Retalhos sertanejos

Retalhos sertanejos

As três primeiras publicações de Retalhos Sertanejos no Instagram traziam o logotipo, explicações sobre o projeto e uma entrevista com o geógrafo jacuipense Roniere Mota sobre os interesses políticos e econômicos que levaram à criação de estereótipos de um sertão seco e atrasado.

Não sei se foi a marca, que lembra uma colcha de retalhos, produto feito até hoje nos municípios integrantes da Bacia do Jacuípe, ou o slogan bem elaborado – “Alinhavando histórias e costurando conhecimento” -, que chamou a minha atenção.

Página de Retalhos Sertanejos no Instagram. Reprodução
Página de Retalhos Sertanejos no Instagram

Passeando pelas postagens, foi fácil constatar que havia uma grande quantidade de informações relevantes em pouco espaço. A introdução da vinheta do programa de entrevista começa com um trecho de Fama de Sambador, clássico do grupo de samba de roda do povoado de Pedrinhas. E segue com imagens de objetos usados por vaqueiros e cenas locais.

A curiosidade sobre quem estaria por trás da proposta de resgatar e valorizar a cultura sertaneja levou Meus Sertões às pedagogas Maciela Mikaelly Carneiro de Araújo, 23 anos, mestranda em educação; Márcia Maria da Silva Guimarães, 48 anos, prima e madrinha da jovem educadora; e à artesã Gilmeire Francisca Carneiro de Araújo, a Meire, 50 anos, mãe de Mikaelly.

O grupo surgiu em 30 de julho de 2020, depois de várias conversas sobre como os jovens estão distanciados da cultura sertaneja de raiz. Hoje, a maioria trabalha nos centros urbanos e mora na zona rural por ser um lugar sossegado, sem vivenciar as manifestações históricas e culturais comunitárias.

“Decidimos criar o Retalhos Sertanejos porque pensamos em unir pequenas histórias e costurar as narrativas para produzir conhecimento. Nosso objetivo é trocar experiências e resgatar o que a gente viveu no passado e está vendo se perder. A gente não quer que isso se perca” – diz Mikaelly, que se apresenta de forma divertida – “meu nome é com cá, dois éles e ípsilon, bem enfeitado”.

É importante ressaltar que as três integrantes nasceram, atuam e/ou ensinam crianças nos povoados de Chapadinha e Pedrinhas, comunidades que distam meio quilômetro, em Riachão de Jacuípe. As duas localidades foram formadas, basicamente, por duas famílias.

Na primeira, fundada pelos antepassados maternos da jovem pedagoga, há forte presença religiosa, devido à devoção a Santo Antônio. Lá, eram realizados festivais de tortas, peças teatrais e apresentações musicais, incluindo a dupla “Celeste e Celina”, tias de Mikaelly.

Pedrinhas, terra do bisavô paterno da pedagoga, projetou o samba de roda há 143 anos. Misael Carneiro Oliveira, 82 anos, atual líder do grupo e tocador de cuia, é o maior expoente do grupo. Ele faz parte da quarta geração de sambadores, seguindo os passos do bisavô Zuza, do avô Primitivo Pedro e do pai Elias José Oliveira.

Aqui, o potencial do projeto Retalhos fica evidente.

MÉTODO DE TRABALHO

Márcia Maria conta que a pandemia a afastou um pouco da escola rural onde trabalha. Segundo ela, a atividade do grupo tem sido fazer reuniões e planejamento sobre os temas que irão para o canal do Instagram, por enquanto única rede social em que atuam. A proposta prevê o aumento de interatividade com os moradores de Riachão do Jacuípe.

“Nossa ideia é fazer com que as pessoas que estudam, que gostam do sertão, enviem vídeos curtos para que seus trabalhos sejam socializados. Após a pandemia, pretendemos também agir presencialmente” – acrescenta Mikaelly.

Já Meire conta que pretende resgatar atividades como o leilão, “boi roubado”, as rodas de samba, o futebol de fim de semana e o bumba meu boi:

“Quem sabe resgatando essa cultura, as pessoas resolvem seguir a gente e cada comunidade resgate suas atividades?”

A artesã recorda que nos finais de semana à tarde, quando terminava o futebol, rolava um samba. Se o time do povoado vencesse, a festa era maior. Em junho, era a vez do bumba meu boi, passadas as rezas para São Pedro, em Pedrinhas. No entanto, o que mais ela sente saudades é do “boi roubado” e do cantar para louvar a bandeira.

