A reinvenção de Sara

A reinvenção de Sara

Sara Raquel Nacif Baião pisou o solo de Santa Brígida pela primeira vez em novembro de 2011. Aos 54 anos, tinha dois objetivos: acompanhar a caminhada penitencial em homenagem ao beato Pedro Batista e iniciar a pesquisa para a conclusão do mestrado em antropologia na Universidade Federal da Bahia (Ufba). A longa viagem de vida que a levou a transpor os 3.005 quilômetros, separando a infância em Laguna, Santa Catarina, e a decisão de estudar os rituais de morte na Bahia, trazia em si componentes de aventura.

A catarinense Sara Nacif se apaixonou pelo sertão. Foto: Arquivo pessoal
A catarinense Sara Nacif trocou o sul do país pelo semiárido. Foto: Arquivo pessoal

Formada em direito e em ciências sociais pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), aposentada e divorciada, Sara mudou com as duas filhas para Salvador (BA) no ano anterior. A jornada para concluir a dissertação do mestrado foi feita sem planejamento logístico prévio. Ela se deu conta das dificuldades ao descer do ônibus em Paulo Afonso e descobrir que não havia como seguir para a cidade vizinha por falta de transporte aos domingos.

Desconhecendo a existência e os horários da rota de vans, a cientista social pegou um táxi. Foi deixada a poucos metros da pousada Maria Bonita, onde se hospedou em um quarto sujo, com mofo nas paredes, o que logo lhe causou uma crise de rinite. À noite, ao ouvir gemidos, se deu conta que a hospedaria também funcionava como motel. Bateu um certo desespero, pois pretendia passar pelo menos dois meses na cidade.

Depois de percorrer os 12 quilômetros da caminhada em homenagem ao Padrinho Pedro, voltou de carona no ônibus dos Pankararus, indígenas pernambucanos que mantém até hoje laços religiosos com os beatos baianos. Ao retornar, ligou para um amigo e ouviu um conselho: “Fala com o Zezito”  .

Alagoano de Água Branca, Zezito Apóstolo da Silva, hoje com 85 anos, chegou a Santa Brígida para ser professor na época do beato. Com o tempo, virou homem de confiança da Madrinha Dodô, herdeira espiritual de Pedro Batista, e dono de cartório. Graças a ele, muitas das tradições e penitências são mantidas.

Zezito Apóstolo, na casa museu Padrinho Pedro Batista/Madrinha Dodô. Foto: Paulo Oliveira
Zezito Apóstolo, na casa museu Padrinho Pedro /Madrinha Dodô. Foto: Paulo Oliveira

“Liguei para seu Zezito na maior cara de pau. Disse meu nome e contei que estava na cidade para estudar, mas que não tinha onde ficar. Perguntei se ele me hospedaria. ‘Pode vir, minha filha’ – respondeu. Indaguei quanto custaria e a resposta foi: ‘Não, não, Madrinha Dodô me falou que eu seria o dono da maior casa de Santa Brígida e, como cristão, deveria hospedar todas as pessoas’. Foi como ficar em um cinco estrelas em uma casa silenciosa e bem iluminada, com um quarto só para mim, . Era tudo que pedi a Deus em meus sonhos” – conta.

Começava aí uma enorme amizade, que resultaria no aprimoramento da fotografia e em uma sequência de cerca de 30 viagens a Santa Brígida.

ENTRE SÃO TOMÁS E SALVADOR

Seguindo os passos do pai advogado, Sara foi estudar direito e passou nos concursos para agente administrativa e para técnica judiciária do Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC). A habilitação em advocacia penal e a convicção de que a carreira jurídica seria mais estável não a impediram de prestar vestibular para história e ciências sociais também na UFSC.

Ela interrompeu o primeiro curso, definitivamente, em 1983. O segundo foi trancado em 1990, quando só faltava a entrega do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Três motivos a levaram tomar a decisão: o casamento, a primeira gravidez e a mudança de cidade.

Em 2005, Sara Nacif foi diagnosticada com câncer de mama. Depois de “uma experiência de quase morte”, como define, ficou curada e retomou aos estudos. Para atender as exigências do novo currículo de ciências sociais cursou mais seis semestres, incluindo dois na Ufba, em Salvador, graças ao Programa de Mobilidade Acadêmica e às licenças acumuladas no TJSC.

Ao retornar à universidade em Santa Catarina, manteve a temática da monografia iniciada na década de 1990 – rituais fúnebres – e a mesma orientadora Miriam Pillar Grossi, a quem admirava desde as primeiras aulas sobre sociedades camponesas. Para concluir o trabalho sobre os ritos funerários na pequena localidade de São Tomás,  no município de Imaruí, contou com a ajuda de Antônio Raulino, o Toninho, e a companheira dele Célia, que a hospedaram pela segunda vez vinte anos depois dela ter iniciado o trabalho de campo. A criação de estreitos vínculos de amizade com os locais se repetiria em Santa Brígida.

