grandes fazendeiros] quiseram tirar nós. A gente apelou à justiça com ajuda de uns órgãos aí. Chegamos a fazer um acordo pra ninguém mexer com nós” (sic) – diz uma das vítimas da ação de jagunços, que estariam a serviço dos proprietários da Canabrava Agropecuária e da fazenda Itapuã.

O posseiro acrescentou:

“Em 2012 e 2013, eles voltaram a nos atacar, queimando casas e derrubando cercas. A gente reerguia as cercas e, no outro dia, eles iam e derrubavam. Resistimos e nos sentimos seguros achando que tinham nos esquecidos. Mas a trégua acabou agora. Quando foi na sexta-feira passada, ficamos espantados, foi uma coisa de repente”

O ATENTADO

 Na manhã do dia 3 de setembro, quatro caminhonetes – três Hilux pretas e uma S10 ¬ invadiram as roças dos posseiros que moram na comunidade São Marcelo e plantam suas roças na beira do rio Sapão, onde vivem cerca de 80 famílias. Nos carros estavam entre 18 e 20 homens armados e encapuzados com “tudo que é tipo de arma”, de acordo com uma das vítimas.

Primeiro entraram na área do Canto do Brejão e atiraram em direção a uma caminhonete Ford 250, fretado pelas famílias geraizeiras a caminho das suas posses na beira do Rio Sapão. No veículo estavam homens, mulheres, idosos e crianças. Oito tiros atingiram o veículo, mas ninguém foi atingido. Em seguida, os pistoleiros derrubaram cercas e atearam fogo nas estacas.

Os capangas também roubaram geradores, saquearam e atearam fogo em pelo menos cinco residências, cortaram árvores frutíferas com motosserras e incendiaram currais. No total, a área destruída chega a 15 hectares. O caso foi registrado na delegacia de polícia civil do município de Barreiras.

E, segundo os moradores, os principais suspeitos são os irmãos Mário Renato e Mário Fernando Palmério Assunção, herdeiros de Fernandino José Assunção e atuais proprietários da Canabrava Agropecuária, em cuja propriedade são plantados algodão, milho e soja, e Jaci Pimentel, da Fazenda Tupã.

Sobre o protesto de hoje de manhã, em frente ao fórum de Formosa do Rio Preto, uma das participantes contou que inicialmente os portões estavam fechados para impedir a entrada dos geraizeiros:

“A gente falou não haver necessidade de trancar o portão, mas eles colocaram cadeado.” – disse.

Após o contratempo, um grupo de posseiros e advogados foi recebidos pela promotora Caroline Maronita Stange, um delegado e um juiz. Na ocasião, foram ouvidos e conseguiram tornar público o ocorrido.

HISTÓRICO

 As posses na região conflagrada são antigas. No caso das existentes às margens do rio Sapão, elas servem às famílias do povoado de São Marcelo para a criação de gado e para plantios de subsistência.

Entretanto, desde a instalação da Fazenda “Santa Maria – Gleba Tapuio” pela empresa “Canabrava Agropecuária”, nos anos 90, os territórios tradicionais dos geraizeiros são desrespeitados.

O latifúndio é consequência de uma fabricação de título suspeito. E remete à matrícula de uma gleba denominada “Frutuoso da Fazenda Santa Maria”, cuja extensão encontra se quantificada como “duzentos braças”, registrada no Livro de Registro Eclesiásticos de Terras da Freguesia de Santa Rita de Cássia.

No início do ano de 1980, José Raul Alkmin Leão (que já tinha sido preso por grilagem de terras no Estado do Piauí) adquiriu a posse desta gleba. A aquisição foi registrada no Cartório de Santa Rita de Cássia. Fraudulentamente, transformou essa posse de 200 braças (290 hectares) em 382.354 hectares. Dois anos depois, desmembrou 143.000 hectares e os vendeu para o mineiro Fernandino José Assumpção, então proprietário da Canabrava Agropecuária Ltda.

A partir daí, começou um desenfreado processo de comercialização – venda ou arrendamento – de glebas desmembradas do latifúndio.

O poder público tem conhecimento da situação. Em 1999, a área da Canabrava Agropecuária entrou nos registros do “Livro Branco de Grilagem de Terras no Brasil”, no qual o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) reconhece casos de grilagem e corrupção agrária.

