A pequena Alemanha

Forqueta – for-que-ta (ê)
Substantivo, feminino
[Brasil] Ponto de confluência de dois rios, formando ângulo agudo.
Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

Forquetinha – for-que-ti-nha (ê)
Município brasileiro do estado do Rio Grande do Sul.
Origem do nome: diminutivo de ‘forqueta’ = forquilhinha de arroio.
População estimada (2021): 2.389 habitantes
IBGE

Entre 1857 e 2001, Forquetinha era dependente de Lajeado, cidade a 114 quilômetros de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul. Mesmo depois de se emancipar em 1996, a cidade permaneceu dependente administrativamente e financeiramente do principal município do Vale do rio Taquari. Banhado pelo arroio que lhe deu o nome, o local só passou a ter administração própria cinco anos depois.

O primeiro prefeito Waldemar Laurido Richter, 73 anos, descendente de alemães, assim como a maior parte da população, foi responsável por planejar a nova cidade. Richter, professor de história e de língua germânica, resolveu utilizar a técnica de construção enxaimel na construção do centro administrativo, do parque de exposição e da maior escola do município, assim como fizera antes com a própria residência. Assim, Forquetinha ficou ainda mais parecida com a Alemanha.

Centro admininstrativo

O enxaimel é um modelo arquitetônico que não utiliza pregos. As paredes são montadas com vigas de madeira que se encaixam e geralmente não se utiliza reboco. O quadro de madeira costuma ficar exposto no exterior da construção. Outras características importantes são a robustez, a eficiência estrutural e o baixo custo de edificação.

Antes de ser eleito prefeito pela primeira vez, Richter coordenou desfiles históricos e ajudou famílias de toda a região a descobrir as raízes. Foi também vereador e secretário de cultura e turismo de Lajeado. Em sua gestão foi construído o Parque Histórico da Colonização Alemão [1]. Empreendimento semelhante em Nova Petrópolis, com melhor infraestrutura turística.

O parque de Lajeado possui arquitetura de várias regiões da Alemanha porque são casas que já estavam construídas aqui. Elas foram desmontadas e reconstruídas. A madeira usada no estilo enxaimel é toda numerada em algarismos romanos, o que facilita o remontar original.

A emancipação de Forquetinha aconteceu sem que houvesse prazo para realizar as eleições, concretizadas no ano 2000. Quando tomou posse, Waldemar Richter já tinha planos de valorizar a cultura alemã. Suas primeiras ações foram a criação do sistema viário e do plano diretor da futura cidade. Todos os logradouros receberam os nomes dos primeiros colonos de Forquetinha, com exceção da avenida Martin Luther, figura central da Reforma Protestante [2]. Nela estão localizadas duas igrejas luteranas.

Com relação à arquitetura, o então prefeito tinha determinado o levantamento de casas originais, com fotos e o histórico de cada uma na cidade e em dois municípios vizinhos – Lajeado e Canudos do Sul. Em Forquetinha, havia 40 imóveis. Nos outros locais, cerca de 100 construções em enxaimel.

Placas e mapa

“Aí fiz o projeto de construção daqui baseado no patrimônio histórico e arquitetônico ainda existente. Para os oito prédios públicos do Centro Administrativo, comprei 35 mil hectares de terra. Eu só não consegui terminar um, mas deixei dinheiro em caixa para finalizá-lo” – conta Waldemar Richter, eleito prefeito três vezes (2001-2004, 2009-2012 e 2013-2016).

No primeiro ano de mandato, o político começou a construir o prédio do posto de saúde com 500 metros quadrados. Um ano depois, foi a vez da creche. E em 2003, com conclusão no ano seguinte, foi a vez da clínica comunitária.

Derrotado nas eleições seguintes, Richter voltou a vencer em 2008 e retomou seus projetos. A única construção que não conseguiu concluir ao final de oito anos seguidos de gestão foi a gigantesca (1.738 m²) “creche de idosos”, também chamada de Frohes Heim (lar feliz). Era um projeto pioneiro que previa atendimento de diversos tipos para as pessoas da terceira idade, incluindo uma associação de voluntários.

A iniciativa previa atendimento por parte de médicos, seis enfermeiras e técnicas de enfermagem, assistente social e integrantes do Conselho Tutelas. O local, com cerca de 40 quartos e instalações para deficientes físicos, previa ainda sala de jogos, sala para TV, jardim de inverno. Ao deixar a prefeitura em 2016, Waldemar Richter afirma ter deixado o prédio levantado, o telhado de R$ 200 mil licitado e mais R$ 3,280 milhões liberados para a conclusão, além do segundo andar levantado.

A ideia era proporcionar um local de acolhimento, lazer e atendimento médico para os mais velhos. As famílias poderiam deixar os idosos por um ou mais dias ou até mesmo autorizar que morassem lá. No entanto, Richter lamenta que seu sucessor tenha quebrado os cômodos que já estavam prontos e modificado o projeto para atender crianças, embora já existisse creche e jardim de infância no centro administrativo. Até hoje, no entanto, o prédio continua inacabado.

“Não havia nenhum projeto semelhante naquele tempo. O Ministério da Saúde tinha a proposta de construir centros de curta e longa permanência para idosos, mas com uma estrutura muito menor. Apresentei minha proposta e eles acharam fantástica, mas não tinham dinheiro para investir. O máximo que ofereciam era uma ajuda de R$ 100 mil. Eu não aceitei a verba porque eu ficaria dependente deles da construção. Fizemos até onde foi possível com recursos próprios” – recorda.

