Dívidas de fé

Dívidas de fé

Por Helenita Monte de Hollanda e Biaggio Talento (vídeo) e Paulo Oliveira (texto)

A prática de pagar promessas com ex-votos, presente dado ao santo de devoção por alcançar uma graça, começou no século VI (6), a partir de apropriação de prática pagã feita pela Igreja Católica. Nos séculos XVII, XVIII e XIX (17, 18 e 19), ela foi predominante na Europa e nas Américas, difundindo-se nas colônias do novo mundo, incluindo o Brasil.

No passado, era comum que as promessas fossem pagas com quadros ou desenhos que retratavam os cenários e situações das quais as pessoas conseguiram sobreviver. Uma das obras mais conhecidas deste período é o presente dado pelo capitão de mar e guerra José dos Santos Ferreira à Nossa Senhora da Penha de França, em 1778.

O quadro é uma síntese do que aconteceu na noite do dia 8 de setembro de 1778 com a tripulação da nau Nossa Senhora da Ajuda e São Pedro de Alcântara, que seguia da Bahia para Portugal, comboiando outros navios.

Uma tempestade separou a nau do restante da frota. O vento forte arrancou mastros e arrastou 11 marinheiros ao mar. Oito foram resgatados, os demais morreram. Depois do mau tempo, com a embarcação à deriva, somente um milagre seria capaz de salvar os marinheiros. Eles fizeram orações e promessas para Nossa Senhora da Penha de França e realizaram os reparos possíveis. Seis dias depois, voltaram a navegar.

PROMESSA É DÍVIDA

 

A chegada a Lisboa em 23 de setembro, os tripulantes fizeram uma procissão para agradecer à santa, levando um pedaço do mastro como oferta. Além de contribuírem substancialmente para as obras de restauração da igreja, os sobreviventes levaram uma reprodução da nau e um quadro alusivo ao milagre. Atualmente o ex-voto ocupa lugar de destaque no Museu da Marinha, em Lisboa, Portugal.

Nossa Senhora da Penha de França é uma invocação de origem castelhana, ligada ao encontro da imagem da Virgem em 1434, no cume de uma montanha na província de Salamanca, no local conhecido como Peña de Francia. Em Portugal, a devoção começou graças a um sobrevivente da batalha de Alcácer Quibir, no Marrocos, onde o rei Dom Sebastião I desapareceu, aos 24 anos. Além da morte de dois poderosos sultões rivais, os acontecimentos no campo de guerra também originaram o mito do Sebastianismo, movimento profético que previa a volta do rei a fim de resolver todos os problemas do país.

Com o passar do tempo, as promessas começaram a ser cumpridas com figuras esculpidas em madeira. O encarecimento do material fez muitos escultores desistirem da modelação. Jaime Cardoso Campos, de Monte Santo, foi um deles. Ele passou a se virar como aplicador de sinteco, aplicador de películas em carros, técnico de eletrônica e proprietário de carro de som, quando percebeu que os romeiros preferiam quitar dívidas com os santos com peças de argila e cera, muito mais baratas. Clique aqui para saber mais sobre a história de Jaime

Em Juazeiro do Norte, no Ceará, cidade extremamente religiosa, a utilização de ex-votos de madeira permanece. Foi lá que a médica e pesquisadora de cultura popular Helenita Monte de Hollanda e o jornalista Biaggio Talento encontraram Vanderlei Alves Costa, 41 anos, artesão desde os 12.  O artista, cujas obras podem ser encontradas em diversas cidades do Brasil, revelou que tem um bom rendimento em sua atividade, ainda mais depois que restaurantes começaram a comprar suas peças e usá-las para decoração. Ele também esculpe imagem de santos. Veja a entrevista abaixo.

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Serviço – O telefone de contato de Vanderlei é  (88) 9 8884-0528

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