Seu Nôza – Parte I

Seu Nôza – Parte I

Sentado em uma cadeira de plástico amarelo, sob duas almofadas finas daquelas que antigamente eram levadas para os estádios a fim de reduzir o desconforto causado pelas arquibancadas de madeira ou concreto, seu Nôza, 96 anos, tem a visão de boa parte de seu “império”: pequenas lojas de seis metros a 20 metros quadrados, pelo menos dois casarões antigos e moradias.

Ficar diante da antiga estação de trens de Santa Inês, desativada em 1964 e transformada em fórum, por dois turnos por dia – das 7 horas ao meio-dia e de 14 às 16 horas ­– faz parte da estratégia de negócios de Nôza, apelido que substituiu há décadas o nome de batismo: Clidenor Menezes.

Seu Nôza quer ser visto pelos inquilinos. Foto: Paulo Oliveira

“Hoje aqui é tipo um escritório. Eu fico esperando ver se o povo me paga os aluguéis. Se eles veem a gente, já não pagam. Se não ver, pior ainda. O mês já vai acabar, a maior parte até hoje não pagou. Hoje é 26 (fevereiro) e cadê o povo? Se deixar juntar um, juntar dois meses aí é que não paga mais” – explica.

O experiente locador também conta que fez muitas lojinhas miudinhas nos casarões para ser mais fácil de alugar:

“Se fosse um prédio só, não alugava nunca” – acrescenta.

O negócio de comprar imóveis antigos e decadentes, construídos por italianos e portugueses no apogeu das plantações de café, e transformá-los em lojas e moradias de diversos tamanhos para locar a comerciantes e estudantes do Instituto Federal Baiano, começou depois de seu Nôza ter sido agricultor, vendedor de tecidos, gerente de loja, comerciante, motorista, dono de farmácia, de padaria, de mercearia e de uma “defuntaria” (funerária). Das outras profissões guarda um Fiat 2006 e uma placa tumular na loja usada como escritório. Além da lembrança de ser chamado de doutor quando vendia remédios.

Feita a apresentação, é preciso deixar claro que a conversa de Meus Sertões com seu Nôza vai longe. O que seria um breve bate-papo rendeu cerca de uma hora e meia de histórias saborosas sobre o personagem e a Santa Inês do século passado. Você está convidado a nos acompanhar.

“Eu nunca tive tempo de brincar”. A frase do experiente negociante impressiona, mas será relativizada no decorrer da entrevista. Seu Nôza, no entanto, prossegue nos estimulando a admirá-lo:

“Trabalho em qualquer coisa. Quer ir em Feira de Santana agora, eu pego o carro e vamos. Eu dirigi muito. Não tinha a Rio-Bahia, mas eu ia duas vezes em Salvador por dia porque eu pegava frete. Só tinha dois ou três motoristas em Santa Inês. Para ir em Salvador não tinha ninguém. Só tinha era eu” – gaba-se.

Clidenor foi criado na roça dos pais a 30 quilômetros do centro. No domingo caminhava até a casa de uma irmã, na sede do município, para estudar durante a semana. No sábado, voltava a pé. Nessa época só havia um carro na cidade, um jipe. Pertencia ao juiz de direito, conhecido por “Doutor Pimentel”.

Quando não estavam na escola, Nôza e os seis irmãos – três mulheres e três homens – ajudavam os pais na lavoura de feijão, milho e mamona ou raspando pó de palha.

“O pó era usado para fazer tudo de plástico. Ele era derretido e faziam as formas para exportar. Era trabalhoso produzir. Tinha que ir no mato cortar as folhas de ouricuri em grande quantidade, trazer para dentro de casa, tirar de uma a uma e botar para “dormir”. No dia seguinte, a folha ficava mais saliente e nós tirávamos o pó com uma faca pequenininha. Todo mundo tinha um pedaço de couro na perna para ralar a palha. Dava pouco dinheiro. Tinha poucos compradores. Não tinha esse negócio de preço bom, nem cotação” – conta o idoso.

A jornada na roça começava ao raiar do dia e terminava às cinco horas da tarde. A refeição quase sempre era farofa. Nôza parou de ir à escola aos 12 anos, mas se vale dos ensinamentos dos livros de Felisberto Carvalho [1], do ABC e da tabuada até hoje. Nenhum dos irmãos dele – três mulheres e três homens – se formou.

Foram dois anos nesse sistema de plantar e tirar pó de palha. Um dia, o futuro comerciante, decidiu tentar a sorte em Salvador, a 295 quilômetros de distância. Pegou carona em um caminhão e partiu.

