A magia dos contos de Franklin Carvalho

A magia dos contos de Franklin Carvalho

A banda de rock Pholhas, criada em 1969 por músicos brasileiros que cantavam e compunham em inglês, “estourou” nacionalmente com a música “My Mistake” (“Meu erro” em português), de Hélio Santisteban e Oswaldo Malagutti, dois de seus quatro componentes. O compacto duplo no qual estava incluída a canção, carro-chefe do grupo até hoje, vendeu 450 mil cópias em três meses, segundo o dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira.

Capa do livro "A ordem interior do mundo", de Franklin Carvalho. Reprodução
Capa do livro “A ordem interior do mundo”. Reprodução

Na época, o Brasil estava atolado no analfabetismo – 33,7% da população acima de 15 anos não sabiam ler e escrever –, e era raro encontrar alguém que se expressasse em inglês. Nesse contexto, jovens casais românticos dançavam agarradinhos país afora, sem ter noção de que a letra se referia a um homem que cometeu um feminicídio.

Inspirado na música, o escritor e jornalista Franklin Carvalho, 52 anos, escreveu “A vida inteira” (My Mistake), um dos oito contos de “A ordem interior do mundo”, seu livro mais recente, ganhador do Prêmio Nacional de Literatura da Academia de Letras da Bahia.

A história de João e dos conflitos que enfrenta transcorre após o cumprimento da pena pelo assassinato da mulher e da jura de nunca mais matar. Ao ser acolhido pelo padre da cidade, ele passa a ser tentado o tempo todo por pessoas que querem encomendar a morte de alguém:

“Nem na cadeia ele conviveu com tanta devassidão, com tanta corrupção, com tanta loucura. Durante todo o tempo em que morou na igreja, conheceu tudo o que a vileza humana pode produzir (…)

Recebia os pedidos em todos os lugares, para que se dê fim em um patrão ruim, em um colega mal-intencionado, em um sujeito atrevido. Mas ele tinha certeza de que aquilo não era sua natureza.

E também veio gente desejosa de acabar com a própria vida, como uma idosa que tinha ficado sozinha depois de muitas desventuras. Queria que alguém lhe eliminasse o sofrimento, e João mandou que fosse embora (…). Parecia que João Constantino tinha em suas costas a porta para o céu.”

Perito na garimpagem de palavras, na formação de frases que valem por dezenas de páginas, Franklin explora a riqueza de personagens fantásticos e seres que ganharam vida em tempos de silêncio e de escuridão.

O CONVITE, A LIVE E OS CONTOS

O primeiro contato de Meus Sertões com Franklin Carvalho ocorreu através do professor e ex-presidente do Centro Cultural de Araci, Pedro Juarez Pinheiro. Autor de outros dois livros de contos e do romance “Céus e Terra”, com o qual conquistou o Prêmio Sesc de Literatura e o Prêmio São Paulo de Literatura (2017), foi ele quem nos indicou o raizeiro Sebastião Jovino da Costa, personagem que diz ter vivido aventuras em uma dimensão mística para se livrar do Tinhoso.

Pouco antes de completar um ano da publicação da história de Sebastião, Franklin nos enviou o convite para o lançamento virtual de “A ordem interior do mundo”, realizado na semana passada. Na live, na qual foi entrevistado pelo poeta Marcus Vinícius Rodrigues, a crítica literária Gerana Damulakis, o professor e escritor Aleilton Fonseca e o jornalista Carlos Ribeiro, o autor revelou que alguns contos foram feitos a partir de pesquisas realizadas para “Céus e Terras”, incluindo coleta de histórias em hotéis de beira de estrada, em viagens pelo sertão, em conversas com viúvas e idosos e em recortes de jornais.

Além da metodologia, o escritor araciense resume os bastidores da criação de cada conto. “A noite e mais um dia”, por exemplo, teve origem em um episódio retratado por Euclides da Cunha, em “Os Sertões”. Na quarta e última campanha do Exército, os soldados prenderam uma mulher. Ela amaldiçoou seus algozes, condenado-os a passar a eternidade naquela região. Euclides define a mulher como “aquele demônio de anáguas, aquela bruxa….” Na imaginação de Franklin, a praga se concretiza.

