Categoria: Meus Sertões

Festa para
São Justino em Riachão do Jacuípe

Entre a beatificação e a santificação do padre Justino Russolillo, fundador da Congregação Religiosa Sociedade das Divinas Vocações (Vocacionistas), foram 11 anos de espera. Em Riachão do Jacuípe (BA), uma das quatro paróquias da irmandade na Bahia e a maior do Brasil, o último domingo, dia 15 de maio, foi marcado pelo acompanhamento do evento no Vaticano, seguido da celebração de missa – clique aqui para assistir a cerimônia, procissão e carreata da Igreja Matriz até a capela do agora São Justino, no bairro Santa Mônica.

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A elitização da primeira escola militarizada

Paulo Oliveira

Uma escola em processo de elitização e excludente. Este é o caminho que o Colégio Maria do Carmo de Araújo Maia, em Campo Formoso (BA), o primeiro a adotar o sistema compartilhado com a Polícia Militar na Bahia, tomou desde que se transformou na primeira escola municipal militarizada do estado. O diagnóstico feito por um oficial que comanda uma equipe disciplinar no interior bate com o que Meus Sertões encontrou no município ao reconstituir a experiência com os antigos gestores e os atuais responsáveis pela prefeitura e pelas áreas educacional e de segurança. Essa história começou em 2018.

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A história do colégio Maria do Carmo

Paulo Oliveira 

O projeto político-pedagógico da Escola Professora Maria do Carmo de Araújo Maia, que circulou inicialmente entre os diretores da unidade de ensino, estabelecia como missão “formar cidadãos (…) para o tão competitivo mercado de trabalho e estimular o ingresso na carreira militar”. Na conclusão do plano também ficava evidente a percepção de que o perfil dos alunos do colégio mudaria, pois o próprio CPM, inicialmente voltado às classes populares, se expandiu e diversificou o público-alvo.

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Mães aprovam modelo CPM, filhos nem tanto

Linda Gomes e Paulo Oliveira

A minha alma tá armada
E apontada para a cara do sossego
Pois paz sem voz, paz sem voz
Não é paz, é medo!
Minha alma (A paz que não quero) – O Rappa

O medo do envolvimento dos filhos com drogas e outros crimes ou de que sejam vítimas da violência é um dos principais motivos para as mães aprovarem a proposta de ensino cívico-militar. A estratégia de instalar o método em escolas localizadas em áreas de elevados índices de criminalidade amplia a defesa da militarização do ensino.

Na Bahia, o discurso das autoridades de que são os pais que decidem onde os filhos devem estudar, portanto a vontade de crianças e adolescentes não é prioridade, encontrou eco em um contexto de violência, vulnerabilidade e precariedade de serviços.

Em Campo Formoso, a 405 quilômetros de Salvador, é comum ouvirmos moradores e professores citarem que o maior número de assassinatos da cidade ocorria nos bairros no entorno da escola Professora Maria do Carmo de Araújo Maia.

Aline, mãe representante, dá depoimento para a comunidade escolar. Foto: Paulo Oliveira

Segundo a ex-diretora Florineide Andrade de Oliveira, em 2017, um ano antes da assinatura do convênio de gestão compartilhada entre a Polícia Militar e a prefeitura, foram registradas seis mortes violentas na região. As vítimas eram estudantes ou parentes deles.

Diante desse cenário, Meus Sertões constatou que, principalmente as mães, elogiam o método adotado pela escola Maria do Carmo. Algumas até preferem um “colégio militar de verdade”, como o CPM de Juazeiro, distante 153 quilômetros dali. A aprovação da maioria, no entanto, não livra a prefeitura e a corporação de críticas diante de ocorrências de bullying e agressão.

