Casos de Covid no interior ameaçam colapsar saúde nas capitais do Nordeste

Casos de Covid no interior ameaçam colapsar saúde nas capitais do Nordeste

O mais recente relatório do Comitê Científico de Combate ao Coronavírus (C4NE), que assessora os governadores dos estados nordestinos revela que o alastramento vertiginoso de casos de Covid-19, incluindo casos confirmados e óbitos, nas cidades do interior e o crescente aumento dos valores de reprodução da doença (fator Rt) nestes municípios, indicam que todas as capitais e outras cidades populosas da região estão à beira de registrar o chamado “efeito bumerangue”.

Este processo ocorre quando o vírus se move para o interior, as pessoas adoecem, surge uma avalanche de casos graves e os infectados retornam às capitais em busca de tratamento porque não há infraestrutura hospitalar adequada em suas regiões. Com isso,  surge uma segunda onda da doença nas capitais e sobrecarga nos sistemas hospitalares em um período muito curto, segundo o neurocientista Miguel Nicolelis.

Nicolelis e os demais integrantes do comitê científico recomendam a implantação de lockdown (medidas rigorosas de isolamento) em Salvador, onde a estratégia de bloqueio parcial por bairros não deu certo; Feira de Santana, importante entroncamento rodoviário do estado; Itabuna, onde o prefeito quer abrir o comércio “morra quem tiver que morrer”; Teixeira de Freitas (BA); Maceió (AL); Aracaju (SE) e Caruaru (PE)

Neurocientista Miguel Nicolelis. Reprodução
Neurocientista Miguel Nicolelis. Reprodução

O neurocientista Miguel Nicolelis, um dos coordenadores do C4NE, disse em coletiva, nesta sexta-feira (3/7) que não há justificativa para o afrouxamento das medidas de isolamento social nos estados. O relatório mostra que os casos no interior do Maranhão estão dobrando a cada sete dias, enquanto na capital o mesmo ocorre em 14 dias. No Piauí, a relação é de sete dias no interior para 13 dias na região metropolitana; no Ceará, 7 e 12 dias, respectivamente; em Alagoas, 7 e 11 dias. Em Pernambuco, 8 e 11 dias. As taxas de crescimento na Bahia, Sergipe e Rio Grande do Norte são similares, mas não foram divulgadas.

Outros dados que referendam a ameaça de “efeito bumerangue” são os índices de subnotificação, variáveis entre quatro e 19 vezes mais que as estatísticas oficiais,  o reduzido percentual da população que desenvolveu anticorpos (14,2%) e os reduzido percentual de isolamento social (entre 41,34% no Ceará e 38,46% no Maranhão), quando o ideal seria de 70%. A matriz de risco, desenvolvida pelos integrantes do C4NE, mostra que há tensão crítica de saúde em seis estados e em três (BA, PB e PI) é preciso ficar em alerta. Quanto a epidemia, a tensão crítica ocorre em oito estados, apenas o Maranhão está em alerta. Já sobre os índices de isolamento, em todo o Nordeste a situação é muito preocupante.

Diante da iminente onda de casos, o comitê recomenda:

  • Implantação ou manutenção de rígidas medidas para garantir o isolamento social. Os cientistas ressaltam que sem critérios epidemiológicos objetivos, a situação se agravará como ocorreu em outros países. Os estados da Califórnia e Flórida, nos Estados Unidos. E citam que até países como a China, Alemanha e Coreia do Sul, que obtiveram bons resultados no combate à doença estão registrando novos surtos.
RELAXAMENTO

O relatório do C4NE registra que São Luís, Fortaleza e Recife optaram por planos de relaxamento e fizeram abertura sequencial de setores da economia, embora, com exceção na capital cearense, não tivessem documentação clara e efetiva do controle da propagação do coronavírus por pelo menos 2-3 semanas, período de tempo considerado seguro.

“Este comitê continua vendo com extrema preocupação qualquer iniciativa de relaxamento social, tanto no Nordeste como no Brasil, que não se baseie nos critérios estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Esta posição foi plenamente ratificada por um extenso relatório produzido pela Blavatnik School da Universidade Oxford que concluiu que todos os processos de abertura realizados no Brasil foram precipitados e não condizentes com as normas ditadas pela OMS” – destaca o documento.

Em função disso foram sugeridas medidas mais rígidas para evitar a propagação da doença. São elas:

1 – Instituição imediata de lockdown e/ou reversão de planos de afrouxamento do isolamento social de qualquer sorte, em capitais e cidades do interior que estejam apresentando curvas crescentes ou platô em altos patamares de casos e óbitos por Covid-19, além de fator de reprodução (Rt) acima de 1 e que tenham excedido a taxa de ocupação (80%) de leitos (enfermaria e/ou UTI), considerada como limite máximo de segurança.

O afrouxamento só pode ser cientificamente justificado por um Rt sensivelmente abaixo de 1, com curvas de casos e óbitos em quedas constantes por mais de 14 dias e taxa de ocupação de leitos (enfermaria e/ou UTI) ao redor de 70%. Este patamar é condizente com uma opção segura de afrouxamento, ratificada pela OMS. Diante disso é recomendada a instituição de isolamento social mais restritivo nas cidades de Salvador, Feira de Santana, Itabuna e Teixeira de Freitas (BA), Maceió (AL), Aracaju (SE), e Caruaru (PE)

2 –  Estabelecimento de barreiras sanitárias nos principais entroncamentos rodoviários da região, enquanto durar a pandemia. Devido a gravidade do processo de interiorização todo tráfego não essencial de carros particulares e ônibus. Os caminhões com cargas essenciais não seriam afetados pela medida desde que passassem por processo de desinfecção e testagem dos motoristas. Os caminhoneiros também devem estar protegidos adequadamente. Os bloqueios não incluem restrição ao transporte de pacientes.

