Depoimentos de ex-alunos do CPM

Linda Gomes

Meus Sertões ouviu depoimentos de ex-alunos de colégios da Polícia Militar (CPMs) para que pudesse ter uma ideia das similaridades existentes entre os estabelecimentos de ensino militares e as escolas municipais conveniadas com a corporação. Uma professora de história, outra de educação física, um jornalista e um militar falam de suas experiências nas unidades Dendezeiros e Lobato.

Através delas, vemos que todos tiveram dificuldades de adaptação. A professora Cíntia Castro não acredita na formação humanizada diante de normas rígidas e da falta de diálogo. Já o militar Ronaldo Costa declara seu amor incondicional pelo CPM e sonha com o dia em que seu filho possa estudar lá.

A historiadora Dandara Mattos revela que, apesar de ter odiado estudar no colégio, aprendeu coisas que emprega até hoje na carreira e na vida. Por fim, o jornalista Kleber Leal lembra de uma época em que algumas normas eram flexibilizadas. Eis os depoimentos:

‘Como formar de maneira humanizada?’

 

Cinthia Castro, professora de educação física

“Entrei no CPM no ano de 2002, tinha 11 anos de idade, na 6° série (atual 7° ano). Antes estudei no Colégio Estadual Dr. Eduardo Bizarria Mamede, no bairro Nazaré, por um ano. Antes disso, fui matriculada em escolas particulares de ensino infantil.

A adaptação foi bem difícil. Era assustador ver a separação que se faz entre alunos novatos e veteranos. Entramos sete dias antes dos demais alunos. Na semana seguinte nos juntamos com os outros alunos, o que trouxe essa sensação de não pertencimento logo de cara. Até o fardamento que usávamos – camisa branca, calça jeans e tênis preto – era diferente. Tentei me entrosar com os demais, mas eles não queriam sequer sentar ao meu lado ou conversar. Eu era tímida e isso ampliou um comportamento mais fechado. Até que conheci uma aluna que veio de outra unidade do CPM e houve entrosamento, além das novatas como eu.

As regras disciplinares eram rígidas e eu já esperava por isso, pois meu pai é militar e me falou das responsabilidades previamente. Eu não gostava muito da falta de flexibilidade com a questão do horário. Morava na Federação e a unidade em que estudava fica no bairro de Roma (cerca de 10 quilômetros de distância). Tive muita dificuldade com o transporte público. E se chegássemos com 15 minutos de atraso do horário estabelecido, perdíamos todas as aulas. Isso mexeu muito com meu rendimento.

Outro ponto que me incomodava é o pouco espaço para argumentar algo em relação ao estudante. A regra é essa: temos que cumprir pois está no regulamento. E ainda tinha a exposição pública, em boletins diários, das pessoas punidas. Isso causava constrangimento.

Na minha época, havia diversos professores civis de muita qualidade. Era um dos aspectos que gostava muito e me orgulhava. Saber que teria um ensino muito bom. Mas não pelo contexto cívico, pois, mesmo com toda ritualística militar antes da aula começar, o foco era o conteúdo e a metodologia do professor. Creio que isso é que faz a diferença.

Nos casos de indisciplina, o professor tinha a autonomia para resolver a situação em sala ou encaminhar para a direção militar, o que resultaria em advertência ou punição. Em alguns momentos, eu sentia que havia uma orientação por parte da direção pedagógica, no entanto a disciplina era mantida muito mais pelas regras militares. Algo complexo, pois a socialização em outros espaços do cotidiano exige mais do que ter “medo” de uma punição.

Eu não era uma aluna-padrão. No CPM, minha autoestima foi muito prejudicada devido à dificuldade imposta para me socializar. Tive um início de depressão, fiz terapia aos 14 anos. A princípio compreendia como bullying alguns episódios pelos quais passei. Depois, ampliando minha consciência e letramento racial, compreendi que foram situações de racismo por parte de alguns colegas. O racismo é fator estrutural e complicado, mas também reproduzido por crianças e adolescentes. E estando num espaço militar essa discussão/reflexão passava longe do cotidiano. Isso me fazia ser uma criança/adolescente introspectiva, insegura nas relações.

Não considero que o modelo de gestão compartilhada entre a PM e as secretarias municipais de educação seja um caminho para resolver os problemas das escolas. Existem outras vias possíveis. Se resumimos tudo somente ao fator disciplina ou ao fator mérito, deixaremos de cumprir um dos objetivos principais da escola. Como formar de maneira humanizada, crítica e reflexiva uma pessoa, onde as regras são muito rígidas, sem espaço para argumentação e diálogo?”

–*–*–

‘Meu sonho é ver o meu filho estudando no CPM’

 

Ronaldo Costa, militar

“Eu comecei a estudar no CPM na sexta série. Eu tinha 12 anos. A minha adaptação não foi muito boa, cheguei no colégio meio perdido, sem saber ao certo onde eu estava. Tinha muita vontade de estudar no Colégio da PM. Era um sonho, estava muito ansioso, mas quando eu me vi lá, eu meio que ‘colei as placas’, não sabia qual atitude tomar e demorei para me adaptar.