Os bairros no entorno da escola sofrem ainda com a falta de saneamento básico. As obras de construção da estação de tratamento de esgoto e de recuperação das redes coletoras na sede do município ficaram paralisadas por 10 anos e a previsão é de conclusão a partir de 2023.

sem punição

A orientadora social Laís Silva se entusiasmou com a notícia da militarização do estabelecimento de ensino frequentado pela filha mais velha. Ela passou a se sentir mais segura.

“Antes da chegada dos militares, os alunos usavam drogas dentro da escola e quebravam cadeados e carteiras. Tinha negócio de briga com faca. Depois, a gente não ouviu falar mais disso” – disse.

A suposta tranquilidade foi quebrada quando a filha de Laís passou a sofrer bullying e foi agredida na escola:

“Minha menina sempre foi tranquila. Mas, ano passado, passamos por um processo muito difícil. Ela começou a sofrer assédio moral e ser humilhada por causa do nome incomum e por ser gordinha. Um menino chegou a dar um chute nela. Reclamei na escola. Depois disso, o agressor pediu desculpas, mas não foi punido” – contou.

Auditório do novo colégio. Foto: Paulo Oliveira

Outro fator de descontentamento foi a mudança do colégio para o prédio da antiga escola rural Gilcina Carvalho, na estrada de acesso ao vizinho município de Antônio Gonçalves. Laís foi uma das poucas a se posicionar contra. O restante da comunidade não questionou o prefeito Elmo Nascimento (DEM) quando ele disse que a transferência atendia a demanda de novos alunos.

Embora reconheça que as instalações do novo prédio são maiores, mais confortáveis e incluem a climatização das salas de aula, Laís enumerou uma série de problemas criados a partir da mudança:

“Os tutores disciplinares não acompanham os alunos nos ônibus escolares, não há aulas de reforço para quem se atrasa como no início, as portas dos banheiros femininos não têm trincos, a qualidade dos uniformes dados pela prefeitura deixa a desejar e faltou merenda nos primeiros dias de aula”.

O pior, no entanto, foi o recrudescimento da violência nos bairros próximos à antiga escola. Com relação a isso, moradores relataram que o prefeito anunciou um acordo com a PM para intensificar as rondas da 54ª Companhia Independente para não diminuir a presença da polícia no bairro. Mesmo assim, uma facção criminosa teria se instalado na área.

Major Ângelo palestra no colégio. Foto: Paulo Oliveira

O major Miguel Ângelo de Souza Veloso Monteiro, comandante da 54ª CIPM, avaliou que a cidade tem uma realidade que não difere do restante do país e sustentou ter reforçado o policiamento com rondas motorizadas. Segundo ele, não houve prejuízo para a segurança da localidade.

Tudo isso, porém, não tirou a confiança de Laís nas escolas militares ou militarizadas. Ela gostaria de matricular a filha mais nova, que já faz exercícios de ordem unida com a irmã, no CPM de Juazeiro.

“A escola daqui não é totalmente militar. Por isso, as questões do fardamento e do transporte ainda não foram resolvidas. O meu sonho é colocar minhas meninas em uma escola da Polícia Militar de tempo integral para que elas tenham mais chances de se transformarem em cidadãs de bem”.

Perguntada se as filhas não deveriam ser consultadas sobre a questão, Laís Silva repetiu o argumento amplificado pelas autoridades:

“Se elas não quiserem participar de uma escola que tem ordem, que tem disciplina, alguma coisa errada está nelas. Então vai dos pais. Elas não têm de querer. Quem manda é o pai e a mãe”.

Por enquanto, a orientadora social está contente com a primogênita, que pretende ser policial para defender as mulheres. E elogia o papel desempenhado por dois tutores disciplinares que se tornaram amigos de sua família.

Aline: preocupação constante com o filho. Reprodução do Zoom

A babá Aline Gláucia da Silva, 37 anos, matriculou o filho Emanuel, 13, na escola militarizada quando ele terminou o ensino fundamental I. A opção pela única das 118 escolas municipais que funcionam em parceria entre a PM e a secretaria municipal de educação foi feita porque ela considera os outros colégios muito liberais.

