O professor austríaco

O professor austríaco

A primeira impressão que o jovem metalúrgico austríaco Reinhard Lackinger teve ao chegar à Jequitibá, povoado de Mundo Novo, no sertão baiano, foi a de ter feito uma viagem no tempo e retornado ao século XV. Em 1969, no meio do nada, diante de um “monstruoso mosteiro”, parecido com um castelo, instalado no alto de um morro e com casebres na parte baixa, sentiu-se de volta à Idade Média.

Foi o primeiro choque sofrido desde que deixou a cidade natal, a pequena e industrializada Kapfenberg, a 149 km de Viena, capital da Áustria, para implantar o curso técnico de metalurgia nas terras doadas aos monges cistercienses. Os religiosos receberam a imensa propriedade nos anos 1930, sob duas condições: deveriam construir uma escola para educar os jovens e ministrar catecismo. O primeiro colégio oferecia ensino primário rural, mas em meados da década de 1960, os monges decidiram implantar cursos profissionalizantes.

O impacto de encontrar o que lhe parecia um mosteiro fora de lugar só diminuiu quando foi para São Paulo adquirir máquinas e ferramentas que seriam instaladas no galpão da oficina, ao longo do segundo semestre de 1969. No ano seguinte, Reinhard e um monitor ficaram diante da primeira turma de 13 alunos. Os futuros torneiros mecânicos, forjadores e ferramenteiros haviam concluído o segundo ano ginasial na escola dos religiosos. A maioria tinha entre 30 e 32 anos, chegavam ser uma década mais velhos que o professor.

A vida em Kapfenberg

No rigoroso inverno de 1946, ano seguinte ao fim da 2ª Guerra Mundial, o bebê Reinhard veio ao mundo em uma cidade destruída pelos bombardeios. O cenário de prédios em ruínas e ferros retorcidos começou a mudar em 1950, embora por muito tempo fosse comum encontrar ex-combatentes e civis sem partes do corpo.

Na infância, o futuro metalúrgico se divertia nos pomares, onde consumia peras, maçãs e cerejas. Ele também lembra das guerras de pinha feitas com garotos de outros bairros e das peças pregadas pelo irmão, seis anos e meio mais velho.

Kapfenberg, localizada no estado da Estíria, era conhecida pelo Burg Oberkapfenberg, castelo do século XVII (17) pertencente à nobre família Stubenberg, e pela indústria estatal Böhler, onde Reinhard trabalhava. Filho de um apicultor, acompanhava o pai em incursões às montanhas, onde as caixas de abelhas eram mantidas, e gostava de se reunir com os amigos e frequentar a cafeteria local.

Funcionário do setor de metalurgia pesada e filiado ao Partido Socialista, organização política hegemônica na região, o jovem metalúrgico também era integrante da Junta Católica Operária, gerando uma contradição, pois os católicos eram opositores do partido e considerados conservadores. Tanto na fábrica quanto na igreja, Reinhard ficava deslocado. Sua adesão à Igreja Católica tinha a ver com João XXIII (23), pontífice entre 28 de outubro de 1958 e 3 de junho de 1963, quando morreu.

“O papa era um cara extremamente progressista, muito aberto e a favor da igualdade entre os homens e a centralidade dos pobres. Isso me encantava” – conta.

Quando serviu ao Exército, Reinhard fez contato com a ÖED – Österreichischer Entwicklungsdienst (Organização Austríaca para o Desenvolvimento). A entidade arrecadava dinheiro, inclusive da Junta Católica, para financiar projetos na América Latina, África e Ásia. Cerca de três anos depois, de volta à fábrica, a ÖED convidou o jovem para conversar: precisava de um metalúrgico para trabalhar no exterior.

“A situação era parecida com a dos legionários franceses. Eu só soube que viria para o Brasil em agosto de 1968, quando estava fazendo o curso de didática profissional e pedagogia na Alemanha ” – diz.

Kapfenberg tem hoje cerca de 22 mil habitantes, o equivalente a 0,2% da população da Áustria. A fabricante de aço Böhler, fundada em 1870, foi privatizada. Atualmente, pertence a Voestalpine, multinacional austríaca com atuação em 50 países.

