Padrinho, 122 afilhados e o novo coronavírus

Padrinho, 122 afilhados e o novo coronavírus

“Tote e Ormélia informa que SEXTA “Santa” não receberá os afilhados devido ao Covid-19 (sic)”. Quando o cartaz foi colocado, há dois dias, no bar e mercado próximo ao Parque de Vaquejada, na entrada de Formosa do Rio Preto, cidade no oeste baiano, a 1.030 quilômetros e 13h30min de distância de Salvador, muita gente não acreditou.

Seu Tote e dona Ormélia. Foto: Nity Menezes da Cruz
Seu Tote e dona Ormélia. Foto: Nity M. da Cruz

Para não haver dúvida que uma tradição de quatro décadas foi cancelada, a família Cruz acionou todos os parentes para que divulgassem a informação através das redes sociais. Afinal de contas, não é fácil encontrar todos os 122 afilhados do lavrador Gestidalton Ribeiro da Cruz, seu Tote, 68 anos.

Vem de longe, desde que Formosa fazia parte de Santa Rita, a prática dos padrinhos receberem os afilhados na Sexta-Feira Santa para darem bênção.

“É uma tradição nossa do passado. Eles ficam de joelho. Uns ficam com um joelho e outros ficam com os dois. Eles fala: ‘Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Bênção meu padrinho’. Aí eu respondo assim: ‘Vossa Mãe Maria Santíssima que te dá anos de vida, saúde e paz. Deus que te abençoa’ – explica seu Tote, que se alfabetizou no final da década de 1980.

Tradição na Sexta-Feira Santa, no oeste baiano, é afilhado pedir bênção de joelhos ao padrinho. Foto: Nity Menezes da Cruz
É tradição pedir bênção de joelhos ao padrinho. Foto: Nity M. da Cruz

Na visitação, os afilhados levam os cônjuges e os filhos e todos são recepcionados com um banquete, que inclui café da manhã e almoço. O cortejo ainda tem penetras, que são bem recebidos:

“Você sabe como é menino! Eles forma grupo. Uns é afilhado, outros é sobrinho, outros não é nada, mas aparece para tomar café, comer bolo, tomar refrigerante. Outros já vem para almoçar” – diz o lavrador, bem-humorado.

Com o passar do tempo, foram se agregando afilhados de outras pessoas da família. Vanilde Menezes da Cruz, a Nity, uma das sete filhas e filhos do casal de agricultores, por exemplo, tem sete. Outra irmã tem oito. E por aí vai.

No falar de seu Tote, que batizou a primeira criança quando tinha 18 anos (1970), ele começou a colecionar compadres e comadres por causa do trabalho que fazia na igreja católica, no Sindicato dos Trabalhadores Rurais, na cooperativa dos lavradores e mexendo com política – foi vereador por três mandatos. Seus apadrinhados são professores, carpinteiros, pedreiros e eletricistas e alguns já têm netos.

A história tão bonita por um lado, por outro começou a pesar no bolso do velho, como o trabalhador rural se refere a si próprio. Para não acabar com a alegria de Tote e de Maria Ormélia, que contabiliza 30 afilhados – uns em parceria com o marido; outros, separadamente -, os filhos passaram a se cotizar para comprar os ingredientes do banquete da Sexta-feira Santa.

“Meu pai foi vereador, mas não teve estudo. Ele vive do que ele planta, da hortinha dele, do que vende na feira. Hoje, ele e minha mãe são aposentados, graças a Deus, mas tiram o sustento mesmo é da roça, no povoado de Araçás II” – conta Nity, que também esmiúça o cardápio dos encontros de afilhados nos anos anteriores.

Bolos do café da manhã em anos anteriores. Foto: Nity Menezes da Cruz
Bolos do café da manhã em anos anteriores. Foto: Nity M. da Cruz

Para o café, dona Ormélia prepara 20 quilos de canjica, 20 quilos de farofa de frango, cinco quilos de arroz, 20 tachos grandes de bolo de mandioca, 10 tachos de bolo de trigo. Antes, ela fazia avoadores (biscoitos de polvilho), mas hoje os filhos compram. Café à vontade, suco de frutas e refrigerantes completam o desjejum. Quem prefere ficar ou fazer a visita na hora do almoço, as opções são galinha caipira (oito), peixes graúdos cozidos (cinco), abóbora, farofa de feijão, purê de batatas e saladas.

PANDEMIA

O mais recente boletim da secretaria municipal de saúde, segundo Nity, registra 10 casos suspeitos de Covid-19, sendo que duas pessoas estão internadas em Formosa do Rio Preto. Não há casos confirmados.

Há 15 dias, dona Maria Ormélia, 61 anos, não sai da roça. Está em distanciamento social. Já seu Tote se desloca diariamente até o centro da cidade. Isto porque em Araçás II não tem energia elétrica nem água encanada. O líquido que mata a sede do casal é retirado do rio. Nesta época do ano, as temperaturas são superiores a 30 graus centígrados, o que obriga o lavrador ir até a residência, na comunidade Vila Projeto, para usar o refrigerador e refrescar a água.

“Vou, mas não paro na rua para ficar falando. O povo da saúde me aconselhou” – revela.

Diante dessa situação, os idosos consultaram os filhos para saber como ficaria a visitação dos afilhados na Sexta-Feira Santa. Nity conta que ela e a irmã disseram que os eles correm muito risco com o novo coronavírus e que era aconselhável cancelar o encontro deste ano. Para surpresa delas que esperavam um pouco de resistência, Tote e a mulher não fizeram objeção.

Perguntado como foi passar o dia de hoje sem visitas, o agricultor disse que a data não foi tão boa:

“Eu me senti triste porque todo ano, neste dia, pra mim é uma festa pela quantidade de pessoas e por aquela alegria de cada um conversando, tomando seu café ou fazendo qualquer coisa. Eu estou alegre porque estou com meus filhos, mas acabou eu ficando sem graça porque eu esperava que ia acontecer nunca essa forma da gente ficar isolado” – admitiu.

O padrinho-mór de Formosa do Rio Preto também teve mais tempo para refletir sobre o que está acontecendo no mundo e chegou a uma conclusão otimista:

“Se alembra que cada país prepara a bomba para soltar no país dos outros. Não tem isso? Já hoje pra mim foi interessante. Cada país ajudando o outro. É com remédio, é com máscara, é com qualquer coisa. Então tirou aquela imagem da história da bomba: a bomba agora é união. A união dá para a gente sentir que existe um Deus superior que nos abençoa.”

–*–

Meus Sertões agradece a colaboração de Darlan Lustosa e Hilza Cordeiro.

Jornalista, 57 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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Uma reflexão sobre “Padrinho, 122 afilhados e o novo coronavírus&rdquo

  1. José Ulysses de Castro e CarmoDisse…
    Replied on

    É, muito, triste saber que, por conta dessa pandemia, mais uma das tradições foi momentaneamente, assim espero, interrompida.
    Mas entendo que é para um bem maior e que uma próxima bênção terá uma alegria maior, pois será acumulada a desse ano com o do próximo e a alegria de reencontrar todos bem, saudáveis e principalmente vivos após a passagem dessa “peste ” que está assolando a humanidade.

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