Autor: Angelina Nunes

​Carioca, apaixonada pelo samba, nasceu dentro de um trem da Central do Brasil, quando os pais tentavam chegar ao hospital. Jornalista há mais de três décadas, conquistou prêmios como Esso, Embratel, Vladimir Herzog, SIP, YPIS e Rey de España. Formada pela UFRJ, e é mestre em Comunicação pela Uerj. Professora universitária, integra o conselho da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), da qual foi presidente em 2008–2009, e o projeto Mulheres50mais. A família de seu pai é de Cedro de São João, cidade do semiárido sergipano.

Flagelo ou trevas

Pouco antes da décima segunda badalada, havia olhares atentos pelas frestas das janelas de madeira nas casas próximas. A rua deserta e iluminação fraca dos postes criavam a atmosfera de tensão. Ou melhor, de medo. Medo de ser surpreendido pela procissão com homens vestidos de capuzes e mortalhas brancas ou enrolados em lençóis, fazendo súplicas. Medo de que se confirmasse a lenda de que o último dos penitentes não pisa no chão. É uma alma que acompanha a procissão.

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Imagens severinas

O rosto curtido do sol, as rugas bem marcadas, o olhar arisco. O boné com aba virada para trás é sua marca registrada. Olhando assim, no meio do sol carioca, Severino Silva parece um boiadeiro nordestino na cidade grande. A fala é mansa, baixinha, e a voz só se eleva para falar “das coisas boas de lá”. “Lá” é o Nordeste, o sertão, onde se sente mais à vontade, onde pode voltar a ser criança e brincar com a luz da lua perto de casas de pau a pique ou com a penumbra iluminada na chama de um toco de vela na mão de um romeiro em uma procissão. O Nordeste de Severino é grande, muito além de Pirpirituba, no interior da Paraíba, onde nasceu e de onde saiu ainda menino. É pelas estradas que ele segue para as pequenas cidades e chega de qualquer jeito: pode ser de ônibus, de carona ou a pé. Na inseparável mochila, disputam espaço as duas câmeras, as lentes, uma rede de selva e um saco de dormir. Às vezes, as roupas não conseguem ganhar nem um cantinho, ele confessa em meio a um sorriso.  E diz que pede pouso em qualquer lugar para poder amarrar sua rede em árvores ou se abancar em um canto de alpendre.

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