O artesão de Juazeiro do Norte

O artesão de Juazeiro do Norte

O relógio biológico é que determina a jornada de trabalho do artesão Vanderlei Alves. São 15 horas por dia, entre os poucos minutos após o café da manhã e a hora do sono. Seja na casa onde mora ou no espaço que desfruta no Centro de Cultura Popular Mestre Noza[1], em Juazeiro do Norte, no Ceará, Vanderlei sempre está às voltas com ferramentas e madeiras.

“Não há peça que eu não saiba fazer” – costuma repetir esse baiano de Bom Jesus da Lapa que mudou para a terra de Padre Cícero aos seis anos. Em comum entre as duas cidades a religiosidade acentuada, as romarias e dois dos templos mais conhecidos do Brasil.

No portfólio de Vanderlei constam ex-votos, santos, personagens da cultura popular, peças e tabuleiros de xadrez, móveis diversos e brinquedos (balanços e miniatura de carros de bois).

Ao chegar no Cariri, região formada por 11 municípios, os pais do futuro artesão se estabeleceram no sítio Boca das Cobras. Lá, o menino começou a apreciar o trabalho dos irmãos escultores Beto e Ciço Araújo.

Vanderlei ficava intrigado como uma pessoa pegava um pedaço de madeira que era usado para fazer fogueira, que queimava na caieira [2], e transformava em uma imagem, um coração, uma cabeça, usados para pagar promessas.

Da curiosidade para a ação. Com 10 anos, o menino baiano aprendeu a lixar e polir as peças com Ciço, hoje falecido. Quando não estava na escola, prestava serviço para o outro irmão Araújo, até hoje seu parceiro,

“Menino novo não sabe o que quer da vida. Eu ficava muito tempo parado esperando uma peça para lixar. Foi aí que o Beto me chamou para trabalhar na associação e me ensinou a técnica de talhar na madeira” – conta.

Aos poucos, Vanderlei foi adquirindo canivetes, formões, buris e goivas, mas só arriscou a fazer as próprias peças aos 18 anos. Os estudos tinham parado na sexta série. O primeiro personagem que esculpiu foi Padre Cicero. Achava fácil esculpir a batina. O chapéu demorou mais um pouco. Difícil mesmo era fazer um rosto parecido com o do mítico sacerdote. Até obter um semblante próximo ao que considera perfeição, o artesão levou cinco anos.

Além do padre cearense e santos diversos, os ex-votos[3]  lideram o ranking de encomendas. Juazeiro do Norte é uma das poucas cidades onde os romeiros preferem as peças de madeira para o pagamento de promessas. Situação diferente de Monte Santo, na Bahia, onde as partes do corpo humano feitas em cera desbancaram as “esculturas” tradicionais e fizeram artesãos abandonarem a atividade.

No Ceará, a 422 quilômetros de distância, Vanderlei continuou a transfazer pedaços de pau em corações, pulmões, mãos, pés e cabeças. Um coração, de 30 a 32 centímetros de comprimento leva até dois dias para ficar prontos. Já a cabeça consome 12 horas de trabalho.

O artesão conta que os romeiros costumam pedir detalhes nos objetos, dependendo do problema de saúde que os afligia. Por exemplo: marcas de cirurgia ou olhos cegos. Há também encomendas curiosas como a de um comerciante de São Luís, no Maranhão, que negociou a compra 20 cabeças para serem usadas como mostruários de uma ótica.

Devoto de Nossa Senhora de Fátima, Nossa Senhora Aparecida e Padre Cícero, o artista tem os três entre as imagens de santos mais vendidas. O Top 5 é completado com São Francisco e São Benedito. Já os personagens preferidos do reisado são o “Mateu”, o Jaraguá e a Alma. As paredes da sala da casa de Vanderlei estão cobertas de arte. As deles, a maioria, e as adquiridas de outros artesãos como um quadro de uma pantomima folclórica.

De como um pedaço de madeira que ia para a fogueira vira imagem

Profissional há 22 anos, Vanderlei Alves prefere utilizar cedro e baraúna, compradas de um fornecedor pernambucano, para confeccionar suas obras. No entanto, não para de buscar outras técnicas na internet para acompanhar as tendências de mercado. Não faz muito tempo, achou interessante o vídeo de um americano, especialista no uso de resina. E passou a produzir tabuleiros de xadrez.

“A gente dá um polimento e fica um trabalho da hora” – conta, ressalvando que as peças do jogo são feitas de madeira.

A maior peça feita por Vanderlei foi um São Francisco de 1,30 m de altura, pelo qual cobrou R$ 2,5 mil. O mesmo cliente alagoana que levou o santo para casa encomendou a imagem de Padre Cícero deitado em uma rede entre tronco de árvores. Essa obra está sendo feito há cerca de dois anos, pois há detalhes nas copas das árvores que precisam ser trabalhados.

