Cientistas explicam porque não é hora de flexibilizar isolamento

Cientistas explicam porque não é hora de flexibilizar isolamento

O nono relatório do Comitê Científico de Combate ao Coronavírus no Nordeste (C4NE) relata a situação de cada estado. Nenhum deles, segundo os cientistas e médicos que fazem parte do comitê, está em condições de flexibilizar o isolamento social. Pelo contrário, as recomendações são no sentido de implementação de medidas mais rigorosas.

Na Bahia, a estratégia de isolamento por bairros fracassou, de acordo com o C4NE. Em vários estados, a falta de barreiras sanitárias e bloqueios fez a doença se espalhar em maior velocidade do que no interior, o que ameaça o sistema de saúde de todas as capitais. O Rio Grande do Norte não nomeou representante para o C4NE e criou um grupo estadual, onde tem maior poder de pressão. Bons exemplos são dados pelo Ceará e Piauí, que mesmo assim enfrentam grandes danos provocados pelo coronavírus.

Veja como está a situação em seu estado e as recomendações feitas para o enfrentamento da doença pelo comitê científico, coordenado pelo neurocientista Miguel Nicolelis e o ex-ministro da Ciência e Tecnologia Sérgio Rezende (2005-2010).

ALAGOAS 

Crescimento moderado de casos novos da doença em Maceió (36%) e índices elevados em municípios importantes como Palmeiras dos Índios (62%) e Arapiraca (77%). Cidades pequenas registraram aumentos alarmantes de ocorrências. Em Campo Alegre, o crescimento foi de 310%.

A análise de casos por 100 mil habitantes também registrou altas extremas em Jequiá da Praia (2.115 casos por cem mil), Porto Calvo (1.704 casos por 100 mil) e Marechal Deodoro (2.385 casos por cem mil).

Apesar do índice de retransmissão em Maceió estar próximo de 1 (1.08), os parâmetros altos no interior indicam que o estado está suscetível ao “efeito bumerangue” de grande monta porque os casos graves vindo do interior levam à sobrecarga ou ao colapso do sistema de saúde da capital. Em função da alta taxa de ocupação dos leitos de UTI (acima de 80%) é recomendado lockdown, incluindo barreira sanitárias, controle de tráfego de carros particulares e ônibus intermunicipais nas principais rodovias, incluindo a BR-101

Em 29 de junho, os cinco maiores potenciais de surto foram registrados no interior: Delmiro Gouveia, Girau do Ponciano, Palmeira dos Índios, Taquarana e União dos Palmares.

Diagnóstico: Não há possibilidade de nenhuma flexibilização ser implementada, nem no interior, nem na capital de Alagoas neste momento.

BAHIA

Apesar de ter evitado grandes taxas de crescimento de casos da doença e de óbitos no início da pandemia, a situação se tornou preocupante no final de junho. O número de casos subiu 56% nos últimos 14 dias em Salvador, apesar do bloqueio seletivo de bairros da cidade. O esforço dos governos estadual e municipal para elevarem o número de leitos e reduzir a pressão sobre o sistema, o índice está pouco abaixo dos 80%. O Rt (quantidade de pessoas infectadas por outra) da capital é elevado (1.48), mas inferior ao interior.

Há um crescimento de casos em todo o estado indica que a pandemia se “enraizou na Bahia”. Cidades com grande aumento de infecções Feira de Santana (1.929 casos novos, ou 191% de crescimento em 14 dias), Teixeira de Freitas (128% de crescimento), Vitória da Conquista (78%), Barreiras (104) e Juazeiro (229%). Já os cinco maiores potenciais para surtos estão na capital, Camaçari, Feira de Santana, Juazeiro e Itabuna, onde o prefeito quer abrir o comércio a qualquer custo, inclusive com o registro de mais óbitos.

Diagnóstico: A capital está sujeita a sofrer um intenso efeito bumerangue. O bloqueio seletivo de bairros de Salvador não surtiu efeito – não houve diminuição de casos. Com taxa de ocupação de leitos elevada, recomenda-se a instalação de lockdown nos moldes feitos por São Luís (MA) e Fortaleza (CE). Recomenda-se barreiras sanitárias e rodízio ou bloqueio intermitente de carros e ônibus intermunicipais na BR-324 e BR-101. Feira, Itabuna e Teixeira de Freitas devem decretar isolamento social rígido por um período de até 21 dias. Também é recomendada a criação e implantação imediata de Brigadas Emergenciais de Saúde no estado e nos municípios para coibir o alastramento da pandemia. O comitê pede que o governo estadual apresente o cronograma do programa de revalidação estadual de médicos

O prefeito de Salvador, ACM Neto disse, segundo o jornal Correio, que não concorda com a sugestão de lockdown para Salvador. Mostrando irritação, disse que a recomendação não tem força indicativa para a prefeitura que trabalha com técnicos da secretaria municipal, Fiocruz e da Universidade Federal da Bahia (Ufba), além de trocar informações com outros prefeitos. Neto defendeu o bloqueio seletivo por bairros, acrescentando que ela foi tomada para evitar o confinamento mais restrito (lockdown), que nunca foi considerado prioridade. O prefeito declarou ainda que baseia suas decisões em dados científicos e está sendo criterioso.

CEARÁ 

Com lockdown efetivo, Fortaleza teve queda significativa em casos da doença e óbitos. Também realizou inquérito soroepidemeológico de grande valia para avaliação dos cientistas. Infelizmente, a pandemia se espalhou pelo interior e Juazeiro do Norte teve um aumento de 123% de casos de coronavírus. as cidades de Sobral, Tianguá, Juazeiro do Norte, Iguatu, Crato, Barbalha e Brejo Santo estão em lockdown, de acordo com o decreto em vigor. Fortaleza está na fase dois do protocolo de flexibilização gradual.

Causa preocupação também que um grande número de cidades do interior do Ceará, incluindo a segunda maior cidade do estado, Sobral, tenha cruzado a marca de mais de 3.000 casos por cem mil habitantes, uma marca que supera em 50% o nível alcançado pela cidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos, considerada como um dos maiores focos de infecção pelo coronavírus no mundo todo.

Apesar de uma queda significativa ocorrida no Rt em Fortaleza 0.76), várias cidades do interior – Sobral, Quixadá, Morada Nova e Viçosa do Ceará – continuam a exibir valores altos deste parâmetro. Todos estes fatores contribuíram para dobrar a velocidade dos casos de infecção. Fortaleza corre risco de sofre com o “efeito bumerangue” por causa disso.

Diagnóstico: O C4NE recomenda que todas as rodovias que saem da capital para o interior sejam alvos de barreiras sanitárias e bloqueios intermitente de carros e total de ônibus intermunicipais, mantendo o tráfego de cargas essenciais.  Também sugere a criação das brigadas emergenciais.

MARANHÃO 

Lockdown eficiente em São Luís e avanço gigantesco da doença no interior. Igarapé Grande, que tem população de 11 mil habitantes, registrou 550 casos e aumento dede 52% em 14 dias, ultrapassando a incrível marca de 4.800 casos por cem mil habitantes, “possível recorde nacional”. Os casos dos municípios do interior avançam duas vezes mais rapidamente do que na capital

Diagnóstico: O comitê sugere que o estado mantenha a maior margem possível de leitos disponíveis na capital para enfrentar o influxo de casos do interior. O C4 também recomenda a criação de Brigadas Emergenciais de Saúde por todo o estado, bem como estabelecimento de barreiras rodoviárias na fronteira oeste do estado com o Pará, e no sul do estado, na confluência das fronteiras com Tocantins, Piauí e Bahia.

PARAÍBA

Maior preocupação do comitê nas últimas semanas, devido ao elevado aumento de casos em Sousa, Patos, Conde, Cajazeiras e Alagoa Grande. Este quadro ameaça a ocorrência de “efeito bumerangue” (segunda onda de casos vindos do interior que sobrecarregam e fazem o sistema de saúde entrar em colapso) em João Pessoa.

Diagnóstico: A Paraíba precisa criar suas Brigadas Emergenciais de Saúde por todo o estado, acoplando-as aos dados fornecidos pelo aplicativo Monitora Covid-19, para impor uma estratégia eficaz para a quebra da taxa de reprodução do coronavírus tanto no interior como na sua capital. Barreiras sanitárias e bloqueios intermitentes de tráfego nas principais rodovias do estado também devem ser adicionados à estratégia do estado. Fechamento de fronteiras é outra alternativa a ser considerada.

PERNAMBUCO

Talvez seja o exemplo mais claro, em todo Nordeste, de como a substancial malha rodoviária estadual contribuiu para o amplo espalhamento da pandemia. No dia 29 de junho, como esperado, todos os cinco maiores picos de infecções se situavam em cidades do interior: Cupira, Pesqueira, Petrolina, Santa Cruz do Capibaribe e Toritama.

Diagnóstico: Situação grave em Caruaru e Petrolina.  Em vista dos dados apresentados, este comitê recomenda que a cidade de Caruaru entre em processo de lockdown imediatamente. A cidade de Petrolina deveria considerar a mesma possibilidade com grande seriedade. Como em outros estados, Pernambuco deveria considerar a opção de criar Brigadas Emergenciais de Saúde para realizar uma busca ativa de casos por todos os municípios do interior e da região metropolitana do Recife e implantação barreiras sanitárias e bloqueios nas estradas.

PIAUÍ

Apresenta os melhores índices de enfrentamento da pandemia no Nordeste. Criou programa de brigadas Busca Ativa acoplado ao aplicativo Monitora Covid, criou barreiras rodoviárias e outras providências. Atualmente, enfrenta aumento de casos em Teresina (64%), Picos (88%), Parnaíba (103%), Campo Maior (121%) e Luzilândia (248%). A curva de crescimento de casos no interior está acelerando e a capital passou a receber nos últimos dias um fluxo maior de pacientes do interior, se aproximando do limite de 80% de ocupação em UTIs – nas enfermarias chega a 60%.

Diagnóstico: O Piauí precisa combater os surtos na capital Teresina e no interior ampliado todas as boas práticas já utilizadas pelo estado.

RIO GRANDE DO NORTE 

Não designou representante oficial para o C4NE, eliminando a comunicação com o comitê. O estado registra um crescimento de casos da ordem de 71%em 14 dias e taxa de ocupação de leitos de UTI máxima ou próxima de 100%. O C4NE não consegue entender quais critérios epidemiológicos e clínicos têm sido usados pelo comitê científico local, apoiado pelo governo estadual, bem como a prefeitura de Natal, para justificar uma reabertura, mesmo que gradual, de lojas e outras atividades econômicas na capital do Estado.

A pandemia atingiu todas as regiões do estado, São Gonçalo do Amarante ultrapassou do nível crítico de 1.000 casos por cem mil habitantes e as ocorrências crescem aceleradamente em Extremoz (grande Natal), Guamaré (região norte), Mossoró (região oeste), Jucurutu (centro-oeste) e Tibau do Sul (região sul). O estado corre o risco de sofrer consequências desastrosas.

Diagnóstico: Nada menos que uma completa reversão do plano de relaxamento (ou flexibilização) oferecido pelo comitê local do governo do Rio Grande do Norte e da prefeitura de Natal é necessária para evitar que a situação do estado se agrave consideravelmente. Com ocupação máxima de leitos de UTI em Natal e Mossoró (e provavelmente em outras cidades cujos dados não chegaram a este comitê) por várias semanas, não é concebível que qualquer tipo de afrouxamento do isolamento seja sequer considerado, muito menos implementado.

 SERGIPE 

A reversão da decisão de afrouxar o isolamento social em abril impediu explosão de casos do estado. Hoje, a situação é semelhante a dois meses atrás. O estado registra 24.817 casos e 653 óbitos. Apesar de baixa taxa de letalidade e Rt próximo de 1, a situação não é boa. A capital registra o maior número de casos por cem mil habitantes (2.072) de todas as capitais do Nordeste. Em 14 dias foram registrados 5.422 casos novos. Apesar de haver grande dificuldade para analisar dados referentes à ocupação de leitos públicos e privados, a estimativa é que foi ultrapassado o patamar crítico (80%). O comitê volta a apelar para a reversão de qualquer tipo de plano de flexibilização de isolamento na capital e no interior. As cinco cidades com maior crescimento de casos de coronavírus no dia 29 de junho eram Areia Branca, Capela, Itabaiana, Moita Bonita e Propriá.

Diagnóstico: O C4NE recomenda que Aracaju entre em lockdown o mais rapidamente possível. Como já foram criadas duas Brigadas Emergenciais de Saúde na cidade, o C4 sugere que este programa seja ampliado de tal sorte a aumentar a busca ativa de casos em toda cidade. Também é importante que todas as rodovias que levam ao interior do estado recebam barreiras sanitárias e que o fluxo de carros particulares e ônibus intermunicipais seja alvo de rodízios ou outros mecanismos de controle intermitente.

Jornalista, 58 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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