A ÖED se transformou na ONG Horizont 3000, apoiadora de projetos em prol de desfavorecidos em países do hemisfério sul. A entidade é auxiliada por nove organizações católicas e  recebe recursos da ADA – Austrian Development Agency (Agência Austríaca para o Desenvolvimento), empresa sem fins lucrativos, pertencente ao governo da Áustria.

Já a ONG atua em projetos no Brasil em parceria com a Comissão Pastoral da Terra (CPT), a Associação dos Indígenas do Rio Negro (Foirn), o Instituto Socioambiental (ISA), o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e o Conselho Indigenista Missionário (Cimi). As atividades estão relacionadas aos direitos humanos. Em áreas rurais na Bahia, Paraíba, Pernambuco e Minas Gerais age em defesa de comunidades tradicionais vítimas de grilagem e prejudicadas pela destruição de recursos naturais.

Quanto ao castelo de Oberkapfenberg, ele foi adquirido pelo município e se transformou num parque temático medieval, onde é possível encontrar cruzados e alquimistas, acompanhar cenas de batalhas, conhecer a arte da falcoaria, participar de jogos de justas e disparar armas da Idade Média. No local, também são realizados shows e eventos diversos.

Nem a saudade dos amigos, nem toda a diversão do mundo faria Reinhard deixar a Bahia, onde casou com Maria Alice.

chegada Ao brasil

Foram 18 horas de trem até Genova e nove dias de navio da Itália para o Rio de Janeiro. O professor do curso técnico de metalurgia chegou ao Brasil, em maio de 1969. Com problemas para liberar os equipamentos e seus pertences na Alfândega, permaneceu dez dias na Cidade Maravilhosa.

Resolvido o problema, Reinhard Lackinger embarcou em um ônibus da Itapemirim para Salvador, desembarcando na antiga rodoviária, na entrada do bairro Pela Porco. Quem mais se beneficiava com a proximidade do terminal de ônibus era o Mercado das Sete Portas, cujo nome fazia referência ao total de entradas existentes.

Sem transporte para Rui Barbosa, cidade relativamente próxima ao Mosteiro de Jequitibá, o jovem instrutor pegou uma condução até Itaberaba. De lá, em uma Rural velha, lotada, percorreu 40 quilômetros de estrada de terra aos solavancos. Chegou ao ponto de encontro – um educandário – cansado e empoeirado. Ali, foi apresentado ao abade Antônio Moser, que o levou para o monastério com mais dois voluntários.

Logo surgiram as primeiras divergências entre Moser, também austríaco, e Reinhard.

O contrato com a ÖED previa a permanência do professor no Brasil por três anos. A remuneração era feita da seguinte forma: um terço entregue para despesas pessoais, o que incluía a compra de cigarros e cerveja; o restante depositado em uma caderneta de poupança na Áustria, cujo montante seria liberado ao final do acordo.  Em Jequitibá, o jovem metalúrgico se reportava ao abade, definido como “um senhor feudal, extremamente autoritário”. A primeira divergência aconteceu por conta da diferença cultural entre os trabalhadores austríacos do campo e da cidade.

Dom Antônio Moser, prior (1945 a 1950) e abade (1950-1996) do mosteiro.
Dom Antônio Moser, prior (1945-1950) e abade (1950-1996) do mosteiro

Moser queria que o recém chegado acumulasse a função de professor do curso de técnico em metalurgia com a de mecânico de automóveis para cuidar dos jipes usados pelos padres nas visitas às paróquias. Reinhard explica que a palavra servo era usada até recentemente na Áustria para definir quem labora em fazendas. Segundo ele, é tradição o filho mais velho herdar a propriedade e os irmãos se sujeitarem a trabalhar para ele, assumindo diferentes funções sem questionamento, sem horário fixo, sem folgas, sem direitos. O mesmo vale para os funcionários.

Em Jequitibá, o abade, os monges e os voluntários, todos enfim, eram da roça e integravam a Juventude Católica Rural.  As relações de trabalho eram diferentes entre os camponeses e os integrantes da Juventude Católica Operária, acostumados a ter competências bem definidas e a bater o relógio de ponto na mesma fila que o chefe e o superior dele.

