Autor: Lindomar Pita Paiva

Garimpo

SONHO DE GARIMPEIRO

Depoimento de Arceno Mendes Paiva, 83 anos. Povoado Bilu, município de Uibaí (BA)

“Quero contar um sonho bom danado que eu tive. O garimpeiro vive sonhando acordado ou dormindo. E eu fui garimpeiro, estou nesta idade e não paro de sonhar. Tive um sonho bem claro outro dia, e é o mesmo que eu tá vendo a cena. É pena que eu já tô muito velho, o corpo não responde, só tô andando distância curta e de bastão, mas se eu ainda tivesse força, ia bater lá.

O lugar fica entre dois garimpos que dá uma légua de um pro outro. Eu já tive lá, com toda certeza. Entre um garimpo e outro, tinha uma praia bonita, uma estrada… E no sonho eu ia passando perto de uma mata, já atravessando pro outro lado e vi aquela bola parecendo uma lua cheia suspensa no ar. Êta que bola bonita! Eu disse: “Mas que negócio bonito é aquele?” Fiquei naquela ânsia de ir lá, mas aí assustei. Nunca vou esquecer aquele sonho. É diamante, com certeza! Nunca vou poder ir lá, pois as forças das pernas acabaram, agora só
posso sonhar.

Mas eu vou contar uma coisa de um tempo que até parece que foi sonho. Em 1959, vim de Gentio do Ouro para este dito lugarzinho aqui, onde a gente tá em cima agora. Vim com dezoito contos na perna, um dinheiro que se fosse hoje dava pra comprar carro novo. Dezoito contos dava pra tanta coisa… Terra mesmo era quase de graça, cada propriedade era de conto abaixo. Aqui só tinha umas quatro casinhas cobertas de tábua – que eram ranchos, na verdade – uns carreirinhos que iam pras roças e uma mata esquisita.

Anos antes de chegar por aqui, saí de Gentio do Ouro numa jornada danada, cortando cento e vinte léguas pro Piauí. Eu e dezoito pessoas, homem e mulher, todo mundo garimpeiro, todo mundo a pé – antigamente se cortava muita distância na canela, eu mesmo conheci muito lugar, caminhando. Os animais só iam com carga de comestível e ferramenta.

Chegando lá, a gente enxergou que aquilo era um formigueiro. Sabe quando elas tão virando tanajura? Bem assim era lá, em Geribués, onde diamante era que nem farinha. Diamante lá parecia um dilúvio, sabe? A gente acordava cedo e fazia um churrasco com muita carne. A comida era quase que somente carne. Carne de gado. E muitas vezes a gente passava o dia só com aquilo. Mas às vezes, lá no mato, perto do serviço, se fazia café e alguma outra coisa. Depois de barracar, se faz de um tudo. Tive lá quatro anos, de 1946 a 1950, e o que ganhei
deixei por lá, não trouxe nem um conto. Eu era moço e a vida de garimpo por aí já se sabe
como é, é muita farra.

Tem garimpo que o serviço é raso, mas com o tempo vai passando dos trinta palmos. O sujeito abre o buraco com um metro de boca, aí vai cavando até dar no cascalho. Ele rompe até não sei quantos metros por baixo do chão e especa tudo aquilo com pau ou forquilha. É um perigo porque aquilo desaba e leva vida. Teve ocasião da polícia interditar quando acontecia desabamento. Uns queriam salvar os outros e se acabavam também. E você sabe, garimpeiro é bicho destemido, faz o rompimento que pode encontrar com o de outros companheiros que já
vêm cavando do outro lado por debaixo do chão. Fica aquele mundo sem fim, tudo especado no birro de pau. Tive em lugar que quase morri. A iluminação por baixo era de candeeiro com matula no querosene ou no leite de mamona. Mas, com tudo isso, garimpar ainda é um sonho.”

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Livro: Um Conto de Cada Canto. Pág 95 a 97. Projeto aprovado pelo Programa BNB de Cultura 2009. Pita Paiva

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DICIONÁRIO DO GARIMPEIRO

Barrracar – Armar barraca para pouso durante o tempo em que se estiver trabalhando.

Especar – Escorar

Esquisita – Muito grande, enorme.

Geribués – Gilbués, município do estado do Piauí

Matula – Mecha do candeeiro

Rompimento – Escavações ou túneis feitos por garimpeiros.