Para quem não conhece a louvação à bandeira, é preciso explicar. Em “Boi roubado: uma tradição de trabalho em festa na região sisaleira”, dissertação de Daiane de Araújo França, mestre em literatura e diversidade cultural pela Universidade Federal de Feira de Santana, a atividade é definida como “uma expressão coletiva lúdica, que integra trabalho agrícola, cantigas, danças, elementos performáticos e linguísticos e a presença de rituais bem ao modo do homem e da mulher camponesa”.

O “boi roubado” é chamado também de boi de roça, batalhão ou adjutório. Nesse caso, explica Daiane, a figura do boi aparece como sinônimo de brincadeira e festa, em que os participantes trabalham e se divertem através do ato de “roubar um boi”, isto é, prestar um serviço a um amigo em troca de comida farta e bebida.

Tudo começa quando trabalhadores rurais decidem ajudar um amigo a fazer um serviço (capinar uma plantação, levantar cercas, plantar, colher e fazer a bata do feijão – soltar os grãos da vagem seca com golpes de vara) que ele tem dificuldades para fazer sozinho. Sem avisá-lo, o grupo se dirige à roça do amigo durante a madrugada e o acorda com fogos.

Surpreendido, o dono da propriedade, providencia às pressas alimento, matando animais de sua criação (carneiro, porco, galinhas ou, no passado, até mesmo um boi), e bebidas para todos os participantes. Enquanto os homens trabalham. cantando músicas típicas ou fazendo versos improvisados em duplas (parelhas), a comida, que inclui café, almoço e janta, é preparada pelas mulheres dos agricultores, que os acompanham, e do dono da casa.

Pedro Carneiro de Oliveira, o Pedro de Elias, 81, guarda na memória, versos do canto da bandeira. Reprodução do zoom
Pedro de Elias canta um dos versos de louvação à bandeira. Reprodução do zoom

Ao fim da tarefa, no cair da tarde, os homens voltam para o terreiro, carregando uma bandeira vermelha. Mulheres e crianças os esperam com uma bandeira branca com flores verdadeiras presas nela com linha de costura. O encontro é animado: toadas que louvam os trabalhadores, o dono da casa e a cultura nordestina, dança e cachaça. A festa continua após a louvação com os homens participando do samba de roda e as mulheres na brincadeira de roda.

“Hoje não sabem o que é isso” – lamenta Meire.

Perita em costura e trabalhos manuais, a artesã admite que esqueceu muitas cantigas, mas crê que é possível resgatá-la. Conta, inclusive, com a ajuda do próprio pai, Pedro Carneiro de Oliveira, o Pedro de Elias, 81 anos. Ele dá mais detalhes sobre louvar a bandeira:

“Quando a gente roubava o boi, no fim do trabalho a gente ajuntava todo mundo numa fila pra cantar a bandeira. Tinha duas bandeiras. A vermelha era dos visitantes; a branca, das mulheres. A gente amarrava a nossa em uma vara. As mulheres faziam as delas do jeito delas, cheia de flores pregadas. Quando a gente voltava, aí ia trocar as bandeiras. A vermelha ficava com as mulheres e a branca com os homens. As duas varas passavam de mão em mão quando começava a cantoria. Todo mundo tinha que cantar a bandeira” – explica.

Em seguida, seu Pedro canta um dos versos da louvação, intercalando trechos de aboio:



Esse canto de seu Pedro é conhecido também em toda região sisaleira da Bahia. A historiadora Miriam Carvalho Miranda diz no artigo “Nos compassos da história oral: memórias e vestígios do boi roubado” que se cantava a mesma coisa entre os anos 60 e 70 do século passado em Araci, cidade a 78 quilômetros de Riachão. E reproduz versos bem parecidos:

“Ô bandeira branca/ Enfeitada de fulô/ Ô, ô, heei, haaa/ O que enfeitou a bandeira/ Foi uma dona de valor/ Eu vou chorar/ Porque ele ainda não viu o meu amor.”

O registro mais recente da louvação à bandeira que encontramos na internet foi realizado em Mairi, no dia 7 de maio de 2019. O vídeo (ver frames abaixo) foi publicado na página de Agmar Rios, no Facebook. O município fica a 130 km de Riachão.

