Outra forma de celebrar o 3 de maio

Outra forma de celebrar o 3 de maio

Não são apenas os moradores de Rio do Antônio, no sudoeste baiano, que celebram o dia da “Invenção (descoberta) da Santa Cruz” (clique aqui para ver a reportagem).  Em Ichu, cidade da região sisaleira, a 555 km de distância, também celebra o dia 3 de maio, só que sem reza e sem penitência. A data também é chamada de Dia da Hora, em referência à crucificação de Cristo.

O técnico agrícola Edcarlos Almeida, 28 anos, diz que muitos agricultores ichuenses não trabalham na lavoura, nem fazem nenhum tipo de serviço nesta data por considerá-la um dia santo de guarda.

O jovem guarda na memória a história contada por sua avó Leonídia como motivo para o 3 de maio ser respeitado.

Há cerca de 50 anos, segundo Edcarlos, havia um senhor que não tinha fé na Santa Cruz. Ele dizia que tudo era invenção do povo. Os compadres pediam para ele não trabalhar porque o esforço seria em vão. Ignorando os avisos, o lavrador fez o plantio.

“Foi a plantação mais bonita que teve na região. As vagens eram extraordinárias. Só que no momento da colheita, de bater o feijão, todas vagens estavam puras (vazias), não tinham um grão. O agricultor tomou isso como exemplo e começou a guardar a Invenção da Santa Cruz” – relata o jovem, acrescentando que os antigos testemunharam o episódio.

A crença se mantém até hoje, principalmente entre os mais velhos. No entanto, o próprio Edcarlos diz que teve um pedido feito à Santa Cruz atendido:

“Consegui uma graça, reuni algumas pessoas da família e coloquei o cruzeiro na fazenda onde meu pai e meus 11 tios nasceram” – diz ele, sem revelar o que alcançou.

DIA DE ÁGUAS

Há uma outra data que se deve respeitar. Essa atualmente quase não é lembrada, de acordo com o técnico agrícola. Chama-se “Dia de Águas” e acontece na primeira segunda-feira de agosto. Edcarlos diz que tomou conhecimento disso há quatro anos, quando seu avô lhe disse o dia serve para lembrar o primeiro crime cometido na face Terra: o assassinato de Abel por seu irmão Caim.

No passado, essa tradição era muito respeitada em Ichu. Ninguém fazia trabalhos perigosos como montar animais bravos, triturar mandioca, castrar animais ou usar o machado para fazer cortes.

“Infelizmente muitos saberes e tradições foram esquecidos” – lamenta Edcarlos.

Jornalista, 58 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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