O pastel gigante

O pastel gigante

Após participar de um evento em Malhada de Pedras, cidade do sudoeste baiano, a jornalista e discotecária Ana Paula Marques, a Paulinha Chernobyl, aceitou o convite de uma amiga para passar o final de semana em um sítio na comunidade de Capinal Salvador. Levada pela também jornalista Natália Silva para comer algo na única lanchonete existente no local, Paulinha se admirou com o tamanho do pastel que lhe foi servido: o quitute gigante era maior do que o rosto dela.  A DJ tirou fotos e postou em suas redes sociais.

“Estava uma delícia e era do tamanho perfeito para mim, que adoro pastéis” – conta a jovem, lembrando que nunca tinha visto um salgado tão grande.

A cozinheira Lucelma Bernardes Ribeiro, 47 anos, é a responsável pela “invenção” do pastel gigante. Nascida no distrito de Itaquaraí, a 26 quilômetros da sede municipal de Brumado. Selma, como gosta de ser chamada, começou a trabalhar na roça ainda criança, catando algodão.

A cozinheira Selma Ribeiro criou o pastel gigante. Arquivo pessoal
A cozinheira Selma Ribeiro criou o pastel gigante. Arquivo pessoal

Aos nove anos, ela aprendeu a cozinhar para mãe poder ajudar o pai a lavrar a terra. Também tinha como tarefa cuidar dos irmãos menores. Em pouco tempo, era a menina quem preparava a comida para 16 pessoas – os pais, 13 irmãos e ela própria. Arroz, macarrão, feijão cozido com a gelatina da cabeça de osso de boi e galinha caipira eram os pratos principais.

Viúva aos 36 anos, com dois filhos biológicos e uma filha adotiva, Selma trabalhou como cabeleireira e artesã, mas foi na cozinha de uma churrascaria, lanchonete e pizzaria que se encontrou.

Em 2013, foi morar com a filha mais nova em Malhada de Pedra, cidade sertaneja de 8.468 habitantes. Deixou para trás a agitação e a violência que o desenvolvimento de Brumado trouxe e a frustração de não ter conseguido montar o próprio negócio em Bom Jesus da Lapa.

Foi na zona rural, com apoio do agricultor Armindo Antônio dos Santos, 63 anos, que Selma resolveu montar uma lanchonete.  A estratégia era oferecer comida boa e barata, ter algum lucro e, posteriormente, legalizar o negócio. Tinha escolhido até o nome para o local: “Bom Sabor”.

Em 2018, começou a trabalhar duro, de domingo a domingo. Preparava lanches nos dias úteis; caldos e feijoada, nos finais de semana. O faturamento do primeiro mês – cerca de R$ 6 mil – a motivou mais.

Ao cardápio que incluía cachorro-quente, cachorro-quente no prato (com salsicha em dobro, frango, presunto, milho e uma série de ingredientes), enroladinho, coxinha de galinha, resolveu acrescentar o salgado que daria fama ao estabelecimento e deixaria em segundo plano o recorde de ter vendido 300 cachorros-quentes durante uma carreata no povoado em período eleitoral.

“Eu não sabia fazer o pastel. Resolvi que ia aprender. E quando eu quero fazer alguma coisa, eu faço” – diz a cozinheira.

Tendo como método erro e acerto, Selma conseguiu preparar a massa, tendo como ingredientes farinha de trigo, ovo, água, sal e duas colheres de sopa, bem rasas, de cachaça. Ela conta que a pinga não influencia no sabor, serve apenas para dar choque térmico e levantar bolinhas na superfície da massa.

A princípio, os pastéis de carne de sol, queijo e presunto e frango eram pequenos. As pessoas gostavam, mas reclamavam do tamanho. Para atender a freguesia, a chefe da cozinha resolveu inovar. Passou a usar como medida o próprio palmo e mais um pouco para compensar o fato de que “as mãos de mulheres não têm  palmo verdadeiro”. Outra providência foi fazer o recheio proporcional ao tamanho da fritura.

“O que o cliente pedisse eu colocava. Era carne de sol, tomate, queijo, orégano, milho verde, requeijão, purê de batata” – conta

O preço era outro atrativo. Inicialmente, o pastel custava R$ 2. Passou para R$ 2,50 e chegou a R$ 3 este ano.

Com sabor, tamanho exagerado e preço baixo,  a novidade foi propagada de boca em boca e trouxe clientes de lugares distantes. Os malhadapedrenses que vinham de São Paulo para festejar o São João e o Natal ajudaram a divulgar o pastel. Assim como Paulinha Chernobyl, eles tiravam fotos e postavam nas redes sociais.

A fama fez Selma ser convidada para trabalhar em uma churrascaria no centro da cidade. E ela resolveu acumular trabalho. Mesmo reduzindo o funcionamento da lanchonete para três dias por semana (quinta-feira, sábado e domingo), o faturamento se estabilizou em torno de R$ 2.500 mensais. No restaurante, recebia mais um salário mínimo.

Aí veio a pandemia. Como consequência, o movimento despencou. A cozinheira bem que tentou manter a lanchonete aberta, mas os clientes desapareceram.

Para piorar, segundo Armindo, muita gente deixou de pagar as contas penduradas. Em abril, após a Semana Santa, Selma fechou a lanchonete e mudou-se com a filha para o centro de Malhada.

A cozinheira e o patrão começaram a discutir a possibilidade de a churrascaria oferecer lanches à noite nos últimos dias. Ela trabalharia mais um turno e receberia um adicional.

As negociações estão em andamento, mas Selma já faz planos de juntar dinheiro, voltar a abrir o próprio negócio e resgatar o pastel gigante. Além disso, pretende recriar um produto mirabolante:  a coxinha de galinha de dois quilos e meio.

Jornalista, 58 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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