Irinéia do Muquém

Irinéia do Muquém

O Sítio de Muquém, única comunidade remanescente de Palmares, o maior e mais resistente quilombo das Américas, fica a seis quilômetros do centro de União de Palmares e a 80 de Maceió, capital alagoana. A localidade tem cerca de 200 anos de existência e os atuais moradores se dividem entre a agricultura familiar e a produção de artesanato.

O povoado surgiu graças a cinco mulheres que desceram a Serra da Barriga, após a destruição da federação liderada por Zumbi dos Palmares, e se abrigaram nas imediações do rio Mundaú. É nessa terra, onde a história foi escrita a base de sangue, enxada e barro, onde nasceu Irinéia Rosa Nunes da Silva, hoje com 74 anos.

Durante parte da infância e a adolescência, Irinéia ajudava a mãe a fazer panelas de barro. Enquanto alisava as peças com uma pedra, não imaginava vir a ser uma das renomadas artesãs não apenas de Alagoas, mas do Brasil. Até porque abandonou o ofício para casar.

Nos 11 anos de convivência com José, apelidado de Duda, foi maltratada pelo marido alcoólatra. Um dia resolveu acabar com os abusos: deixou o parceiro e passou a pedir esmolas “para não morrer nem matar os três filhos”.

O segundo casamento com Antônio Nunes, o Toinho, rendeu amor e afeto, mas não livrou os dois do trabalho pesado: Irinéia trabalhou com o companheiro em um canavial por dois anos. Adoeceu e não pôde mais enfrentar o trabalho. Ficou em casa cuidando das crianças até o destino a levar de volta ao barreiro.

“Foi quando o pessoal passou a vir encomendar cabeças de barro para pagar promessas em Juazeiro do Norte. Aí rendeu interesse de continuar pra frente. Até hoje, graças a Deus, (o trabalho) tem me dado uma boa ajuda” – conta Mestre Irinéia, desde 2005 nomeada Patrimônio Vivo de Alagoas.

O título concedido às pessoas de baixa renda que detêm conhecimento e técnicas necessárias para a preservação cultural do estado e condições de repassá-los para novas gerações valoriza os profissionais e garantem incentivo mensal de um salário mínimo e meio (R$ 1.650).

Animada com a procura pelas cabeças, a artesã passou a produzir bonecas em forma de cabaças e moringas. O primeiro a reconhecer o talento da ceramista foi o dono de uma galeria, chamado Jerônimo. Foi ele quem lhe deu dicas para precificar adequadamente as peças até então comercializadas por valores muito baixos. Também a apresentou a clientes como a arquiteta e decoradora pernambucana Janete Costa, grande incentivadora e divulgadora do trabalho da artista quilombola.

O BEIJO, A JAQUEIRA E A LENHA

A viagem mais longa feita por Irinéia Nunes da Silva foi para o Rio de Janeiro, onde visitou a família e participou de uma exposição. Suas obras, porém, foram muito além. O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), por exemplo, levou as esculturas dela para a Itália, a fim de apresentá-las na Expo Milão, feira que reúne obras de arte de 140 países. Marchands negociaram peças dela para a Alemanha e Estados Unidos.

Uma delas, “O Beijo”, virou cartão postal de Maceió em uma versão de seis metros de altura, feita de isopor naval e fibra de vidro. A obra, colocada à beira da Lagoa da Anta, em 2018, integra o “Circuito Alagoas Feita à Mão”. E em escala reduzida tem destaque no Espaço de Memória Artesã Irinéia Rosa Nunes da Silva (Museu do Muquém), mantido pela Universidade Estadual de Alagoas.

A inspiração para o trabalho surgiu a partir de uma experiência pessoal da autora. Quem conta a história é a filha Mônica:

“Minha mãe dizia que não gostava de beijar, mas meu pai sempre gostou. Um dia a dona Renata, primeira dama de Alagoas, chegou aqui e pediu para ver os dois se beijarem. Meu pai aproveitou e beijou. Aí os dois criaram essa peça – conta.

“A Jaqueira” e “A Lenha” foram inspiradas em uma quase tragédia, na qual Irinéia e seus familiares escaparam da morte por pouco. No dia 18 de junho de 2010, o rio Mundaú transbordou, alagando o povoado. Para se salvar, 52 pessoas subiram em dois pés de jaca e passaram horas nos galhos. Mônica foi uma delas. Já Irinéia passou a noite em cima de um maço de lenha com outras quatro pessoas.

Na ocasião, a enchente deixou 86 famílias desabrigadas e destruiu duas mil esculturas da artesã. Em dezembro de 2014, o governo federal entregou um conjunto habitacional com 120 casas do projeto “Minha Casa, Minha Vida” para os quilombolas atingidos pelas águas.

