Uma experiência educacional fascinante – capitulo I

Uma experiência educacional fascinante – capitulo I

A notícia de que a professora Maria Isabel Gonçalves, 33 anos, do Colégio Estadual Rui Barbosa, em Boninal, no sertão baiano, estava entre os vencedores do prêmio Educador Nota 10, começou a se espalhar em julho deste ano. A única representante baiana selecionada entre 3.761 participantes do concurso nacional foi a responsável pelo desenvolvimento do projeto “As filosofias de minha avó: poetizando memórias para afirmar direitos”, adotado para todas as turmas do primeiro ao terceiro ano do ensino médio.

Maria Isabel quebrou um paradigma: a escola da Chapada Diamantina, onde 80% dos alunos são negros, não abordava a cultura africana em seus trabalhos até o início de 2019. Foi ela, professora de filosofia, quem fez os estudantes associarem a essência da filosofia Ubuntu, que trata da importância das alianças e do relacionamento das pessoas, resumida na frase “Eu sou porque nós somos”, com os ensinamentos da filosofa da alemã de origem judaica Hannah Arendt (memória como ato político) e do francês Henri Bergson (memória como o instante marcante).

As reportagens sobre a conquista da professora baiana ganharam a mídia local, estadual e nacional. O feito era contado , principalmente, com base no anúncio da principal premiação da área educacional do país. Um ou outro veículo tentou abordagem mais interessantes. Talvez por conta da pandemia de covid-19, os resultados foram tímidos.

A primeira conversa de Meus Sertões com vencedora do prêmio ocorreu após ela ser entrevistada, via You Tube, por estudantes de jornalismo da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), campus Seabra. A professora contou que teve muitas dificuldades para se formar. Criada em Duas Passagens, um dos 115 povoados do município, ela teve uma infância parecida com a de seus alunos.

A mãe de Maria Isabel, outra Maria, a incentivava a estudar e contava histórias sobre a bisavó da menina. Iaiá Lia, líder quilombola, rezadeira, parteira e puxadora de cantorias de reisado na comunidade de Umburana, fez história, se fixou na memória da futura professora como exemplo de dignidade, solidariedade e respeito. Foi ela que inspirou o projeto escolar, que movimentou os jovens de Boninal e das vizinhas Piatã e Seabra.

Bem,  ainda não é hora de contar tudo sobre a professora e seu trabalho revolucionário.

Na preparação desta série série, que encerra a temporada 2020 de Meus Sertões, associamos a experiência inovadora a uma árvore frondosa. A semente é a iniciativa da professora: as raízes, os avós e ancestrais dos alunos; o tronco grosso, a memória e os conhecimentos transmitidos pelos griôs – contadores de histórias e músicos, mestres da cura e dos ofícios tradicionais, líderes religiosos; as folhas representam as comunidades; e os frutos, a conscientização que leva à luta e à solução de problemas, as novas ideias.

Nos cerca de seis anos que dei aula para turmas de diferentes níveis, de comunicadores populares a jornalistas, aprendi que, sem mostrar o que pode brotar com o conhecimento, é mais difícil motivar os alunos. É por isso que vamos começar essa série pelos frutos. Na verdade, um deles, gerado por Amanda Silva, que terminou o ensino médio este ano e pretende disputar uma vaga para medicina no Enem.

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Jornalista, 58 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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