Os posseiros tomaram conhecimento ontem que Mário Fernando Palmério Assunção, proprietário da Canabrava Agropecuária, esteve na manhã de segunda-feira – três dias após o atentado no qual ele seria um dos suspeitos – na delegacia de Formosa de Rio Preto para comunicar um “fato delituoso”.

De acordo com Mário Fernando, na manhã de sábado (4/9), seus empregados promoveram a retirada de cercas e currais construídos sem autorização, na área da Fazenda Santa Maria, pertencente à empresa Canabrava. Ele acrescenta que as demolições ocorreram de forma “pacífica e ordeira”, sem a presença de pessoas estranhas ou de terceiros.

O fazendeiro não identificou os funcionários que teriam feito o serviço e acusou pessoas não identificadas de promoverem a degradação da área de preservação permanente do rio Sapão, de onde teriam sido retiradas madeiras utilizadas nas construções irregulares.

Além da Canabrava Agropecuária, o fazendeiro é dono da Incorporadora Canabrava Empreendimentos Imobiliários, da Canabrava Participações, da MMA Guarda de Documentos e da Sociedade de Fomento Mercantil e Serviços. Três das empresas estão sediadas no mesmo prédio em que Mário Fernando Palmério Assumpção declarou como residência, no bairro de Abadia, em Uberaba (MG). A quarta fica localizado na cidade de Prata (MG).

–*–

A reportagem foi atualizada no dia 9 de setembro de 2021, às 17h32min. Os quatro últimos parágrafos foram incluídos neste dia e hora.

Garimpo

SONHO DE GARIMPEIRO

Depoimento de Arceno Mendes Paiva, 83 anos. Povoado Bilu, município de Uibaí (BA)

“Quero contar um sonho bom danado que eu tive. O garimpeiro vive sonhando acordado ou dormindo. E eu fui garimpeiro, estou nesta idade e não paro de sonhar. Tive um sonho bem claro outro dia, e é o mesmo que eu tá vendo a cena. É pena que eu já tô muito velho, o corpo não responde, só tô andando distância curta e de bastão, mas se eu ainda tivesse força, ia bater lá.

O lugar fica entre dois garimpos que dá uma légua de um pro outro. Eu já tive lá, com toda certeza. Entre um garimpo e outro, tinha uma praia bonita, uma estrada… E no sonho eu ia passando perto de uma mata, já atravessando pro outro lado e vi aquela bola parecendo uma lua cheia suspensa no ar. Êta que bola bonita! Eu disse: “Mas que negócio bonito é aquele?” Fiquei naquela ânsia de ir lá, mas aí assustei. Nunca vou esquecer aquele sonho. É diamante, com certeza! Nunca vou poder ir lá, pois as forças das pernas acabaram, agora só
posso sonhar.

Mas eu vou contar uma coisa de um tempo que até parece que foi sonho. Em 1959, vim de Gentio do Ouro para este dito lugarzinho aqui, onde a gente tá em cima agora. Vim com dezoito contos na perna, um dinheiro que se fosse hoje dava pra comprar carro novo. Dezoito contos dava pra tanta coisa… Terra mesmo era quase de graça, cada propriedade era de conto abaixo. Aqui só tinha umas quatro casinhas cobertas de tábua – que eram ranchos, na verdade – uns carreirinhos que iam pras roças e uma mata esquisita.

Anos antes de chegar por aqui, saí de Gentio do Ouro numa jornada danada, cortando cento e vinte léguas pro Piauí. Eu e dezoito pessoas, homem e mulher, todo mundo garimpeiro, todo mundo a pé – antigamente se cortava muita distância na canela, eu mesmo conheci muito lugar, caminhando. Os animais só iam com carga de comestível e ferramenta.

Chegando lá, a gente enxergou que aquilo era um formigueiro. Sabe quando elas tão virando tanajura? Bem assim era lá, em Geribués, onde diamante era que nem farinha. Diamante lá parecia um dilúvio, sabe? A gente acordava cedo e fazia um churrasco com muita carne. A comida era quase que somente carne. Carne de gado. E muitas vezes a gente passava o dia só com aquilo. Mas às vezes, lá no mato, perto do serviço, se fazia café e alguma outra coisa. Depois de barracar, se faz de um tudo. Tive lá quatro anos, de 1946 a 1950, e o que ganhei
deixei por lá, não trouxe nem um conto. Eu era moço e a vida de garimpo por aí já se sabe
como é, é muita farra.

