O mosteiro de Jequitibá – Série: parte 1

O mosteiro de Jequitibá – Série: parte 1

Quais foram os motivos que levaram monges cistercienses a deixar Schlierbach, na Áustria, e construir um mosteiro em um povoado do município de Mundo Novo (BA), localizado a 8.827 km de distância da cidade europeia? O que fez a Ordem mudar a estratégia de construção, que consistia no aproveitamento de terras em vales e áreas encharcadas, prática que a levou dominar a arte de irrigação,  para erguer um monastério em um morro ?

O site Meus Sertões esclarece estas e outras questões na série de reportagens sobre o Mosteiro de Jequitibá, instalado no sertão baiano, que começa a ser publicada hoje e continuará nas próximas semanas. Posteriormente transformado em abadia, o monastério congrega hoje um centro de formação, a Paróquia de Jequitibá e Mundo Novo, a Fundação Divina Pastora e diversos serviços nas áreas de educação, de saúde e hospitaleira.

Fotografia de Plínio e Isbel Tude, doadores da Fazenda Jequitibá aos monges cistercienses. Foto: Paulo Oliveira
Fotografia de Plínio e Isabel Tude, doadores da Fazenda Jequitibá aos monges cistercienses. Foto: Paulo Oliveira

A primeira versão para o surgimento do mosteiro, bem simplificada, nos foi contada contada no museu de Arte Sacra do mosteiro, que também possui no acervo objetos dos antigos donos da fazenda e da primeira escola a funcionar no local. Consta que um”casal riquíssimo, piedoso e sem filhos” decidiu doar os 3.300 hectares (33 milhões de m²) da Fazenda Jequitibá a uma ordem religiosa para que fosse cumprida a vontade do falecido proprietário, Plínio Tude de Souza, ex-presidente da Associação Comercial da Bahia (1926-1928).

Ao morrer aos 59 anos, no dia 2 de maio de 1936, o latifundiário e dono de empresas nos ramos de energia, cigarros e óleos vegetais deixou testamento propondo a criação da Fundação Divina Pastora, a ser administrada por monges., com duas exigências: a construção de uma escola de ensino primário rural e a ministração de catecismo para beneficiar os trabalhadores rurais de sua propriedade.

Coube à mulher do “coronel”, Isabel Fernandes, sua única herdeira, fazer cumprir as vontades dele, inspiradas nos trabalhos dos beneditinos, no Rio de Janeiro, e dos trapistas, em Taubaté, São Paulo. A Ordem de São Benedito na Bahia, sediada em Salvador, foi escolhida para receber as terras da família Tude.

“Eles lançaram a pedra fundamental do mosteiro, mas por uma razão ou outra, desistiram de levar o projeto adiante. Dona Isabel depois encontrou padres da Ordem Cisterciense, no porto de Salvador, e falou do testamento. Os padres levaram a questão aos superiores e Dom Aloísio Wiesenger, abade do monastério austríaco, veio conhecer a terra que seria doada em 1938” – conta o irmão João Batista, 48 anos.

No ano seguinte, uma leva de padres e monges foi enviada para acompanhar a construção do Mosteiro de Jequitibá, cujo nome se deve a imensa árvore que existia na fazenda dos Tude e só podia ser circundada por oito homens de braços estendidos. A primeira etapa da obra dos cistercienses foi concluída em 1943. Até ficar oco e ser derrubado por forte ventania, quatro décadas depois, o jequitibá era mais procurado por visitantes do que o mosteiro.

A história da vinda dos cistercienses, ordem monástica católica beneditina reformada, cujos membros ficaram conhecidos como monges brancos por causa da cor do hábito, no entanto, é mais intrigante.

Abadia de Schlierbach, Áustria. Reprodução
Abadia de Schlierbach, na Áustria. Reprodução

Em “Evangelizando os sertões e restaurando o catolicismo no interior da Bahia: os cistercienses de Jequitibá (1938-1979)”, a professora Gilmara Ferreira de Oliveira Pinheiro, da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), revelou que a chegada dos monges austríacos está relacionada às negociações entre o bispo de Senhor do Bonfim, Hugo Bressane, e os responsáveis pelo mosteiro de Schlierbach, a fim de que fossem cumpridas orientações da Igreja para restauração do catolicismo e a reestruturação do quadro eclesiástico em todo o mundo. Os objetivos principais eram combater a proliferação de outros credos religiosos e fazer frente ao ensino laico com a criação de amplo sistema educacional, incluindo escolas paroquiais e até universidades.

A Ordem de Cister, reconhecida pelo Papa Calisto II em 1119, enviou os padres João Berchman, Alfredo Haasler e Adofo Lukasser para conversar com Dom Hugo. Inicialmente instalados no Mosteiro de São Bento, em Salvador, os missionários aceitaram a proposta de administrar “in perpetuum” a Paróquia de Santo Antônio de Jacobina para disseminar o catolicismo romano no interior do Brasil. Os cistercienses construíram 48 escolas paroquiais no primeiro ano de atuação. Meses depois aceitariam a missão proposta pela família Tude.