“Levei em conta as amizades que ele pode fazer e o fato de que lá não tem esse negócio de palavrão” – disse.

Aline admite que o filho ficou assustado quando soube que seria matriculado no colégio Maria do Carmo. O adolescente não queria cortar o cabelo e temia o rigoroso regulamento que prevê punições para quem chega atrasado, deixa de zelar pela apresentação pessoal e não atenta para a postura e compostura, além de outros 66 tipos de transgressões.

“Expliquei que as exigências fariam bem para o corpo e o intelecto e ele aceitou” – relatou.

Na sexta série só houve atividades remotas. Este ano, Emanuel voltou a ter aulas presenciais. Nos primeiros dias, sentiu cansaço por causa do tempo que passa em pé durante os ritos de entrada e saída e a prática de ordem unida.

Mesmo pertencendo ao Clube dos Desbravadores [1], da Igreja Adventista do Sétimo Dia, onde faz exercícios semelhantes, o menino reclamou de cansaço nas primeiras semanas.

“Ele disse que na escola era diferente, que o negócio era “pancadão”. Então perguntei se ele gostava. A resposta foi sim. Considero que é uma boa forma de gastar energia” – concluiu a mãe, que cria o filho sozinha e toma conta de dois bebês.

Integrante do conselho escolar, Aline disse que está satisfeita com o método militarizado porque crê que a presença dos policiais da reserva impede que as drogas entrem na escola. Ressalta a qualidade dos professores e diz que seria maravilhoso se o sistema fosse estendido para o ensino médio. O tema foi debatido no grupo de Whatsapp da família e a babá falou que seria bom que o estado e o município “entregassem o pacote prontinho”

Quando fez alusão à própria experiência de aluna no Colégio Estadual Polivalente, a babá reforçou a ideia de que a escola pública só foi boa até a sua época e deu a entender que os alunos de hoje são mais rebeldes. Para isso contribui, a seu ver, o excesso de liberdade dado pelos pais. Aline diz que hoje tem medo até de levar o filho para brincar na pracinha, portanto considera fundamental a presença de policiais em todos os lugares.

Novamente há semelhança com o discurso do prefeito Elmo Nascimento:

“A rede municipal registrou, ao longo dos anos, relatos de professores ameaçados por alunos. Muitos não conseguiram mais dar aulas. Os PMs, além de proporcionarem um ambiente mais seguro, trabalham forte na rua e até acompanham o que ocorre na casa dos estudantes” – afirma.

Nos colégios visitados por Meus Sertões, a maioria dos tutores disciplinares se declarou evangélico. Levando em conta que o convênio da PM com a União dos Municípios da Bahia (UPB) prevê que a escolha dos policiais da reserva será feita pela corporação, fica perceptível a utilização da disciplina e de conceitos religiosos na formação dos estudantes. Gláucia não vê problemas neste aspecto por também ser evangélica.

A palestra do coronel

No dia 22 de março, quando as aulas começaram na escola modelo CPM, o major Ângelo fez palestra para diretores, professores, tutores, funcionários e pais de alunos. Na introdução, o oficial ressaltou que o projeto de gestão compartilhada ainda não possui uma fórmula definitiva.

Reforçando a questão do medo, disse que a violência e a droga estão nas escolas e que a PM não dará respostas se não tiver o apoio de todos. Em pelo menos três oportunidades, o policial alertou que as escolas modelo CPM são mais visadas e que as cobranças aumentam quando há ocorrência envolvendo alunos.

“Hoje tudo dá imprensa, WhatsApp e Ministério Público. Basta alguém querer prejudicar a gente” – declarou. Em seguida, sugeriu encontro com a participação de promotores e do Conselho Tutelar para tirar qualquer dúvida.

