À beira do lago de Sobradinho

À beira do lago de Sobradinho

A professora Edonilce Barros foi uma das 27 pessoas entrevistadas pela jornalista e pedagoga Adzamara Amaral, 42 anos, para os trabalhos que desenvolve desde 2012, visando a preservação da memória dos moradores de Sento-Sé, atingidos pela construção da Barragem de Sobradinho, na década de 1970, auge da ditadura civil-militar no Brasil. Adzamara produziu artigos, dissertação, documentário e o livro “Sento-Sé – Memórias de uma cidade submersa”, que será lançado no dia 18, na Câmara de Vereadores do município.

Em depoimento, Edonilce lembra que a velha Sento-Sé “era o local das brincadeiras, das cantigas da infância e seus moradores nunca imaginaram que o rio São Francisco pudesse cobrir a área rural e urbana do município”. Conta ainda que a Chesf (Companhia Hidro Elétrica do São Francisco) prometeu trabalho e melhoria das condições de vida para todos, mas no dia da mudança, em novembro de 1976, a realidade veio à tona. Sem qualquer planejamento, as pessoas foram obrigadas “a juntar seus pertences, subindo nos caminhões às pressas e deixando as criações de gado, cabras e ovelhas para as águas barrentas do lago”:

“O povo sentiu a mudança. Quando (as pessoas) subiam nos caminhões e viam os seus objetos pessoais caindo e seus animais de estimação ou rebanho deixados para trás, porque não tinham condições financeiras de realocá-los, as lágrimas caiam junto com os “trens” (objetos)” – diz Edonilce, conforme está relatado no artigo “A velha Sento-Sé e o patrimônio material e imaterial submersos pelas águas da Barragem de Sobradinho”.

Capa do livro "Sento-Sé: Memória de uma Cidade Submersa". Reprodução
Capa do livro “Sento-Sé: Memória de uma Cidade Submersa”. Reprodução

Bisneta de moradores de Pilão Arcado que se mudaram para o Brejo da Brásida, em Sento-Sé, onde a família se estabeleceu, a juazeirense Adzamara parte do princípio que a memória é a construção dos seres humanos para que eles não cometam os mesmos erros do passado. Uma lição que os governantes atuais se recusam a aprender. Nesta entrevista exclusiva para Meus Sertões, a jornalista dá detalhes sobre o livro e sobre as pesquisas que realiza.

O livro é o resultado de qual trabalho: o TCC de jornalismo ou a dissertação de mestrado em Ecologia Humana?

Adzamara AmaralO livro “Sento-Sé Memórias de uma Cidade Submersa” é o resultado do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Jornalismo. Eu falei da transferência da cidade de maneira geral. No mestrado, eu tratei dos impactos dentro da mesma temática.

Quais foram os principais impactos causados pela construção da Barragem de Sobradinho?

O deslocamento de 72 mil pessoas que moravam em Sento-Sé, Pilão Arcado, Remanso e Casa Nova gerou muitos problemas. A maioria dos atingidos era camponês que praticava agricultura de vazante (feita nas margens do rio em período de seca) e de sequeiro (na época da chuva). Eles plantavam milho, abóbora e melancia, dentre outros alimentos.  Na mudança, quem ficou com os melhores lotes na beira do rio foram as pessoas que tinham influência política. Nem todo mundo recebeu um pedaço de terra.

As indenizações pagas eram irrisórias. Elas foram calculadas pelo valor da terra nua, sem considerar os benefícios, as plantações, as árvores frutíferas. Seu João Vicente Ferreira, por exemplo, tinha uma casa boa na cidade velha. O que recebeu foi insuficiente para construir outra na nova Sento-Sé. Quem não recebeu nada luta até hoje na justiça para ser indenizado.

Na mudança, as criações de animais se perderam. Muitos bichos morreram durante a inundação e os que chegara a ser transferidos fugiram porque não tinha estrutura para abrigá-los, nem pastos, na cidade nova.

A pesca, outra importante atividade econômica para a população, também foi atingida. O rio se transformou em lago, gerando mudanças nos instrumentos de trabalho. As redes de caroá e os barcos a remo foram substituídas por redes de nylon e embarcações com motor. A quantidade de peixes diminuiu, muitas espécies sumiram do rio São Francisco devido aos predadores inseridos no Lago de Sobradinho.

Mensagem de despedida escrita na parede
Mensagem de despedida escrita na parede

E qual foi o impacto na saúde das pessoas?

A falta de saneamento e o consumo de água contaminada provocaram muitos casos de cólera e desinteria. Várias pessoas passaram a ter doenças de visão. Tudo isso foi agravado pela aglomeração da população à espera da construção de casas em lonas e barracos. Um grupo de padres e freiras redentoristas foi cuidar dos doentes e passou 10 anos no município. Os mais velhos, principalmente, tiveram distúrbios psicológicos graves, mas não havia assistência para eles. Na nova cidade, João Evangelista não resistiu à depressão. Ele morreu no dia 4 de março de 1977, três meses e meio após a remoção, sendo uma das primeiras pessoas sepultadas no novo cemitério.

