Categoria: Meus Sertões

Prece para o
rio São Francisco – Editorial

“Senhor, fazei-me instrumento da vossa paz”

Hoje é dia de São Francisco de Assis (1182-1226), o religioso italiano que fundou a Ordem dos Franciscanos. Filho de um rico comerciante de tecidos da cidade de Assis, Francisco renunciou aos seus bens e passou a se dedicar a Deus e aos pobres. Em 1224, deixou a direção da irmandade que criou para viver em contato com a natureza. Consta que, em sua presença, os peixes saltavam da água e os pássaros pousavam em seus ombros.

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Como definir o preço correto de uma peça de artesanato?

A equipe do Laboratório de Design O Imaginário, vinculado ao programa de extensão da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), ajuda artesãos a dar sustentabilidade à atividade, a aprimorar o acabamento das peças, a utilizar novas tecnologias e, principalmente, a definir o preço justo das peças que produzem, com base nos custos de produção.

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Formosa do Rio Preto: posseiros pedem punição para fazendeiros após atentado

Por Paulo Oliveira e Thomas Bauer

Jagunços que estariam a serviço de grandes fazendeiros incendiaram casa dos posseiros. Foto cedida pela comunidade
Jagunços que estariam a serviço de grandes fazendeiros incendiaram casa dos posseiros. Foto cedida pela comunidade

Geraizeiros de Formosa do Rio Preto, município do extremo oeste da Bahia, realizaram manifestação na manhã desta quarta-feira, exigindo punição para fazendeiros responsáveis por atentado, atos de vandalismo, roubos, destruição de residências, árvores frutíferas e de um vasto buritizal. A ação dos pistoleiros ocorreu na última sexta-feira (3/9/2021). Os criminosos deram prazo para os posseiros deixarem o local até a data de hoje. E ameaçaram voltar caso não fossem obedecidos.

Os jagunços fazem rondas na região há dias. Encapuzados, impedem os posseiros de recolher as criações de animais. Há suspeitas de que o grupo atue a mando dos donos das fazendas interessados na expulsão da comunidade tradicional.

Formosa do Rio Preto está localizada há 1.019 quilômetros da capital baiana (Salvador). É o maior município do estado (15.634 km²), segundo maior produtor de soja do país e o 11º em Valor de Produção Agrícola, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e nota técnica do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

A ocupação da região pelo agronegócio se expandiu a partir da grilagem de terras. Nos últimos 20 anos, grandes fazendeiros investiram contra as terras em posse dos geraizeiros, normalmente alagadas e impróprias para plantações em grande escala, mas importantes para o cumprimento da lei que determina a preservação de 20% da mata nativa das propriedades.

Sem cumprir essa exigência, os latifundiários não conseguem obter empréstimos, nem outros benefícios. Para cumprir a legislação, empresários do agronegócio tentam tomar os territórios de povos tradicionais que desenvolveram a habilidade de cultivar às margens de pequenos cursos de água e sobrevivem do extrativismo, criação de animais soltos e da agricultura de subsistência. A prática é conhecida como “grilagem verde”.

“Essa história vem de muito tempo. Entre 2002 e 2004 eles [os grandes fazendeiros] quiseram tirar nós. A gente apelou à justiça com ajuda de uns órgãos aí. Chegamos a fazer um acordo pra ninguém mexer com nós” (sic) – diz uma das vítimas da ação de jagunços, que estariam a serviço dos proprietários da Canabrava Agropecuária e da fazenda Itapuã.

