A Capina do Monte de Serra Preta

A Capina do Monte de Serra Preta

Os relatos dos moradores de Serra Preta, no sertão baiano, dão conta de que seus ancestrais que viveram mais de 100 anos já participavam da Capina do Monte, festa tradicional, mistura de fé, devoção, alegria, música, dança e comilança. No entanto, ninguém sabe explicar quando e porque a população começou a subir o Monte da Santa Cruz, capinando e cantando por mais de cinco horas. Com a conclusão do trabalho são feitas orações. Em seguida, os participantes descem o morro batendo pedras nas enxadas e entoando cantigas até se encontrarem com a zabumba (fanfarra) e dar início a um carnaval fora de época.

A folia marca a manhã do evento, que pode se prolongar até a madrugada do dia seguinte, dependendo da disposição dos brincantes. Este ano, a programação terminou por volta das 21 horas. Não faltaram os discursos, o farto almoço, as marchinhas de carnaval, a apresentação do grupo de cantadores de chula, o samba de roda, preferido da velha guarda, e a bênção burocrática do padre Márcio Brito que parece não ficar à vontade com a manifestação popular, a ponto de não permitir a entrada dos trabalhadores na Igreja Matriz.

Até recentemente o evento tinha data fixa: 15 de novembro. Mas em torno dela existe especulação. Dia de santos e beatos pouco conhecidos no Brasil, a versão mais aceitável é a de que os latifundiários da região libertaram os negros escravizados nesta época e eles comemoraram trabalhando, orando, bebendo e cantando no morro. Embora defendida pelos tradicionalistas, a fixação da comemoração a estava levando à extinção. A maioria dos idosos não tinha mais força, nem saúde, para capinar o monte. Os mais jovens não participavam do evento porque a maioria trabalha em outras cidades e não pode faltar durante a semana.

A solução, após longas discussões, foi passar o festejo para o segundo domingo de dezembro. Os jovens compraram a ideia e a festa está sendo revitalizada aos poucos. Este ano, 52 capinadores, incluindo duas mulheres, fizeram a faxina no monte e caiaram pedras.

A realização do evento é complexa. Existe um presidente, que corre atrás dos recursos, e outras três equipes. A da cozinha, que prepara o almoço para todos os participantes; a de arrecadação; a de apoio, que amola as enxadas, solta fogos, prepara a alvorada e sobe e desce o morro levando água e comida para os trabalhadores.

Edvan Santos, 47 anos, a atual presidente da Capina do Monte, tem uma ligação mística com o monte, onde estão fincados um cruzeiro, uma réplica do Cristo Redentor e uma capela.

“Nasci com problema de visão e minha mãe subiu o monte comigo no colo. Ela levou uma fita de Nossa Senhora das Candeias e outras fitas que comprou no armazém de seu Nem. Amarrou elas na Santa Cruz e lavou meus olhos com água de milagre. Três dias depois comecei a enxergar. Dona Edite tinha prometido que se eu voltasse a ver, ficaria fiel ao monte. Ele vinha todo ano, mas agora tem problemas de varizes e não pode mais subir porque as veias correm risco de estourar” – conta.

Edvan é a quinta pessoa da família, incluindo Laudelino Turíbio de Lima, tio de consideração e o mais longevo dirigente, a ocupar a presidência da festa. Com problemas de saúde chegou a anunciar que este ano seria o último que ficaria no comando. Em cima da hora, decidiu prorrogar a permanência no cargo por mais um ano.

FÉ E FOLIA

 

Os presidentes da festa é que definem o tempo do mandato. Laudelino ficou 26 anos. Edvan empunha a bandeira verde com a cruz branca, estandarte da festa, há quatro. Não há eleição para o cargo. O nome do sucessor é levado para consulta de pessoas influentes do Grupo Unido pela Cultura. Na véspera da festa, havia pelo menos três pessoas cotadas.