A sede da prefeitura, obra da arquiteta Sigrid Collisthonn, foi inspirada em um quadro de Martin Luther traduzindo a Bíblia para o alemão, no castelo Wartburg, na cidade de Eisenach. Além das unidades citadas foram construídas uma biblioteca pública, um clube (complexo de vida saudável, uma praça e uma área para veículos diversos e equipamentos. As construções, no estilo da Vestfália [3], motivou boa parte dos moradores a restaurarem suas casas.

Parque de exposições

Richter explica que os colonizadores chegaram ao Vale do Taquari a partir de 1870. Alguns vieram diretamente da Alemanha, outros já estavam no Rio Grande do Sul e deixaram São Leopoldo porque não havia mais terras para dividir entre as famílias numerosas.

Por que eles saíram dessa região, onde eles estavam bem? Saíram por necessidade. Todos os lotes estavam ocupados. Cada família tinha 10, 12 filhos ou mais. Era mão de obra na época. Mas quando casaram não tinham mais onde comprar ou dividir as terras. Aí foram obrigados a ir para outras regiões e vieram para o vale do arroio Forquetinha [4] e, posteriormente, se espalharam por outras cidades e pelos estados de Santa Catarina e Paraná.

A população da cidade preserva a cultura alemã. A língua dos antepassados é ensinada nas escolas, há grupos de danças folclóricas, canto coral e orquestra de sopros. As principais festas são realizadas no Parque Temático e de Exposições Christoph Bauer, imigrante que se estabeleceu em 1880 como agricultor e também foi o primeiro professor da região.

Em 14,5 hectares (145 mil metros quadrados) estão distribuídos pavilhões de exposições, auditórios, salão de jogos germânicos, prédios temáticos, monumentos de figuras folclóricas das colônias – o açougueiro que carneava porco é uma delas – e estacionamentos.

Os eventos mais conhecidos são o Weihnachten Fest (Natal), que se estende até o dia 6 de janeiro; a Forquetinha Expo Fest, realizada em novembro, mas cancelada há dois anos por causa da pandemia de covid-19; a School Fest (festa da escola), concomitante à exposição anual; e o encontro de grupos folclóricos alemães, provenientes de cidades gaúchas e catarinenses.

A família Bauer também é tema de um dos 50 livros sobre os imigrantes pioneiros, cujos nomes estão nas placas dos logradouros de Forquetinha, que o ex-prefeito está escrevendo. Outras três histórias sobre os Pilger, Kremer e Strassburger já foram publicadas. A série se chama Nie Gedacht (Nunca Pensei) e foi bancada com recursos próprios, com exceção dos Pilger, patrocinada por um integrante daquela família.

A pequena Alemanha também foi transposta para a casa de Waldemar Richter. O prédio principal, além de amplo, abriga a miniatura do parque histórico de Lajeado, fotos da família e quadros com detalhes do maibaum [5] ou árvore de maio.

A palavra alemã significa, literalmente, “mastro”. Inicialmente usado para aproximar jovens e promover casamentos, após a Segunda Guerra Mundial, começaram representar corporações tradicionais e famílias importantes. Erguidas a cada cinco anos, sempre no dia primeiro de maio, o mastro pode ter afixadas placas pintadas, esculturas em madeira, fotos, bandeiras e relevos.

O belíssimo complexo arquitetônico, construído a partir do ano 2000, conta ainda com biblioteca, que será aberta para a comunidade fazer pesquisas sobre a colonização; igreja dedicada a Cristo; e o museu da família, outra área destinada à visitação.

O ex-prefeito historiador planeja agora escrever livros sobre os colonizadores da vizinha Canudos do Sul, que também pertencia a Lajeado, e construir um local em sua propriedade para abrigar as urnas funerárias de cinco gerações dos Richter.

Residência Richter

 

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[1]  O Parque Histórico é uma aldeia-museu com um conjunto de 24 construções – casas, salão de baile, ferraria, restaurante, coreto e moinho – em estilo enxaimel originais, numa área de 20 mil metros quadrados. Foi inaugurado em 2002 com o objetivo de preservar a história e cultura alemã. Todas as casas que estão no Parque Histórico de Lajeado são originais. Elas foram construídas pelas imigrantes alemães em estilo enxaimel entre 1860 e 1910, e foram transferidas ao parque mantendo sua originalidade. Foi um processo de transferência do interior para o parque, reconstrução e restauração, para que elas não se perdessem com o passar dos anos. Os primeiros imigrantes alemães chegaram ao Vale do Taquari em 1855. O parque serviu de cenário para o filme “A Paixão de Jacobina” do diretor Fábio Barreto, em 2002.

[2] A Reforma Protestante foi um movimento religioso que aconteceu na Europa, século XVI, fomentado por razões políticas e religiosas. O movimento teve como principal líder Martin Luther (Martinho Lutero em português), que por meio de 95 teses fez várias críticas à Igreja Católica. Lutero defendia a pobreza apostólica; a Escritura como única lei da igreja; Cristo como o cabeça da igreja, não o papa.

 [3] Vestfália é uma região histórica da Alemanha, à volta das cidades de Dortmund, Münster, Bielefeld, e Osnabrück, e agora incluída no estado federal alemão de Renânia do Norte.

[4] Forquetinha possui terras férteis, cortadas pelo arroio que leva seu nome. Tem área equivalente a 92 km². Noventa por cento da população é de descendentes de imigrantes alemães. A maioria provenientes da região do Hunsrück. O município é formado por pequenas propriedades rurais, cuja economia está voltada à suinocultura, avicultura, produção leiteira, cultivo do milho e fumo. No setor secundário se destacam as indústrias de confecções do vestuário.

[5]  Tradição dos teutões[6], povos germânicos que viviam no centro e norte da Europa. Foi iniciada no século XVI.

Jornalista, editor, professor e consultor, 59 anos. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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