A fábrica de gelo – capítulo VII

A fábrica de gelo – capítulo VII

A Associação de Produtores de Gelo (APG) produz até 9.600 quilos do produto por dia. Ele é imprescindível para garantir a melhor conservação das tilápias produzidas nas sete pisciculturas ligadas à Diocese de Jatobá (PE) e garantir o transporte para mercados como o de Arapiraca (AL), a 215 quilômetros de distância, onde os peixes são vendidos vivos.

A APG, segundo o padre Antonio Miglio, criador, mentor e responsável pela assistência técnica das associações de piscicultura, surgiu para que os criadores de tilápia se livrassem da pressão feita por fábricas de gelo do lado baiano do Lago de Moxotó. Ele conta que os empresários do setor também passaram a produzir peixes, forçando a venda casada.

“Essa prática fazia a gente perder clientes. Então decidimos construir nossa fábrica de gelo. Sete das oito associações se taxaram em R$ 30 mil, a diocese entrou com o resto, pouco mais da metade do custo total, avaliado em cerca de R$ 500 mil” – conta.

O prédio foi edificado no terreno da diocese onde também funcionam duas das associações de criadores de peixes. A construção deu trabalho. A primeira área escolhida, sobre um lajedo, teve que ser alterada pois não permitia que fosse escavada muito fundo, o que deve ser feito no caso do prédio de 15 metros de altura, equivalente a cinco andares. Caso contrário, ele correria risco de desabar.

Contornado o problema, a gestão da fábrica foi entregue à APG, formada por seis pessoas. E começou a funcionar em 17 de julho de 2017. Ficou estabelecido que as sete associações que participam do negócio levam gelo de graça até o equivalente à metade do peso do pescado vendido. Se quiser mais, paga. Desde o final do ano passado, toda a produção de gelo é comercializada.

Henrique Messias e Jorge Luís de Andrade, associados da fábrica de gelo. Foto: Severino Silva
Henrique Messias e Jorge. Foto: Severino Silva

Henrique Messias da Silva, 23 anos, e Jorge Luís de Andrade, 22, associado desde a fundação, nos guiam pela fábrica que tem o funcionamento semelhante ao de uma geladeira gigante. Eles contam que os associados estão divididos em dois grupos de três. As equipes trabalham dia sim, dia não na manutenção do maquinário, retirada de gelo, limpeza diária e vendas.

Às sextas-feiras, há reunião com padre Antônio e Ivone Lisboa, especialista em associativismo. O grupo avalia o resultado da semana e recebe orientações para a solução de problemas. As retiradas mensais variam de R$ 500 a R$ 3.000. Em média, ganham R$ 1.300 por mês. Atualmente, têm cerca de 60 clientes de outras pisciculturas, além das ligadas à diocese.

Antes de entrar para associação, Henrique trabalhou na construção civil e como ajudante de caminhão. Pai de uma menina de quatro anos, está empolgado com a atividade atual e defende que o regimento interno criado pelo grupo seja cada vez mais rigoroso, evitando que qualquer integrante tire proveito sobre o outro, pois todos passam pelas mesmas funções.

Jorge foi padeiro e trabalhou da piscicultura do tio e de um cunhado. Pai desde os 19 anos, tem convicção de que terá um bom futuro se seguir as orientações do padre e de Ivone. Ele cita como exemplo o fato de que as pisciculturas incentivaram o empreendedorismo em Jatobá, pois muita gente, incluindo associados e ex-associados, abriram criações de peixe particulares.

Os dois se mostram empolgados com o fato de serem incentivados a continuar os estudos. Um de seus colegas está fazendo faculdade de pedagogia.

REVÉS

Nem tudo é prosperidade no projeto que vem mudando o perfil socioeconômico de Jatobá. Prestes a completar 14 anos, a Associação Jovens Criadores de Tilápia da Comunidade Sítio Santa Rita paralisou as atividades no início de maio de 2019. Os dois últimos associados entregaram as chaves da entidade.

Ivone Lisboa conta que a associação estava endividada e com dificuldade para cumprir os termos legais de encerramento jurídico. Os associados entregaram 200 sacos de ração e 21 tanques-rede – eles começaram com 65 – com peixes pequenos e maltratados. As tilápias foram criadas e vendidas para abater a dívida de cerca de R$ 60 mil.

Padre Antônio e Ivone avaliaram ser impossível dar continuidade ao trabalho com outras pessoas, pois os equipamentos e instalações estavam em péssimas condições.

“A Jovens Criadores teve dificuldade desde o início. Ela foi a que mais se afastou dos princípios do associativismo. Na parte administrativa, não fortaleceu o capital de giro e não fazia a divisão real do que ganhava entre os associados. Também se descuidou da alimentação e da sanidade dos peixes. Infelizmente, o grupo se desviou” – lamenta Ivone.

 

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Jornalista, 58 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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