O oficial pediu para as conversas sensíveis com as meninas sejam feitas pelas diretoras porque não há mulheres no quadro disciplinar. A ausência de tutoras se dá pelo reduzido número de PMs femininas na reserva [2], segundo a PM .

Ângelo também fez comentários sobre pontos polêmicos do regulamento e da cultura militar. Segundo ele, acordar cedo nunca matou ninguém. Referia-se à participação dos estudantes nas paradas matinais.

Meninas usam boné e coque com redinha.Reprodução do Facebook

Quanto ao uniforme, explicou que foram levados em conta questões religiosas para defini-los. Um tutor explicou que a altura das saias para evangélicas é maior. Por fim, falou de uma questão crucial: o corte de cabelo e os penteados permitidos.

“Haverá padrão de cabelo? Sim. E se não corta por questões religiosas e culturais? Neste caso vamos sentar com alunos, pais, pessoal da disciplina e o jurídico. Temos que ter habilidade, sensibilidade para atingir o objetivo. O padrão é máquina um na parte inferior e dois na superior para os meninos. Se não tiver condições de pagar, a gente providencia o barbeiro. Aluna pode usar coque com rede”

VISÕES DIFERENTES

A comerciante Eide Barreto elogia a escola de gestão compartilhada Professora Laura Ribeiro Lopes, em Conceição do Jacuípe. Foi lá que matriculou a filha por indicação de professores:

“O mundo hoje está bastante difícil. A tecnologia está acabando com tudo, principalmente porque as crianças amam um celularzinho, um Tik Tok. Lá, o desempenho e a qualificação dos alunos melhoram” – disse.

A vendedora de pizzas e licores contou que, nos primeiros dias de aula, a adolescente, que gosta de se enfeitar, usar batom, relógio e de arranjo nos cabelos, estranhou.

“No início tivemos essa ‘dificuldadezinha’, mas conversei com ela, expliquei como seria o processo e tudo foi superado. De lá pra cá, tem sido muito bom, ela está amando o colégio” – contou.

Com relação às regras disciplinares, a mãe considera muito importante, principalmente as que tratam do comportamento na saída do colégio. De acordo com Eide, o marido também gosta muito do sistema porque ajuda a família a educar as crianças. Ela defende que o rigor seja mantido, embora perceba que nem todos os pais e estudantes estejam satisfeitos.

Já a auxiliar de enfermagem Gerlanda Leal, mãe de um aluno da mesma escola, considera que as regras são muito rígidas. Para ela, deveria haver flexibilidade até o jovem se adaptar ao sistema.

“O adolescente sai de um lugar que dá liberdade para abraçar, beijar, brincar, e vai para outro onde tudo é proibido. Isso é um susto para ele” – comentou.

Gerlanda contou que o filho pede o tempo todo para mudar de colégio, mas ela não tira por considerar a rigidez ruim, mas acreditar que seria pior ele se envolver com drogas.

“Eu sei que com a presença dos militares isso não vai acontecer. Eu gostaria que a prefeitura colocasse o mesmo sistema  no ensino infantil para os alunos se acostumarem com o método quando chegarem ao ensino fundamental” – pontuou.

Forma e ordem unida no colégio Sérgio Cardoso. Reprodução

Alunos das escolas Laura Ribeiro e Sérgio Cardoso ouvidos por Meus Sertões reclamaram dos exercícios de ordem unida e das paradas matinais que são realizadas debaixo do sol. Outras queixas estão relacionadas com o excesso de regras e por não poderem fazer quase nada.

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[1] O Clube dos Desbravadores faz parte da Igreja Adventista do Sétimo Dia. O grupo trabalha com educação cultural, social e religiosa de crianças e adolescentes entre 10 e 15 anos. Semelhante ao escotismo, pratica ordem unida com os seguintes objetivos: proporcionar deslocamentos em ordem, praticar a disciplina, permitir que o clube apareça em público de forma elegante e marcial.

[2] – A PM baiana só passou a aceitar mulheres na tropa em 1990. Daí o reduzido número de policiais femininas na reserva remunerada.

