Categoria: Reportagem multimídia

Bloqueio total contra a Covid-19

O Comitê Científico de Combate ao Coronavírus (C4NE), grupo de cientistas, médicos e profissionais da saúde que assessoram os governadores do estados do Nordeste no combate à Covid-19, divulgou novo boletim propondo a contratação de médicos intensivistas, a regulação de vagas em UTI (fila única nas redes pública e privada), o planejamento de lockdown (bloqueio total) e a intensificação da formação das brigadas de saúde, formadas por médicos diplomados em outros países.

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O mosteiro de Jequitibá – Série: parte 1

Quais foram os motivos que levaram monges cistercienses a deixar Schlierbach, na Áustria, e construir um mosteiro em um povoado do município de Mundo Novo (BA), localizado a 8.827 km de distância da cidade europeia? O que fez a Ordem mudar a estratégia de construção, que consistia no aproveitamento de terras em vales e áreas encharcadas, prática que a levou dominar a arte de irrigação,  para erguer um monastério em um morro ?

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O homem dos 400 casamentos

O juiz de paz Renato Costa Rebouças, 89 anos, guarda na memória e em anotações feitas em cadernos a história dos distritos de Paraguaçu e Argoim, em Rafael Jambeiro, onde trabalhou no único cartório da região de 1971 a 1993, realizando casamentos – cerca de 400 – homologando demissões e resolvendo questões mais simples de disputas de terras e partilhas.

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A cremação do Ano Velho

No distrito de Bonfim de Feira, a 34 quilômetros de Feira de Santana, uma festa criada por um agente funerário há 47 anos, se transformou na mais inusitada despedida de Ano Velho do Brasil. Este ano, centenas de pessoas saíram em cortejo pelas ruas, carregando um caixão com um manequim e sambando.

Depois de substituir o boneco pelo “defunto do ano”, o pecuarista José Augusto Moura, 66 anos, que representou 2019, e carregá-lo até a Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, sempre ao som de música, o caixão foi colocado na praça principal e incinerado.

A folia continuou com a apresentação do grupo Quixabeira da Matinha, formado por trabalhadores rurais que criam sambas marcados por ritmos de manifestações como a bata do feijão, folia de reis, cantigas de roda e boi da roça.

Gilmário Moreira da Silva, 70 anos, servidor público federal aposentado pela Funasa, foi quem inovou o que era uma simples brincadeira inventada por Vidal Carneiro de Souza, que herdou do pai a única funerária de Bonfim de Feira, para não deixar passar em branco o Ano Novo.

“Em 1972, ele pegou um caixão velho, roído de cupim e saiu com um grupo de amigos pelas ruas, batendo palmas e cantando assim: “O Ano Velho morreu, morreu, morreu…”. No final, queimou tudo. Depois de cinco anos, a participação ainda era pequena. Ele me procurou e perguntou se eu queria assumir a festa. Afirmou que não tinha mais interesse, mas continuaria a doar um ataúde todo ano. Sempre fui festeiro e já tinha umas ideias para incrementar o final do ano. Aceitei o desafio” – conta Gilmário.

A primeira inovação foi colocar um boneco dentro do caixão para fazer o papel de defunto. Também resolveu homenagear uma pessoa da comunidade, levando-a dentro do esquife, enquanto o povo seguia atrás sambando. Na primeira vez, encontrou dificuldade. Os moradores consideravam um mau agouro. A questão foi resolvida de forma simples: Gilmário foi o primeiro a representar a morte do Ano Velho, em 1977. Outro fator ajudou a quebrar a crença de que participar da brincadeira poderia atrair a morte verdadeira: estava todo mundo bêbado.

Daí por diante, outras funerárias passaram a oferecer os adereços fúnebres, incluindo a urna, a cruz e a sentinela. Hoje, duas empresas de Feira de Santana se revezam na entrega dos produtos. Um caixão é queimado e outro é guardado por um ano na casa de Gilmário “Boca de Traíra”, o que provoca reclamações da família. Cada urna custa cerca de R$ 800.

Antes de se tornar tradição, a festa da cremação do Ano Velho sofreu um baque. Dois motivos fizeram Gilmário deixar o comando do evento, embora ele frise que deu um tempo na atividade para atender a mulher, a irmã e os filhos, que se queixavam por ele não os acompanhar no Réveillon na Praia de Guarajuba, em Camaçari (BA).

Amigos próximos, porém, contam que o organizador estava preocupado com a falta de segurança e com uma onda de delitos registrados, à época, na região. O servidor aposentado não conseguiu convencer ninguém a substituí-lo e Bonfim de Feira ficou sem festa de final de ano durante 19 anos (1996 a 2014).

Atendendo pedidos dos amigos, no entanto, voltou a promover o evento em 2015. Hoje, com o apoio da comunidade, das emissora regionais de rádio e  TV, da Polícia Militar e da prefeitura de Feira, que banca a principal atração musical, Gilmário está mais tranquilo.

O defunto do Ano Velho é escolhido por uma comissão de sete pessoas (Gilmário, Beto Chaparral, Borracheiro, Paulo de Lindaura, Gílson Reis, Cristóvão e Nem de Ovídeo). Eles sugerem nomes, que são definidos por votação com um ano de antecedência. O de 2020 está definido: será o pecuarista Estevão Ferreira.

O ritual para obter a aprovação do “homenageado” consiste em consultá-lo e conferir se a companheira dele concorda. Tudo acertado, começa a divulgação do “futuro defunto” no distrito, através de carro de som. Imprevistos podem alterar a escolha. O morto de 2019 foi a terceira opção. Os dois primeiros desistiram. Um deles ficou adoentado e o outro perdeu um parente. O argumento para convencer a pessoa a deitar no caixão inclui o fato de que não há gastos. Cada um coloabora como e com quanto puder e quiser. A única exigência é o uso paletó na hora de deitar no caixão.

De maneira geral, os ex-defuntos dizem que a experiência é boa, mas algo diferente acontece. Veja no vídeo abaixo o depoimento deles, de pretensos candidatos e de gente que não aceitaria de jeito nenhum entrar em um caixão.

MORTOS, PRETENDENTES E “DEUS É MAIS”

despedida do ano velho

Bebidas alcóolicas e um ensopadão são distribuídos gratuitamente no velório do Ano Velho, que começa ao meio-dia e termina por volta das 17 horas do dia 31 de dezembro.

Núbia Gonçalves dos Santos, 49 anos, e Célia Santana, 59 anos, são as responsáveis pela comida. Este ano foram 40 quilos de carne, doados pelos comerciantes do distrito, 40 quilos de quiabo, abóbora, batata, chuchu, pimenta, jiló e batata doce, além de seis quilos de arroz. Para beber, seis caixas de litrões de cerveja, cachaça e licores diversos.

O movimento do velório, no Mercado Municipal, aumenta da metade para o final da tarde. Às 14h45min, 60 pessoas estavam no local. Comiam, bebiam e dançavam a valer. Até o “defunto” José Augusto Moura, 66 anos, era um dos sambadores. Mas a sensação da folia era a dupla Antônio de Santinha, 63 anos, e Edivaldo Júnior dos Reis, 82 anos, nascidos e criados em Bonfim. Entre um gole e outro de cerveja, mostravam a habilidade no samba.

“Para esses velho não têm hora. Nós dançamos em qualquer lugar” – diz Santinha.

Uns poucos reverenciavam o “morto”, fazendo sinal da cruz e conversando com o boneco do caixão.

Nascido em Aracaju, o pecuarista José Augusto foi morar em Feira de Santana quando tinha sete anos. A família da ex-mulher era de Bonfim, que ele visitou pela primeira vez em 1972. Divorciado, pai de quatro filhos, está morando no distrito há 22 anos. Ele considera o local como sua terra. Vizinho de um cemitério, diz não acreditar em assombração.

samba e cachaça no velório

O RITUAL

A última missa do ano termina cerca das 22h30min. Hora do minitrio elétrico, puxado por Paulo de Lindaura sair pelas ruas. Depois de um aquecimento diante da igreja, o arrastão parte em direção ao Mercado Municipal para pegar o caixão. O povo segue dançando e requebrando. São pessoas de todas as idades. A agricultora Leonça de Jesus, 66 anos, andou uma légua (6 km) até a sede do distrito. Ela adora samba. Diz que dança em qualquer lugar, mas que não há festa melhor do que o Réveillon de Bonfim.

Da praça ao mercado são 200 metros de pura alegria. Poucas pessoas são autorizadas a entrar no local, dentre elas repórteres e os homens que vão segurar na alça do caixão. José Augusto é o primeiro a sair, carregando a cruz com seu nome e o ano que representa. A música não deixa ninguém ficar parado. De volta a praça, estouram morteiros. A queima de dois conjuntos de fogos de artifício é feita à meia-noite. Dura três minutos. Pouco importa o tempo.

O ponto alto vem a seguir. José Augusto entra no caixão. Comenta que o forro é confortável, enquanto amigos ajeitam calcinhas e as garrafas de cachaça que o acompanham. Ele é levado até o adro da igreja e retorna à praça para trocar de lugar com o boneco.

Um policial espalha dois litros de gasolina sobre o manequim e o caixão. Só uma pessoa pode acender o fósforo: o “defunto”. Ele tenta cinco vezes e falha. O fogueteiro pega a caixa de fósforo. Acerta de primeira.

As labaredas sobem. O povo canta, dança e bebe.

A Capina do Monte de Serra Preta

Os relatos dos moradores de Serra Preta, no sertão baiano, dão conta de que seus ancestrais que viveram mais de 100 anos já participavam da Capina do Monte, festa tradicional, mistura de fé, devoção, alegria, música, dança e comilança. No entanto, ninguém sabe explicar quando e porque a população começou a subir o Monte da Santa Cruz, capinando e cantando por mais de cinco horas. Com a conclusão do trabalho são feitas orações. Em seguida, os participantes descem o morro batendo pedras nas enxadas e entoando cantigas até se encontrarem com a zabumba (fanfarra) e dar início a um carnaval fora de época.

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Curta sertanejo

Após a morte prematura, Fernandi de Seu Neto ficou preso na Terra para pagar uma dívida: a promessa de rezar uma ladainha para o Senhor do Bonfim caso conseguisse um jogo de camisas para o time de futebol em ele que jogava. Desesperado para cumprir o prometido, o rapaz passa a assombrar a família da amiga Nita Esta é a sinopse do filme “A História Trancosa de Fernandi”, primeira produção do Clube Audivisual de Ichu (Cavi), cidade do sertão baiano, que disputa a categoria adulta do 8º Festival de Curta da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) com 52 outros filmes de 10 estados (BA, GO, MG, PA, PB, RJ, RS, SC, SP e TO).

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Seu Zé – Capítulos I, II e III

Mal a lua crescente, propícia para plantar milho, arroz, feijão e tomate, deixou o céu, o beato Pedro Batista da Silva chamou o agricultor José Rodrigues dos Santos e pediu para tirá-lo da cama e sentá-lo em uma rede. Nos últimos quatro anos, Seu Zé, homem de confiança do “Padrinho Pedro”, cuidava do homem santo responsável pelo desenvolvimento de Santa Brígida, cidade do sertão baiano.

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O resgate do aluá

O aluá é uma bebida fermentada e refrescante, preparada com milho ou abacaxi, adoçada com rapadura ou açúcar mascavo. Sua origem é controversa em função de existirem preparos semelhantes entre os indígenas brasileiros, os povos africanos e os europeus.

A bebida foi incluída na Arca do Gosto, catálogo mundial que identifica, localiza, descreve e divulga sabores ameaçados de extinção. A iniciativa visa contribuir para recuperar alimentos e ressaltar a riqueza de produtos que a terra oferece.

Sete anos antes da criação do movimento de preservação de sabores (1996), o historiador Sebastião Gonçalves Passos, 85,  já lutava para preservar o aluá, que junto ao refresco de gengibre, eram os únicos “refrigerantes” no tempo em que ele era criança e brincava nas ruas de Jeremoabo, no sertão baiano, onde vive até hoje.

No início dos anos 40, a bebida era feita por três irmãs negras – Eutímia, Suru e Cota – e por uma feirante, vendedora de doces diversos, chamada de Vovó Maria. Após o catecismo, aos domingos, as crianças iam para casa de Eutímia, onde um pote de barro com refresco era rapidamente esvaziado.

As velhas senhoras ensinaram, a quem quis aprender, como fazer o aluá. Depois que morreram, a tradição foi sumindo. O tempo passou e o refresco deixou de ser produzido. Até que Sebastião, há 30 anos, resolveu resgatá-la da forma como lembrava, usando apenas milho e água.

“Um dia me lembrei do aluá e disse: “vou tentar fazer”. O mais importante é o pote de barro, onde o milho é fermentado. O último vasilhame que comprei não deu certo. O gosto do refresco não ficou bom. O tipo de barro é importante. O aluá é delicado, qualquer coisinha se perde. Voltei a fazer no pote velho mesmo” – conta.

Sebastião lembra que as senhoras que faziam o aluá na primeira metade do século passado, faziam como os antepassados. Colocavam palha de banana no chão, em local limpo, colocavam o milho pousado nela, depois molhavam e cobriam com mais palha.

Oito dias depois, quando o milho estava germinando, era levado para o pilão. Em seguida, picado até virar xerém (farinha de milho). O milho moído era colocado em um pote de barro, onde ficava de molho por três ou quatro dias. Um pano braco era amarrado à boca do pote, tampando-a totalmente.

Sebastião, 85 anos, luta para preservar o aluá.
Sebastião, 85 anos, luta para preservar o aluá

Sebastião não segue à risca a primeira parte da receita. Para acelerar a preparação, que do jeito dele leva seis a oito dias, ele compra dois pacotinhos de xerém. Assim, pula a parte da germinação e do pilão.

“Hoje o milho já tá pisado, então tem mais facilidade. Boto de molho hoje; amanhã, lavo bem lavado em quatro, cinco ou seis águas. Em seguida, boto no pote de barro por três dias e amarro o pano na boca da botija” – ensina.

No tempo antigo, na etapa seguinte, o pote ia para o fogão a lenha, onde ficava por duas, três horas, cozinhando em fogo brando. Hoje, o historiador tira o milho do pote e coloca em uma panela de alumínio, levando-a para o fogão a gás. Depois de 20 minutos de cozimento, começa a mexer. O produto vai ganhando consistência como uma canjica.

“Você tem que continuar mexendo para não pegar. Aí quando começa a bufar, fazendo plac, plac, plac, mais ou menos uma hora depois que foi ao fogo, tiro da panela de alumínio e recoloco no pote de barro, sem que ele tenha sido lavado” – explica.

Agora é deixar esfriar por 12 horas mais ou menos. Se foi feito pela manhã, por volta das 11 horas da noite o vasilhame de barro está frio. Hora de voltar a fechar a boca com pano branco e deixar três dias descansando. Após esse período é pegar o milho, que fica igual à massa de polenta, colocar em um copo, dissolver com água gelada e colocar açúcar à vontade.

O aluá, acrescenta Sebastião, é uma bebida festiva. Normalmente era feito para ser consumido nas festas juninas, aniversários e no Natal. Hoje, o historiador faz quando tem vontade. Serve para família e para os amigos como o coronel João Carlos Gama de Oliveira, que mora em Salvador, mas lhe visita toda vez que retorna a Jeremoabo, a fim de beber aluá.

Sebastião ressalta que ele e um de seus irmãos sabem preparar o antigo refresco. Diz que não conhece ninguém mais que o faça. Ele admite que só não gosta muito quando tem que mexer a bebida no fogo porque ela exala um cheiro desagradável.

“Mas beber é gostoso e compensa todo o trabalho” – garante

ORIGENS PROVÁVEIS

O site Slow Food Brasil, que divulga a história dos alimentos que fazem parte da Arca do Gosto, ressalta que os indígenas brasileiros preparavam bebidas fermentadas de milho, mandioca e frutas nativas há séculos. As técnicas de fermentação variavam, de acordo com os pesquisadores, de acordo com as regiões e os ingredientes, podendo utilizar enzimas da saliva ou leveduras espontâneas.

Na África, prossegue o Slow Food, bebidas fermentadas eram feitas à base de cereais, seivas de palmeiras e frutas. Posteriormente, povos como os Ovimbundu, do sul de Angola, passaram a usar produtos da América como o milho e o abacaxi. Lá, bebida parecida com o aluá é chamada de kissanga e vendida em locais públicos.

Os colonizadores portugueses também faziam refrescos, fermentando pedaços de pão e cereais, acrescidos de especiarias, aromas e beterraba. Essa é a provável origem do “aluá de pão” até hoje presente nas mesas do interior cearense.

No século 19, o aluá ficou popular em todas as classes sociais. Com baixo teor alcoólico, passou a ser consumido até por crianças. Ainda segundo o Slow Food Brasil, o refresco é citado em diversos livros. Em um deles, Eloy de Souza relata que no Rio de Janeiro era vendido “em potes de barro muito limpos, à cabeça das negras velhas”.

O aluá se espalhou pelo Brasil durante a ocupação e colonização do Nordeste. Também está presente nos rituais de religiões afro-brasileiras, onde é oferecido às divindades e participantes.

No distrito de Morro Vermelho, em Caeté, Minas Gerais, desde o século 17, são realizados ritos onde há o consumo de aluá, produzido a partir da fermentação de frutas, restos de alimentos e rapadura. A bebida é servida em copos de barro durante a Festa de Nossa Senhora do Rosário, em outubro.

Independente das variações regionais– muitas delas utilizam especiarias nas receitas -, o aluá faz parte da cultura brasileira. Sua preservação é importante para perpetuar a tradição indígena, quilombola e nordestina, além de resgatar uma bebida saborosa e saudável.

 BOM EXEMPLO

RECEITA

Em levantamento feito por Meus Sertões, esta é a receita atual mais simples:

Ingredientes
1 kg de milho seco
1 kg de açúcar mascavo
Cravos-da-índia
Gengibre
Erva doce
Água

Modo de fazer
Torre o milho no forno por uns 20 minutos. Em seguida moa os grãos e despeje-os em um pote de barro. Acrescente a água e o açúcar. Deixe descansar por 24 horas. Depois  desse tempo coloque as especiarias  (cravo – gengibre e erva doce) também moídos e deixe por mais um dia. Se achar  necessário, coe a bebida com um pano e na hora de servir acrescente gelo.