BREVE RECUO NO TEMPO

A Fundação Divina Pastora foi criada por dona Isabel após a morte do marido e recebeu como legado as fazendas Jequitibá (Mundo Novo), Sant’Anna, Boa Paz e Casa Nova (Baixa Grande), Acerto (Ipirá) e Santo Antônio (Macajuba) com todos os animais e benfeitorias existentes. Além disso, foram destinados 400 contos de réis, que correspondem a aproximadamente a R$ 49 milhões nos dias atuais, para construção e manutenção das escolas e do mosteiro.  Ainda no testamento de Plínio Tude estava previsto que a Ordem que assumisse a administração da Fundação receberia a Fazenda São Pedro (Macajuba).

Em dezembro de 1937, Isabel Tude e o abade Plácido Staeb, da Ordem de São Bento, firmaram acordo para o cumprimento dos desejos de Plínio. No dia 31 de janeiro de 1938, o jornal Avante, de Mundo Novo, noticiou o lançamento da pedra fundamental da Fundação Divina Pastora, no Morro de Nossa Senhora da Graça, na Fazenda Jequitibá.

O monge escolhido para ser o superior da futura comunidade foi Dom Mauro Clemente, que se instalou em uma casa construída para abrigá-lo até o mosteiro ficar pronto. Em maio, a primeira escola da Fundação Divina Pastora ficou pronta. No dia 9 de novembro, no entanto, Dom Mauro desistiu de levar a obra adiante. Alegou, na versão oficial, que faltavam monges para realizar empreendimento de tamanha magnitude.

Na monografia “Um filho de Cister no Piemonte do Paraguaçu: resquícios medievais”, a historiadora Edvânia Silva de Jesus contou que os reais motivos para a desistência foram divergências entre o religioso e a viúva do empresário: “Dom Mauro solicitava aumento de salários e a construção de um salão escolar (…) Dona Isabel discordava”. Segundo fontes da pesquisadora, havia ainda disputa de poder entre os dois. A viúva não fez a doação imediata dos bens da Fundação Divina Pastora, continuando a controlá-la, e exigia que todas etapas de instalação da instituição tinham que ter o seu aval.

Edvânia acrescentou que neste momento o papel de Hugo Bressane, bispo da diocese de Senhor do Bonfim, foi fundamental. Como negociava a vinda dos monges austríacos, ele também passou a intermediar a doação das terras dos Tude para a Ordem de Cister.  As negociações ocorrem durante os momentos de tensão causados pela ascensão do nazismo, que resultaria na Segunda Guerra Mundial.

Monges cistercienses. Foto: Paulo Oliveira
Monges cistercienses. Foto: Paulo Oliveira

Em março de 1938, a Áustria foi anexada à Alemanha e os monges sofreram perseguições: a abadia e as escolas religiosas foram fechadas. Sete meses depois, dois irmãos cistercienses visitaram a Fazenda Jequitibá, que seria sede do mosteiro e onde funcionaria a Fundação Divina Pastora. Alfredo Haasler e João Berchmans aprovaram a propriedade e enviaram carta para o abade descrevendo o que viram. Pressionado pela situação política e pelos apelos insistentes dos padres que estavam no Brasil, Dom Aloísio Wiesinger e mais nove monges desembarcaram na Bahia. Eles assumiram a direção da Fundação Divina Pastora em janeiro de 1939. No dia 3 de março, reiniciaram as obras do mosteiro.

Edivânia contou ainda que os irmãos cistercienses passaram por maus momentos em Jequitibá por serem estrangeiros “e identificados como alemães” foram acusados de espionagem diversas vezes e recebiam com frequência a visita de policiais. Essas ocorrências causaram interrupções nas obras do monastério, projetado pelo padre Hermano Hahn. No entanto, não impediram a conclusão das primeiras plantas em 1945.

Dom Antônio Moser. Reprodução
Dom Antônio Moser. Reprodução

Dom Aloísio retornou à Áustria em 1946, deixando a Fundação a cargo do prior padre Antonio Moser. Em 1950, o local passou a ser a Abadia de Nossa Senhora Mãe do Divino Pastor. Moser foi o primeiro abade.

leia a série completa sobre o mosteiro:

Vida de monge Os dois museus do monastério O monge holístico A pousada e o claustro Arte medievalA igreja da Divina PastoraDespertar no mosteiro

Jornalista, 57 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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Uma reflexão sobre “O mosteiro de Jequitibá – Série: parte 1&rdquo

  1. Gloria O. CastroDisse…
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    Bela matéria! Aguardo as próximas com uma certa ansiedade.

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