Edvan também desconhece como a Capina se originou. Sabe apenas que o morro era refúgio para trabalhadores rurais e local de oração para praticantes de diversas religiões. Enquanto dá entrevista, ela coordena o trabalho de 16 pessoas que preparam o cardápio do dia seguinte: salada, frango, assado de boi, ensopado, carneiro, vísceras, mocotó e macarrão. São cerca de 150 quilos de alimentos doados pela comunidade.

A presidente explica que não há um padroeiro na Capina, mas muitos homenageiam Nossa Senhora. Ela não diz, mas pessoas presentes na Casa do Samba, o centro cultural de Serra Preta, lamenta que a Igreja Católica tenha proibido a entrada dos capinadores na Matriz. No passado, o templo ficava aberto e era palco de uma das atrações do evento: o canto do hino de Nossa Senhora do Bom Conselho. Um padre conservador alegou que alguns capinadores bebiam e muitos entravam sem camisa, ações consideradas desrespeitosas. O sino parou de tocar, as homenagens às pessoas mortas naquele ano deixaram de ser feitas e as portas foram fechadas. Foi mais fácil proibir a entrada do povo do que promover uma campanha de conscientização.

É preciso ter jogo de cintura e prestígio para ser presidente e resolver os pepinos que surgem. Ano passado, a zabumba de Bonfim de Feira, distrito de Feira de Santana, não compareceu. A versão oficial é de que houve divergência com a prefeitura sobre quem deveria animar a festa. A demora para a tomada de decisão teria feito a banda assumir outro compromisso. Também existe rumor de que havia uma dívida com os músicos, quitada posteriormente. Este ano, a zabumba retornou.

“Sem a zabumba a festa morre” – diz Edvan.

Foi a família que fez Élcio Lima, 67 anos, presidente da Capina do Monte, em 1992, se apaixonar pelo evento. O tio e o avô dele, Laudelino Turíbio de Lima e Pedro Gregório, falecidos com 101 e 102 anos, respectivamente, contavam que só havia registro da festa a partir de 1936, quando a cruz do alto do morro caiu e foi substituída. Nela foi encontrada a data de inscrição, talhada por um carpinteiro.

Élcio revela que o novo cruzeiro foi feito com Itapicuru Ferreira, madeira usada para fazer pilões. As toras foram trazidas da Serra Grande. A instalação ocorreu em 2001. Dez anos depois, o cruzeiro ruiu, queimado por velas acessas na base. Com a destruição da parte de baixo, o vento ajudou a derrubá-lo. Quando os homens subiram para ver o que ocorreu, encontraram no meio da hera ao redor do monumento muitas cabeças, pés e braços de lenho (ex-votos), usados para o pagamento de promessas.

A cruz atual foi instalada em 2011. Na memória da sambadeira Emília Teles de Jesus, 84 anos, a colocação deu um trabalho tremendo. No entanto, Cezar Filho, um dos líderes dos jovens da cidade, diz que dona Emília se confundiu. O que subiu carregado na panca foi a réplica do Cristo Redentor, em 1992. O cruzeiro, que permanece na colina, foi içado para o alto por um guindaste Munck, com capacidade de carregar até 12 toneladas.

O ex-presidente Élcio Lima considera que no passado a festa era mais bonita. O samba era tocado de casa em casa, hoje é realizado na praça principal. Ele acrescenta que quando era menino, o monte era tomado por uma mata fechada e só havia um caminho íngreme. Era comum estudantes de todas as séries irem lá em cima fazer promessa para passar de ano, o que ainda se mantém.

Este ano, Franciele de Oliveira Souza, 16 anos, subiu o monte quatro vezes. Ela e a amiga Maria Clara dos Santos Silva, 13, carregavam velas para cumprir o prometido. Franciele disse que tinha oito pedidos realizados, sendo um deles a aprovação no 2º ano do Ensino Médio. Já Maria Clara pretendia rezar pelo avô Clemente Moreira da Silva, que a levava na Capina e morreu em 2016.

