Costureiras do sertão na luta contra o coronavírus

Costureiras do sertão na luta contra o coronavírus

Treze costureiras que trabalham no ateliê Forte Severina, iniciativa social de geração de renda do Projeto Canudos, paralisaram a produção de roupas e iniciaram nesta quarta-feira a confecção de máscaras descartáveis para ajudar na prevenção da pandemia de coronavírus. As máscaras serão doadas para moradores e para as secretarias de saúde de Euclides da Cunha e Canudos, duas cidades do sertão baiano.

Débora Souza dos Santos, 29 anos, líder comunitária do Raso, povoado a 30 km de Canudos, disse que o primeiro lote será de 450 máscaras, produzidas com material doado pela grife Casebre de Palha, parceira da Forte Severina. Serão utilizados TNT (material semelhante ao tecido, mas obtido através de uma liga de fibras e um polímero), elásticos e linhas. Para dar continuidade à produção, o grupo precisa de doações.

O biomédico Victor Hugo Bigoli, 38 anos, presidente do Instituto Brasileiro de Expedições Sociais (Ibes), responsável pelo Projeto Canudos e pela iniciativa social do Raso, explicou que as costureiras receberam orientações de profissionais da saúde para produzirem as máscaras, que serão esterilizadas em autoclave e embaladas individualmente. De acordo com Victor, a vida útil do equipamento é de cerca de duas horas como as industrializadas, dependendo da umidificação.

O Raso é uma comunidade tradicional de fundo de pasto, que se caracteriza pela posse, uso de terra e de seus recursos por todos os moradores, além da criação livre de animais na caatinga. Os bichos são reconhecidos pelos donos e vizinhos por marcas feitas nas orelhas. Atualmente, vivem no povoado 90 famílias, cerca de 360 pessoas. A renda média local é inferior a um salário mínimo.

De acordo com Débora, que faz parte de uma das famílias pioneiras da localidade, a maioria vive do Bolsa Família, alguns trabalham na roça e outros são aposentados. Para melhorar a renda, além das costureiras, há um grupo de artesanato – os homens trabalham com reaproveitamento de madeira (umburana morta) e as mulheres, com palha de bananeira – e outro que produz geleias de umbu e maracujá do mato. Algumas pessoas integram mais de uma equipe.

Atualmente, os moradores do Raso procuram respeitar a quarentena, embora não haja casos suspeitos nem confirmados de coronavírus. Eles só deixam a comunidade para fazer compras em Canudos, onde há três pacientes aguardando o resultado de exames para confirmar ou não se foram atingidos pela doença. Na região, a situação mais complicada ocorre em Juazeiro, a 200 quilômetros de distância. Lá, foram confirmados dois casos e há sete suspeitos.

O SURGIMENTO DO ATELIÊ

Em 2014, o pai da moradora Delma Alves morreu e deixou um carro de herança para oito filhos. Com a venda do veículo, Delma usou a quantia que recebeu para comprar uma máquina de costura. Cinco anos depois, um turista de passagem pelo local resolveu bancar um curso para melhorar a renda de mulheres da comunidade. Consultadas, elas optaram por aprender a costurar.

No início eram 18 mulheres, a máquina emprestada e outra de pedal, muito antiga. Uma senhora da comunidade, chamada Marinalva, costureira autodidata, começou a ensinar o que sabia: fazer roupas de bonecas. Foi aí que Débora descobriu que o Projeto Canudos, que atuava há 10 anos fazendo atendimentos médicos nos povoados de Canudos Velho e Rio do Vigário, e visitas sazonais ao Raso, atuava em outras áreas.

“Eu vi uma ação no Mato Grosso do Sul. Eles conseguiram doar máquinas para um grupo de indígenas aprender a costurar. Aí liguei para o Victor Bigoli e perguntei se ele não poderia nos ajudar, incentivando as mulheres daqui” – conta a líder comunitária.

Em outubro do ano passado, através do Projeto, foram doadas seis máquinas de costura por pessoas que conheceram a história da comunidade.  A Singer, tradicional fabricante de equipamentos para costura, também se sensibilizou e enviou mais cinco equipamentos. O curso de formação de costureiras se intensificou. A etapa básica tem um ano de duração.

No mês passado (fevereiro de 2020), as Severinas receberam a visita da atriz Carolina Ferraz, que produziu três vídeos sobre a iniciativa para o canal dela no You Tube. Empolgada com o Projeto Canudos, a também apresentadora do Carolina Ferraz Repórter doou três máquinas de overloque e levou uma de corte reto, presenteada pela empresária Cristiane Normanha.

