A história escrita por mulheres

A história escrita por mulheres

“Em 1932 não pingou nenhuma gota de água (…). Feijão, milho e mandioca não foram plantados. Muitas pessoas faziam promessas, organizavam procissões, marchando descalças, e conduziam as imagens de São José e de Nossa Senhora da Conceição em andores, indo ao local dos tanques semi-vazios (sic). Ali chegando, tiravam as imagens e davam a uma criança, que tocava os pés dos santos no resto da água no fundo do tanque.

(…) A água também passou a ser motivo de brigas. O povo se aglomerava em redor dos poços e cisternas (…). Ao meio-dia, horário de ser aberto o portão pelo encarregado da distribuição da água, já havia uma fila de mais de 50 metros. Nesse momento começava o conflito. Raro era o dia em que a polícia não precisava intervir”.

A descrição de como os moradores enfrentaram a pior seca da história do município consta do livro “Memórias de Araci”, da historiadora e pedagoga Ana Nery Fátima Carvalho Silva. A autora herdou da tia documentos, manuscritos e a vontade de registrar os fatos históricos da Cidade Mãe. É de Maura Mota Carvalho o livro sobre a história de Araci entre 1812 e 1956.

“Minha tia não quis escrever o segundo livro. Ela ficou constrangida com alguns fatos políticos que aconteceram aqui. Aí ela passou pra mim os relatos, os depoimentos. O esposo dela seria o próximo prefeitos, mas houve uns conflitos aí e não colocaram ele. Revoltada, ela não quis mais escrever” – conta Ana, que costumava fazer companhia à tia que não tinha filhos.

Tia e sobrinha escreveram livros sobre a história de Araci. Foto: Paulo Oliveira
Tia e sobrinha escreveram livros sobre a história de Araci. Foto: Paulo Oliveira
RIQUEZA

Outra das muitas histórias do livro é sobre o ouro existente no povoado de Barreira, nas imediações da Cachoeira do Inferno, antiga Cachoeira do Roncador. De acordo com Ana Nery, uma moradora da região chamada Maria Inez Moura, dizia que existia ali uma gruta insondável e que se ouvia rumores de zabumba, gaita e caixa de guerra nas noites de trovoada. O som estaria relacionado à vibração do ouro.

Há também o relato que uma companhia inglesa tentou secar o Poço de Trapiá (ou Tacha) para extrair as pepitas douradas, mas nunca conseguiu, pois o local era tido como encantado. Em vez de secar, mais água surgia.

O agricultor Joanísio Alvino de Oliveira, 83 anos, que também participava da conversa com a historiadora, conta que os garimpeiros tinham um jeito peculiar para medir a quantidade de ouro extraído em uma época em que não eram usadas nem balanças nem pesos.

“Meu pai contava que eles usavam os canos depenados e cortados das asas de peru. O pó de ouro era depositado no “sabugo de peru”. Cada peça valia 10, 20 réis” – revela.

Na exposição do primeiro centenário da Independência do Brasil na Bahia, em 1923, em Salvador, a cidade de Araci foi representada pelo ouro e foi agraciada com uma medalha de bronze. No evento, cada município apresentava a sua riqueza principal.

Entre 1978 e 1982, o ouro voltou a ser um “boom”. Consta que até uma escola de samba carioca usou o tema em seu enredo. No entanto, quando a mina foi vendida para uma multinacional, a empresa se estabeleceu na vizinha Teofilândia, a 17 km de distância.

FAMÍLIA INFLUENTE

Ana Nery é descendente do fundador de Araci, José Ferreira de Carvalho, amigo do imperador Pedro II. Muitos de seus parentes seguiram a carreira política e tentaram convencê-la a priorizar o tema em seu livro, mas não obtiveram êxito.

Nos 10 anos que levou para escrever sua obra, ela pesquisou temas como o cangaço para brindar os leitores com duas histórias sobre o ataque de Lampião aos povoados de João Vieira e Barreiras. E uma terceira, a respeito de um policial que veio a morar em Araci, após ter enfrentado os cangaceiros.

A autora também aborda a participação de aracienses na 2ª Guerra Mundial, a atuação das mulheres no município, a origem dos povoados e os aspectos culturais e educacionais da cidade.

Jornalista, 58 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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