Há ainda quem faça curiosos prometimento. É o caso de Kaylane Silva, 15, que ao descer do morro disse que foi agradecer o título de campeão brasileiro do Flamengo. A diferença de hoje para o tempo de menino de Élcio é que ninguém mais sobe de joelhos e a quantidade de borra de velas deixadas no cruzeiro é insignificante:

“Agora o povo sobe a pulso” – critica.

O saudosismo fica mais evidente quando ele lembra que as roças de milho eram feitas nos morros da cidade porque a produção era maior e de melhor qualidade. O assunto envereda pelas batas, prática iniciada no Brasil Colônia, na qual os agricultores ajudavam os vizinhos na colheita e na retirada de grãos, batendo nas vagens de feijão e nos capucos de milho com pedaços de pau. O trabalho era feito ao som de músicas de trabalho e regado com bebida alcóolica. De manhã, as plantações estavam limpinhas.

Atualmente, Élcio não sobe mais o morro. Diz não ter mais saúde para isso. Em vez de capinar, prefere orientar o grupo que leva água para os penitentes e lavradores. Durante o samba, ele toca pandeiro e cuia de cabaça ou de caxixe. Nas horas vagas sonha em criar uma escolinha para ensinar os jovens a sambar.

Na véspera da Capina do Monte deste ano os organizadores estavam preocupados com a quantidade de participantes e visitantes. Temiam o esvaziamento da festa. É que no mesmo dia, além da celebração de Nossa Senhora da Conceição, estavam previstas a partida de futebol organizada pelo jogador Anderson Talisca (ex-Bahia, ex-Benfica e hoje na equipe chinesa Guangzhou), e um arrastão musical, ambos no distrito do Bravo, a 19 km de distância.

Serra Preta é um lugar antigo e interessante. Seus primeiros habitantes foram os índios paiaiás. Em 1655, o colonizador João Peixoto Viegas tomou posse do então Morgado da Casa de São José das Itapororocas, que significa encontro das águas com as pedras. Em troca do latifúndio, lutava contra os índios.

Os escravos vieram em seguida, trazidos de Angola, Guiné e Moçambique. Os africanos eram registrados em cartório com a cor negra; os nascidos no Brasil tinham colorações de pele esdrúxulas. Eram “cabra fula”, “pardo”, “crioulo” ou “cabra”. Documentos dos registros de compra e venda de escravos de 1841 estão guardados no fórum do distrito do Ponto de Serra Preta, onde se localiza a comarca do município. O outro distrito, Bravo, é uma espécie de sede econômica, onde moram 54% da população serra-pretense.

OS PERSONAGENS DA FESTA

 

Erguida a partir da construção de uma capela em 1722 e emancipada de Ipirá, cujo nome anterior era Camisão, em 1953, Serra Preta é a sede político-administrativa. É bem menor que seus dois distritos. Tem apenas nove ruas e 800 moradores (5,3% da população total, estimada pelo IBGE em 14.878 habitantes).

Às 3h50min de domingo, 8 de dezembro de 2019, Lucineide Sena da Silva, 42 anos, está dançando diante da Casa do Samba de Serra Preta. Em instantes seguirá atrás do carro de som, que toca músicas e convoca o povo.  É o aquecimento para a capina. Mãe de três filhos, começou com 12 anos a subir o morro, levando água para o pessoal. Hoje, faz o trabalho braçal. Foi única mulher a capinar do sopé ao topo do monte.

Marchinhas de carnaval e sambas como Ê Baiana e Ilha de Maré fazem parte do repertório da alvorada, assim como a queima de fogos. Dona Emília Teles, 84 anos, apaixonada pelo samba, não dança mais. Hoje fica na porta de casa, esperando o carro de som passar e pedindo, em voz alta, que todos brinquem em paz.

O agricultor Clodoaldo Souza Silva, 49 anos, tem outra forma de se motivar. Sem dormir de sábado para domingo, sorve longos tragos de batida. O gosto pelo álcool lhe rendeu um apelido irônico: “água de coco”, a resposta que dá sempre que lhe perguntam o que está tomando. Clodoaldo tem ritual próprio. Ele sobe a serra, bem cedo, para acender velas e pedir para Deus lhe dar forças para a capina.