Ao perceber que o contratado não era mecânico de automóveis, Moser teve de se conformar, mas não deixou de criar problemas, de acordo com seu conterrâneo.

Outra característica marcante do abade era ser pidão. Certa feita, ele foi a uma loja na Baixa do Fiscal, em Salvador, e insistiu que o proprietário lhe doasse material para a escola técnica. Para se livrar dos pedidos insistentes, o comerciante entregou 20 caixas de eletrodos úmidos e esfarinhados, sem nenhuma utilidade. Como inspetor de solda, Reinhard mandou jogar tudo no lixo, irritando o religioso. O desgaste da relação era inevitável. Os dois se tornaram amigos só no final da vida de Moser, que morreu em 2003, aos 90 anos.

Sentindo-se um peixe fora d’água, o jovem professor encontrou uma forma de minimizar a solidão e a convivência turbulenta com o superior da ordem Cisterciense: viajar para cidades próximas montado em um cavalo. O ritual de preparação para os longos passeios começava na sexta-feira, quando ele pedia para um vaqueiro deixar o animal na manga – cercado para animais com área de um hectare de área e com capim.

Ao término das aulas, por volta das 10 horas de sábado, ele cavalgava em direção a Rui Barbosa ou Mundo Novo, onde passava os finais de semana com jovens de sua idade. Uma das maneiras que encontrou para se enturmar foi se inscrever nas aulas de inglês, ministradas por americanas do projeto “Aliança para o Progresso”. Criado pelo governo dos Estados Unidos durante a presidência de John Fitzgerald Kennedy, o programa visava impedir o “avanço da ameaça soviética” no continente.

teoria e prática

A única coisa que o novo professor encontrou pronta em Jequitibá foi o conjunto de três galpões transformados em oficinas de agronomia, marcenaria e mecânica/metalurgia. De resto, teve de começar do nada. Inicialmente, instalou máquinas e bancadas, além de providenciar o equipamento necessário para o curso básico que incluía ajustagem, forjaria, solda e tornearia.

A turma tinha 12 alunos e um agregado: o filho de seu Miguel, senhor que cuidava do motor a diesel, dois motores a gás de lenha e do gerador de energia elétrica do mosteiro. Fabricados há mais de 30 anos, obsoletos, os equipamentos não permitiam que uma solda fosse realizada ao mesmo tempo em que um monge fabricava hóstias: faltava energia.

Importante ressaltar que não havia meninas da comunidade inscritas no curso profissionalizante, pois elas só podiam frequentar o primário ou a escola noturna para adultos. Alguns dos jovens inscritos tinham uma formação deficiente. José Ramos, 16 anos, o caçula do grupo não sabia ler, escrever, nem ao menos pronunciar palavras como “milímetros”. Graças ao seu talento, no entanto, ele cansou de surpreender o mestre.

Reinhard ensinava teoria pela manhã e prática à tarde. Apesar do esforço pra formar bons profissionais, ele continuava amuado, insatisfeito com a rotina e em permanente conflito com o abade. Aproveitando a visita do chefe da organização que o trouxe para o Brasil, ele fez acordo para rescindir o contrato.

Na época, o metalúrgico tinha como opções voltar para o país de origem ou aceitar uma proposta de emprego no Mato Grosso. Resolveu que tomaria a decisão depois de levar os alunos para conhecer a fábrica Magirus-Deutz, em Simões Filhos. A indústria construía chassis para ônibus e Reinhard queria que os alunos tivessem noção dos trabalhos que podiam fazer com os ensinamentos adquiridos em Jequitibá. De quebra, conseguiu que três deles fizessem um teste.

“Eles se saíram muito bem e isso fez com que eu ficasse muito feliz” – recorda.

Durante a visitação, um senhor que estava na fábrica gostou da forma como Reinhard Lackinger conduzia seus discípulos e o convidou para dar aulas na Escola Técnica Federal (ETF), hoje Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFBA), no bairro Barbalho. Na primeira visita à escola, o austríaco ficou maravilhado. Ele nunca tinha visto máquinas operatrizes iguais a de lá.