A mudança para Salvador “foi quase um surto”, segundo Sara. Desencantada com o Sul e em busca de outras vivências, ela trouxe a filha mais nova, hoje formada em fisioterapia. A filha mais velha, dona de um estabelecimento de comida vegana e estudante de psicologia, e os dois gatos vieram em seguida. Sara Nacif decidiu recomeçar a vida em uma cidade onde não conhecia praticamente ninguém, fazendo o que mais gostava: estudar.

Aprovada no mestrado de antropologia, ficou em dúvida sobre qual temática pesquisar. Chegou a pensar em candomblé, mas considerou que levaria pelo menos dois anos para entender a cosmologia da religião afro-brasileira. Em conversa com uma amiga na universidade, contou seu dilema, falou sobre a experiência em ciências sociais e ganhou um conselho: “Olha Sara, porque você não vai para Santa Brígida?”

“Perguntei o que tinha lá e minha colega começou a citar cientistas sociais e antropólogos como Maria Isaura Pereira de Queiroz e Luiz Mott, todos ícones em suas áreas, que fizeram pesquisas na cidade. Achei a história de Pedro Batista fantástica, quase uma Canudos. Resolvi estudar os rituais fúnebres com base nas práticas implantadas pelo Padrinho Pedro e Madrinha Dodô” – revela.

Em 2012, na segunda viagem para o nordeste baiano, a cientista social sentiu necessidade de fotografar para ajudar no diário de campo. Como não conseguia anotar tudo que o entrevistado dizia, gravava uma parte do depoimento e fotografava para ter uma noção melhor dos lugares por onde passava. Sentia ainda a necessidade de registrar “o sertão que vai desaparecer”, pois a participação nas celebrações diminui a cada ano.

Sara e o fotógrafo Walter Firmo, em Canudos. Foto: Arquivo pessoal
Sara Nacif e o fotógrafo Walter Firmo, em Canudos. Foto: Arquivo pessoal

Sara passou quase o ano todo na cidade, entrevistando os participantes e registrando os rituais da Semana Santa, de Santa Joana, a novena e os festejos de São Jorge, a coroação de Maria e os 31 dias de celebrações da Boa Morte. O problema é que as fotos ficaram “escuras, borradas, horríveis”.

A catarinense aprimorou a técnica em cursos e workshops para a fotografia apoiar a etnografia. Sem formação de longa duração na capital baiana, ela deu os primeiros passos na Faculdade de Comunicação, na Escola Baiana de Fotografia e no Senac, o mais longo deles, com três meses de duração.

Participou também de 10 oficinas com os fotógrafos Walter Firmo (fotojornalismo), Valdemir Cunha (documentarista), André Dib (fotos de natureza), Felipe Fittipaldi (storytelling), dentre outros.

“Eu me achei mesmo foi com João Machado, um fotógrafo autodidata de Xique-Xique, que trabalhou como ajudante de pedreiro em São Paulo. Ao regressar para o Nordeste, ganhou uma câmera e começou a fotografar. João só fotografa o sertão. Ele tem uma série famosa e ganhou o prêmio Nikon, mas é uma pessoa hiper simples e tem inteligência acima da média. A série sobre mosquiteiros é linda” – vibra Sara.

NOSSA SENHORA DA BOA MORTE

Diferente da Festa da Boa Morte, em Cachoeira, no Recôncavo Baiano, as cerimônias dos santa-brigidenses não incluem elementos do candomblé. O foco são as tradições do catolicismo popular. Também não existe diversões, como a roda de samba cachoeirense. O objetivo é fazer penitências para que as almas sejam salvas.

É Nossa Senhora da Boa Morte quem auxilia os espíritos dos mortos a transporem a difícil passagem pelos campos de Josafá, onde ocorre uma disputa entre o bem e o mal pela alma do falecido. Durante todo o mês de agosto, a imagem da santa é velada noite e dia. O lado que seria profano, as mesadas, momento em que os romeiros se alimentam, foi sacralizado. São entoados benditos durante as refeições na Casa Museu Padrinho Pedro e Madrinha Dodô.

Além do velório permanente, são realizadas procissões diárias nas quais uma réplica diminuta da santa é carregada por meninas e jovens virgens. No retorno à igreja, orações com as moças formando um semicírculo de frente para a Nossa Senhora em tamanho natural. A maior penitência é a reza do “cordão”, rosário de romeiros composto de 15 mistérios. O Salve Rainha é rezado quando se toca na medalha e a cada uma das dez Ave-Marias, o fiel se ajoelha na primeira parte e se levanta na segunda. Ao fim da 10ª oração vem a seguinte prece:

“Nos campos de Josafá/ Satanás encontrarás/ Então vós dirás: Sai daqui satanás/ Comigo tu não podes/ Nem comigo/ Nem com família minha/ Eu fiz a penitência de Nossa Senhora de agosto/ Cem vezes me ajoelhei/ Cem vezes me aprecinei (sic) / Cem ave-marias rezei/ Cem na véspera/ Cem no dia/ Valei-me minha virgem Maria/ Amém”

Não à toa, a dissertação de Sara se chama “Nos campos de Josafá: romaria e rituais da morte em Santa Brígida – Bahia”. Ela aborda os ritos fúnebres à luz do catolicismo popular e nas crenças na salvação e no “outro mundo”.