HISTÓRIAS DE BOCAGE
Misael Carneiro de Araújo 61 anos, sabe muitas histórias de Bocage. Reprodução do Zoom
Misael Carneiro de Araújo, 61 anos, conhece histórias de Bocage

A equipe de Retalhos Sertanejos conta com outro grande aliado: o pai de Mikaelly, Misael Carneiro de Araújo, 61 anos. O transportador de gado costumava contar histórias de animais, de Pedro Malasartes e de Bocage para os filhos no avarandado da casa, à luz de candeeiros. A pedagoga só ia dormir após ouvir pelo menos três casos envolvendo os personagens.

A mais jovem idealizadora do projeto diz que os mais velhos passaram a ter receio de reproduzir as aventuras de personagens ladinos por achar que elas não têm mais valor. Apesar disso, ela tenta fazer com que seu Misael escreva um livro com estas histórias. O argumento é que é preciso mostrar que a cultura local é bonita e não pode ser esquecida.

Assim que Misael chega de uma entrega de gado, ela pede para ele nos contar uma história de Bocage, que ele aprendeu quando era criança.

“Quem era Bocage?” – pergunto.

“Era um homem muito sábio. Só que mais sabido do que Pedro Malasartes.”

A resposta me deixa com uma pulga atrás da orelha: como um dos melhores poetas portugueses do século XVIII, com fama de libertino, tomou o lugar de mais malandro do personagem popular da Península Ibérica?

“Ele fazia um bocado de coisas” – responde Misael, rindo.

Em nova pesquisa é revelado que Malasartes teria sido criado pelos árabes e adotado pelos povos da Península Ibérica. Foram os portugueses que o trouxeram para o sertão, contando histórias em que o malandro sempre leva a melhor diante dos poderosos. Também costuma fazer justiça em favor dos mais humildes. Sua fama corre até hoje pelo sertão e pelo interior de São Paulo, principalmente.

A professora e mestre em literatura Maria José Lopes Pedra destaca na dissertação “Deslocamentos e outras leituras nos contos de Pedro Malasartes” que textos do catálogo “Literatura popular em verso” (1957), da casa Rui Barbosa, revelam que duas figuras da literatura clássica – Bocage e o poeta português Camões –assumem as mesmas características de Pedro Malasartes. E justifica o fato com um trecho do livro sobre contos populares, coordenado por Doralice Xavier Alcoforado e Maria del Rosario Albán:

“As literaturas para sobreviverem terão que adotar as invenções do irmão-povo, senão se transformarão em pobres damas enfermiças, com medo do sol, da chuva, da vida.”

Pausa nos estudos acadêmicos. Hora de ouvir a história de Bocage, contada por seu Misael:
 

PROGRAMAÇÃO E OFICINAS

Aos poucos, a página do projeto Retalhos Sertanejos ganha projeção e elogios em Riachão do Jacuípe. No dia 21 de janeiro, a página tinha 157 seguidores. Atualmente, as integrantes contam com poucos recursos tecnológicos. Na verdade, apenas um aparelho celular, usado para fazer as entrevistas e vinhetas.

Em janeiro, o tema a ser debatido será narrativas sertanejas. A próxima entrevistada é professora de redação da Chapadinha. Elas também convocaram os seguidores a enviarem vídeos, declamando poemas ou apresentando cordéis, para um recital virtual. Com a programação anual praticamente definida, o planejamento agora gira em torno  da pós-pandemia e a realização de atividades presenciais: contação de histórias, brincadeira de roda, samba de roda, escolinha de teatro.

Cama de vento. Foto: Retalhos Sertanejos
Cama de vento. Foto: Retalhos Sertanejos

A equipe revela ainda que o foco não ficará limitado à cultura. Temas como meio ambiente – replantio de árvores nativas e questões climáticas – e preservação de objetos que contam a história do sertão estão na pauta.

“Às vezes uma pessoa acha que uma máquina de costura antiga não serve mais. Então joga fora ou queima. Muitas memórias estão sendo descartadas. É difícil a gente encontrar hoje uma cama de vento. Pouca gente conhece o que é uma cama de vento.” – diz Mikaelly

 Quando digo que não conheço, todas riem. Em seguida explicam que é uma cama de madeira feita com trançado de sisal, que substituem o colchão. No Facebook, o baiano de Serra Preta, Quinca de Zé de Gum, vende camas novas desse tipo a R$ 200.

A entrevista entra na parte final. Pergunto sobre os coletes que as as três estão usando. Elas contam que eles foram feitos por Meire. Ao receber o convite de Meus Sertões, elas ficaram tão felizes que pensaram em fazer um painel, broches e se apresentar com uma espécie de uniforme para lhes dar uma identidade visual.