O posseiro acrescentou:

“Em 2012 e 2013, eles voltaram a nos atacar, queimando casas e derrubando cercas. A gente reerguia as cercas e, no outro dia, eles iam e derrubavam. Resistimos e nos sentimos seguros achando que tinham nos esquecidos. Mas a trégua acabou agora. Quando foi na sexta-feira passada, ficamos espantados, foi uma coisa de repente”

O ATENTADO

 Na manhã do dia 3 de setembro, quatro caminhonetes – três Hilux pretas e uma S10 ¬ invadiram as roças dos posseiros que moram na comunidade São Marcelo e plantam suas roças na beira do rio Sapão, onde vivem cerca de 80 famílias. Nos carros estavam entre 18 e 20 homens armados e encapuzados com “tudo que é tipo de arma”, de acordo com uma das vítimas.

Primeiro entraram na área do Canto do Brejão e atiraram em direção a uma caminhonete Ford 250, fretado pelas famílias geraizeiras a caminho das suas posses na beira do Rio Sapão. No veículo estavam homens, mulheres, idosos e crianças. Oito tiros atingiram o veículo, mas ninguém foi atingido. Em seguida, os pistoleiros derrubaram cercas e atearam fogo nas estacas.

Os capangas também roubaram geradores, saquearam e atearam fogo em pelo menos cinco residências, cortaram árvores frutíferas com motosserras e incendiaram currais. No total, a área destruída chega a 15 hectares. O caso foi registrado na delegacia de polícia civil do município de Barreiras.

E, segundo os moradores, os principais suspeitos são os irmãos Mário Renato e Mário Fernando Palmério Assunção, herdeiros de Fernandino José Assunção e atuais proprietários da Canabrava Agropecuária, em cuja propriedade são plantados algodão, milho e soja, e Jaci Pimentel, da Fazenda Tupã.

Sobre o protesto de hoje de manhã, em frente ao fórum de Formosa do Rio Preto, uma das participantes contou que inicialmente os portões estavam fechados para impedir a entrada dos geraizeiros:

“A gente falou não haver necessidade de trancar o portão, mas eles colocaram cadeado.” – disse.

Após o contratempo, um grupo de posseiros e advogados foi recebidos pela promotora Caroline Maronita Stange, um delegado e um juiz. Na ocasião, foram ouvidos e conseguiram tornar público o ocorrido.

HISTÓRICO

 As posses na região conflagrada são antigas. No caso das existentes às margens do rio Sapão, elas servem às famílias do povoado de São Marcelo para a criação de gado e para plantios de subsistência.

Entretanto, desde a instalação da Fazenda “Santa Maria – Gleba Tapuio” pela empresa “Canabrava Agropecuária”, nos anos 90, os territórios tradicionais dos geraizeiros são desrespeitados.

O latifúndio é consequência de uma fabricação de título suspeito. E remete à matrícula de uma gleba denominada “Frutuoso da Fazenda Santa Maria”, cuja extensão encontra se quantificada como “duzentos braças”, registrada no Livro de Registro Eclesiásticos de Terras da Freguesia de Santa Rita de Cássia.

No início do ano de 1980, José Raul Alkmin Leão (que já tinha sido preso por grilagem de terras no Estado do Piauí) adquiriu a posse desta gleba. A aquisição foi registrada no Cartório de Santa Rita de Cássia. Fraudulentamente, transformou essa posse de 200 braças (290 hectares) em 382.354 hectares. Dois anos depois, desmembrou 143.000 hectares e os vendeu para o mineiro Fernandino José Assumpção, então proprietário da Canabrava Agropecuária Ltda.

A partir daí, começou um desenfreado processo de comercialização – venda ou arrendamento – de glebas desmembradas do latifúndio.

O poder público tem conhecimento da situação. Em 1999, a área da Canabrava Agropecuária entrou nos registros do “Livro Branco de Grilagem de Terras no Brasil”, no qual o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) reconhece casos de grilagem e corrupção agrária.

Os posseiros tomaram conhecimento ontem que Mário Fernando Palmério Assunção, proprietário da Canabrava Agropecuária, esteve na manhã de segunda-feira – três dias após o atentado no qual ele seria um dos suspeitos – na delegacia de Formosa de Rio Preto para comunicar um “fato delituoso”.