AS BARATAS

Melhor deixar o santineense contar com suas próprias palavras o início da aventura na capital baiana:

“Cheguei lá. Levei qualquer dinheirinho, foi pouco. Me hospedei no pior lugar que tinha em Salvador: o Pelourinho. Fui em lugar que chamavam de pensão, mas não era pensão. Ninguém pisava no chão, nunca esqueço disso. Sabe onde pisava? Em cima das baratas. O quarto era assim de barata. Nos dois meses que passei lá nunca teve outra comida a não ser farinha seca com uma carne cortadinha, amassada. Era farofa de pouquinha carne, não era muita coisa não. De manhã, café preto. Saía e ia procurar trabalho”.

Não foi difícil se empregar na Gonçalves e Irmãos Tecidos Ltda, mais conhecida como Os Gonçalves. A empresa chegou a ter três lojas nos principais pontos de comércio da cidade – avenida Sete de Setembro, Cidade Baixa e Baixa dos Sapateiros -, e foi extinta em 1994.

Ao final do primeiro mês de trabalho, o jovem interiorano recebeu uma quantia equivalente a quanto pagava no quarto infestado de insetos. A reação dele surpreendeu os empregadores:

“Agradeço aos senhores a atenção que me deram. Vocês me ajudaram, mas já vou embora novamente para o interior. Eu ganhei 200 mil réis aqui. A pior pensão que existe em Salvador, me hospedei. Paguei a mesma quantia. Eu não posso ficar, vou me embora”.

Os patrões aumentaram o salário e disseram para ele procurar um lugar melhor para morar, pois pagariam por fora. Segundo Nôza, pediram para o trato ficar em segredo. Ele mudou para um quarto na Praça da Sé, 28. E por mais de uma década atuou como vendedor, expositor, vitrinista e gerente da filial da rua J.J.Seabra.

Foi na Boca do Rio, que o comerciário conheceu a mulher, Diva Chagas de Menezes. Na época, o funcionário da loja Os Gonçalves tinha uma lambreta e ia desfilar no bairro:

“Dia de domingo ali era mulher, era homem, tudo sentado na beira da praia. Todo mundo já procurando mesmo arranjar namorado ou namorada. Diva morava no bairro de Nazaré.” – relata.

Nôza conta que a esposa não foi a primeira namorada. E que chegou a ter outras em diferentes locais na capital. Segundo ele, essas mulheres lhe davam camisas, sapatos e até uma Parker 51, “caneta danada de cara”, para fisgá-lo. Mas foi a gravidez de Diva que o “laçou”:

“Não esperamos nem casamento, nem nada e já veio um filho. Fomos morar juntos. Casamos anos depois e estamos assim até hoje” – disse.

O casal teve sete filhos, um deles morreu em um acidente de carro. Dona Diva, hoje com 86 anos, quebrou o fêmur há cinco anos e não conseguiu mais se levantar da cama. O médico falou para a família que os ossos delas estavam muito fracos.

Vamos parar por aqui com as revelações antecipadas. Voltemos à loja dos Gonçalves. Tudo ia bem até Nôza receber a notícia que um dos irmãos, dono de uma loja de tecidos em Santa Inês, ia se mudar para Feira de Santana e queria repassar para ele o estabelecimento.

A ideia de ser patrão lhe agradou muito. Nem mesmo o fato de ter de voltar a buscar água em barris em um chafariz da praça, onde hoje está instalado um posto de gasolina, o fez desistir. Se despediu dos empregadores e retornou para a terra natal. Estava com 34 anos.

(Continua na próxima semana).

–*–*–

[1] Felisberto Rodrigues Pereira de Carvalho (Niterói, 9 de agosto de 1850Rio de Janeiro, 18 de outubro de 1898). Foi professor, integrante da geração de 1870, conhecida por formular a inovadora pedagogia brasileira, com novos métodos e livros didáticos, adotados em vários estados do país e utilizados na formação de educadores nas Escolas Normais.

Seu Nôza - Final

 

Jornalista, editor, professor e consultor, 59 anos. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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2 reflexões sobre “Seu Nôza – Parte I”

  1. Paulo DamascenoDisse…
    Replied on

    História fabulosa. Quantas dessa ainda estão escondidas por aí nesse nosso imenso Brasil.

    1. Paulo OliveiraDisse…
      Replied on

      Damasceno, meu caro amigo, o que não falta são histórias interessantes. Basta um pouco de atenção – Seu Nôza passaria despercebido na cadeirinha dele – e disposição para ouvir. As pessoas querem e precisam ser escutadas.
      Obrigado pelo retorno, forte abraço.
      Paulo Oliveira

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