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Esta série de reportagens foi financiada pelo Edital de Jornalismo de Educação, uma iniciativa da Jeduca e do Itaú Social.

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LEIA A SÉRIE COMPLETA

PARTE I

A militarização das escolas na bahiaO avanço para o interior O exemplo goiano Diferentes escolas militares e militarizadas

PARTE II

A elitização da primeira escola militarizada A história do Colégio Maria do Carmo Fundamental I e ensino médio na mira

Fundamental I e ensino médio na mira dos coronéis

Paulo Oliveira

 O ex-comandante da Polícia Militar da Bahia (2015-2021), coronel Anselmo Alves Brandão, responsável pela criação do método de gestão compartilhada entre a PM e as secretarias municipais de educação, defendeu a ampliação da metodologia, hoje restrita ao ensino fundamental II, para os primeiros anos escolares. Ele justificou que assim as crianças se habituarão desde cedo aos ritos militares. Atualmente na reserva, o oficial anunciou que disputará as eleições para deputado federal este ano, tendo como bandeira o que chama de “prevenção primária”.

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A militarização das escolas na Bahia

Linda Gomes e Paulo Oliveira

No dia 11 de maio de 2018, policiais militares da 54ª Companhia Independente, em Campo Formoso, postaram na página da unidade no Facebook , um vídeo e a seguinte mensagem: “Por volta das 14 horas, o Colégio Maria do Carmo, primeiro na Bahia a adotar o modelo de gestão compartilhada – sistema CPM, recebeu a visita do comandante-geral da PMBA (…)”. As 29 fotos que constam no vídeo mostram o coronel Anselmo Brandão sendo recebido por uma guarda perfilada, apresentando armas (fuzis). Em seguida, as imagens são de vistoria na unidade escolar, conversa e troca de continência com um aluno. O oficial coroava assim o cumprimento da missão de iniciar o processo de militarização [1] das escolas municipais na Bahia.

Guarda apresenta armas durante a visita do coronel Anselmo Brandão . Foto: 54ª CIPM

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O avanço para o interior

Linda Gomes e Paulo Oliveira

Quando o governador Rui Costa (PT) anunciou que o Estado assinaria o termo de acordo para implantação da metodologia dos Colégios da Polícia Militar (CPMs) nos estabelecimentos municipais de ensino da Bahia, a Escola Professora Maria do Carmo de Araújo Maia, em Campo Formoso, já tinha realizado a aula inaugural quatro dias antes (12/03/2018) sob o novo sistema. Na ocasião, Anália Freire, diretora da escola, divulgou as novas normas, incluindo que não seria mais permitido o uso de qualquer adereço que não fizesse parte do fardamento e o uso obrigatório de coque pelas meninas. Na véspera, segundo o site Campo Formoso Notícias, a Secretaria de Desenvolvimento Social providenciou o corte de cabelo dos garotos.

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O exemplo goiano

Linda Gomes e Paulo Oliveira

O governo baiano teria se espelhado no sucesso obtido pelo êxito da experiência de colégios da Polícia Militar de Goiás. Essa hipótese foi aventada pelo dirigente da Fundação Conquistense Edivanda Maria Teixeira (Fucemate), Daniel Piccoli, um dos responsáveis pelo movimento para a retirada do nome da professora da escola que adotou o sistema CPM recentemente, em Vitória da Conquista. Edivanda foi perseguida pela ditadura. Corroboram para esta versão os seguintes fatos:

No dia 17 de novembro de 2015, o então governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), discursou para empresários e políticos em evento organizado pelo Grupo de Líderes Empresariais (Lide Bahia), em Salvador. Na ocasião, Perillo anunciou a intenção de terceirizar 300 escolas estaduais (25% da rede), mesmo ciente das resistências que enfrentaria.