Na live, disponível no You Tube, Franklin, que também é jornalista, faz reflexões interessantes sobre mudanças ocorridas nas últimas duas décadas nas cidades do interior, onde o cimento virou moeda de troca, as periferias cresceram, a ganância prevaleceu e o medo restringiu a mobilidade das pessoas. Ao mesmo tempo, preservaram-se algumas características como a crença no sobrenatural, nas soluções espirituais.

Tudo isto está presente em “A ordem interior do mundo”. A começar pela ilustração da capa – “Melancolia I” -, reprodução da obra do pintor e matemático alemão Albrecht Dürer (1471-1528). Na gravura feita de cobre, foi talhado um quadrado mágico, usado como símbolo esotérico e talismã. A soma dos números de todas as linhas, colunas, cantos, extremos médios e diagonais dá sempre o mesmo resultado: 34.

A ENTREVISTA

A live do lançamento virtual do livro, com uma hora e 24 minutos de duração, e a leitura de dois contos não foram suficientes para aplacar a curiosidade de Meus Sertões. Daí a realização de uma entrevista, feita por Whatsapp, devido à pandemia de Covid-19, e reproduzida a seguir:

Você hoje se dedica exclusivamente à literatura ou ainda atua como jornalista? Caso positivo, em qual veículo? Como encontra tempo para escrever? Quanto tempo dedica para escrever livros?

Trabalho em assessoria de Comunicação no Tribunal Regional do Trabalho da Bahia. Faço e edito textos e planejo a parte de internet. Como lido muito com computador, escrevo minha ficção à caneta, acomodado numa rede, num sofá ou na mesa da cozinha. Só depois digito, quando a ideia já está definida, com final e tudo. Imprimo e reviso mais algumas vezes, mas é uma tarefa exigente e sempre posso mudar muito até publicar. Até meses depois, relendo, posso fazer mudanças drásticas. Meus amigos dizem, quando me veem escrever, que é “parapsicologia”. Talvez seja uma espécie de mediunidade mesmo, mas só envolve personagens vivos.

Gostaria que você detalhasse o processo de viajar em busca de histórias, frases, enfim, material para seus livros. Você escolhe uma cidade, uma região? Quanto tempo passa viajando? As viagens são só pela Bahia? Como isso é bancado? Quantas viagens você já fez? Quais os principais escritos que resultaram delas? As pessoas das quais você colhe as histórias sabem que os casos serão usados nos livros? Qual foi a experiência mais interessante nesse processo?

Antes da pandemia da Covid eu viajava quinzenalmente para Araci, minha cidade no sertão, saindo de Salvador, o que significa um deslocamento de cinco horas de ônibus, já que não sei dirigir. Mas eu viajo desde criança, porque minha mãe me levava para visitar seus parentes em Santaluz, cidade vizinha a Araci. E nos embrenhávamos por estradas de barro, dormindo na zona rural. Viajei quando trabalhava na Federação dos Trabalhadores na Agricultura e na Pastoral da Terra. Na Justiça, conheci toda a Bahia e, com o prêmio Sesc, fui a eventos em todo o Brasil e no exterior. Mas eu mesmo passei quinze anos explorando o Maranhão por conta própria, capital e interior.

Não me incomodo em viajar sozinho, desde que haja o que descobrir, algo instigante. Geralmente as pessoas são muito acessíveis, principalmente os idosos, e valorizam aqueles que se interessam pelas suas tradições, pelas suas histórias. Não as ouço com o objetivo de escrever o que me contam. Eu apenas quero entender o local e me sentir integrado. Às vezes nem escrevo, nada, de fato, ou pego só um elemento de cada depoimento, muitos anos depois. É mais fácil eu enviar fotos para as famílias, algumas cartas ou lembranças, que é o resultado mais instantâneo das visitas. Isso ocorreu ao ver a deslumbrante festa do Divino de Alcântara (MA).