3- A implantação imediata de Brigadas Emergenciais de Saúde, o que só ocorreu oficialmente no Piauí (programa Busca Ativa), parcialmente em Sergipe (duas equipes em Aracaju) e voluntariamente no sul da Bahia e no leste do Pará, na divisa com o Maranhão.

4- Medidas para servir de base à flexibilização, incluindo inquéritos soroepidemeológicos regulares, testagem de contato ou de rastreamento de casos, redução do fator de reprodução bem abaixo de 1 e mais de 30% de leitos de UTI e enfermarias disponíveis.

5 – Estabelecimento de um cronograma de retorno de atividades, considerando os riscos que elas apresentam para o espalhamento do coronavírus, considerando os critérios estabelecidos pelo Center for Disease Control (CDC) dos Estados Unidos, que exigem

uso de máscaras faciais, manutenção de distância mínima de 2 metros entre as pessoas, lavagem das mãos com sabonete, uso de álcool em gel.

Além disso, é fundamental definir regras para reduzir a densidade de pessoas nos transportes coletivos – aumento da frota, escalas de trabalho iniciando e terminando em diferentes horários, limitação da lotação e obrigatoriedade do uso de máscaras por passageiros, motoristas e cobradores. A fiscalização dessas medidas ficaria a cargo de policiais e guardas municipais nos terminais de maior movimento.

COLETIVA

A divulgação do relatório foi precedida de coletiva que contou com os coordenadores do comitê científico Sérgio Rezende, ex-ministro da Ciência e Tecnologia (2005-2010), e Miguel Nicolelis, neurocientista.

Nicolelis informou que o relatório – para ler na íntegra clique aqui – traz também propostas para combate dos impactos socioeconômicos da pandemia no Nordeste, incluindo o mapeamento de famílias carentes que não recebem ajuda emergencial e que elas passem a ser beneficiadas, concessão de créditos, estimular e priorizar aquisição de produtores locais, estimular e integrar ações em favor de micro e pequenos empreendedores, pequenos produtores, empregados domésticos, autônomos e famílias vulneráveis. Todas estas ações devem ser feitas por um Comitê de Sustentabilidade Socioeconômico, formado por secretarias de estados e criado por decreto.

Outra preocupação é o aumento da violência contra crianças e adolescentes. Os dados serão divulgados segunda-feira, mas as primeiras recomendações incluem a criação do aplicativo Monitora Escuta Infância e a preparação das Brigadas Emergenciais de Saúde para comunicarem situações de violência.

Questionado sobre a decisão do prefeito de Itabuna Fernando Gomes (PTC) de que abrirá o comércio da cidade “morra quem tiver que morrer”, o ex-ministro Sérgio Rezende disse que o comitê não tem atribuição para tomar medidas contra o político:

“O que podemos fazer é divulgar o que o prefeito fez e mostrar que ele está errado. O número de casos de Itabuna – município onde deveriam ser implantadas medidas mais rígidas de isolamento social – dele vai trazer prejuízos de prazo mais longo em Itabuna – disse o coordenador.

Sérgio acrescentou que o governo federal tem influenciado políticos e população negativamente em tudo que está relacionado à pandemia.

“Para o presidente Jair Bolsonaro o isolamento nunca foi o ideal. Além disso, acabou de vetar o uso máscaras, inventa receitas médicas, medicamentos cuja eficácia não é comprovada. Grande parte da população não fica em casa porque acredita no que o presidente declara. O governo federal é responsável pelo grande número de casos da doença (1,5 milhão) e mortes (61.884) no Brasil. Se desde o dia 1º de abril, o Brasil tivesse registrado 70% de confinamento, o país teria 17 mil mortes. Cerca de 44 mil mortes são, em parte, devidas a atitude irresponsável do presidente da república e seguida por governantes.” – declarou.

ABERTURA GRADUAL

O relatório do C4NE estipula que, quando preenchidas todas as condições epidemiológicas, sanitárias e de disponibilidade de leitos hospitalares, a ordem de prioridade no cronograma de liberação de atividades:

a) Abertura de parques, pistas e calçadões em praias para caminhadas e exercícios físicos, com uso de máscaras e distância mínima de 2 metros entre pessoas de famílias diferentes.

b) Construção civil com número reduzido de funcionários.

c) Comércio em feiras ao ar livre e lojas de ruas, com limitação de pessoas nas lojas e uso de álcool em gel.

d) Treinamento de atletas para eventos esportivos.

e) Concessionárias e locadoras de veículos.

f) Serviços médicos, odontológicos e veterinários com agendamento de um paciente por vez.

g) Serviços de escritórios de advocacia, contabilidade e outros, com agendamento de um cliente por vez.

h) Lojas de shopping centers, com limitação de pessoas nas lojas e uso de álcool em gel.

i) Eventos esportivos em estádios abertos, com distância mínima de 2 metros entre torcedores e uso de máscaras.

j) Academias de ginástica com limitação do número clientes.

k) Museus, cinemas e teatros com assistência reduzida.

l) Cultos em templos religiosos com assistência reduzida.

 

Jornalista, 58 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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