Após classificar a lei de estabilidade do funcionalismo público como a coisa “mais imbecil que existe” e ressaltar que não via condições de avanço educacional com sindicatos agressivos e “professores pedindo licença para tudo”, Perillo exaltou a experiência dos colégios militarizados de Goiás. Contou ainda como usou os Colégios Estaduais da Polícia Militar de Goiás (CEPMGs) com outras finalidades:

“Fui num evento e tinha um grupo de professores radicais da extrema esquerda me xingando. Eu disse: tenho um remedinho pra vocês: colégio militar e organização social. Identifiquei as oito escolas desses professores. Preparei um projeto de lei e em seguida militarizei essas oito escolas. O Brasil está precisando de ‘nego’ que tenha coragem de enfrentar”.

Na reportagem, consta que o governador foi muito aplaudido e que Ney Campelo, posteriormente nomeado superintendente de política para educação básica e assessor técnico da Secretaria Estadual da Educação, estava na plateia. Ney, ex-aluno do Colégio da Polícia Militar, saiu em defesa de Rui Costa quando ele sofreu críticas por apoiar o projeto de implantação da metodologia do CPM baiano nos municípios do interior.

No artigo “Juventude e educação: a militarização das escolas em Goiás”, publicado pela Universidade Federal de Santa Maria (RS), em 4 de setembro de 2021, na revista Educação -, o sociólogo Flávio Munhoz Sofiati e o jornalista especializado em políticas públicas Caio Henrique Salgado Barbosa analisam o fenômeno de “intervenção militar em colégios públicos” goianos. Vale lembrar que os policiais militares de lá assumiram de forma plena a gestão escolar.

Sofiati e Barbosa narram que o processo foi regulamentado em 2001, quando Marconi Perillo, em primeiro mandato, sancionou a lei que criava unidades de ensino fundamental e médio, dirigidas por oficiais nomeados pelo comandante-geral da PM. A iniciativa não teve repercussão à época. Em 2015, em sua quarta gestão, o político voltou à carga e militarizou oito colégios na capital e na região metropolitana. Nos três anos seguintes, a Polícia Militar de Goiás passaria a ser responsável por 63.595 alunos, o equivalente a 12,4% do total da rede estadual. Atualmente, a polícia controla 60 unidades em 46 municípios.

Reportagem do jornal O Popular, de 20 de maio de 2019, acrescenta que o número de escolas militarizadas poderia passar para 97, conforme previsto em lei. Mas isto não ocorreu por causa da falta de efetivo e de recursos financeiros. Uma semana antes, 159 policiais foram remanejados dos colégios para reforçar a segurança nas ruas e para conter despesas. Mesmo assim, 864 militares – 303 da ativa e 561 da reserva – atuavam nas escolas.

O regimento interno dos colégios da PM goiana tem 74 páginas e 276 artigos. Nele, além do rigor disciplinar imposto ao corpo discente, fica claro o controle sofrido pelos professores. Nas páginas 40 e 41, consta que é vedado aos docentes “fazer proselitismo religioso, político-partidário ou ideológico, em qualquer circunstância, bem como pregar doutrinas contrárias aos interesses nacionais, influenciando os demais membros da comunidade à tomada de atitude indisciplinada, irreverente ou de agitação, ainda que de forma dissimulada”.

Também é proibido “falar, escrever ou publicar artigos ou dar entrevistas, ou ainda divulgar assunto que envolva, direta ou indiretamente, o nome do CEPMG e da comunidade escolar, em qualquer época, sem que para isso esteja autorizado pelo comandante e diretor”.

Outra invenção dos militares são as taxas mensais e a cobrança de preço por quatro tipos diferentes de uniformes, o que tira o caráter de gratuidade das escolas públicas. A PM de Goiás alega que não há mensalidade, mas sim colaborações voluntárias necessárias para a realização de benfeitorias.

