A Festa do Divino de Maria Preta

Paulo Oliveira e Thomas Bauer – 

A Festa do Divino surgiu na Europa, após a construção de uma igreja em Alenquer, Portugal, no século 14.

Na ocasião, a rainha Isabel (1271-1336) estabeleceu a comemoração 50 dias depois do domingo de Páscoa para lembrar a descida do Espírito Santo sobre os doze apóstolos. A devoção se espalhou rapidamente pelo país e pelas colônias portuguesas.

Há documentos que atestam que a tradição chegou ao Brasil entre os séculos 17 e 18. Uma carta do capelão João de Morais Navarro ao governador da capitania de São Paulo, datada do dia 19 de maio de 1723, cita os festejos. Nos trópicos, a festa ganhou componentes profanos.

Originalmente, o Império do Divino era constituído, com palanques e coretos, e uma criança ou um adulto era escolhido para presidir a festa. Atualmente, a celebração ocorre em vários estados brasileiros, com muitas variações. Há reconstituição da corte imperial, cavalhadas representando as guerras entre mouros e cristãos, levantamento de mastros, missas, cortejos, alvoradas e espetáculos de fogos de artifício.

No entanto, na comunidade do Brejo de Cabeceira de São Gonçalo, no município de Barra (BA), o Espírito Santo é exaltado de forma bem diferente, sem imperador e corte. A mistura de reza, dança e comida farta atraem os moradores de diversas localidades e municípios. É a Festa do Divino de dona Maria Preta, apelido da nonagenária Maria Ribeiro da Silva, que reproduz a celebração assim como ela foi concebida por seus bisavôs.

“A gente celebra o Divino porque nossos bisavôs ouviam falar que o Espírito Santo era o dono dos espíritos das pessoas. E nossos antepassados diziam: ‘Vamos festejar porque se o Divino está no céu, ele tem que estar na terra também’. Aí pintaram a bandeira, festejaram e depois inventaram a música, que foi passando para os filhos, netos, trinetos e tataranetos” – explica Daniel de Carvalho Souza, sobrinho de Maria Preta e morador no Brejo do Pequi.

Voltaremos a Daniel em breve, pois ele será nosso guia musical e explicará a diferença entre os tipos de samba tocados durante a festa.

José Maria da Silva, o Mazinho, filho de dona Maria, tem hoje a missão de zelar pelo estandarte do Divino. Ele começou a participar da tradicional festa em 1995, entoando cantorias. Passou um período sem cantar, mas ao retornar o antecessor repassou a responsabilidade e morreu em poucos dias.

“É muita responsabilidade ficar com a bandeira. Eu tenho de ter atenção para todos os que me acompanham. São 15 pessoas entre crianças, adultos e idosos. A peça é minha, mas o chefe do grupo mesmo é Deus” – diz.

Durante o ano, o estandarte fica guardado. Ele voltara a ser usado um mês antes dos festejos, quando o grupo peregrina carregando-o pelos brejos Ilhota, Cachoeira, Pequi, Campo Grande, dentre outros, cantando e recolhendo esmolas e donativos. Assim, a tradição de uma família se transforma em um evento comunitário.

A banda da família Silva é conhecida na região. Nenhum grupo de fora toca durante os festejos:

“A gente se diverte com quatro, cinco pandeiristas; o tambor no meio, sendo espancado; o som da viola e as mulheres sapateando e cantando” – relata Daniel.

A batida mais lenta é chamada de samba de rojão ou toada. A mais acelerada, samba de batuque. É possível perceber a diferença entre elas nos áudios abaixo.

Há ainda o samba de roda, cujos passos são semelhantes ao da Dança de São Gonçalo, feita para pagamento de promessas e para agradecer pelas graças alcançadas. A roda faz parte dos festejos no brejo.

As músicas, segundo nosso guia musical, foram compostas pelos antepassados, a partir de seu Elói. Depois vieram os descendentes: João Ribeiro, Firmino, Venâncio, Evaristo, José, Joaquim até chegar na atual responsável pela festa.

Amparada por uma parteira, na Fazenda do Saco, Maria cresceu participando da brincadeira.

“Quando os meninos tocavam, oxê, nem tinha precisão de comer, só dançar lundu”.

É preciso esclarecer que dona Maria insiste em dizer que não gosta de samba, prefere a dança e o canto trazidos por negros angolanos e congoleses para o Brasil. Os passos de lundu ficaram conhecidos como umbigada (semba, em quimbundo).

No artigo “Lundu: origem da música popular brasileira”, publicado no site Música Brasilis -, José Fernando Monteiro conta que o ritmo chegou a ser proibido por sua dança ser considerada lasciva (erótica).

Incorporado por tribos indígenas e apreciado nas camadas populares, o lundu ganhou espaço e foi o primeiro gênero musical gravado no Brasil, em 1902. O pioneirismo coube ao cantor Bahiano, que interpretou “Isto é bom”, de Xisto Bahia. Músicos eruditos e consagrados como Carlos Gomes e Villa-Lobos compuseram lundus, considerado pai do maxixe e avô do samba e da música popular brasileira.

Quando chegou à Cabeceira de São Gonçalo com os seis irmãos e irmãs, Maria viu apenas três casas, além da que foi morar. Não existia cobertura de telhas, sobre os imóveis palhas de buriti. Além disso, era necessário enfrentar a estirada até o Brejo Dois Riachos para buscar água. Não havia energia elétrica. Na época, era preciso caminhar cinco dias a pé, enfrentando o imenso areal, para ir até Barra.

