Terra cobiçada

Terra cobiçada

Manoel Cardoso dos Passos, que passou dos 80 anos faz tempo, carrega consigo desconfiança e medo. Um dos moradores mais antigos da comunidade quilombola Baixa dos Quelés, em Jeremoabo (BA), lembra de ter perdido grande parte de sua propriedade para um latifundiário. O descrédito fica por conta dos governantes que, segundo ele, privilegiam os mais ricos. O pavor é de ficar sem nada, pois até hoje o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) não demarcou a área, o que permite contestações de supostos proprietários.

Seu Manoel relata que um empresário comprou um terreno na região, em 1976. Dez anos depois ele propôs adquirir as terras dos moradores. Prometeu construir escola, abrir poços e permitir que todos permanecessem no local desde que não repassassem as propriedades, o que foi aceito por alguns habitantes. Pouco tempo depois, o comprador, identificado como Otávio, proibiu o acesso à fonte de água que abastecia a comunidade.

Manuel Cardoso fala sobre disputa de terra . Foto: Paulo Oliveira
Manuel e a luta pela terra. Foto: Paulo Oliveira

O ancião conta ainda que um funcionário do Incra esteve na Baixa dos Quelés, exigindo a apresentação de comprovantes de propriedade:

“Fui até o Incra e mostrei que minha terra tinha 500 tarefas (220 hectares), mas eles disseram que só era 20 (8,8 hectares) e as três casas onde eu e minha família morávamos. Quinze dias depois fomos chamados para fazer um acordo. Ele ficaria com parte da área da Baixa ou com toda área do que chamamos de Baixão. Para evitar encrenca, concordei. Perdi 170 tarefas para esse homem” – diz revoltado.

Otávio continua questionando parte do território no Incra. De acordo com José Romildo de Jesus Santos, presidente da associação de agricultores remanescentes da Baixa da Lagoa, Quelés e Olho d’ Água, apesar de se apresentar como ambientalista, o litigante já teria permitido a retirada de madeira da região em duas ocasiões.

O site Meus Sertões tentou falar com o empresário, mas não conseguiu localizá-lo. No entanto, nos colocamos à disposição para apresentar a versão dele, caso sejamos contatados.

 ORIGEM

Certificada pela Fundação Palmares em 18 de abril de 2013, a localidade foi batizada em homenagem a Clemente Barbosa, o Quelé, o primeiro morador a se estabelecer na região. Até onde a memória dos mais velhos alcança, os remanescentes quilombolas trabalhavam para um certo “coronel” Jesuíno, o Zizu. A qualidade do solo e a distância de 28 quilômetros entre a propriedade e Jeremoabo foram fatores decisivos para que surgisse a povoação, não muito distante de um muro de pedras e um cemitério desativado, provavelmente construído por escravizados.

Remanescentes de escravizados. Reprodução
Remanescentes de escravizados. Reprodução

O volume dois do “Projeto Nova Cartografia Social dos Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil – Quilombos”, produzido em parceria pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) conta a história da Baixa dos Quelés, a partir de seus habitantes. Nele, o morador identificado como seu Fiel revela que a Baixa também recebeu um grupo de seguidores do beato Antônio Conselheiro:

“Com a guerra tiveram que fugir e uns bocado vieram para cá se esconder nesse vale. Meus irmãos moravam tudo fora, aí fui procurando pra repartir esse terreno pra dois irmãos, meu pai, Jacinta e o irmão dele.”

Os historiadores Cauam Francisco Pires Silva Nascimento e Jôycimara Ferreira Barreto também retratam a criação da localidade no artigo “Comunidades Quilombolas: A formação das comunidades remanescentes Baixa da Lagoa, Baixa dos Quelés e Olho D’ Água, do município de Jeremobabo (BA)”, publicado na revista Horizontes Históricos.

Eles apresentam algumas versões diferenciadas a partir do depoimento de um morador chamado Abílio. Ele diz que a comunidade foi fundada por José Teodoro Barbosa e não por Quelé, a partir do momento em que trabalhadores da fazenda de Jesuíno foram se instalando nas redondezas.

Segundo o pesquisador Pedro Son, o primeiro quilombo foi encontrado na região de Jeremoabo por volta de 1680. Ele foi formado por escravizados que tinham vínculo com o Recôncavo Baiano.