As imagens pequenas são as mais trabalhosas, de acordo com Vanderlei. É que os traços menores deixam as produções mais lentas. Mensalmente, os artesãos da associação de Juazeiro do Norte têm que produzir uma cota de 50 pequenas esculturas, chamadas de “peças de sobrevivência”. Cada uma é repassada para a associação por um valor determinado. E revendida para lojistas ou para turistas e colecionadores com acréscimos que variam de 30% a 50%. É com essa margem que a entidade é mantida.

Mesmo cobrando valores que variam de R$ 60 a R$ 4 mil, dependendo do tamanho da complexidade e do tempo dedicado à escultura, os ganhos de Vanderlei durante a pandemia de covid-19 despencaram. A renda mensal caiu para cerca de um salário mínimo, atualmente R$ 1.212.

“É que o pessoal só está investindo em comida” – explica.

O patamar médio da guilda, que era de R$ 3 mil, ainda está longe de ser alcançado. É que a concorrência entre artesãos na região do Cariri é imensa. Só na Associação Mestre Noza são 40, que disputam clientes entre si. Além disso, há centenas de artistas espalhados nas cidades do polo de arte popular.

Graças a uma iniciativa realizada em 2010, a situação financeira dos trabalhadores não ficou pior durante o período mais crítico da pandemia. Projeto de qualificação, oferecido em parceria com a secretaria estadual de Cultura, ministrou cursos de informática, embalagem, abordagem de cliente e uso de redes sociais. Na época, o Orkut[4].

“Depois surgiram outras e as coisas foram melhorando. Eu prefiro o Facebook e o Instagram. A gente sabe que agora tudinho (sic) está usando a tecnologia. Ninguém mais faz pedido por telefone, por carta ou por e-mail. Hoje é whatsapp” – conta Vanderlei.

Apesar de trabalhar desde criança, quando ajudava os pais na lavoura, e de hoje vender lanches durante o Carnaval e as novenas para fazer um dinheirinho a mais, Vanderlei não tem casa própria. Ele, a companheira e os dois filhos moram em imóvel alugado. Quando perguntado o motivo de estar nessa situação, ele foi sincero:

“Teve um tempo que eu fui muito estragado. O dinheiro que pegava, eu me divertia. Não pensava em conseguir um lar para mim. Não fui para esse lado. Eu fui para o lado da curtição, da diversão. Ia beber nas festas beber, brincar, gastar aquilo que eu ganhava. Foi um tempo de aprendizagem. Agora estou comprando um terreno para futuramente subir um lar e ter mais sossego”.

Os planos tardios incluem ainda a construção de um ateliê e uma loja na mesma propriedade. Até lá continuará trabalhando na associação ou, quando as ondas de covid se tornam intensas, na sala da casa onde mora.

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Contatos de Vanderlei Alves

  •       Whatsapp (88) 9 8884-0528 e (88) 9 8156-3524.
  •        Instagram: @vanderleialves769
  •        Facebook: https://web.facebook.com/profile.php?id=100019129977251

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Notas de rodapé

[1] Inocêncio Medeiros da Costa, Inocêncio Medeiros da Costa Nick ou simplesmente Mestre Noza foi um gravador, santeiro e escultor pernambucano. Nascido em Taquaritinga do Norte, em setembro de 1897, mudou-se em 1912 para Juazeiro do Norte (CE) onde frequentou a oficina do escultor José Domingos. Inicia-se na gravura executando rótulos de marcas para aguardente, além de esculpir imagens de santos. Em 1962, realiza as séries de xilogravuras Vida de Lampião e Os Doze Apóstolos, mais tarde editadas pelo Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará (Mauc). Em 1965, seu trabalho Via Sacra é publicado em Paris pelo editor Robert Morel, com apresentação de Sérvulo Esmeraldo.

Em 1912 foi a pé, como romeiro, da cidade Crato até Juazeiro do Norte, onde trabalhou como funileiro e, em seguida, numa oficina de rótulos. Aprendeu a fazer cabos de revólver e, atendendo a pedidos de romeiros, começou a fazer pequenas esculturas de santos. Na década 1940, ele começou a fazer capas para ilustrar folhetos de cordel. Nascia o xilógrafo Mestre Noza. Em 1961 participou da primeira exposição em Paris, onde obteve excelente recepção. Algumas xilogravuras do artista fazem parte do Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará (Mauc/UFC) e do Instituto de Estudos Brasileiros da USP. O mestre morreu em São Paulo no dia 21 de dezembro de 1983, de parada cardiorrespiratória.

[2] Forno onde são calcinadas pedras calcárias para fazer cal.

[3] Abreviação latina de exvoto suscepto (“o voto realizado”), o termo designa pinturas, estatuetas e variados objetos doados às divindades como forma de agradecimento por um pedido atendido.

[4] Orkut foi uma rede social filiada ao Google, criada em 24 de janeiro de 2004 e desativada em 30 de setembro de 2014. Ela foi batizada com o nome do projetista chefe, Orkut Büyükkökten, engenheiro turco do Google.

Jornalista, editor, professor e consultor, 59 anos. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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