Em novembro de 1970, o professor deixou Jequitibá definitivamente. Só retornaria 19 anos depois para uma breve visita.

Tique-taque, tique-taque, tique-taque…De repente, Reinhard Lackinger se dá conta da implacabilidade do tempo:

NOTÍCIAS DO MUNDO DE LÁ

Após três anos na Escola Técnica, o metalúrgico voltou a trabalhar em fábricas na periferia de Salvador e no Centro Industrial de Aratu. Em 1980, na Forja Nordeste, o mestre reencontrou um dos discípulos.

“Estava caminhando pela fábrica quando vi um rapazinho introspectivo. Ele usava guarda-pó limpinho e trabalhava em uma bancada com um instrumento de medição e uma máquina de calcular, protegida com plástico. À medida que me aproximei, reconheci o José Ramos, o mesmo que mal sabia falar quando começou o curso comigo” – lembra.

O ex-aprendiz, enquanto preparava chapelonas (chapas de material resistente vazadas para serem usadas na identificação de qualquer material), contou que já trabalhava em Simões Filho quando se inscreveu na escolinha da Bosch, fabricante de bobinas de automóveis e velas. A empresa alemã aperfeiçoava a própria mão de obra, após recrutar os melhores alunos do Senai. Ramos se meteu na seleção, passou e se transformou em um ferramenteiro de mão cheia.

“Com isso fiquei mais contente ainda. Tanto que guardei a foto dele recebendo uma condecoração do então ministro do interior Mario Andreazza, acompanhado do secretário estadual João Durval e do governador Antônio Carlos Magalhães” – conta Reinhard.

O metalúrgico, desde então, teve notícias esporádicas de seus alunos. Olímpio morreu. Antônio Ribeiro montou uma oficina em Mundo Novo e foi um dos instrutores da escola profissionalizante de Jequitibá antes dos tornos serem vendidos e os cursos acabarem.

Foi de José Ramos que o professor recebeu as notícias mais recentes: o ferramenteiro se aposentou e voltou a morar em Indaí, a dois quilômetros do mosteiro, onde tem uma fazenda e cria gado.

“Quer dizer, o cara está mais rico do que eu. Eu estou “durango” e ele é fazendeiro (risos). Eu acho legal pra cacete. Só por causa dele, eu já acho que a minha vinda para o Brasil valeu a pena, que fiz uma coisa boa em minha vida” – avalia.

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Depois de trabalhar nas indústrias e metalúrgicas baianas Reinhard Lackinger fundou a própria ferramentaria, transformando o quarto de empregada de sua residência em fábrica de dispositivos e gabaritos. Em 2002, fechou a empresa.

Ele fez curso de gastronomia no Senac e abriu uma taberna, especializada em gastronomia austro-húngara, no Porto da Barra, em Salvador. A mulher Maria Alice, baiana, aprendeu os segredos culinários com a mãe de Reinhard e o acompanhou neste empreendimento por 18 anos.

Reinhard e a esposa Maria Alice. Álbum pessoal
Reinhard e Maria Alice. Reprodução da internet

Em 2018, Reinhard teve uma trombose na perna. Fez tratamento e foi liberado pelo médico seis meses depois. No dia 22 de abril de 2020, sofreu embolia pulmonar. Após passar oito dias entre a vida e a morte, na Unidade de Tratamento Intensivo do Hospital Português, decidiu fechar o restaurante.

A taverna era conhecida pela decoração com pôsteres de filmes e fotos de artistas, música e comida de qualidade e um inusitado horário de abertura – 18h37min. Segundo o proprietário, a ideia era chamar a atenção para a diferença entre a pontualidade austríaca e a baiana.

A epidemia de covid 19 também colaborou para  encerramento do negócio.

Hoje, o metalúrgico, professor, empresário e cozinheiro está aposentado e mora a 500 metros de seu último empreendimento, em Salvador.

Reinhard não é o único austríaco no país. O governo brasileiro estimou, no dia 8 de junho de 2020, que 3.600 deles vivem aqui, 5.000 brasileiros moram na Áustria e 10 mil cidadãos possuem as duas nacionalidades.

Jornalista, 58 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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