Festejos de Santo Antônio na segunda Canudos

Festejos de Santo Antônio na segunda Canudos

O chefe político de Canudos, Isaías Canário, foi o anfitrião da visita de Getúlio Vargas ao antigo distrito de Euclides da Cunha, em outubro de 1940. O então presidente almoçou na casa de Canário e concedeu para ele uma patente militar em retribuição à forma como foi recebido. Esse episódio fez surgir a versão de que Getúlio, sensibilizado com as histórias narradas sobre a guerra que dizimou os seguidores de Antônio Conselheiro, perguntou a Isaías qual benfeitoria os moradores da região mais precisavam. A resposta teria sido “um açude”.

Para o escritor Eldon Canário, o caso registrado em reportagem publicada por um jornal de São Paulo, não passa de lenda, pois não há documentos, nem referências a ele nos manuscritos do ex-presidente da República. Canário diz ainda que um amigo bem próximo de Isaías, Antônio Batista, prefeito de Euclides da Cunha por três mandatos, desmentiu essa história.

Presidente Getúlio Vargas visita Canutos. Foto: Agência Nacional/1940
Presidente Getúlio Vargas foi conhecer cenário da guerra de Canudos Foto: Agência Nacional
Visita do presidente Getúlio Vargas a Canudos, em 1940. Foto: Agência Nacional
Vargas, ao lado de Isaías Canário, conversa com moradores. Foto: Agência Nacional

 

 

 

 

 

 

Foi na segunda Canudos, inundada pelas águas do açude Cocorobó, que Eldon nasceu. Suas memórias e a história da cidade renderam cinco de seus nove livros. “Os mal-aventurados do Belo Monte – a tragédia de Canudos”, por exemplo, conta a história de Antônio Conselheiro da infância até a morte e foi considerado a melhor obra no ano do centenário do final da guerra.

Hoje aos 81 anos, o escritor mora em um dos bairros da orla de Salvador de onde pouco sai por medo da covid-19. É de lá, com uma memória prodigiosa, que reconstitui os festejos em homenagem a Santo Antônio antes do alagamento. Vale lembrar que a família Canário se mantém até hoje como “noiteira”, ou seja, tem responsabilidade de cuidar dos preparativos da reza, da arrumação da igreja, dos zabumbeiros e de organizar o leilão de um dos dias da trezena do padroeiro. Eldon é sobrinho do “capitão Isaías”.

Como era a vida em Canudos? 

Vou falar para você da Canudos onde eu nasci, a Canudos que está submersa. Inclusive, tenho fotos e quadros dela em minha casa. Havia a praça, o barracão no meio e a igreja no fim da rua. Praticamente todo mundo vivia da criação de bode e da plantação de milho, feijão e outras coisas, ou seja, da agricultura de subsistência. Tinha também aqueles que eram comerciantes, policiais etc.

A vida nesses lugares era monótona, modorrenta. O tempo passava muito devagar até ocorrer um fato curioso: a chegada do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS) para construir a estrada Transnordestina, que ligava Feira de Santana à Fortaleza na época. Não sei se tem o fato está relacionado à guerra em Canudos, a verdade é que a localidade foi escolhida para ser a residência na Bahia para essa estrada. Havia várias cidades possíveis: Tucano, Araci, Euclides da Cunha, que se chamava Cumbe, mas escolheram Canudos, um povoado perdido no meio do mundo.

Com a chegada do DNOCS, a vida mudou radicalmente. Surgiram novas casas, os acampamentos, a oficina, o escritório; trouxeram máquinas, carros. Foi uma revolução. Então o que havia em Canudos desde antes disso? A Trezena de Santo Antônio. Por que Santo Antônio? Porque ele era o padroeiro e o povo festejava desde 1º de junho até o dia 13. Como? Rezando à noite na igreja. Depois da reza vinha o leilão: você doava doce, abóbora, carneiro e o leiloeiro saía apregoando e alguém arrematava. Esse dinheiro era destinado à capela. Com essas doações construíram a igreja maior.

A Igreja de Santo Antônio da segunda Canudos em primeiro plano. Acervo de Eldon Canário
A Igreja de Santo Antônio da segunda Canudos em primeiro plano. Acervo de Eldon Canário

Como os festejos ganharam proporção?

O Santo Antônio foi se transformando em uma apoteose. Uma inteligência, não sei se era comum em outros lugares, dividiu a trezena. Deram a cada noite de junho, desde o dia primeiro até o dia 13, um noiteiro. O do dia primeiro era Manuel Ciríaco, ex-jagunço de Conselheiro, sobrevivente da guerra e morador da segunda Canudos. Depois vinha o dia 2, dia 3… À proporção que se aproximava do dia 13, os noiteiros eram as pessoas mais bem aquinhoadas. E cada um queria fazer a noite melhor que a anterior. Meu pai mesmo era o do dia 9. Ele era comerciante e comprava fogos, muitos fogos, não só para ele.