Os quatro tipos de danças de São Gonçalo feitas em pagamentos de promessas não cumpridas por mortos também foram objeto de estudo e de fotografias de Sara. Ela ressaltou os rituais de enterros, a preparação de corpo, a visita de covas com 15 dias de duração e as formas de sepultamento.

Curiosamente, apesar de pagarem plano funerário que inclui o paletó do defunto, os corpos dos moradores são enterrados com mortalhas branca, com o cordão de São Francisco, que os ajudará a afugentar os demônios nos campos de Josafá, e com sandálias de couro.

“O São Gonçalo é uma reza muito fina, precisa ser muito bem feita. Os dançadores e dançadoras não podem estar brigados entre si, não podem usar esmalte, não podem usar batom e não podem estar com brincos nas orelhas. Se isso acontecer, a reza não é aceita. Terá de ser repetida Só que repetir é gasto. Toda a comida daquele dia é incluída. O pagador de promessa é quem banca o transporte e a alimentação dos participantes, além de dar um dinheirinho para eles. Um grupo tem mais ou menos 30 pessoas, fora quem vai apenas olhar. Então é dinheiro” – explica.

Outra particularidade é que muitas pessoas de Santa Brígida cumprem a promessa a São Gonçalo em Juazeiro do Norte (CE), onde Madrinha Dodô teria sido copeira – não há comprovação histórica – de Padre Cícero. A beata tinha uma casa na subida do Horto para hospedar romeiros, mantida até hoje. É lá que os pagadores de promessas se hospedam.

Com o fim do mestrado e a publicação de vários artigos, Sara passou a viajar apenas para fotografar. A ideia de fazer doutorado foi abandonada.

“Eu já estou com 63 anos, chega! Falei pra mim mesmo: ‘Não vou fazer doutorado por pura vaidade, vou me dedicar à fotografia para poder viajar mais’. Também decidi me descolar de Santa Brígida” – conta.

Antes da pandemia, Sara iniciou os primeiros passos de desapego à cidade que serviu de objeto para sua dissertação. Em Canudos, teve lições com Dib e Machado e descobriu novas formas de encontrar as pessoas certas para entrevistar –  em antropologia isto se chama “abrir o campo”. O fascínio inicial pelo local deu lugar à sensação de que a área mais conhecida está ficando muito comercial, com muita gente oferecendo workshops.

Optou por adentrar o interior do município: o Raso da Catarina, considerada a região mais seca do sertão baiano, e as comunidades do Rasinho e Rosário, onde o turismo comunitário é incentivado. Os visitantes pagam estadia e se alimentam nas casas dos moradores. Nos povoados, registrou as atividades dos vaqueiros.

Zezito aproxima Nossa Senhora da imagem do Senhor Morto. Foto: Paulo Oliveira
Zezito aproxima Nossa Senhora da imagem do Senhor Morto. Foto: Paulo Oliveira

O descolamento de Santa Brígida não inclui deixar Zezito para trás. Ainda mais agora que ele está doente, com diabetes, problema cardíaco e com constantes derrames pleurais (líquido no pulmão). Toda vez o senhorzinho precisa ir a Salvador, Sara o acolhe. Quando ele estava saudável, levava-o para visitar os pontos turísticos e as praias.

Os planos para quando a pandemia passar incluem um ensaio fotográfico sobre as rezadeiras do sertão.

E Santa Catarina, esqueceu?

“Depois que eu vim para cá, comecei a ter um pouco de aversão ao sul maravilha (risos). É aquela coisa: falta alma, falta intensidade. O sertão é mais a minha cara. Tem tudo a ver comigo, é um lugar onde me sinto a pessoa mais feliz do mundo. As pessoas perguntam se eu não tenho medo de viajar. Não tenho. Se furar um pneu, a pessoa da primeira casinha vai me ajudar, vai me dar comida. É uma coisa muito amorosa, solidária, irmã. Eu acho fantástico! É claro tenho minha família em Santa Catarina, minha mãe, minha irmã, mas minhas filhas estão comigo. Então não tem mais muito a ver o que eu fui no passado. Essa vinda para a Bahia foi quase um rompimento, foi uma reinvenção.”

ENTRE SANTOS, ROMEIROS E VAQUEIROS

 

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(*) Sara Nacif teve fotos selecionadas para a Bienal da Cor de 2017 e 2019. Participou do Foto Sururu (2019), em Alagoas, e das exposições coletivas Fé Menina e Resistência, em Salvador (2019). Hoje ela estreia a exposição “Entre santos, romeiros e vaqueiros”, na Galeria do site Meus Sertões.

Jornalista, 58 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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Uma reflexão sobre “A reinvenção de Sara&rdquo

  1. LeilaDisse…
    Replied on

    Parabéns Sara! Uma linda história!

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