TRÊS QUILOMBOS EM UM

Na prática, a Baixa dos Quelés está integrada a duas outras comunidades quilombolas: a Baixa da Lagoa e Olhos d’Água. Juntas, possuem 22 mil tarefas (9,6 mil hectares), conforme levantamento do governo estadual, e 85 famílias (cerca de 425 moradores).

O jogador de futebol Jemerson, zagueiro do Corinthians, com passagem pelo Confiança (SE), Atlético-MG e Monaco (França), é o personagem mais famoso da Baixa do Quelé. Seus pais têm casa na comunidade, onde o menino foi criado. Ele também passou parte da infância com os avós em Brejo Grande.

Jemerson em primeiro plano. Reprudução de TV
Jemerson em primeiro plano. Reprodução

Aliás, há uma ligação entre as duas localidades, distantes 18 quilômetros. Há décadas, os moradores se reúnem com frequência para produção de farinha de mandioca. Esses encontros resultaram em vários casamentos como os dos pais do atleta. O presidente da associação comunitária, José Romildo, é primo de Jemerson e guarda com carinho uma camisa do Monaco, onde o zagueiro atuou por quatro anos.

A população é atendida com uma escola de ensino fundamental, que atende entre 30 e 40 alunos. O calor intenso faz com que as crianças merendem sob a sombra de um cajueiro centenário, localizado em frente ao colégio. A árvore centenária é o símbolo da comunidade. A instituição de ensino municipal é abastecida por uma cisterna de 52 mil litros de água.

As principais atividades da Baixa até 2004 eram a produção de milho, feijão, castanha de caju, manga e jaca. A maior parte da produção servia, essencialmente, para consumo próprio. Só o excedente era comercializado. No entanto, programas implantados pelo governo estadual mudaram esta realidade.

O projeto hortas comunitárias permitiu o desenvolvimento produtivo de hortaliças. A principal delas é o coentro, seguido por alface e cebolinha. Os produtos orgânicos são negociados nas feiras de Jeremoabo. A associação chegou a ter dez barracas em funcionamento, mas com a epidemia de covid-19 o número foi reduzido para três – uma semanal, outra diária e a terceira às sextas-feiras e sábados.

Em 2015, a construção de uma unidade de beneficiamento de mel motivou a ampliação do número de apicultores. No entanto, logo após a inauguração, a fábrica foi paralisada devido à pane em um transformador, problema não foi resolvido até hoje por conta da burocracia do governo estadual  (para entender a questão clique aqui).

Apicultores
Apicultores da Baixa

Apesar disso, os 46 abelheiros da localidade produziram 9,5 toneladas de mel com uma centrífuga manual, no ano passado. O preço do produto oscilou entre R$ 6,50 e R$ 13,50 no ano. Se a fábrica estivesse operando, o lucro teria sido bem maior

Além desses projetos, os descendentes de quilombolas possuem galinheiros comunitários e um a casa de sementes nativas de milho e feijão. Na segunda iniciativa, os agricultores retiram os grãos gratuitamente e devolvem, após a safra, em quantidade 20% (sócios da associação) e 30% (não sócios) maior.

Há três outros problemas a ser resolvido na Baixa dos Quelés. Eles estão relacionados com o serviço de saúde, sistema de transporte e acessos. O atendimento dentário depende da visita esporádica da unidade móvel municipal. O posto de saúde mais próximo está localizado a 23 quilômetros.

Segundo José Romildo, felizmente não foi registrado nenhum caso de covid-19 no local. Ele comemora a decisão da prefeitura ter que utilizar 20% das vacinas destinadas ao município na prevenção da população de remanescentes quilombolas. Esta semana, quinze pessoas foram imunizadas.

Quanto ao transporte, não há linha regular entre a Baixa e Jeremoabo. Os moradores idosos costumavam pegar carona no ônibus escolar. O prefeito Deri do Paloma (PP) proibiu a prática. A estrada de terra que leva à comunidade não recebe manutenção, obrigando os moradores a fazer mutirões para tapar buracos com cascalho.

Fábrica de mel pode fechar Um passeio pela Baixa dos Quelés Estado tenta corrigir erro

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