A festa passou a atrair gente de toda a redondeza porquê do dia 10 ao 13 tinha orquestra, podia ser sanfona (grupo de forró) também, e todo mundo dançava. Além disso, o dinheiro corria por causa do DNOCS. Muitos canudenses trabalhavam lá e passaram a ter salário, a viver melhor. Já os comerciantes começaram a vender mais, comprar mais objetos na capital. Então Canudos passou a ter essa data de Santo Antônio como se fossem assim os dias de Canudos. Você esperava por ela o ano inteiro.

Houve uma época que os festejos iam além de 13 dias. Por quê?

Quanto mais o tempo foi passando, mais a festa foi ficando sofisticada. Os rapazes, então, liderados por um tio meu, começaram a advogar a criação de uma noite para eles. Com a condescendência de meu tio Isaías Canário, que era o chefão político do lugar, decidiram que o dia 31 de maio seria deles. Meu tio junto os jovens, a turma do DNOCS, comerciantes, funcionários públicos e arrecadou dinheiro. Ele veio a Salvador e comprou fogos que nós nunca tínhamos visto, inclusive morteiros. Também contratou uma orquestra em Pernambuco, em Belém de Jatinã*. Foi uma festa tão fantástica que as moças quiseram ter uma noite para elas no ano seguinte. Assim o 30 de maio passou a ser animado por elas. Era um período impressionante: o padre de Euclides da Cunha ia, eram realizados casamentos e batizados. Vinha gente de Uauá, Canché, Macururé, Chorrochó, Jeremoabo.

(Nota da redação: *Jatinã era o nome da cidade que passou a se chamar Belém de São Francisco, em 1953).

Quanto tempo durou as noites de Santo Antônio dos rapazes e das moças?

 A noite dos rapazes surgiu por volta de 1949. Ela deixou de existir bem antes da segunda Canudos. Os rapazes começaram a ir trabalhar em outras cidades quando o DNOCS começou a construir o açude. Eram eles que davam o dinheiro para os festejos das moças. Em troca, elas enfeitavam a igreja, o barracão, onde ocorriam os leilões e os bailes nos dias deles. Era uma espécie de escambo. As moças também partiram de lá, inclusive, duas tias minhas foram para São Paulo. A falta de verba para os festejos e as mudanças dos jovens fizeram com que a trezena voltasse a ser de 1º a 13 de junho.

De que forma a população reagiu com a notícia de que o distrito seria submerso?

Veio um grupo de estudos, mas os canudenses não deram a mínima importância porque não acreditavam que haveria a inundação. O DNOCS começou a fazer o trabalho e a transferir suas instalações para o local onde hoje é Canudos, mas na época chamávamos de Cocorobó porque fica no pé da serra que tem esse nome. Aquela região só tinha mato e terra. Meu pai fornecia dinheiro e alimento para os cassaços (operários). Um dia fui com ele receber o que deviam. Eu tinha 12 anos.

 A mudança do DNOCS para lá fez a Canudos de hoje, o Cocorobó, se desenvolver. Vieram pessoas de fora, comerciantes, prostitutas. Foi na avenida principal de hoje que a cidade nasceu e onde surgiram os cabarés. Sábado à noite, os trabalhadores iam para lá. Bebiam, dançavam etc. Na direção oposta surgiram novas residências. Quando o açude ficou pronto, os moradores da segunda Canudos foram indenizados. Muitos foram para Juazeiro, Feira de Santana e Euclides da Cunha. O local em que nasci ficou abandonado. Teve um momento que só tinha velho e menino. As portas batiam com o vento, as casas ficaram destelhadas. Veio a água, cobriu tudo.

Os festejos de Santo Antônio sofreram mudanças na Canudos Cocorobó?

 Houve a transferência da imagem do padroeiro, salvo engano, em 1969. Logo que o açude ficou cheio. Fizeram uma procissão da Canudos que acabou até a Canudos Cocorobó. Não sei quantas pessoas foram andando e cantando, parece que por uns 30 quilômetros. Cocorobó assumiu os festejos. Hoje, a festa é boa e bonita. Em termos relativos até mais rica porque tem mais dinheiro. A igreja é bela, tem padre fixo

O que permaneceu da festa na Canudos no novo local?

A minha família ainda é noiteira. Lamentavelmente, o tempo é inexorável. Eu tenho uma prima, Aldelice. Ela ia para Canudos e comandava a “Festa dos Canários”. Agora, creio que nos dias de hoje, esse evento deve estar muito reduzido. Eu participei algumas vezes da festa da família e era linda. Atualmente não é mais no dia 9**.

Zabumba é como os canudenses chamam a banda de pífanos que anima as festas de Santo Antônio. Acervo de Eldon Canário.
Grupo de zabumba anima as festas de Santo Antônio. Acervo de Eldon Canário.