Meire conta que pretendia fazer um colete com retalhos costurados, mas não daria tempo de prepará-lo antes de nosso encontro virtual. A seis dias da data marcada, ele decidiu aproveitar o tecido com estampa de retalhos e usá-los por cima de blusas brancas. Ela brinca que ficou parecido com roupa junina. E acrescenta que fará a peça que pensou originalmente.

Com relação à satisfação de participar do projeto, Márcia revela que se sente feliz, útil e privilegiada por ter a oportunidade de vivenciar ainda mais o lugar em que vive e valorizar a cultura dos povoados, que está sendo esquecida:

“A questão do samba mesmo, tão lindo. A gente fica triste ao saber que os sambadores, todos idosos, estão com dificuldades para encontrar um sucessor. Se nós ajudássemos a achar alguém para levar adiante essa tradição, isso seria um grande presente da vida”.

Já Mikaelly, otimista, acredita que alcançará os objetivos propostos pela equipe:

“Quando a gente começa a falar, as pessoas valorizam o que veem. É o poder da linguagem. O vovô veio aqui e cantou. Meu pai, quando falei que era uma reportagem, se sentiu confiante e contou a história de Bocage. Então eu acho que ao mostrarmos pessoas que estudam e se interessam pelo sertão, isso vai incentivar a participação das comunidades. Os jovens vão perceber que aquilo faz parte da família deles, dos antepassados e se conscientizarão que não podem deixar isso morrer.”

Resgatar a infância e a vida na roça. Esse é objetivo de Meire, que cresceu vendo “boi roubado” e canto à bandeira. Ela conta que aprendeu a tocar pandeiro e bater cuia e sonha em criar uma escolinha de samba de roda para ensinar crianças. Quem sabe até formar o grupo mirim de sambadores de Pedrinhas para cantar no Dia de Reis. Outra tradição que a artesã pretende resgatar é o “reis roubado”, o que nos leva para uma nova busca.

O antropólogo Marcus Bernardes de Oliveira Silveira, conta em dissertação (“A tradição em dois escopos: patrimônio cultural e sambas de roda”), produzida em 2013, na Universidade Federal de Goiás, que  essa manifestação cultural foi levada por baianos de Conceição do Jacuípe para Goiânia. A cidade sertaneja é conhecida popularmente como Berimbau, nome da feira e do povoado que lhe deram origem. A distância de lá para Riachão é de 130 quilômetros.

Segundo Silveira, as visitações do reisado podem ser informadas com antecedência (“reis avisado”) ou não (“reis de surpresa” ou “reis roubado”). A organização depende do tipo do evento. No primeiro caso, o dono da casa deveria arcar com as despesas da festa. No segundo, os visitantes ajudam a arrumar comida, inclusive acordando donos de vendas próximas.

O princípio do “reis roubado” é o mesmo do “boi roubado”. Um grupo de até 50 pessoas, incluindo sambadores, segue até a casa do desavisado. Os reiseiros empunham violas, cavaquinhos e pandeiros em silêncio. Diante da casa, sempre à noite, cantam os Reis, despertando a todos:

“Ô de casa, ô de fora/ Ô de casa, ô de fora/ Maria vai ver quem é/ São os cantador (sic) de Reis/ Quem mandou foi São José/ Canta Reis não é pecado/ São José também cantou/ Neste dia de alegria/ Mas depois de muito tempo/ São José também chorou/ Porque viu seu filho moço/ Pregado numa cruz por tanto amor”.

Nos “reis” não pode faltar samba, cachaça e galinha cozida. A festa vai até a madrugada e muitas vezes termina  ao som da viola e dos pés batendo no chão. O samba dá lugar ao coco.

Após passearmos pela cultura sertaneja, as integrantes do Retalhos agradecem o convite de Meus Sertões e a professora Márcia Maria pede para deixar uma mensagem:

“A nossa região Nordeste sempre foi esquecida economicamente. Até hoje vivemos sob essa pressão de muito preconceito, de achar que aqui não se produz nada porque chove pouco. Parece que tudo de ruim, tanto em pensamento quanto em atitude, foi trazido para cá. Pensei muito sobre isso e tive oportunidade de vivenciar mais o sertão como educadora. Eu já era apaixonada, mas depois de ter outras vivências, pude valorizar e amar muito mais a minha terra, o meu sertão. Mesmo que alguém me chamasse para morar em um lugar muito rico, eu não queria. Meu lugar é aqui. Quero mostrar para todas as pessoas que aqui é um lugar bom de se viver”.

Vida longa ao Retalhos Sertanejos!

Jornalista, 58 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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