Categoria: Meus Sertões

Calumbi: o podcast de Senhor do Bonfim

Nascido, criado, benzido e batizado em Senhor do Bonfim (BA), Airton da Silva Almeida decidiu deixar a cidade em 2010 para trabalhar na construção de estradas pelo Brasil. No sábado passado (6/2), 11 anos depois da partida, ele estava em Ituiutaba (MG), a 1.600 quilômetros de Bonfim, quando ouviu tocar a música que marcou sua infância e adolescência, no recém-lançado podcast Calumbi:

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Tremores de terra e nova inspeção na Jacobina Mineração

Na noite do dia 2 de fevereiro, Alexsandro Araújo Amorim enviou uma mensagem, via whatsapp, para a Promotoria Especializada em Meio Ambiente do Ministério Público da Bahia, em Jacobina. Morador da comunidade Jabuticaba, no entorno da mineradora Jacobina Mineração e Comércio (JMC), que extrai ouro no local, ele comunicou uma explosão sem precedentes  e indicou o horário preciso da detonação realizada pela empresa controlada pela multinacional canadense Yamana Gold: 23h07min.

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O professor austríaco

A primeira impressão que o jovem metalúrgico austríaco Reinhard Lackinger teve ao chegar à Jequitibá, povoado de Mundo Novo, no sertão baiano, foi a de ter feito uma viagem no tempo e retornado ao século XV. Em 1969, no meio do nada, diante de um “monstruoso mosteiro”, parecido com um castelo, instalado no alto de um morro e com casebres na parte baixa, sentiu-se de volta à Idade Média.

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Podcast sobre
Meus Sertões

O projeto jornalístico Meus Sertões foi escolhido por uma das turmas da Oficina de Narrativa em Áudio para ser o tema do trabalho de conclusão do curso este mês. O trabalho foi supervisionado e orientado pelo jornalista Rodrigo Alves, responsável pelo podcast Vida de Jornalista*. 

O programa conta a origem de Meus Sertões, a partir da constatação de que era necessário modificar a visão preconceituosa sobre a região, reforçada por veículos de imprensa, principalmente do  Sul e Sudeste do país. Essa constatação foi confirmada a partir de simples pesquisa no Google com a palavra sertão. Durante a produção do podcast a revista Vejinha SP publicou a polêmica capa, na qual trata São Paulo como a “capital do Nordeste”.

O podcast revela ainda histórias do semiárido brasileiro, contada pelo editor de Meus Sertões, e debate com outros profissionais nordestinos questões como a falta de vontade política e econômica de desenvolver o Nordeste assim como feito em Israel, onde o índice pluviométrico é bem menor do que nesta região do Brasil. Outro tema importante é como grandes empresas – agronegócios e mineradoras, por exemplo – estão se apropriando das águas e das terras pertencentes a comunidades tradicionais com a cumplicidade dos governantes.

Veja abaixo, no quadro de serviço, como participar das oficinas de Rodrigo Alves em março. Outra informação importante: a Rádio Carcará, canal de podcast de Meus Sertões, entrará no ar em breve.

Agora, ouça o programa:


A foto que ilustra esta matéria é “A primeira viagem a Canudos”, de Paulo Oliveira. A imagem do áudio é de @Thomas Bauer

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SERVIÇOAs oficinas tratam de temas como planejamento, pesquisa, produção, trilha sonora, locução e edição. Ela é voltada para pessoas de diferentes áreas de atuação, não necessariamente jornalistas. Os interessados devem fazer pré-inscrição (enviar nome. idade, cidade e profissão) pelo e-mail podcastvidadejornalista@gmail.com , pois terão prioridade na hora de se inscrever para os cursos de março. O mesmo endereço eletrônico deve ser usado para obtenção de mais informações

 

 

Retalhos sertanejos

As três primeiras publicações de Retalhos Sertanejos no Instagram traziam o logotipo, explicações sobre o projeto e uma entrevista com o geógrafo jacuipense Roniere Mota sobre os interesses políticos e econômicos que levaram à criação de estereótipos de um sertão seco e atrasado.

Não sei se foi a marca, que lembra uma colcha de retalhos, produto feito até hoje nos municípios integrantes da Bacia do Jacuípe, ou o slogan bem elaborado – “Alinhavando histórias e costurando conhecimento” -, que chamou a minha atenção.

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Uma experiência fascinante: “O enigma” – capítulo V

Cada trabalho dos alunos da professora Maria Isabel Gonçalves, ganhadora do Prêmio Educadora Nota 10, é como se fosse um verso, alinhavado pelo tempo. Os vídeos, fotos e textos projetam Boninal, cidade da Chapada Diamantina, onde florescem povoados. Capão, Carrapicho, Conceição, Desempenho e o vizinho Vazante, em Seabra, orbitam a escola estadual Rui Barbosa. Das aulas de filosofia, além dos alunos, fazem partes seus avós e os antigos moradores de diferentes localidades. A experiência dos idosos é fundamental para formar um poema, escrito com base na filosofia africana ubuntu: “Eu sou porque nós somos”.