Esta é a única ou a principal forma de inspiração? Existem outras?

As influências da literatura, do cotidiano e até mesmo dos debates da atualidade podem ficar muito soltas, então é preciso que o escritor tenha um referencial. O meu referencial é um sentimento que trago desde a infância. Por duas vezes pedi para contar histórias para meus coleguinhas de quarta série, e improvisei contos. Foi um sucesso, mas eu sabia e sei que as pessoas estão me dando uma chance única da sua atenção, não posso decepcioná-las. Não posso criar histórias que não funcionam, ou que só agradem a mim. Meu referencial é escrever histórias que até um menino entenda como autênticas e completas. Meninos como meus colegas, como eu ainda sou. Não desprezo essa bússola.

 Detalhe como foi seu contato com a literatura de cordel. No dia do lançamento do livro, você disse que leu muitos deles a partir dos livretos de um inquilino paulista que alugou uma casa de tua família? Fale sobre este personagem, sobre os principais livros e autores de cordel. Cite os que mais te chamaram a atenção e te inspiraram. Você ainda lê muito cordel? O cordel se renovou ou os mais antigos são efetivamente o que tem de melhor? Qual o seu preferido?

 Lembro-me do cordel sendo recitado em almoços na zona rural e de um vizinho, inquilino de minha mãe, que trouxe uma grande coleção de cordel ao vir de São Paulo, principalmente de João Grilo. O interessante é que era o texto mais barato nas feiras, para nós que nem sempre podíamos comprar histórias em quadrinhos ou livros. Mas eu já tinha uma preferência pelos mais pesados, como “O Cachorro dos Mortos”, “A Louca do Jardim”, “Carta do Diabo a Roberto Carlos” e histórias do Cancão de Fogo, um ser que parece o próprio diabo e que aparece em vários folhetos. Orgulho de ler “O Pavão Misterioso” ainda em tipografia. Há tempos que não retomo essa leitura.

(Nota da redação: O “Cachorro dos Mortos” é um clássico da literatura de cordel, escrito por Leandro Gomes de Barros (1865-1918). Relata um triplo assassinato que desgraçou a família Oliveira, no século XIX, e teria sido solucionado graças ao bicho de estimação da família. Paraibano de Pombal, o escritor é considerado o maior poeta popular de todos os tempos no Brasil. Alguns de seus folhetos ultrapassaram a casa de 3 milhões de exemplares vendidos. Suas obras inspiraram outros grandes escritores, como Ariano Suassuna, autor do “Auto da Compadecida”. Leandro, patrono da cadeira número um da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, morreu vitimado pela gripe espanhola, em Recife.

Já “Carta do Satanás a Roberto Carlos”, surgiu da inspiração do poeta e xilógrafo alagoano Enéias Tavares Santos (1931), durante uma viagem de ônibus entre Maceió e Aracaju, em 1966. No trajeto, ele ouviu a música “Quero que vá tudo pro inferno” e começou a imaginar qual seria a reação do capeta, caso todos obedecessem ao “Rei”. E começou assim, os primeiros versos do livreto: “Inferno, corte das trevas/ Meu grande amigo Roberto/ Eu vi o seu novo disco/ É muito bonito, é certo/ Mas cumprindo a sua ordem/ O mundo fica deserto”. Assim como Enéias, Franklin se inspirou em uma música para escrever um de seus contos).

Até que ponto o sobrenatural está entranhado na sua cultura  (lembro da baraúna assombrada de Araci)? Você disse que tinha um livro pronto. Qual o nome dele? Sai quando? Pela mesma editora que o último livro? O que você pode citar como destaque desse novo livro?

Imagine uma cidade num deserto, tomada de silêncio por dentro e por fora, no entorno. Eu acho muito adequado comparar sertão e deserto, pelo calor dos dias e pelo frio das noites, pelas rígidas condições de sobrevivência e pelo “silêncio ensurdecedor” que muitos amigos já citaram. Ora, onde persiste o silêncio há a expectativa de que algo muito grande e perturbador está escondido, pronto para nos devorar. A caatinga, com sua vastidão homogênea, onde podemos nos perder, sempre é ameaçadora para crianças e adultos, sempre é assombrada.

