Caetité de Anísio

Caetité de Anísio

No dia 12 de julho de 1900, em Caetité, cidade no sertão baiano, nasceu Anísio Spínola Teixeira, um dos mais importantes educadores brasileiros. Integrante do Movimento dos Pioneiros da Educação Nova, Anísio levantou a bandeira de uma educação pública, voltada para todos. Além disso, foi o precursor da ideia de escola integral, onde os estudantes teriam acesso ao ensino formal e às atividades culturais e de lazer.

Anísio Teixeira viveu no interior da Bahia apenas 14 de seus 70 anos de vida. Em abril de 1924, com 23 anos, foi precocemente nomeado Inspetor Geral do Ensino da Bahia. Ao longo da carreira dedicada à Educação, se tornou consultor educacional na Fundação Getúlio Vargas (FGV) e na Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Apesar de sertanejo, pouco se fala de sua trajetória enquanto residia em Caetité. Foi esse o motivo que levou os alunos do agora extinto curso técnico em Processos Fotográficos, do Colégio Modelo Luís Eduardo Magalhães de Guanambi, a homenagear o educador com a exposição fotográfica “Anísio Teixeira: clicks de uma história jamais apagada”.

Os estudantes também entenderam que a origem sertaneja exerceu grande influência na vida do educador. Por isso, segundo eles, manter viva a memória de Anísio Teixeira na região serve como inspiração para futuras gerações.

Catedral de Senhora Sant’ Ana. Foto: Ruan Neves
Catedral de Senhora Sant’Ana. Foto: Ruan Neves

Os registros fotográficos foram feitos durante uma aula de campo em que, orientados por mim, os participantes andaram pelas ruas do município, imaginando roteiros percorridos por Anísio na infância e adolescência, no início do século XX (20). Pesquisa anterior ao trabalho de campo revelou locais frequentados pelo futuro educador. Mas os estudantes também tiveram liberdade para fotografar prédios e paisagens importantes para os moradores da época, embora sem a comprovação de que o ilustre baiano, ainda menino, tenha estado neles;

O primeiro foco dos estudantes foi a Catedral de Senhora Sant’ Ana. Isto porque Anísio era católico fervoroso e pensou em se tornar padre. A intenção dele era se ordenar na Companhia de Jesus, mas a vida o levou por outros caminhos. Anos depois, Anísio foi muito criticado por defender a extinção do ensino religioso nas escolas públicas.

Constituída paróquia em 1754, na antiga Freguesia de Santana de Caetité, a Catedral de Sant’Ana desmembrou-se da Arquidiocese de São Salvador para ser elevada pelo papa Pio X (10) à Diocese de Caetité em 20 de outubro de 1913. Hoje, a prelazia compreende 35 paróquias em 33 municípios, com cerca de 700mil habitantes entre católicos e não católicos,

Casa de Anísio Teixeira. Foto: Edyanne Teixeira
Casa de Anísio Teixeira. Foto: Edyanne Teixeira

Ao lado da catedral o imóvel que serviu de residência para o educador por 14 anos. O prédio é arquitetônico tombado pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac), desde 1978, e gerido pela Fundação Anísio Teixeira (FAT). Ele funciona como centro de memória, espaço cultural e museu, que têm a finalidade de preservar e divulgar as ideias e a obra do também jurista e escritor baiano, além de promover a educação associada à cultura, uma das bandeiras de Anísio. A instituição possui coral, grupo de teatro e de dança e expõe objetos da família Spínola Teixeira.

Depois de uma breve caminhada, chegamos ao Arquivo Público Municipal, marco na história de Caetité. O prédio faz parte do conjunto histórico do início do século passado, mas só se tornou órgão público em 1997. A antiga Casa de Câmara e Cadeia, é uma edificação do século XIX (19), restaurada pelo IPAC, entre 1994 e 1995. A edificação foi o primeiro cárcere da região. Além de infratores, também abrigava pessoas consideradas doentes mentais por falta de estrutura para atendimento desses pacientes nas cidades próximas.