“Eu fiquei fazendo no barro a história que aconteceu com a gente. No início, era um pedido tão grande dessa jaqueira. Nem conto as que eu fiz. Depois, o barro deu problema. A gente caprichava para fazer peça. Botava no fogo e, no outro dia, quando ia tirar, tava um bagaço. Aí eu me desgostei. Agora faço pouco. Mês passado a gente botou quatro no forno. Só saiu uma inteira” – diz Irinéia.

Apesar da qualidade do trabalho, que lhe rendeu a indicação de finalista do Prêmio Unesco de Artesanato da América Latina e Caribe, Dona Irinéia não assinava as suas obras por não saber ler nem escrever. A princípio, o Sebrae fez um carimbo para ela aplicar nas obras.

UNIVERSO QUILOMBOLA

Em 2007, Mônica resolveu deixar a capital alagoana, onde morou por 15 anos, e voltar para Muquém com o propósito de ajudar os pais. Ela ensinou a ceramista a escrever o nome, mas não conseguiu fazer Irinéia ir adiante nas letras.

Quando começou a fazer as primeiras cabeças como ex-votos (imagens oferecidas aos santos por uma graça alcançada), a artesã não tinha noção de como dar um bom acabamento.

“Tudo ficava muito esquisito” – admite.

O apoio do Sebrae e o apoio de outros profissionais mudaram a situação. As cabeças sofreram transformações significativas e ganharam admiradores e clientes. O Hotel Marabá, em São Paulo, foi decorado com elas. Muitas peças tinham animais e braços pousados nelas. A ceramista preferia pássaros e galos. Já Toinho, a essa altura também dedicado ao barro, criava outras com escorpiões, caranguejeiras e lagartixas.

Algumas das obras antigas de Irinéia estão no livro “Em nome do autor: artistas e artesãos do Brasil”, de Beth e Valfrido Lima. Um exemplar da publicação esgotada está à venda no Mercado Livre por R$ 1.500.

Não são apenas as experiências pessoais que inspiram dona Irinéia. As novelas servem de temas para novas peças. Em 2004, a uma personagem da trama “Da cor do pecado” motivou a artesã a criar algo parecido. A atriz Rosi Campos fazia o papel de Mamuska, mãe de cinco filhos, que usava dois coques no alto da cabeça.

“Quando eu comecei a fazer esse cabelinho, o pessoal perguntava porque eu tinha botado essas duas pontas (chifres) nela. Eu contava a história e logo se acostumavam. Até hoje ela é uma das recordistas de venda” – revela.

Da novela “Cobras e Lagartos” (2006) surgiram peças mostrando os dois bichos.

Dez anos depois, o trabalho da mestre quilombola foi usado no cenário da novela “A lei do amor”, na qual Cláudia Abreu vivia Helô, dona de uma galeria. Mônica conta que a mãe vendeu peças para os produtores da Rede Globo. Lembra ainda da cena em que o marido da marchand discutiu com ela e quebrou tudo. Ela não sabe se as obras da mãe foram destruídas ou substituídas durante a filmagem.

A PERDA DO COMPANHEIRO

No final de 2020, Irinéia e Antônio Nunes, que dividiam a vida e o ateliê no Muquém, contraíram covid-19. Os dois foram internados juntos. Ela, diabética e hipertensa, não precisou ser entubada. Dezessete dias depois, a artesã teve alta. Em 8 de janeiro passado, aos 80 anos, Toinho não resistiu.

Nos últimos tempos as crises hipertensivas de dona Irinéia são frequentes. Em meados de abril, quando foi entrevistada por Meus Sertões, ela tinha sido levada para o hospital duas vezes naquele mês. Em uma delas, a pressão sistólica (contração do coração) chegou a 20, quando o normal é 12, e o colesterol estava em 400 mg/dl, mais do que o dobro do índice ideal. Há muito a artista popular não participa de feiras, onde tinha prazer de ver a obra de colegas. É o trabalho e a prosa que ajudam a ceramista a esquecer os problemas. Na conversa, afirma nunca ter pintado as peças porque a clientela prefere as mais rústicas.

Desde que passou a ser evangélica, dona Irinéia vive um dilema: o pastor da comunidade a pressiona para ela não fazer imagens de santos. No entanto, continuam chegando encomendas de Nossa Senhora da Aparecida, Nossa Senhora de Fátima, Santa Luzia, Santo Antônio e São Francisco. As esculturas fazem parte de uma série belíssima.

Por enquanto, a artesã, apreciadora de Padre Cicero e Santa Quitéria nos tempos em que seguia o catolicismo, argumenta que produzir não significa idolatrar. E assim como os antepassados da República de Palmares, instalados na Serra da Barriga há 400 anos, ela vai resistindo.

Jornalista, 59 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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