Desse “convívio” com a ideia de sobrenatural, e de um certo pavor também, veio a ideia de pesquisá-lo. Recentemente, por exemplo, eu estive em Belém (PA) onde pude estudar o mito da moça do táxi, que sai à noite circulando pela cidade. Esse mito tomou o Brasil, mas é de lá, refere-se a uma moça sepultada num cemitério local. E existem em Belém outros túmulos de pessoas que fazem milagres, não canonizadas, como a Escrava Anastácia.

Quanto mais essas histórias nos tocam e carecem de uma redação alternativa, mais nos sentimos motivados a escrevê-las. “A Ordem Interior do Mundo” tem diversas influências, acho que é um livro antropológico, memorialista, e foi produzido a partir da leitura de livros memorialistas de várias cidades. Estou com outra coletânea pronta, mais sobrenatural, intitulada “Estes olhos”, para a qual procurarei editor no começo de 2021. O mais inovador é contar as histórias como os brasileiros contam, sem necessariamente indicar uma solução. Convivemos com o sobrenatural, nos adaptando.

Quantos contos você escreveu até chegar à seleção feita para “A ordem interior…”? Havia uma certa cobrança ou preocupação pessoal de migrar de um romance para um livro de contos? Em que ponto as pesquisas feitas para “Céus e Terra” serviram para o livro mais recente?

Eu sempre escrevi contos e sempre os trabalhei, revisando sem parar. Quando ganhei o Prêmio Sesc de 2016 com o romance “Céus e Terra” ouvi dizer que deveria emplacar romances “até consagrar um nome” e só depois arriscar uma coletânea de contos, que seria visto como um trabalho menor. No entanto, a pesquisa sobre a morte que gerou “Céus e Terra” me deu muito material que eu continuei trabalhando em contos. A força de um texto disciplina o que vai acontecer até o final dele e gera outros textos. “Céus e Terra” e “A Ordem interior” são dois livros construídos no ambiente do interior, das injustiças que ocorrem no interior e na sobrevida de seus habitantes, mesmo os falecidos.

 Qual o seu conto preferido neste livro? Por quê?

“Papéis de Ofício”, uma professora assume o comando de uma cidade numa noite em que todos os políticos se envolvem em um acidente. A protagonista não recebeu um voto, mas, só por estar com as chaves da prefeitura, assume o poder e começa a agir com os mesmos abusos dos mandatários locais. As histórias do livro são muito diferentes entre si e cada uma me custou muita reflexão e um certo trabalho, porque é preciso estar na pele dos personagens. Acho que “Papéis de ofício” possui um apelo especial, porque a personagem tem graça e já vi várias assim pelo interior. Metida a espertalhona, mas enganada pelos homens, solitária. Ao mesmo tempo convive com uma velha mãe adotiva, e tem uma relação estranha com ela, cheia de misticismo. Uma história boa tem que ter velho ou velha. Quase todas as minhas histórias têm.

O prêmio da ALB repercutiu de que forma?

Ainda estou sentindo essa repercussão, mas preciso de mais tempo. Acho que na literatura a medição de audiência e do retorno é diferente das outras artes, deve ocorrer, se ocorrer, a longo prazo, mais nas influências que o livro deixará do que em números. Eu me sinto feliz de ter completado o trabalho, de tê-lo entregue para avaliação da sociedade.

 

–*–*–

SERVIÇO

A ORDEM INTERIOR DO MUNDO – 1ª edição
Isbn: 9786586043327
Encadernação: Brochura
Formato: 15 x 23
Páginas: 152
Ano de edição: 2020

O livro está à venda na internet nos sites da Livraria da Travessa, Americanas.com, Estante Virtual, Amazon e muitos outros sites. O preço varia, de acordo com a promoção de cada empresa, entre R$ 35,28 (Amazon) e R$ 45 (Americanas). Sem promoção, custa R$ 49.

Jornalista, 58 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
follow me

Deixe um comentário.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *