Monte Santo cancela romarias e festas juninas por causa do coronavírus

Monte Santo cancela romarias e festas juninas por causa do coronavírus

O prefeito de Monte Santo Edivan Fernades de Almeida, o Vando (PSC), decidiu interditar o acesso ao histórico e lendário Santuário de Santa Cruz do Monte Santo, cuja primeira capela foi construída pelo Frei Apolônio de Toddi, em 1785, cancelar os eventos da Semana Santa e os festejos juninos devido à pandemia do coronavírus. As romarias e celebrações da Semana Santa só não foram realizadas durante a Guerra de Canudos (1896 e 1897), segundo o professor doutor Raimundo Venâncio Filho.

Monte Santo foi a principal base militar do conflito entre conselheiristas e o governo brasileiro. O Exército massacrou cerca de 20 mil nordestinos, após quatro expedições. Agora, o novo inimigo é o coronavírus. A suspeita é que a Covid-19 chegou através de nordestinos que retornaram em ônibus clandestinos e de carreira,  fugindo da contaminação ou por terem perdido o emprego em São Paulo.

Acesso ao santuário foi interditado. Foto: Raimundo Venâncio Filho
Acesso ao santuário foi interditado. Foto: Raimundo Venâncio Filho

Durante a Semana Santa, cerca de quatro mil pessoas percorrem, diariamente, os 1.969 metros da Via Sacra até chegar ao topo da serra, a 490 metros de altitude. A freguesia de Monte Santo, criada em 1790, era conhecida como Vila do Coração de Jesus e foi citada nas inúmeras crônicas dos antigos bandeirantes que desbravaram o sertão.

Tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em 1983, o santuário é um dos marcos dos movimentos religiosos no Nordeste. As 25 capelas da Via Sacra – as principais são as do Calvário e a das Dores – integram o universo místico do segundo sacromonte do Brasil, que possuí ainda uma importante coleção de ex-votos ofertados por peregrinos ao longo de 230 anos.

As decisões do prefeito Vando foram tomadas após uma sequência de eventos, iniciados com a chegada de um grande número de pessoas, oriundas da capital paulista, a partir da segunda quinzena de março. O primeiro caso da doença em Filadélfia, município a 100 quilômetros de Monte Santo, foi registrado no dia 31 de março e acendeu o sinal de alerta. Monte Santo, Cansação e Itiúba também foram o destino de muitos coletivos alternativos.

PMs fazem blitzes em busca de ônibus clandestinos vindos de São Paulo. Foto: Montesanto.net
PMs fazem blitzes em busca de ônibus clandestinos vindos de São Paulo. Foto: Montesanto.net

O site Montesanto.net publicou reportagem, relatando que apesar dos decretos municipais proibindo a circulação de ônibus , foram flagrados e apreendidos veículos, fazendo a rota entre São Paulo, a cidade com maior número de casos e óbitos por Covid-19 no país, e Monte Santo.

Há inclusive fotos da fiscalização feita em um ônibus que seguia da capital paulista para Chorrochó (BA), com 32 passageiros, sendo quatro idosos e uma criança. Também foi apreendido um veículo da empresa Edson Turismo.

Dias depois, novo flagrante. Vinte e oito passageiros, vindos do estado de São Paulo, foram deixados nas proximidades da igreja matriz por um ônibus velho que circula na zona rural. Os passageiros informaram que seguiram até Feira de Santana, onde fizeram baldeação para veículos menores, que os deixaram em Monte Santo. Orientados a entrarem em quarentena, as pessoas seguiram para os povoados, sem passar por triagem.

Em função dos riscos da pandemia se alastrar, o prefeito Vando divulgou uma série de comunicados através da conta pessoal no Instagram. No dia 6 de abril, fez um apelo: “Chegou de viagem? Precisamos Saber! Em tempos de pandemia, este monitoramento é fundamental para a sua segurança e a de todos nós. Ligue ou mande uma mensagem pelo whatsapp 75-99853-8104”.

Passageiros que vieram de São Paulo para Monte Santo fizeram baldeação em Feira de Santana. Foto: Montesanto.net
Passageiros que vieram de São Paulo para Monte Santo fizeram baldeação em Feira de Santana. Foto: Montesanto.net

No dia seguinte (7/4), outra convocação para que os visitantes não seguissem para a cidade: “Nós adoramos receber você. Mas, para nossa segurança, NESTA SEMANA SANTA, NÃO VISITE MONTE SANTO! Te esperamos ano que vem, de braços abertos e cheios de saudades”.

No mesmo dia, Vando divulgou que uma enfermeira, residente em Salvador e que estava trabalhando no município como plantonista no final de março, apresentou os sintomas da doença ao voltar para capital.

Os números da Covid-19 em Monte Santo, nesta quarta-feira (8/4), eram os seguintes: cinco casos suspeitos, quatro descartados, 136 viajantes recém-chegados monitorados e duas pessoas que tiveram contato com pacientes assintomáticos estão sob monitoramento. Não há registro de óbito.

A confirmação, porém, do primeiro caso  em Euclides da Cunha, a 38 quilômetros de distância, fez a prefeitura intensificar as medidas de isolamento, interditar o santuário, vetar os eventos da Semana Santa no centro e nos povoados, e cancelar os festejos juninos. A paciente  é uma profissional de saúde que teve contato com migrantes de São Paulo.

Festas juninas canceladas. Reprodução do Instagram
Festas juninas canceladas. Reprodução do Instagram

“Estamos fazendo de tudo para combater a disseminação do vírus em nossa cidade. E uma das armas mais eficientes é evitar aglomerações de pessoas. Estamos colhendo resultados positivos desde que adotamos diversas medidas de prevenção, não podemos relaxar”  – disse o prefeito, em postagem nas redes sociais.

Vando também ressaltou que “infelizmente” a economia de Monte Santo será afetada, mas as decisões tomadas são necessárias, pois “nos próximos meses o coronavírus chegará ainda mais forte em nosso país”.

“É fundamental que a prevenção seja feita hoje, pois amanhã pode ser muito tarde” – disse.

 

Jornalista, 58 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
follow me

Deixe um comentário.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *