Seu Eugênio e a beata

Seu Eugênio e a beata

O comerciante e motorista Eugênio José de Souza, 80 anos, foi um dos personagens mais próximos da beata alagoana Maria das Dores dos Santos, também conhecida como Madrinha Dodô ou Mãe Dodô. Das Dores conviveu com Padre Cícero (1844-1934) e com o também beato Pedro Batista (1887-1967), de quem foi herdeira espiritual.

Por causa do conhecimento que tinha sobre ritos e rezas, Dodô ensinava benditos ao povo, organizava romarias e incentivava a realização de penitências. Na Semana Santa estimulava o 70×7, no qual o penitente deve se ajoelhar e se levantar 490 vezes enquanto saúda a Virgem Maria. A Madrinha acreditava que o sofrimento era o caminho para as almas se elevarem ao plano de Deus.

Eugênio José de Souza, 80 anos, foi uma das pessoas mais próximas da Madrinha Dodô.
Eugênio foi uma das pessoas mais próximas da Madrinha Dodô. Foto: Paulo Oliveira.

Seu Eugênio acompanhou Dodô em pelo menos dez romarias das muitas que ela realizou de Santa Brígida (BA) a Juazeiro do Norte (CE), entre 1968 e 1990. A Madrinha fazia questão de seguir a pé com os romeiros, percorrendo os 435 quilômetros de distância em dez dias, na ida, e o mesmo tempo na volta. Os romeiros passavam ainda três dias na cidade cearense, cumprindo suas obrigações religiosas.

Em seis oportunidades, Eugênio acompanhou todo o trajeto, carregando alimentos, água e roupas em um caminhão, no primeiro ano, e em uma caminhonete, nos demais. Nas outras vezes, seguia na frente, parando em lugares pré-determinados para que fosse feito o café da manhã e as outras refeições. Depois de um certo tempo, deixava o povo e seguia para Juazeiro, onde comercializava feijão, melancia, milho, batata e laranja, adquirida no município de Boquim (SE), famosa por suas frutas cítricas.

“Eu deixava o grupo na dormida e seguia em frente. Aí, a última etapa era feita sem o apoio do carro. Depois, quando eu voltava de Juazeiro, dava uma assistência, mas não ficava com ele lá. Dodô nunca deixou de ir a pé” – conta o motorista. Ele também se lembra que a Madrinha andava com uma cabaça, distribuindo água para os romeiros.

O comerciante diz que não havia data certa para as romarias. Segundo ele, “dependia da vontade do povo”. Ele revela que a beata quando ia chamá-lo para uma peregrinação fazia sempre uma pergunta: “O senhor tem coragem?”.

Nunca houve um assalto ou ameaça ao grupo, mesmo quando passavam a noite ao relento. Um dia, porém, rezas e benditos foram interrompidos por uma tragédia.

Três tipos de romeiros iam de Santa Brígida a Juazeiro do Norte. Os peregrinos, a pé; os que seguiam em carros próprios ou de vizinhos; e os que pagavam passagens no caminhão ou em caminhonetes de Eugênio.

Certa vez, uma senhora que seguia na carroceria de uma picape se acidentou. O vento fez o chapéu dela voar. Ela tentou pegar o objeto e caiu na estrada, na altura de Salgueiro (PE). A vítima foi socorrida e ficou internada em um hospital na cidade pernambucana. Seis carros, o caminhão de Eugênio e os romeiros cumpriram os últimos 120 quilômetros da viagem. De Juazeiro, faziam ligações telefônicas para acompanhar o estado de saúde da acidentada

“No último dia da peregrinação, Madrinha Dodô recebeu a notícia da morte da romeira. Ela me chamou e fomos para Salgueiro. Chegamos às 6 horas da tarde. Dodô vinha na cabine, os romeiros na carroceria e os outros carros vinham atrás. Parei na beira de uma fogueira, na entrada da delegacia. Os policiais disseram quando entramos: ‘Dona Dodô, pode pegar o corpo da mulher que tá lá no hospital’. Pegamos e fomos embora. Não teve perturbação nenhuma com a polícia nem com a justiça. Todos respeitavam a Madrinha” – disse o motorista.

O primeiro caminhão de Eugênio foi um Chevrolet 1967, vendido dois anos depois. Nas viagens seguintes ele usava um Ford-4000 ou uma caminhoneta. Os veículos também serviam para levar Dodô ao Brejo dos Padres, próximo de Tacaratu, em Pernambuco, onde vivem índios Pankararus. Ela costumava desviar do caminho para Juazeiro do Norte para visitar e conversar com “o povo de Maria Bárbara”, líder indígena, que segundo a própria Maria das Dores, era a única que conseguia acalmá-la. Os indígenas muitas vezes acompanhavam a romaria até a terra de Padre Cícero e até hoje visitam Santa Brígida na Semana Santa.

O motorista de confiança da beata afirma que Madrinha Dodô tinha a missão de fazer o bem. Para isso contava com a ajuda de “curandeiras” como dona Cassimira e Maria Delfino, que atendiam as pessoas e diagnosticavam seus males. Das Dores, por sua vez, preparava medicamentos com ervas, distribuía alimentos e repartia o dinheiro das doações que recebia entre os mais necessitados.  Eugênio acredita que não é nenhum exagero comparar a Madrinha com Irmã Dulce.