MODELO MILITAR PRÓPRIO
Alunos da escola militarizada Gercina Teixeira (EMMGT), em Piranhas, Goiás. Foto cedida pelo Jornal O + positivo

Com a recusa da PM em assumir escolas municipais de Goiás pelos motivos que impedem a expansão do controle nos colégios estaduais, pelo menos seis prefeituras – Moiporá, Piranhas, Acreúna, Alto Horizonte, Indiara e Quirinópolis – criaram modelos próprios de militarização. Isto foi relatado em reportagem de Thalys Alcântara, em 22 de março de 2019, bom exemplo de como a situação pode ficar muito mais complexa.

O repórter revelou que os prefeitos decidiram criar fardas, hinos e símbolos em alusão ao militarismo. O material difere do usado nos colégios geridos pela PM. Outra diferença apontada foi a faixa etária dos estudantes. Enquanto nas escolas estaduais, o sistema é voltado para alunos do 5º ao 9º ano, nos municípios o público alvo vai do ensino infantil (crianças menores de seis anos) ao fundamental (de seis a 14 anos). O currículo também sofreu alterações com a inclusão de disciplinas como “Ética e Cidadania” e “Ordem Unida”.

Thalys destaca que, exceto a unidade de Alto Horizonte, os demais colégios estão na região sudoeste do estado, onde fica a cidade de Rio Verde, sede da Athenas Cursos Gerenciais, empresa responsável por seis das sete escolas militarizadas. A microempresa de treinamento profissional e gerencial pertence à pedagoga Deusdetina Alves de Alecrim. Em 2019, ela cobrou R$ 17 mil para implantar o sistema em Acreúna, a 80 quilômetros de Rio Verde.

Deusdetina, ex-funcionária do CEPMG de Rio Verde, trabalha em parceria com o sargento reformado Eterno Pereira de Paula. Ela rejeita o termo “militarização”. Prefere chamar “gestão compartilhada”, assim como os policiais militares da Bahia e de outros estados, embora o termo esteja incorporado ao nome das escolas. Os tutores disciplinares dessas unidades de ensino fizeram ou fazem parte da PM, Corpo de Bombeiros ou Exército.

Estas iniciativas foram reguladas por projetos de lei aprovados nas Câmaras de Vereadores. A justificativa é o suposto apoio da população.

Em Moiporá, o sistema de ensino foi criado pela organização não governamental (ONG) Guardiões da Vida, voltada ao escotismo e presidida pelo coronel reformado da PM e pastor evangélico Élvio Mendes de Castro. Segundo a reportagem, o oficial diz que, mesmo com pouca idade, as crianças estão aptas para seguir o regime imposto.

O condicionamento imposto aos alunos é exposto em vídeos nas páginas dos colégios no You Tube. No caso da unidade de Acreúna (GO), a doutrinação, a ordem unida e a iniciação de canções de treinamento físico militar (TFM) fazem com que boa parte dos estudantes manifeste vontade de seguir a carreira militar. Isso pode ser visto no vídeo abaixo, no qual autoridades e pais, que os aplaudem as crianças de pé. As consequências do ensino militarizado na formação de crianças e jovens serão discutidas em outro capítulo da série.

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Esta série de reportagens foi financiada pelo Edital de Jornalismo de Educação, uma iniciativa da Jeduca e do Itaú Social.

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PARTE I

A militarização das escolas na bahiaO avanço para o interior Diferentes escolas militares e militarizadas

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A elitização da primeira escola militarizada A história do Colégio Maria do Carmo Mães aprovam modelo CPM, filhos nem tantoFundamental I e ensino médio na mira

 

Miniaturas sertanejas

“O sertão é dentro da gente”
Guimarães Rosa

O artesão Edson Duarte Marques da Silva passa a vida construindo miniaturas de casas antigas, capelinhas, currais, árvores, pássaros e paisagens sertanejas. É como se transportasse a todo momento para histórias e lugares criados a partir das histórias contadas por seus pais e tios.

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