De acordo com Mário Fernando, na manhã de sábado (4/9), seus empregados promoveram a retirada de cercas e currais construídos sem autorização, na área da Fazenda Santa Maria, pertencente à empresa Canabrava. Ele acrescenta que as demolições ocorreram de forma “pacífica e ordeira”, sem a presença de pessoas estranhas ou de terceiros.

O fazendeiro não identificou os funcionários que teriam feito o serviço e acusou pessoas não identificadas de promoverem a degradação da área de preservação permanente do rio Sapão, de onde teriam sido retiradas madeiras utilizadas nas construções irregulares.

Além da Canabrava Agropecuária, o fazendeiro é dono da Incorporadora Canabrava Empreendimentos Imobiliários, da Canabrava Participações, da MMA Guarda de Documentos e da Sociedade de Fomento Mercantil e Serviços. Três das empresas estão sediadas no mesmo prédio em que Mário Fernando Palmério Assumpção declarou como residência, no bairro de Abadia, em Uberaba (MG). A quarta fica localizado na cidade de Prata (MG).

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A reportagem foi atualizada no dia 9 de setembro de 2021, às 17h32min. Os quatro últimos parágrafos foram incluídos neste dia e hora.

Pita Paiva, o mestre da xilogravura

Sábado era um dia especial para o pequeno Lindomar, penúltimo dos 12 filhos do professor leigo e político Sinobelino Sancho Paiva e de dona Elizabete. Pita, apelido que ganhou por se parecer com o primo Epitácio, não via a hora do pai chegar da feira para saborear duas coisas: o pão doce e os romances, como eram chamados os livretos de cordel na comunidade Laranjeiras, em Uibaí (BA) e pelo sertão afora.

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Bahia no alto do ranking de conflitos por terra e por água

A 35º edição do relatório que contabiliza dados sobre conflitos e violência sofridas pelos trabalhadores do campo, indígenas, quilombolas e demais povos tradicionais revele que o número de ocorrências (2.054) cresceu 8% em 2020. No ano anterior foram 1.903. A quantidade de conflitos é a maior desde 1985, quando a Comissão Pastoral da Terra (CPT) começou a divulgar as estatísticas.

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45 versões para a oração ‘Pai Nosso Pequenino’

Três meses depois do lançamento do sítio Meus Sertões, em 2016, a médica e pesquisadora de cultura popular Helenita Monte de Hollanda nos enviou um vídeo sobre uma oração poderosa, invocada para a proteção dos sertanejos. Nele, dona Maria Belo, de Mucugê (BA), nos ensinava como rezar o “Pai Nosso Pequenininho”, também chamada de “Pai Nosso Pequenino”.

Pesquisa feita por Meus Sertões apurou que a oração tinha outras versões e que sua origem provável é Portugal. Na internet, descobrimos ainda que a oração também foi adotada por adeptos de religiões afro-brasileiras com o propósito de curar e proteger as crianças e os adeptos do candomblé e da umbanda. Também era atribuído à prece o poder de ficar “invisível ao mal” diante de uma situação de perigo.

Nos quase cinco anos de história de Meus Sertões, que serão completados no dia 27 de setembro, o “Pai Nosso Pequenino”, título da reportagem, se transformou no texto mais lido de nossa página e com o maior número de comentários (86) e 45 diferentes versões para a reza.

A mensagem mais recente nos foi enviada há uma semana por Caroline Montenegro. Ela nos conta que ao ler a reportagem recordou dos tempos de menina:

“Relembrei a minha infância quando ia para o interior dos meus avós, portas trancadas, lamparinas acesas e nós crianças com os ouvidos aguçados com o latido dos cachorros e preocupados com as pisadas do lobisomem que poderia passar correndo nas estradas na lua cheia. Então meu avô nos ensinou essa oração de proteção e rezávamos todas as noites” – relata.

Em seguida, mostra como aprendeu o “Pai Nosso Pequenino”

“Padre nosso pequenino tem a chave do paraíso/ Quem me deu?, Quem me daria?/ Foi a Virgem Maria/ Foge fonte, foge monte/ E que o demônio não me encontre/ Nem de noite, nem de dia/ Nem um pingo do meio-dia/ Nossa senhora me alumei/ Santo Antônio dai-me o guia/ Amém!”

Assim como Caroline, muitos outros seguidores nos enviaram suas versões e homenagearam seus pais, avós e bisavós, responsáveis por tão importante ensinamento.

A paranaense Sonia Alves, de Cruzeiro do Oeste, foi uma delas:

“A minha querida avó já falecida era da região de Londrina e criada por italianos. Ela me ensinou assim e sempre vou para o trabalho rezando essa oração:  Pai Nosso pequenininho/ Deus me ponha em bom caminho/ Jesus é meu padrinho que me pôs a cruz na testa/ Sete anjos me acompanham/ Sete velas me iluminam/ O diabo não me atenta/ Nem de dia e nem de noite/ E nem na hora dos séculos, amém.”

Luiz Solis e Vera Gonzaga homenagearam, respectivamente, a bisavó cearense Antônia Ferreira Coelho, da cidade de Novo Horizonte, e a “querida avó (in memoriam) que se chamava Pastora”.

Os ensinamentos feitos com carinho são levados pela vida toda, como nos mostra Maria do Socorro Lacerda da Cunha:

“Ainda pequena aprendi a oração com minha mãe cearense e rezo até hoje, todos os dias ao deitar. Eu tenho 61 anos e minha mamãe, 94.”

Já Tatiana Jatobá comprova o misticismo de nossa gente. No caso dela, a avó indígena, católica, rezadeira e detentora de uma “mediunidade incrível” revelou que um dia recebeu a presença de alguém que se apresentou como o anjo Natanael. Foi ele quem pediu a ela para que aprendesse a oração e ensinasse para todos se protegerem de qualquer mal. Em seguida, o anjo passou a ditar com voz suave para que ela anotasse:

“Pai Nosso Pequenino/ Deus me guie em um bom caminho/ Sete anjos me acompanhem/ Sete estrelas me alumiem/ Foi Deus quem me fez a cruz na testa/ Para o cão não me atentar/ Nem de noite, nem de dia/ Nem ao pino no meio dia, nem na hora de deitar/ As contas do meu rosário são balas de atirar/ Com elas combato o inferno rezando 3 Ave Maria (em seguida rezar Ave Maria 3 vezes).”

Nós, da equipe Meus Sertões, ficamos felizes quando conseguimos fazer com que nossos seguidores se emocionem, viajem de volta à infância e dividam conosco suas histórias.

Para ler a matéria original, as versões da prece e os comentários de nossos seguidores clique aqui 

 

 

 

 

 

 

Os vídeos de Jeremoabo

Jeremoabo é uma cidade com cerca de 400 anos de história. No século XVII, Garcia D’Ávila, o senhor da Casa da Torre, capturou nativos para escravizá-los durante o processo de desbravamento do Nordeste e de expansão da criação de gado bovino. Dono da maior sesmaria do mundo, o administrador colonial português teve divergências com os missionários que se opuseram à escravização dos indígenas muongurus e cariacás, descendentes dos Tupinambás. Em represália, D’Ávila incendiou o aldeamento dos jesuítas.

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Aventuras de um colecionador
de moedas sociais

O comerciante Paulo José Farias de Barros, 50 anos, percorreu de motocicleta os 728 quilômetros que separam Salvador (BA) de Juazeiro do Norte (CE) para conhecer o Banco Comunitário Timbaúbas e comprar cédulas de Timba, nome dado a uma das muitas moedas sociais criadas para fortalecer economicamente territórios vulneráveis de todo o país. Ao chegar, viu que o estabelecimento estava desativado.

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