Coronavírus: êxodo às avessas e mortes em casa no interior

Coronavírus: êxodo às avessas e mortes em casa no interior

O neurocientista Miguel Nicolelis, 59 anos, coordenador da Comissão Científica do Consórcio Nordeste e um dos cientistas mais importantes do mundo, alertou ontem para o risco de ampliação do focos de Covid-19 (coronavírus) a partir êxodo de pessoas das capitais para as cidades do interior, onde o número de casos da doença ainda é relativamente pequeno. O site Meus Sertões tomou conhecimento desta realidade ao localizar uma aposentada e um estudante de Salvador que voltaram para a cidade natal, no território de identidade Portal do Sertão. O motivo da mudança, segundo os migrantes – um deles faz parte do grupo de risco – é evitar contrair o vírus, que pode levar à morte. Eles pediram para não ser identificados.

Neurocientista Miguel Nicolelis. Reprodução
Nicolelis é um dos cientistas mais respeitados no mundo. Reprodução

Nicolelis, que participou de entrevista organizada pelo Sindicato dos Jornalistas da Bahia (Sinjorba), através de vídeo conferência, disse que o aumento de focos da doença já é uma realidade nos Estados Unidos:

 “As pessoas começaram a sair correndo de Nova Iorque para ir para suas casas de praia na costa americana, na Pensilvânia (estado no nordeste americano com amplas fazendas, florestas e montanhas, Connecticut (terceiro menor estado dos EUA em extensão territorial, atrás apenas de Delaware e Rhode Island), e em vários outros lugares. Aí começaram a aparecer outros focos. Isto está reportado. Foi descrito no caso americano e não tenho dúvida que vai acontecer conosco.” – diz.

Sem dados suficientes sobre esta questão no Brasil, Nicolelis só tem certeza que a subnotificação da doença no país é elevada. Ele calcula que há entre cinco e dez vezes mais casos do que registrado. Enquanto a plataforma digital que vai agregar dados científicos e uniformizar os critérios de comunicação sobre o Covid-19 não entra no ar – está prevista para esta semana, o cientista recomenda insistentemente que o distanciamento social seja mantido em qualquer localidade.

“Não interessa que seja no interior. As pessoas que chegam das capitais, principalmente, têm que entrar de quarentena, têm que ficar isoladas. E temos que evitar aglomerações porque esse é o momento que dá para reduzir o número de casos e evitar o colapso no sistema de saúde. Essa é a grande preocupação no mundo, não só no Brasil. Se todo mundo ficar doente ao mesmo tempo, vai ter um fluxo de gente que o sistema não tem como dar conta. Aí você tem o colapso e a coisa fica muito, muito, muito grave” – alerta.

A melhora da coleta de dados também é muito importante, assim como a unificação de critérios. Há, por exemplo, uma grande diferença de dados entre os estados do Nordeste. Enquanto Pernambuco registra 233 casos, com 30 mortes e um índice de letalidade de 13,4%, o Ceará contabiliza 1013 ocorrências, 29 óbitos e mortalidade de 2,86%. Isso leva a distorções do tipo: pernambucanos morrem mais e cearenses contaminam em demasia.

Diante desta questão, Nicolelis disse que recebeu informações de um epidemiologista do Ceará de que em certas comunidades não há casos de Covid-19, mas há mortes pela doença. De acordo com ele, as pessoas estão ficando em casa até o final, mesmo com em casos extremamente graves.

“Elas não procuram o sistema de saúde. Isso não pode acontecer. Elas estão falecendo em casa, o que é uma coisa terrível. A gente tem que ajudar e esclarecer essas pessoas para que elas saibam quando devem procurar os médicos. Tem que procurar quando a situação estiver passando da fase moderada: uma falta de ar, uma febre que não passa. Elas não podem ficar à mercê do destino em casa” – observa.

Jornalista, 57 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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