Arquivo Público. Foto: Maísa Pimentel
Arquivo Público. Foto: Maísa Pimentel
Antiga Escola Normal. Foto: Luana Andrade
Antiga Escola Normal. Foto: Luana Andrade

A Câmara Municipal também serviu de locação. A princípio, causou estranheza entre os participantes. Para compreender sua inclusão é necessário conhecer a história da cidade. Ali funcionou a Escola Normal, instituição que atendia ao projeto de reforma do ensino público do estado, elaborado por Anísio (Lei número 1.846, de 14 de agosto de 1925), quando ele ocupava o cargo de Diretor Geral da Instrução Pública da Bahia.

No ano seguinte, Anísio Teixeira disse, em discurso, que o colégio seria “o centro irradiador de uma nova mentalidade pedagógica” para novos professores. Jovens de todas as cidades da região frequentavam o colégio na época.

Os últimos locais visitados não foram citados nos escritos sobre Anísio Teixeira, mas foram fotografados levando-se em conta os hábitos de uma família católica da época. A Igreja de São Benedito, datada de 1833, foi construída pelo guanambiense José Antônio Gomes Neto, o primeiro e único Barão de Caetité. É história corrente na cidade que havia um túnel de acesso entre a residência de José Antônio e a igreja.

Há duas versões para justificar a ligação subterrânea. A primeira é que o barão era muito ciumento e não queriam que vissem sua mulher quando ela saísse de casa. Na segunda, consta que os ciúmes serviam de pretexto para que não descobrissem a verdade: debaixo da igreja havia uma mina de ouro, explorada pelo nobre.

Igreja de São Benedito. Foto: Maísa Pimentel
Igreja de São Benedito. Foto: Maísa Pimentel
Casa do Barão de Caetité. Foto: Luana Andrade
Casa do Barão. Foto: Luana Andrade

A casa do Barão de Caetité, amplamente visitada por cidadãos no início do século passado, também foi objeto da exposição que visa mostrar a paisagem vista por Anísio Teixeira enquanto morou no município. A residência foi construída entre o fim do século XVIII (18) e início do XIX (19) pela família Gomes de Azevedo, que se refugiou de perseguições motivadas pela Conjuração Mineira. O imóvel foi passado como herança para várias gerações.

Outro cartão postal de Caetité registrado pelos estudantes de fotografia foi o Observatório Meteorológico, edificado a mando do imperador Pedro II. Ele é um dos primeiros observatórios do país e fez parte do projeto científico que queria dotar a nação com uma rede meteorológica capaz de registrar as alterações climáticas. A instalação do equipamento científico só ocorreu em 1908, durante a infância de Anísio e os primeiros anos da República.

Observatório Meteorológica. Foto: Valdeci Primo
Observatório Meteorológico. Foto: Valdeci Primo
Insrtituto Anísio Teixeira. Foto: Edyanne Teixeira
Instituto Anísio Teixeira. Foto: Edyanne Teixeira

A última locação, o Instituto de Educação Anísio Teixeira, talvez seja o ponto mais alto da exposição, mas é uma contradição na proposta de nosso projeto. Ele não existia no início dos anos 1900. Na verdade, foi inaugurado em meados do século. Administrativamente, a escola é uma reformulação da antiga Escola Normal. Na prática, carrega o legado do educador baiano.

A exposição sobre os caminhos do educador por sua terra natal, Caetité, fez parte da programação do VI Seminário Baiano de Educação Integral, realizado pelo Comitê Baiano de Educação Integral Integrada em parceria com a prefeitura de Caetité, no campus da Uneb. Na ocasião, a filha de Anísio Teixeira, Babi Teixeira, foi presentada com duas fotografias: a da Casa Anísio Teixeira, de Edyanne Teixeira, e a do Arquivo Público Municipal, de Ruan Neves.

Nordestina de corpo e alma, jornalista, 25 anos. Nasceu numa cidade de menos de 10 mil habitantes, Malhada de Pedras – BA, e tem sede de explorar o mundo. Adora conhecer lugares e personagens, seja através de livros, música, telenovelas, séries, viagens ou qualquer outra forma. Se encantou pelo jornalismo por meio dos grandes eventos esportivos, mas descobriu na fotografia e nas ruas uma nova vontade de contar histórias longe dos limites de um campo e dos quadros de medalhas. Quando criança decidia se gostava de um time ou não pelo o uniforme. É corintiana.

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