Uma roça de candomblé em colônia alemã

Uma roça de candomblé em colônia alemã

O motorista de aplicativo passa direto pela chácara com muro de tijolos aparentes e garagem com porta de aço azul escuro.  Ele não percebe as quartinhas na entrada da propriedade. A roça de candomblé do pai de santo Cristiano Pessoa Borges, 43 anos, fica a 20 quilômetros do centro de Santa Cruz do Sul (RS), na povoação Quarta Linha Nova Baixa, uma comunidade de descendentes de trabalhadores rurais alemães.

Ludibriados com falsas promessas, os primeiros colonizadores chegaram em 1847 e ficaram isolados durante décadas até a construção da ligação com Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul. O isolamento permitiu que mantivessem o dialeto Hunsrückisch, com traços de alemão da Baixa Idade Média (1050-1350) e com a absorção de 693 palavras em português [1]. Os colonos também preservaram preconceitos diversos. É neste contexto que Oxóssi, através do Ifá, determinou que Cristiano instalasse o Ilé Ode Àse Erinlé, cuja tradução literal é “Casa do Caçador, Força da Terra do Elefante”, no povoado santa-cruzense.

Além de escaramuças feitas pelos vizinhos, o babalorixá sofreu forte impacto cultural. Apesar de os censos de 2000 e 2010 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontarem que o Rio Grande do Sul é o estado mais afro-religioso do Brasil, a prática dos cultos de batuque (ou nação), umbanda [2], casas cruzadas (cruzamento de diferentes cultos) e quimbanda [3] provocam estranhamentos entre os sacerdotes locais e os que chegam de outras regiões.

A mãe biológica de Cristiano já era ebomi [4] quando ele nasceu em Recife, em 1978. Iraci de Oiá [5], bisneta de Tata Fomutinho de Oxum [6], babalorixá feito no terreiro Jeje Marrim [7]  Kwé Seja Hùnde [8], em Cachoeira (BA), se mudou para Brasília, onde registrou o menino.

Até os 15 anos, Cristiano era kardecista [9] com uma vaga ideia sobre o candomblé. Tudo mudou quando dona Iraci abriu o próprio terreiro com a ajuda de Pai Wanderson de Osoosi (Runhoke d’ Ode), pois o sacerdote que a fez no santo estava muito doente.

Wanderson Monteiro, filho de Oxóssi, fez o menino espírita se encantar pela religião de matriz africana. Foi com ele que Cristiano aprendeu a primeira cantiga em iorubá, colheu folhas na mata e aprendeu a escolher os animais usados nos rituais.

“Quando entendi a lógica da religião, eu comecei a juntar dinheiro para fazer santo. Eu era estagiário no Ministério Público nessa época. Pai Wanderson foi o responsável pela minha iniciação em dezembro de 1996” – conta.

Cristiano Pessoa revelou ainda que sua cabeça parecia destinada ao vodum Lissá [10], o responsável pela Criação, pai e ancestral dos demais voduns. Após se recolher por 21 dias e passar por vários ebós [11] para despertar a energia ancestral, quem se manifestou foi Gaiá Òtòlú [12] , o caçador novo.

Três anos depois, com a morte do primeiro babalorixá Iraci , a casa que era de nação Jeje [13] mudou as águas para Ketu [14] por determinação de Iansã. Motivo: a mãe de santo não tinha mais ninguém de sua confiança para zelar por seu terreiro. As alterações de fundamentos, culto e dialeto foram conduzidas por pai Júlio de Oxóssi, filho de santo de Iara de Oxum, ligada à Casa de Oxumarê, em Salvador.

Após três anos de iniciação, Cristiano ouviu que era filho de Oxóssi Erinlé, aquele que caminha com Oxalufã[15]:

“Meu filho, você tem que arrumar Oxalá correndo porque seu santo não faz nada sem fazer as coisas para Oxalufã antes” – disse Júlio de Oxóssi.

Cristiano  finalmente entendeu porque foi cogitada a possibilidade de Lissá ser seu vodum (nome dado pelos jejes aos orixás).

A troca de nações ou de diásporas [16] são alterações radicais. Para Cristiano, o praticante tem de ter força de vontade para reaprender tudo desde o início. A troca ocorreu quando ele tinha 21 anos:

“A cabeça estava acessível para a mudança. No entanto, nem sempre isto acontece. Quando eu comprei a minha roça há três anos, fui procurado por uma moça adepta do batuque. Ela queria ser minha filha de santo. Mas mesmo sendo de Oxalá, não abria mão de certos ewós [17], como deixar de tomar café às sextas-feiras. Então, eu disse para ela não fazer a iniciação. É preciso entender que um axé tem regras” – afirma.

Outra questão importante durante a troca de diáspora é ter alguém que conheça bem os fundamentos do axé para guiar o iniciante:

“Eu tive três grandes mestres. Pai Wanderson, meu iniciador; Farode de Oxóssi, meu padrinho de oruncó [18] e pai Júlio” – recorda.