Carolina passou cinco dias no Raso, convivendo com o grupo. Entrou na caatinga com as mulheres, mas não conseguiu cortar lenha, muito menos teve força para carregar o feixe na cabeça por mais de 200 metros. A atriz constatou como a vida é dura para as mulheres do campo e se encantou com a alegria e o acolhimento da comunidade.

Hoje, o Forte Severina atua no antigo prédio escolar da comunidade, que foi solicitado pelos moradores através da Associação Agropastoril do Raso.

“A escola fechou em 2015 e a gente foi o único povoado do município que pediu a concessão de uso para a prefeitura de Canudos. Assinamos um contrato de concessão para usar o prédio para o bem da comunidade. Encontramos o local com muitos problemas, mas a gente foi mantendo como podia. As primeiras atividades foram ativar uma das salas para reforço escolar e outra área para realizar trabalho comunitário com as crianças, duas vezes por semana” – conta Débora

Mais uma vez o Projeto Canudos foi fundamental para a concretização do ateliê: uma sala grande e arejada do colégio foi adaptada para a instalação de uma sala provisória de costura. O piso foi elevado e houve compra de madeira para que os moradores construíssem as mesas para instalar o maquinário.

“Esse local não é definitivo. Estamos fazendo uma campanha para construir um galpão e um salão exclusivo para as mulheres, liberando o espaço para voltar a ser uma sala de aula de nossa unidade” – explica Victor Bigoli.

A vaquinha virtual para a costrução do galpão e da sede do ateliê pretende arrecadar R$ 67.800. Até agora foram doados R$ 8.247, o equivalente a 12% do total, por 116 apoiadores.

Além de obras na escola, o Projeto Canudos reformou e reativou o posto de saúde da comunidade, instalando macas, mesas, cadeiras, equipamento odontológico, farmácia e instrumentais para médicos e fisioterapeutas. Os atendimentos ocorrem, pelo menos, 15 dias por mês. Dependendo da quantidade de voluntários, há períodos em que as consultas são diárias.

A PRODUÇÃO DAS MÁSCARAS

As mulheres do Forte Severina ganharam este nome devido à obra-prima de João Cabral de Melo Neto, o poema Morte e Vida Severina, escrito na década de 1950. As costureiras têm entre seis e nove meses de prática no curso da comunidade e já estavam fazendo panos de pratos, bolsas, bermudas. Tudo isso foi interrompido para dar início ao trabalho voluntário de confecção de máscaras descartáveis em parceria com a Casebre de Palha, grife que produz roupas com temática cultural nordestina.

“Estamos trabalhando seguindo as recomendações do Ministério da Saúde. Procuramos ficar distantes um metro uma das outras, usamos álcool gel nas mãos e nos equipamentos e nada de abraços ou aperto de mãos” – diz Débora.

A líder comunitária acrescenta que o foco em ajudar as pessoas não deu tempo para as mulheres pensarem na possibilidade de implantarem uma linha de produção só de máscaras descartáveis enquanto durar a pandemia. No entanto, Victor Bigoli revela que há plano futuro de as Severinas lançarem uma linha de vestimentas da área de saúde, pois o Ibes e o Projeto Canudos também atuam nessa área. A ideia é que, passada a crise na saúde pública, elas possam iniciar a produção de aventais, pijamões de centros cirúrgicos, toucas e jalecos.

Além da professora da comunidade, outra costureira experiente, do distrito de Bendegó está repassando seu conhecimento para as 13 Severinas do Raso, cujas idades variam de 16 a 52 anos. Duas delas eram empregadas domésticas em Canudos. As outras atuavam como donas de casa na comunidade.

O pouco tempo de existência do projeto ainda não permitiu que a renda das mulheres tivesse um aumento considerável, mas as deixou mais esperançosas e melhorou a autoestima de todas. Uma das mais empolgadas é Eva Maria de Jesus, 25 anos, para quem é difícil de acreditar que tanta coisa boa tenha acontecido em menos de um ano.

“Dá até medo de que seja um sonho” – costuma dizer.

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Para fazer doações de produtos para confecções de máscaras (TNT, elásticos e linhas):

Débora dos Santos, líder comunitária do Raso: 75 9 9100-9436

Victor Bigoli, presidente do Ibes e responsável pelo Projeto Canudos – 11 9 9910-8999

Para fazer doações para a construção do galpão do Forte Severina:

https://voaa.me/atelie-sertao-baiano

 

P.S.Meus Sertões agradece a Socorro Araújo pela pauta e pelas colaborações constantes.

Jornalista, 58 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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