Uma experiência fascinante: “Mãe Dioca” – capítulo IV

Uma experiência fascinante: “Mãe Dioca” – capítulo IV

A agricultora Maria Januária Seles teve uma vida difícil, embora seu pai fosse um dos poucos a ter uma roça de mandioca no povoado de Palmeiras do Cedro, em Boninal, cidade da Chapada Diamantina. Entrevistada pelo sobrinho Vitor Manoel e seus colegas de turma, dona Maria conta que só comia arroz na Semana Santa, quando os pais se sacrificavam para compra um litro do cereal, um dos alimentos mais consumidos no mundo.

Fora do período santificado havia cortado de abóbora, palma, feijão e mandioca, a quem dona Maria chama de “Mãe Dioca”. Ela lembra que em uma das secas mais rigorosas, em 1939, a família comia a raiz no café, no almoço e no jantar, misturada com maniva (talo da planta) moída. Da folha da mandioca também se preparava a maniçoba, mas era preciso lavá-la em sete águas para tirar o alto teor de ácido cianídrico que contém. Dependendo da quantidade, o ácido pode matar.

Maria Januária é do tempo em que não se conhecia macarrão, remédio, médico, sabão em pó e água sanitária no sertão. Nessa época, ao voltar da roça ao anoitecer, muitas vezes não encontrava o que comer. O jeito era procurar um pé de mandioca e colocar um molho feito com água e coentro.

“O pessoal antigo sofreu” – diz dona Maria para o neto, aluno da professora Maria Isabel Gonçalves, que incentivou todos os alunos do segundo grau do Colégio Estadual Rui Barbosa, em Boninal, a fazer um trabalho resgatando as memórias de seus parentes mais velhos e explorando a comunidade.

Vitor soube pela tia que muita gente ia de casa em casa pedindo alimentos. Crianças que só tinham um short para vestir e andavam descalças e sem camisa. Quando a fome apertava, arrancavam a raiz das bananeiras para fazer farinha:

“Tinha que lavar a raiz, raspar, ralar, espremer com um pano, lavar de novo para tirar a nódoa, botar para secar e torrar” – ensina a agricultora familiar. Ela acrescenta que lembra da morte de duas pessoas causadas pela fome.

Dona Maria Januária também conta histórias sobre castigos infligidos a quem nega um punhado de farinha ao próximo. Segundo ela, mesmo que seja sua última porção, você tem que dar o alimento.

Além de detalhar como era a vida antigamente, graças à tia, Vitor também registrou em vídeo cenas da comunidade de Palmeiras do Cedro.

 

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Jornalista, 58 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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