Dona Maria Preta lamenta não ver mais a quantidade de animais de outros tempos e o fato da pandemia de covid-19 ter impedido a realização da Festa do Divino nos últimos dois anos. Nos dias que antecedem festejos, a ansiedade toma conta da nonagenária:

“Quando está perto, deito na cama, mas não durmo. Eu fico pensando em tudo e não encontro posição para dormir” – explica.

No sábado e domingo dedicado ao Divino então, Maria não prega os olhos. Ela participa ativamente das rezas e das danças.

“O Divino é um padroeiro que o povo gosta muito. Então o pessoal vem pra cá para se divertir. Várias comunidades estão aqui: Umburanas, Pequi, Passagem Grande e assim vai” – anuncia Mário Preto, que veio de outro brejo para o evento.

 

IMAGENS DA FESTA

 

 

A JORNADA

Só é possível chegar na Cabeceira de São Gonçalo com veículos de tração nas quatro rodas. De Barra, após cruzar o encontro dos rios Grande e São Francisco, é preciso seguir em uma estrada que está sendo construída para ligar a região a Pilão Arcado, cidade a 178 quilômetros de distância.

No meio do caminho há acesso para uma estrada vicinal de areia. É necessário passar por diversas comunidades antes de chegar à Cabeceira de São Gonçalo. As residências no caminho são desde casas de palha até as de alvenaria. A maioria tem um engenho puxado por boi ou um pouco mais moderno no terreno.

Após três horas, chega-se à morada de dona Maria no alto de um monte. Lá há quatro construções: a moradia da anciã, uma cobertura para o fogão a lenha, a residência do filho e a capela dedicada ao Divino Espírito Santo. No altar, uma foto de Santa Bárbara, miniaturas de santos e da pomba que representa o Espírito Santo.

A movimentação na propriedade se intensifica no final da tarde de sábado. Os festejos deste ano ocorreram entre os dias 4 e 5 de junho. Na chegada, os convidados são recebidos com biscoitos e café.

O samba ecoa no sábado à noite. Maria Preta faz questão que a dança comece na sala da casa onde mora. Perto de completar 100 anos, ela está firme e forte. A cantoria inicial conta com a participação de adultos e crianças, que também são incentivadas a participar da banda.

O incentivo aos mais jovens é uma das causas para a tradição não ter terminado, como aconteceu em localidades próximas. O filho de Mazinho, por exemplo, começou a tocar com o pandeiro de um adulto. Ao ver que o menino tinha jeito, a família entrou em contato com o padrinho dele, em São Paulo, e pediu o instrumento de presente. A solicitação foi atendida.

Por volta das 23 horas, o povo se dirige à capela decorada. Muitos carregam velas. A primeira reza dura cerca de 40 minutos.

 

Depois do ritual, recomeça o samba. Faz muito frio. A uma hora da madrugada, fogueiras são acesas para aquecer os visitantes. Um dos filhos de Maria Preta, Paulo, serve cachaça para os adultos. Além disso, no bar improvisado por Mazinho são servidas outras bebidas. O dinheiro arrecadado servirá para promover a próxima festa.

Ao amanhecer, todos retornam à igrejinha e à área coberta diante dela. De lá partirá a alvorada, com duas meninas à frente. O trajeto é curto: passa pela morada da dona da festa, entra pelos fundos e sai pela frente. O mesmo acontece no imóvel ao lado, antes do retorno à capela.

Vem a alvorada e, em seguida, é servido o café da manhã. Ao mesmo tempo está sendo preparado o almoço com a carne do boi morto na véspera.

A música e a dança voltam a dominar o ambiente. É a vez do batuque e da roda de São Gonçalo. Os movimentos tradicionais feitos com arcos, ali são completados com os braços (foto do Mário). O samba prossegue até às 11 horas da manhã. Diante da igreja, mulheres entrelaçam os braços e movimentam os pés.

Meio-dia. Hora da ladainha, da reza na capela. Ao fim da prece, é servido o almoço. Os músicos, as pessoas que trabalham na festa e as crianças têm prioridade. Nessa hora ainda há moradores de outros brejos chegando. Eles vêm em antigas caminhonetes D-20 e C-10. Para rodar no areal é necessário esvaziar os pneus. Há quem chegue de moto e em vez de acionar o descanso, elas fazem zoada com as rodas para que elas abram espaço e afundem na areia.

O samba rola até às 16 horas, quando então chega a hora de “guardar o santo”. O termo designa que é o momento de a Bandeira do Divino voltar para a parede do altar, ao som da última oração em forma de cantoria.

Antes de acomodar o lábaro, o rapaz que o carrega passa o estandarte três vezes na cabeça de quem está na capela, simbolizando a proteção do Espírito Santo. A festa oficial termina, mas o trinômio música, cerveja e cachaça ainda vão rolar por algumas horas. A diferença é que o samba dá lugar ao funk, ao pagode, ao forró, à música sertaneja e a outros ritmos que saem aos berros das caixas de som dos paredões instalados nos porta-malas dos veículos.

É assim que os moradores daquela região isolada, onde está localizado um dos maiores areais não desérticos do Brasil, mantém uma tradição secular.

Thomas Bauer Contributor
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