“Recorri a ela muitas vezes no meu pensamento e no meu coração, mesmo quando ela estava viva. E alcancei muitas graças” – comenta, sem querer dar exemplos de suas conquistas.

Nascida no município de Água Branca (AL), Dodô passou parte da infância e da adolescência em Juazeiro do Norte, acompanhando Padre Cícero em missões. Mesmo depois de conhecer Pedro Batista e decidir segui-lo até se fixar em Santa Brígida, a beata manteve contatos estreitos com religiosos de Juazeiro do Norte, onde costumava passar temporadas que variavam de um a três meses. Isto fez, de acordo com seu Eugênio, que ela determinasse que queria ser sepultada na cidade onde morresse.

“Eu conto ao senhor e pode gravar e botar na história. Ela falou com o senhor padre Murilo (sacerdote da igreja matriz, depois transformada em basílica menor, de Nossa Senhora das Dores, em Juazeiro do Norte) a mesma coisa. Tanto que o padre fez uma sepultura para ela na capela do encontro da igreja e deixou um espaço para a dele no mesmo lugar” – diz Eugênio.

Apesar da Madrinha deixar claro seu desejo, o que ninguém esperava é que a disputa pelo corpo dela se transformaria em uma grande confusão.

‘A VIAGEM’

No dia 27 de agosto de 1998, véspera de sua morte, Mãe Dodô estava na casa que possuía, no Caminho do Horto, em Juazeiro do Norte, quando recebeu a visita de Eugênio, um filho do motorista e do amigo Manuel Pastora. Os três tinham ido tomar bênção da beata e se despedir, pois voltariam naquela noite para Santa Brígida.

Dodô abençoou o grupo, mas pediu para Manuel ficar. O compadre disse que tinha que ir embora e acrescentou, segundo Eugênio: “Logo, logo vai ter muita gente aqui”. Os visitantes achavam que ela se referia à festa da padroeira da cidade cearense, que se realiza em setembro

Eugênio chegou a uma hora da madrugada em Santa Brígida. Às cinco, estava em Paulo Afonso, vendendo milhos e cereais. A manhã estava pelo meio quando recebeu a notícia da morte da Madrinha.

“Quando saí da casa dela, Mãe Dodô foi para o quartinho dela. Sentou em uma redinha e ficou lá. Ninguém viu como ela viajou. As pessoas que tomavam conta da casa encontraram o quarto com a portinha fechada. Chamaram e ela não respondeu. Quando conseguiram entrar, viram que ela continuava na rede. Estava já nas mãos de Deus” – relata o assistente da beata.

Eugênio diz que estava tudo pronto para o enterro dela em Juazeiro. De acordo com ele, era só tirar a pedra do túmulo feito na igreja e colocar o caixão. Outros fatores impediram que os planos do padre se concretizassem.

O motorista conta que quando chegou em Juazeiro do Norte encontrou a prefeita Rosália França, apoiada por Zezito Apóstolo, chefe do cartório de Santa Brígida e homem de confiança da beata, e um grupo de pessoas levado pela política. Eugênio, seguido por amigos em outros quatro carros, chegou na cidade cearense às seis horas da tarde, quando o pessoal de Rosália já havia retirado o corpo de Dodô da igreja, onde foi celebrada a missa de corpo presente, e se preparavam para voltar para a Bahia.

Sem poder realizar o suposto desejo da Madrinha, padre Murilo transformou o local em um confessionário. Sete anos depois, foi sepultado no túmulo que fez para ele mesmo ao lado do destinado à beata.

O mausoléu de Dodô e de Pedro Batista. Fotos: Paulo Oliveira
O mausoléu de Dodô e de Pedro Batista. Foto: Paulo Oliveira

A confusão não acabou quando os dois grupos chegaram a Santa Brígida. Eugênio defendia que o corpo de Dodô fosse enterrado na catacumba das moças, grupo do qual ela fazia parte, no cemitério ou em uma das igrejas da cidade. A prefeita, segundo testemunhas, pretendia fazer um mausoléu nos fundos da prefeitura.

“Política é o desmanche da vida. A prefeita mandou cavar um buraco para botar a Madrinha lá, mas o povo se dividiu. Uns aceitaram, outros não. Eu debati com ela, olho no olho. Ela dizendo que botava lá, eu dizia que não botava. Eu não aceitava que fizessem política com o corpo de Mãe Dodô” – conta Eugênio.

Há quem diga que durante a discussão acalorada tinha gente armada e um tiro para o alto chegou a ser disparado. O certo é que a confusão se prolongou por muito tempo. Em seguida, o bispo Mario Zanetta, de Paulo Afonso, chegou.

“Eu continuava o debate com a prefeita até que ela me perguntou se eu estava sozinho. Respondi que não. Disse que estava com Deus, Nossa Senhora e a Madrinha Dodô. Ela foi embora. Após uma longa espera, um homem veio e bateu no meu ombro. Disse para que eu me confortasse, pois a Madrinha seria sepultada no cemitério, no mesmo túmulo do Padrinho” – recorda o motorista.

O mausoléu estava em péssimo estado, mas logo foi reformado.

Os índios Pankararus nunca até hoje visitam os túmulos de Madrinha Dodô e do beato Pedro Batista, na Semana Santa. O número de romeiros na cidade baiana caiu consideravelmente.

Jornalista, 58 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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