 Eu me lembro que quando terminava a novena, o pessoal fazia uma espécie de procissão. A rua cheia de gente, foguetes, era uma coisa linda. E você, talvez, tenha ouvido falar na zabumba***. É um conjunto musical, uma bandinha, formada de quatro indivíduos. Dois deles tocam gaita, que na verdade é uma flauta, um tubo de madeira que eu não sei qual é. E tem mais um tambor e uma caixa. Ela fazia a alvorada. Quando dava cinco horas da manhã, saía pela rua e as pessoas soltavam foguetes. A zabumba também tocava quando o povo descia para a igreja. Era uma coisa bem marcante.

 A banda continuava a se apresentar em Cocorobó, do dia 1 ao dia 13 de junho. Eu me lembro até do nome dos componentes: Manoel Lambaio e Zé Bolacha tocavam gaita (pífano), Nicolauzinho era bom pra diabo na caixa e Zeca do Pão, na zabumba. Quando um deles não podia ir, o que era raro, mandava o filho substituir.

 (Nota da redação: **A noite dos Canários agora é  no dia 11 de junho. ***Zabumba é o nome dado à banda de pífano na região)

 O senhor sabe dizer se a festa da cidade tem alguma característica das comemorações do tempo de Antônio Conselheiro?

Conselheiro passou várias vezes em Canudos antes de se fixar nela. Os amigos que ele fez pediram para o beato ampliar a capela de Santo Antônio que havia. Ele então construiu o que se chama hoje de Igreja Velha de Santo Antônio, onde naturalmente celebravam a trezena. Até porque era uma comunidade profundamente religiosa e o padroeiro era Santo Antônio. Eu não posso descrever a você como eram as celebrações porque as informações são limitadas. Um detalhe interessante é que as ruínas da igreja velha ficavam dentro da fazenda de meu tio Isaías. A gente via as paredes de pé, o piso. Conselheiro morou em um anexo do templo, que foi destruído.

Fale sobre a imagem de Santo Antônio que hoje está na Matriz da atual Canudos.

 Alguém mandou fazer essa imagem em outra cidade, talvez Feira de Santana ou Salvador. Ela chegou na segunda Canudos no dia 1ª de junho de 1909. Eu me recordo da data porque é a mesma do nascimento de meu. Ele se chamava Enock Canário, foi prefeito de Euclides da Cunha, vice-prefeito e vereador. Fazendo uma conta rápida, 60 anos depois, essa escultura foi transferida para a Canudos de hoje. Já o cruzeiro de uma das igrejas do arraial de Belo Monte está no Memorial da cidade. Ele é verdadeiro, estava lá na guerra e está crivado de balas.

"Orelha" do livro do escritor canudense Eldon Canário. Reprodução
Foto de Eldon na “orelha”  do livro “Lembrança de Canudos”

Do que mais o senhor se recorda das festas do padroeiro?

 Tinha uma coisa engraçada, que parece que hoje ainda tem, que é a entrega do ramo. Quando terminava a ladainha na igreja, os fiéis subiam uma ladeira em direção à casa do noiteiro seguinte. O anterior a meu pai se chamava Elizeu. No final do dia 8, ele ia entregar o ramo de flor. Nesse dia havia um verdadeiro tiroteio de guerra porque a turma do Elizeu soltava muitos foguetes, bombas. Meu pai ficava na porta como se dissesse para que não chegassem muito perto e também soltava fogos. Era um espetáculo pirotécnico.

Também me lembro de quando meu tio fez a festa dos rapazes pela primeira vez. Ele levou um morteiro que nós não conhecíamos. Ficamos perguntando que bomba era aquela. Ele não dizia nada. No dia da celebração, ele enterrou parte do morteiro na frente da loja dele. Quando a missa acabou, voltou para o barracão, mandou todo mundo se afastar e acendeu o cartucho. Começou a sair uma chuva de faíscas. Todos ficaram vidrados, com a luz refletindo no rosto das pessoas. De repente o morteiro explodiu, os fogos e  explodiram no céu, soltando lágrimas azuis, vermelhas, amarelas, enfim, de tudo quanto é cor.

O que representa a trezena e a festa de Santo Antônio para o senhor?

 Se você fosse de Canudos como eu, ao ouvir o espocar dos foguetes, você voltava a sua memória toda para a segunda Canudos. A festa é inesquecível.

Jornalista, 58 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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3 reflexões sobre “Festejos de Santo Antônio na segunda Canudos”

  1. Dulce Lúcia MouraDisse…
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    História maravilhosamente bem contada e bem escrita. Uma viagem no tempo e na cultura nordestina.

    1. Paulo OliveiraDisse…
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      Muito obrigado Dulce. Ficamos felizes com seu comentário. Seja sempre bem-vinda!

      Paulo Oliveira – editor de Meus Sertões

  2. Dulce Lúcia MouraDisse…
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    Uma viagem no tempo, lindamente contada e muito bem escrita.

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