Tem garimpo que o serviço é raso, mas com o tempo vai passando dos trinta palmos. O sujeito abre o buraco com um metro de boca, aí vai cavando até dar no cascalho. Ele rompe até não sei quantos metros por baixo do chão e especa tudo aquilo com pau ou forquilha. É um perigo porque aquilo desaba e leva vida. Teve ocasião da polícia interditar quando acontecia desabamento. Uns queriam salvar os outros e se acabavam também. E você sabe, garimpeiro é bicho destemido, faz o rompimento que pode encontrar com o de outros companheiros que já
vêm cavando do outro lado por debaixo do chão. Fica aquele mundo sem fim, tudo especado no birro de pau. Tive em lugar que quase morri. A iluminação por baixo era de candeeiro com matula no querosene ou no leite de mamona. Mas, com tudo isso, garimpar ainda é um sonho.”

–*–

Livro: Um Conto de Cada Canto. Pág 95 a 97. Projeto aprovado pelo Programa BNB de Cultura 2009. Pita Paiva

–*–

DICIONÁRIO DO GARIMPEIRO

Barrracar – Armar barraca para pouso durante o tempo em que se estiver trabalhando.

Especar – Escorar

Esquisita – Muito grande, enorme.

Geribués – Gilbués, município do estado do Piauí

Matula – Mecha do candeeiro

Rompimento – Escavações ou túneis feitos por garimpeiros.

 

 

 

Pita Paiva, o mestre da xilogravura

Sábado era um dia especial para o pequeno Lindomar, penúltimo dos 12 filhos do professor leigo e político Sinobelino Sancho Paiva e de dona Elizabete. Pita, apelido que ganhou por se parecer com o primo Epitácio, não via a hora do pai chegar da feira para saborear duas coisas: o pão doce e os romances, como eram chamados os livretos de cordel na comunidade Laranjeiras, em Uibaí (BA) e pelo sertão afora.

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Bahia no alto do ranking de conflitos por terra e por água

A 35º edição do relatório que contabiliza dados sobre conflitos e violência sofridas pelos trabalhadores do campo, indígenas, quilombolas e demais povos tradicionais revele que o número de ocorrências (2.054) cresceu 8% em 2020. No ano anterior foram 1.903. A quantidade de conflitos é a maior desde 1985, quando a Comissão Pastoral da Terra (CPT) começou a divulgar as estatísticas.

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Os vídeos de Jeremoabo

Jeremoabo é uma cidade com cerca de 400 anos de história. No século XVII, Garcia D’Ávila, o senhor da Casa da Torre, capturou nativos para escravizá-los durante o processo de desbravamento do Nordeste e de expansão da criação de gado bovino. Dono da maior sesmaria do mundo, o administrador colonial português teve divergências com os missionários que se opuseram à escravização dos indígenas muongurus e cariacás, descendentes dos Tupinambás. Em represália, D’Ávila incendiou o aldeamento dos jesuítas.

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Aventuras de um colecionador
de moedas sociais

O comerciante Paulo José Farias de Barros, 50 anos, percorreu de motocicleta os 728 quilômetros que separam Salvador (BA) de Juazeiro do Norte (CE) para conhecer o Banco Comunitário Timbaúbas e comprar cédulas de Timba, nome dado a uma das muitas moedas sociais criadas para fortalecer economicamente territórios vulneráveis de todo o país. Ao chegar, viu que o estabelecimento estava desativado.

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Dicionário de afetos

Capa do Dicionário de afetos e parcerias de Ana Barroso versão BárbaraFicha técnica:

Autor: Paulo Oliveira
Pesquisa: Paulo Oliveira
Fotos: Divulgação e outros
Edição: Paulo Oliveira
Total de páginas: 16

 

 

 

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Resumo: A cantora e atriz Ana Barroso, em entrevista ao site Meus Sertões, revelou quais foram os artistas que influenciaram sua carreira na música e nos palcos. Além disso, fez um apanhado de artistas com quem fez parcerias e gravou o primeiro álbum. O dicionário mostra como a cena artística de Vitória da Conquista, terra natal de Ana, é repleta de talentos. Revela ainda músicos baianos, de outros estados e até do exterior com quem trabalha recentemente. O cenário teatral também é descortinado. Os verbetes incluem os afetos que Ana distribui para pessoas próximas.

DOAÇÕES

O livro é gratuito. No entanto, quem quiser ajudar na manutenção e na sustentabilidade do projeto pode depositar qualquer valor na seguinte conta bancária:

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