Os três, já falecidos, eram de Oxóssi. Hoje, a mãe de santo de Cristiano é Dó de Ossaim, irmã de santo de Pai Pecê, da Casa de Oxumarê. Ela é a sacerdotisa do Ilê Asé Ewé [19], no bairro de Cajazeiras, em Salvador.

Foi Mãe Dó quem dirigiu os fundamentos, determinou os orôs (plantas e ervas) sagradas que deveriam ser plantadas na chácara e supervisionou a feitura do bori e dos ebós [20] na roça em Santa Cruz do Sul. Ela acompanhará o desenvolvimento e a consolidação da casa do filho de santo. Detalhe: uma casa de candomblé não pode ser erguida em terreno alugado.

Quando entrou para a religião, Cristiano nunca pensou em ser sacerdote. Pouco tempo depois de iniciado, conheceu a esposa, a ekedi [21] Isabel de Oxum e engajou como cabo da Aeronáutica, onde permaneceu 16 anos servindo como técnico de prótese dentária.

Ainda na Força Aérea, Cristiano se formou em odontologia e se preparou para concursos. Ao dar baixa, conseguiu o primeiro emprego civil em Cerro Largo, na região das Missões, no oeste gaúcho. Posteriormente, foi aprovado e assumiu o cargo de dentista em Herveiras, antigo quinto distrito de Santa Cruz do Sul, emancipado em meados da década de 1990. Foi no Sul que surgiram os primeiros sinais de que deveria assumir o sacerdócio:

“Várias pessoas me procuraram para se cuidar, coisas de minha vida pessoal se desestabilizaram – diz, sem entrar em detalhes.

Foi aí que Oxóssi deu a ordem para ele comprar um terreno e abrir uma casa de candomblé, em outubro de 2018. Para confirmar se aquela era mesmo a sua missão, Cristiano se consultou com outros religiosos, inclusive com o pessoal do terreiro Ilê Babá Agboulá [22], na Ilha de Itaparica.

O futuro babalorixá comprou uma chácara na Quarta Linha Nova Baixa três meses depois da determinação do orixá. E pediu para Mãe Dó de Ossaim preparar a casa, enquanto ia buscar os pertences religiosos na capital federal. Sem deixar de trabalhar no consultório dentário 40 horas por semana, o sacerdote também joga búzios, de segunda a quinta-feira, em casa, no bairro Renascença, e produz com Isabel o sabão da costa, Produto de origem africana para limpeza energética, feito com mais de 30 tipos de ervas, favas e essências.

PRECONCEITO

Oficialmente, os santa-cruzenses se declaram católicos (88%), evangélicos (21%) e espíritas (1%)  [23]. Quando resolveu comprar a propriedade, Cristiano omitiu a intenção de montar uma casa de candomblé para o corretor.

“A escravidão acabou, mas a gente do candomblé nunca conseguiu sair da senzala, nem do quilombo. A gente tem que sempre se esconder, não sei do quê” – desabafa Isabel.

Se não teve problemas com proprietários do terreno, definidos como “simpáticos e prestativos”, o casal logo se deparou com o preconceito de parte da comunidade. No dia seguinte a uma festividade, foi colocado um bilhete dentro de um saco plástico, preso a um gancho do portão.

“A mensagem, escrita à mão, dizia que ali não era o Nordeste. Falava que estávamos no lugar errado. Seis meses depois recebemos uma mensagem semelhante, nos chamando de macumbeiros e ameaçando nos denunciar para o Ministério Público como se a gente tivesse cometido algum crime” – conta Cristiano, que comemorará 25 anos de candomblé no dia 18 de dezembro.

Os “recados” só pararam depois que o pai de santo foi à venda onde a comunidade se reúne e disse que iadenunciar o caso à polícia:

“O pessoal confundiu as coisas. Eu vivo na Alemanha? Não. Eu estou no Brasil. Aqui não é uma vila alemã, é uma vila brasileira onde moram descendentes de alemães. Eu estou no meu país. Se tem alguém fora do lugar, não sou eu” – argumenta Isabel, funcionária pública municipal.

Depois disso, o máximo que os insatisfeitos fazem e mudar a conversa em português para o dialeto hunsrückisch.

Ao mesmo tempo, outros moradores costumam ir em busca de ajuda espiritual às escondidas. Um deles pediu para o pai de santo deixar o portão destrancado às 11 horas da noite para que pudesse entrar sem ser visto e tomar um banho de descarrego,.

Pai Cristiano se esforça para difundir o candomblé na região. A maioria de seus filhos de santo, no entanto, são de outros estados (Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro) e até do exterior (Estados Unidos). Os residentes em Santa Cruz não passam de dez em uma população estimada em 132.271 habitantes [24].