Eu me alfabetizei em uma escolinha de bairro e estudei até a quinta lá. Tudo muito ‘bestinha’, tudo era brincadeira, tudo era graça… No primeiro dia no CPM, esqueci a boina e fiquei ‘impedido’ no sábado. Foi um choque ter que ir para o colégio e ouvir: “Ordem unida! Vocês vão aprender a marchar, a cantar o hino nacional, o hino da bandeira, o hino ao Dois de julho [1].

Quando cheguei no CPM, eu me deparei com tudo novo. Tinha que pedir permissão para entrar na sala, pedir permissão para sair da sala, informar se ia ao banheiro, entender a parte de hierarquia e disciplina no militarismo. Era o que eu queria, mas demorei para me adaptar.”

Quando fui transferido do CPM Lobato para a unidade Dendezeiros, tudo foi muito bom e ao mesmo tempo não foi. Eu era um aluno novo, porém já tinha um ano de Colégio da Polícia Militar. Aí eu fui com o nome de guerra, todo ‘padrãozinho’, e fui muito “apertado”:

‘Quem lhe deu autorização para você vir com a sua farda e com nome de guerra? Você veio de onde?’

Quando você responde que veio do CPM Lobato, ouve:

‘Grande coisa é o CPM Lobato! Não era nem para você falar isso aqui’

O choque de responder uma coisa e sua resposta não ter importância; de tirar uma dúvida e ouvir que não deveria abrir a boca é grande.  Essa parte do militarismo eu demorei a me adaptar. Não fui um aluno fácil de lidar. Eu era muito punido e muito comunicado por não conseguir me adaptar Sempre aos finais de semana eu era ‘impedido’ por me atrasar, por não cortar os cabelos nos dias da ‘revista’. Eu tinha disciplina, mas não conseguia ser pontual.  Ainda tenho essa dificuldade.

Depois de um tempo eu me apaixonei por esse lado de ‘ordem unida’, lá nos desfiles cívicos-militares na avenida Sete de Setembro (centro de Salvador). Era o que me impulsionava, era um orgulho poder falar que eu era da primeira companhia.

‘Você é da primeira companhia?’ – eu perguntava.

‘Não’, era a resposta.

‘Eu sou da primeira companhia! Você sabe fazer os movimentos com o fuzil?’

‘Não.’

‘Eu sei porque sou da primeira companhia’ – repetia.

Ser da primeira companhia é como se fosse um título dentro do CPM. Creio que em todo o colégio existam disputas internas, mas você falar que é do Dendezeiros, da primeira companhia, sempre vai massagear o ego dos alunos. Os oficiais faziam com que isso crescesse entre a gente. Lembro de episódios dos campeonatos de futebol que juntavam a unidade Lobato com o CPM Dendezeiros. Antes do jogo começar, os superiores falavam:

‘Vocês não podem perder para o CPM Lobato! Vocês são do primeiro colégio, o jogo é na casa de vocês e é inadmissível perder para um colégio que só tem uma ‘historinha’ de cinco anos. Ninguém passou pelo Lobato. Todos passaram pela Dendezeiros.’

Então a gente entrava para jogar bola como se aquilo fosse uma guerra. Hoje a gente ri e pensa o quanto fomos imaturos, mas naquele momento era tudo para a gente, era maravilhoso.

Eu não sei dizer se o ensino do Colégio da PM é adequado. Como não sou da área da educação, não posso falar sobre isso com propriedade. O que eu posso garantir é que o CPM é a melhor coisa que há! Meu sonho é ver o meu filho estudando lá. Eu me orgulho de ter estudado nessa escola. Quando paro para pensar quem são os meus melhores amigos, os que estão próximos de mim a todo o momento, constato que são as pessoas que estudaram comigo e seguiram carreira. Posso contar com elas para tudo. O CPM e a polícia me deram isso.”

–*–*–

após eu entrar na sala ninguém mais pode ingressar’

 

Dandara Matos, professora de história e ex-aluna do CPM. Reprodução do Facebook

“Não acho que o modelo do CPM seja adequado para algo que não seja o ensino militar. Não considero que a entrada da polícia nas escolas seja uma solução. A militarização se trata de um controle do governo, mas os pais consideram como uma forma de ensino de qualidade.

Eu entrei no Colégio da PM no sexto ano da quinta série, em 2001, quando tinha 11 anos. Estudei na unidade do Lobato. Meus primeiros meses de adaptação foram bem difíceis. Eu não queria estudar de jeito algum em colégio militar, mas minha mãe estava procurando alternativas porque não tinha gostado da escola pública (Colégio Presidente Getúlio Vargas), no bairro Soledade. Naquela época, não existia mais prova para entrar no CPM, mas era preciso indicação para quem não era filho de policial. Minha mãe ‘mexeu os pauzinhos’ dela e conseguiu!

As regras, o processo e a realidade do militarismo não foram agradáveis para mim. Tive um problema sério de adaptação. Passei uns oito meses lidando com os problemas. Eu faltava, me isentava das atividades cívicas e militares.