Este é o quinto capítulo da serie sobre a fascinante experiência educacional que movimentou o município entre 2019 e 2020. E ele começa com uma charada filosófica feita pelo tropeiro aposentado Getúlio Gabriel, 71 anos, morador do povoado de Desempenho:

“Será que o tempo caipira era o tempo de preferência, ou será que a preferência é o tempo atual?” – pergunta.

Ao falar sobre sua vivência nas comitivas de boiadas há 50 anos para o neto Pablo Borges, Getúlio admite que não reconhece mais as terras por onde andava, hoje divididas em fazendas:

“Se eu chegar no trajeto por onde eu passava, é capaz de eu ficar perdido, como eu tivesse no centro de uma grande cidade onde eu nunca fui”.

Em seguida, tece mais comparações e propõe uma eleição para escolher qual o melhor tempo, o passado ou a modernidade, que chama de “tempo digital”.

Os demais trabalhos dos estudantes de ensino médio de Boninal que apresentamos nesta reportagem podem ajudar a responder o enigma proposto por Getúlio. Portanto, deixaremos a resposta que ele nos dá para o final. No vídeo abaixo também é possível ouvir argumentos do veterano condutor de gado e tentar antecipar o prognóstico.

JANELAS ENFEITADAS

São as lembranças de antigamente que deixam Fidelcina Maria de Jesus, 94 anos, alegre. Morando no centro de Boninal, ela conta para o neto Ricardo Nascimento que lembra do tempo em que os moradores enfeitavam até as janelas das casas.

Outra boa lembrança é a do rio. Ainda bem que Fidelcina a guarda. Aos mais novos só resta a descrição dela, incentivando-os a mergulhos imaginários:

“Ele era grande. Só tinha areia, não tinha mato. Você via os peixinhos dentro d’água. A gente ia lavar a roupa, ia visitar, pescar. Fazia gosto entrar pra tomar banho” – conta.

Ao fim da conversa com a avó, Ricardo pergunta a receita para ser feliz. A resposta da sábia senhora não dá vantagem nem ao tempo caipira, nem ao tempo digital, válida que é para todas as épocas:

É ter saúde. É unir com todo mundo e possuir um monte de amigos.”

conceição

Mesmo tendo uma vida super difícil Maria Jardinila de Oliveira não é capaz de dá uma resposta definitiva para seu Getúlio. Na entrevista concedida à neta Ágda Fábia de Oliveira, ela conta que na comunidade quilombola Conceição não havia água encanada, nem luz elétrica. As casas, bem pequenas, eram feitas de barro. Relata ainda  muita dificuldade para conseguir dinheiro. Para isto, precisava vender o que a roça fornecia: alho, feijão, arroz e cana. O restante dos mantimentos dependia do lucro da feira.

A educação era precária. Havia um único professor, Sulino Viana, no pequeno grupo escolar com paredes de adobe. Quando ele morreu, foi substituído pela sobrinha. A pouca estrutura e a não obrigatoriedade de ensino, limitava – e muito – a quantidade de alunos. A idosa conta que ela passou pouco tempo na escola.

Em um ano de estiagem, os quilombolas começaram a se mudar. A situação piorou e até quem não queria foi forçado a sair. A opção de permanecer implicava em passar necessidade.

Quando tudo parecia apontar para a preferência dos tempos atuais, Maria Jardilina fala da solidariedade dos vizinhos, da construção de casas em mutirão, da alegria de ir à feira e conclui que as dificuldades não impediram que ela fosse feliz.

Karlane Macedo Pereira fez as fotos da comunidade que ilustram o trabalho da colega.

Carrapicho

Os alunos Vítor, Kailane Macedo, Beatriz, Rodrigo, Dhônatas fizeram a pesquisa do trabalho, cujo tema foi “As filosofias de minha avó: poetizando memórias para afirmar direitos”, no povoado de Carrapicho, em Boninal. Na conclusão, trouxeram um componente importante para o esclarecimento da charada de seu Getúlio: o conhecimento acumulado pelos mais velhos.

Kailane entrevistou a avó Delza e foi aconselhada a seguir pela estrada certa, aproveitando os momentos de felicidade ao lado da família. Já tia Eunice contou que ajudou os pais na roça e trabalhou em garimpo para sustentar os filhos. Ressaltou que todos na família são honestos e acrescentou que os jovens não querem mais casar cedo, nem ter muitos filhos. Segundo ela, preferem progredir primeiro.

Os jovens concluem que a pesquisa fez com que todos conhecessem um pouco mais sobre a vida das avós, incluindo sonhos e esperanças de um mundo melhor, alegrias e sofrimentos. Dizem que passaram a ver o lugar onde moram com o olhar de quem conhece “de tudo um pouco” e ouviram histórias deixadas para as gerações seguintes.

“Aprendemos coisas extraordinárias. Se pudéssemos ao menos compartilhar com o mundo, tudo aquilo que elas [as avós] sabem, temos a certeza, que a riqueza do conhecimento seria espalhada. As avós deveriam ser eternas, pois assim o nosso conhecimento também seria, com elas podemos dizer que a vida tem sim um verdadeiro sentido.” – atestam.

vazante

Em busca de memórias deixadas para trás, o secundarista Renan Gabriel, criado em São Paulo, voltou à comunidade de seus avós. Além de descobrir que os tios avós Júlio (falecido) e Jaime Cupertino são referências em toda região devido ao esforço empreendido pelo reconhecimento da terra e da comunidade, ele fotografou casas e objetos que atravessaram os tempos.