NA ROÇA

As religiões afro-gaúchas

 

–*–*–

[1] As palavras, quase todas associadas ao ambiente rural, foram listadas pelo sociólogo Emílio Willems.    Exemplo: feschón (feijão) e karose (carroça). Em alemão são utilizados, respectivamente, bohnen e     leiterwagen. O dialeto é falado até hoje nas zonas rurais e é obrigatório em empresas que fornecem material     e serviços aos colonos.

[2] Há uma modalidade conhecida como “bandeira branca” em que os cantos suaves são acompanhados apenas com palmas.

[3] Culto a exus e pombas giras

[4] Ebomi em iorubá significa “Meu Mais Velho”. A palavra designa o adepto do candomblé que passou pelo    período de iniciação e cumpriu a obrigação de sete anos (odu ejé) de feitura no santo.

[5] Iansã

[6] O nome do babalorixá era Antonio Pinto de Oliveira. Depois de iniciado, ele participou como Pai-pequeno (segunda pessoa na hierarquia de uma casa de candomblé) em um terreiro Angola. Por isso, passou a ser chamado de “Tata” (pai). Fomutinho se deve ao fato dele ser a quarta pessoa de um “barco” (processo de iniciação) de candomblé. Em 1930, o pai de santo foi para o Rio de Janeiro. Lá, contava com a proteção do banqueiro de jogo de bicho e fundador da escola de samba Portela para não sofrer a forte repressão feita pela polícia ao candomblé.

[7] Jeje Mahi ou Marrim é o culto dos voduns provenientes da região Mahi, a noroeste de Abomei, antiga capital do reino de Daomé. Os mahi eram um povo camponês O culto foi trazido para o Brasil por Ludovina Pessoa, escolhida pelos voduns, divindades do panteão Jeje, para fundar templos na Bahia. Ela criou o Terreiro do Bogun, em Salvador, e o Kwé Seja Hùnde, declarado patrimônio cultural do Brasil em 2014.

[8] O nome sagrado do terreiro baiano significa “Aqui neste lugar adoramos um vodum que é representado pela cobra de ferro”. O local também é conhecido como Roça do Ventura.

 [9] Kardecismo é a doutrina religiosa cuja crença gira em torno da constante evolução espiritual do ser humano; espiritismo.

 [10] Equivalente a Oxalá no candomblé Ketu

 [11] Sacrifício de animal votivo ou oferenda dedicada a uma divindade.

[12]  Na nação Jeje existem dois voduns caçadores equiparados ao orixá Oxóssi dos iorubanos: vodum Oromanazaká (caçador velho) e vodu Gayá Otolu (caçador novo).

[13] Candomblé formado pelos povos fon e mahin do reino do Daomé, hoje Benim.

[14] Ketu é a maior e a mais popular nação de candomblé. Sua origem se baseia nas tradições dos povos da      região de Ketu, uma das mais antigas capitais dos iorubás, no Benim.

[15] Oxalufã é considerado o Oxalá mais velho, que anda apoiado no opaxorô, bastão de metal branco,     encimado pela imagem de um pássaro e ornado por discos de metais e pequenos sinos. É considerado o orixá da paz.

[16] Passar do batuque gaúcho ou da santeria cubana para o candomblé Ketu, por exemplo.

[17] Interdições ou quizilas

[18] Momento em que os orixás ecoam seus nomes obrigatoriamente, no dia da feitura de santo, na presença de todos os irmãos, filhos e adeptos do terreiro.

[19] Literalmente, Casa da Força das Folhas.

[20] Ebós são trabalhos de limpeza aplicado no corpo de uma pessoa, utilizando-se comida (vegetais,     animais, grãos e farinha. Bori é o ebó (oferenda) específico para o orixá da cabeça de quem se propõe a     ingressar na religião.

[21] Mulher que não incorpora, mas cuida de um orixá. Além disso é responsável pela preparação de ritos e pelo bem-estar das pessoas que frequentam o terreiro.

[22] Terreiro que cultua egunguns (ancestrais) masculinos. O culto é originário de Oió, capital do Império Nagô, na Nigéria.

[23] IBGE 2010

[24] IBGE 2021

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SERVIÇO: O contato de Cristiano de Oxóssi é 51 9 8449-5091

O preço do sabão da costa é R$ 35 a barra de 200 gramas e R$ 110, a de um quilo

 

reportagem dedicada à Luzia Oliveira da Silva (in memoriam)

4 reflexões sobre “Uma roça de candomblé em colônia alemã”

  1. Margareth AzevedoDisse…
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    Sensacional!!! Parabéns!!!

    1. Paulo OliveiraDisse…
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      Valeu, Margareth

  2. Ya Mineira de OyaDisse…
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    Sensacional!
    Parabéns!
    Muito axé!

    1. Paulo OliveiraDisse…
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      Muito obrigado por manifestar sua opinião. Abraço. Equipe Meus Sertões

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