Aos poucos, fui construindo laços, mas ainda assim falava para a minha mãe que eu não estava feliz. Quando passei uns vinte dias sem ir às aulas e falei para a coordenadora que eu não queria estudar mais lá, magicamente  minha mãe conseguiu a minha transferência do Lobato para o Dendezeiros, em 2002. E eu me tornei uma pessoa extremamente agressiva.

Eu batia, agredia por qualquer coisa. Não acho que meu comportamento rebelde se devesse à estrutura militar do colégio, mas sim pela a minha rejeição a ela. Eu agi de forma violenta durante o ano todo. Agredia meus colegas fisicamente e verbalmente. Fazia o mesmo com pessoas ao meu redor, passageiros do transporte escolar.

Em 2003 percebi que com violência eu não conseguiria mudar o sentimento de rejeição à escola. A partir daí,  comecei a burlar regras. Eu não passava a minha farda, não limpava as minhas roupas. Essa era uma forma de mostrar para o colégio que eu tinha meu próprio critério de vestir. Isso gerava infrações leves, eu era sempre punida. Hoje vejo que algumas normas são necessárias, dentro de um contexto de educação juvenil.

Nesse mesmo ano, eu entrei na graduação para ser professora de história. Em abril de 2010 comecei a lecionar. Fui para a sala de aula e, automaticamente ao me apresentar, adotei uma postura de quem foi educada em uma escola militar. Estabeleci que após eu entrar na sala ninguém mais poderia ingressar. Já faz mais de 12 anos que ensino e até hoje é assim”.

–*–*–

A parte disciplinar dos colégios conveniados está mais rígida’

 

Kleber Leal, jornalista.

“Estudei no Colégio da Polícia Militar em Salvador, na unidade dos Dendezeiros, de 1975 a 1979, e nesse período fui privilegiado com um ensino de alta qualidade e um rigor na disciplina compatível com o tipo de escola, mas que contribuiu bastante na formação da minha personalidade, aumentando meu senso de responsabilidade em todos os sentidos.

Além de uma parte pedagógica muito boa, com professores de excelente formação – o que se refletia na forma de passar os conteúdos -, uma outra coisa muito importante eram os esportes disponíveis para o aluno escolher e praticar gratuitamente. Também havia palestras periódicas de temas diversos que foram muito importantes para minha formação.

Enfatizo que, mesmo com regime militar, nunca fui tolhido de expressar minha opinião em relação a qualquer assunto. Havia liberdade total para isso. Lógico que era importante o aluno ter um bom senso em qualquer situação. Ainda assim, repito, havia autonomia para abordar qualquer assunto.

Estudei da 5ª série ao primeiro ano do segundo grau (ensino médio) e a opção de sair foi porque deixaram de ter o antigo ensino colegial e implantaram o profissionalizante. Como eu queria prestar vestibular para jornalismo, optei por fazer os dois últimos anos em outra escola.

Quando li essas matérias [2] do Meus Sertões percebi que atualmente a parte disciplinar dos colégios conveniados está mais rígida, com documento de normas e com interferência até na “apresentação” dos cabelos e na forma de pensar de alunos e professores.

Mas na minha época, em que só estudavam meninos, embora inicialmente o corte fosse VO (estilo militar), em máquina zero, num determinado momento os alunos até tingiam o cabelo e não havia nenhuma reclamação da escola. Depois o corte passou a ser em máquina 1 e depois com tesoura. Por outro lado, a liberdade de pensar e se expressar, como mencionei antes, era total.

Outra coisa que percebi nos textos é que parece que a parte pedagógica não está com a mesma qualidade de outrora. Mas espero que haja melhora nesse sentido, pois o CPM original sempre se notabilizou pelo binômio disciplina e qualidade de ensino.”

 

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[1] Nome pelo qual o Hino do Estado da Bahia é mais conhecido.

[2] Kleber fez a revisão de todas as reportagens desta série.

 

–*–*–

Esta série de reportagens foi financiada pelo Edital de Jornalismo de Educação, uma iniciativa da Jeduca e do Itaú Social. 

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LEIA A SÉRIE COMPLETA

PARTE I

A militarização das escolas na bahiaO avanço para o interior O exemplo goiano Diferentes escolas militares e militarizadas

PARTE II

A elitização da primeira escola militarizada A história do Colégio Maria do Carmo Mães aprovam modelo CPM, filhos nem tantoFundamental I e ensino médio na mira

PARTE III

Conceição do Jacuípe: boletim expõe alunos O regulamento e a cartilha Muita fé e só uma mulher entre 466 tutores Tutor disciplinar barra aluna negra

PARTE IV

Escola troca nome de vítima da ditadura Mais unidades da PM do que infraestrutura Entre a esperança e o bafo da milícia Inquérito 1.14.001.001281

PARTE V – FINAL

Miriam Fábia: “Impacto brutal na formação dos jovens” Major Fabiana: ‘Disciplina como ferramenta para a vida’ O governador emudeceu

 

 

Linda Gomes Contributor
Integrante da Rede Latino-americana de Jovens Jornalistas. Doutoranda em estudos de gênero e políticas de igualdade. Mestra em produção, edição e novas tecnologias jornalísticas, com passagem em veículos da América Latina e da Europa.
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