E escreveu: “O início de tudo é a luta, hoje travada para que a Vazante continue de pé. Ela mostra a garra e a força desse povo em uma região pouco afastada, sem (…) necessidades básicas e essenciais, como água e luz”.

Ou seja, Renan descobriu que a luta em defesa de direitos, principalmente de negros, quilombolas e dos mais carentes, continua em qualquer tempo.

O POEMA

A aluna Eline Oliveira dos Santos entrevistou dona Felicina Alves dos Santos, a Licinha, 79 anos, moradora mais antiga do povoado de Capão, em Boninal. A idade não impede a entrevistada de continuar trabalhando na roça e de participar há mais de três décadas do reisado São Sebastião, da qual fala com imensa alegria, conforme podemos ver no vídeo acima.

Lembram que falei que os trabalhos escolares de filosofia formavam versos? Pois bem, Eline transformou o seu em um belo poema, finalista do concurso Temas de Artes Literárias (TAL), organizado pela secretaria estadual de Educação. Sua obra emocionou a turma no dia da apresentação dos relatos sobre a filosofia dos avós.

Eline constata que seus avós “não precisavam de muita coisa para ser feliz”. Reconhece que novas tecnologias trouxeram melhorias para quem não tinha muito o que comer, se vestir e enfrentava dificuldades para se locomover por falta de meios de transporte.

Ressaltando ser “bonito de se ver as histórias que o povo conta” e a garra do povo quilombola ao superar obstáculos dificílimos, a estudante conclui que é preciso homenagear e respeitar a nação negra. Quanto ao tempo presente e passado, ela diz  no poema que não dá para comparar.

Antiguidade e Evolução
Eline Oliveira dos Santos

Venho falar sobre a antiguidade do povoado de Capão,
Relatando como era a sua situação
O povo era humilde e não tinha ostentação,
Mas tinha alegria, e amor pelo sertão!

Não tinha tanto o que vestir, nem muito o que comer,
Era difícil até automóvel para se locomover!
Mas com passar do tempo, a tecnologia avançou, e tudo mudou!
Mas é bonito de se ver, a história que o povo conta não dá para esquecer!

Apesar das dificuldades de muitos, não se pode reclamar,
Pois a convivência de antes com a de hoje não dá para comparar!
Hoje o nordestino tá alegre, pois há o que comer
Já se vê a felicidade de uma mãe ao ver o seu filho crescer.

O povo do quilombo também tem história pra contar,
Seguia a tradição sem instrumentos pra tocar.
Como disse no começo, a tecnologia avançou,
O povo do quilombo até foi pra Salvador.

Em todo lugar, o povo levou a tradição
Juntamente com Cutia Mulungu e Conceição.
Pare e pense, vamos imaginar: o que o povo do quilombo veio nos ensinar?
Em homenagem à nação negra, temos que respeitar!

Não importa se eu sou contra, e você é a favor,
Todos somos iguais, o que muda é só a cor.
Apesar do preconceito que lhe causa desconforto e cansaço.
Alcançaram a admiração, conquistaram seu espaço!

A resposta de Getúlio

Você chegou a alguma conclusão sobre qual é o mundo da preferência? O ex-tropeiro, como se usasse uma balança para pesar coisas boas e ruins, finalmente profere seu veredito:

“Se houver uma eleição pra votar entre o mundo caipira e o mundo presente, eu votarei no mundo presente. Mesmo com esse mundo cheio de violência e doenças estranhas, que ninguém nunca viu nem falar.  Mas também existe a medicina que se desenvolve dia a dia em busca de cortar todos os males. Então, eu tô com o mundo atual.”

Concorda?

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Capítulo ICapítulo IICapítulo III Capítulo IV

Uma experiência fascinante: “Mãe Dioca” – capítulo IV

A agricultora Maria Januária Seles teve uma vida difícil, embora seu pai fosse um dos poucos a ter uma roça de mandioca no povoado de Palmeiras do Cedro, em Boninal, cidade da Chapada Diamantina. Entrevistada pelo sobrinho Vitor Manoel e seus colegas de turma, dona Maria conta que só comia arroz na Semana Santa, quando os pais se sacrificavam para compra um litro do cereal, um dos alimentos mais consumidos no mundo.

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Comunidades tradicionais ameaçadas por projeto da Codevasf

Os agricultores familiares e pequenos criadores de animais em comunidades de fundo e fecho de pasto Ivete Ribeiro de Lunas, 54 anos, Elenilton Alves Bonfim, 53 e Gildásio Félix Bonfim, 51, saíram das comunidades de Muquém, Poço Fundo e São João, bem cedo para participar de uma reunião para a qual não tinham sido convidados. Antônio Batista de Souza Filho, o Toinho, suplente de diretor do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Itaguaçu da Bahia, acompanhou o grupo.

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