O que aconteceu com aqueles que foram removidos para o assentamento em Serra do Ramalho*, a 436 quilômetros de distância?

Só ouvi uma mulher, chamada Alice, que morou na antiga cidade e foi deslocada para Serra do Ramalho. Ela sentiu saudades da família, dispersada em diferentes locais, e resolveu voltar para Sento Sé.

(*Nota da redação – Serra do Ramalho pertencia ao município de Bom Jesus da Lapa. Em 1973, a região foi decretada prioritária para desapropriação em vista da necessidade de reassentamento de moradores desalojados de cinco cidades pelas obras de construção da Barragem de Sobradinho. O povoamento foi intensificado a partir de 1976. Para lá foram remanejados 298 sentoseenses. O deslocamento compulsório provocou resistência. Os deslocados sofreram ainda com a qualidade da água poluída que abastecia o local. Muitos não se adaptaram e deixaram as agrovilas.)

A nova Sento-Sé foi projetada para quantas pessoas?

De acordo com documentos do Centro de Implantação do Reservatório de Sobradinho (Cires), criado pelo engenheiro Inácio de Queiroz, foram reassentadas 3.888 pessoas na nova Sento-Sé. No censo de 1970 constava que a população da cidade era de 6.038 pessoas na área urbana e 16.331, na rural.

O que a fez se dedicar a este tema?

Minha história e a de minha família. Meu bisavô era do Pilão Arcado, outra cidade atingida pela construção da barragem. Ele foi morar ainda jovem no Brejo da Brásida, em Sento-Sé, onde constituiu família. Nasci em Juazeiro, mas passei meus primeiros sete anos no povoado. Depois que mudei para o centro de Sento-Sé e para Juazeiro, afim de prosseguir os estudos, continuei passando as férias de junho e de dezembro no povoado, onde eu ouvia as histórias sobre a construção da barragem.

Por que o livro foi publicado pela Editora Chiado, de Lisboa?

Após a defesa do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de jornalismo custeei a edição de 100 exemplares em uma gráfica comum, mas ela não incluía o ISBN (sigla em inglês para Número Internacional Padrão do Livro). Quando soube que não poderia incluí-lo no currículo Lattes por não ter a numeração, fui aconselhada por um amigo a procurar a editora Chiado, que tem sede em Lisboa e filial em São Paulo.

Quantos exemplares foram feitos?

Eu encomendei 60 exemplares para o lançamento. Eles continuarão a vender o livro, de acordo com a demanda. Fisicamente, ele está disponível no site da livraria Martins Fontes. Na Amazon é possível encontrar  o livro de capa comum e o e-book.

Do primeiro para o segundo livro houve alguma mudança? Quando ele será lançado?

Não, só as fotos eles diminuíram de tamanho porque disseram que a ampliação comprometeria a qualidade de algumas delas. O lançamento será no dia 18 de setembro, na Câmara de Vereadores de Sento Sé.

Manifestações culturais como o congado perderam força em Sento-Sé. Reprodução
Manifestações culturais como o congado perderam força em Sento-Sé. Reprodução

Quais são seus objetivos ao manter esta linha de estudo?

A princípio eu só queria fazer o registro da história da construção da barragem e do impacto causado na população a fim de transmitir para as novas gerações a história de seus antepassados, impedindo a perda dessa cultura, dessa memória. Agora, também pretendo desenvolver um projeto pedagógico que envolva a história oral do município com a secretaria de Educação de Sento-Sé. Vou apresentar o livro e o projeto no dia do lançamento. A proposta é despertar nas crianças, jovens e adolescentes o interesse pelo registro de memórias. Quem sabe eles não escrevem sobre os dias de hoje no futuro? Sobre a pandemia e outras questões.

Fale um pouco do desdobramento deste trabalho a partir do mestrado em Ecologia Humana, concluído na Uneb (Universidade do Estado da Bahia)?

Os professores da graduação disseram que seria bom que eu implantasse as questões políticas relacionadas à construção da barragem no mestrado e/ou no doutorado. Essa inclusão foi feita no mestrado. O conteúdo da dissertação está disponível na página do Programa de Pós Graduação em Ecologia Humana da Uneb . Lá constam três artigos, submetidos a diferentes publicações científicas: o primeiro é sobre a relocação dos moradores da velha para a nova Sento-Sé; o segundo trata do patrimônio material e imaterial submerso pelas águas; e o terceiro está relacionado aos impactos socioambientais, onde também dou umas pinceladas sobre o Parque Nacional Boqueirão da Onça*, que provavelmente será o tema da tese de doutorado.

(Nota da redação*: O Parque Nacional Boqueirão da Onça foi criado em 5 de abril de 2018, por decreto federal, a fim de preservar o ecossistema das áreas inundadas pelo barramento das águas do rio São Francisco. O parque faz parte da Área de Proteção Ambiental (APA) Boqueirão da Onça e ocupa 347,5 mil hectares nos municípios de Sento-Sé, Juazeiro, Sobradinho e Campo Formoso. Ele tem sofrido danos com a instalação de empresas de energia eólica em sua área. A APA tem o total de 853 mil hectares de caatinga, bioma considerado crítico em termos de conservação.)

Jornalista, 58 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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