Às 4h38, 11 pessoas se posicionam no pórtico montado no sopé do monte. Parecem atletas que vão disputar uma corrida. Eles usam camisetas do evento. A diferença é que carregam enxadas.

Embora os cartazes de divulgação informem que capina começa às 7h, ela inicia pelo menos duas horas antes. A justificativa é que os mais jovens preferem iniciar o trabalho mais cedo para não enfrentar o sol do meio-dia, como ocorria em anos anteriores.

Aos poucos, os trabalhadores recebem reforços. Às 4h42 são 15 lavradores, incluindo adolescentes. Com o dia claro, os trabalhadores aumentam o ritmo. Eles cantam músicas de trabalho, aboiam e gritam coisas como “Bora xibungo”. O número de participante sobe lentamente até atingir, cinco horas depois, 52 pessoas.

Antes do primeiro terço do serviço, André Macedo da Silva mostra as mãos cheias de calos e com uma enorme bolha, que diz ter ganho durante a capina. Ele admite que bebeu muito, mas garante que vai chegar ao alto do monte.

rECORDAÇÕES

EXPERIÊNCIA PESSOAL

São cinco horas da manhã quando decido fazer a primeira tentativa de chegar à Santa Cruz. O tempo estava nublado e a temperatura, amena. Dormi em uma pousada no Bravo, acordei às 3 horas e não tomei café. Ao alcançar o primeiro grupo de pedras que forma um muro natural na encosta, não sinto condições de seguir adiante. Paro, descanso, bebo de uma vez a água que levei e decido voltar para o sopé.

Fico próximo aos capinadores que pouco avançaram. Uma hora depois é servido o café da manhã: cuscuz com linguiça e vinagrete bem temperado. Um dos integrantes da equipe de apoio me oferece um prato cheio. Aceito e como na mesma velocidade do pessoal da enxada. Em seguida, bebo um copo de guaraná. A refeição reanima. Decido encarar a subida íngreme.

A Santa Cruz, a capela e a imagem do Cristo inspiram respeito, mas a vista lá do alto é divina. Fico contemplando por um bom tempo. Ainda estou nessa vibração quando chegam três visitantes de Feira de Santana. Genildo Silva Reis, funcionário de uma fábrica de pneus, diz que ele e os amigos costumam participar de festas religiosas em que há subidas de morros. É sua segunda vez em Serra Preta. Ele chama minha atenção para uma cena comovente. Um senhor bem velhinho sobe o morro lentamente, carregando uma enxada. De vez em quando, tenta dar bater com ela na terra. Com o apoio de dois jovens que se revezaram, escorando-o durante a subida, ele chega se arrastando.

Hipólito Araújo, o seu Polinho, 96 anos, mora no Ponto, a 3 km de distância. Sempre trabalhou como agricultor. Plantou milho, feijão e melancia. Ele faz questão de dizer que só não cultivou pé de capim. Diante da cruz, para e se emociona. Uma das meninas de um grupo de adolescentes que conversa na capela diz que ele dificilmente deixa de cumprir esse ritual.

Resolvo descer às 8h50min. Constato que subir é mais fácil. O sol rompe as nuvens e o calor aumenta. Praticamente não há sombras. É preciso ter bons joelhos e força nas pernas para não perder o equilíbrio e rolar. Enquanto apreciava a paisagem no cume dizia para mim mesmo que tomei a decisão certa. Na volta, olhando a distância para o portão que dá acesso à estrada do monte, na verdade uma picada larga, me arrependo. Com a terra revolvida e com pedras soltas, o cuidado tem que ser redobrado.

Olhando a escarpa, eu só lembrava da história contada por um dos integrantes da velha guarda da Capina (ver vídeo), na qual ele relatou o acidente ocorrido por um menino chamado Jau, que se assustou com um animal e rolou a encosta.

A sede me consome e deixa minha boca seca. Por três vezes aguadeiros me socorreram. Quando estava desanimado por avançar como uma lesma, outro rapaz do grupo de apoio da Capina me deu um pedaço de madeira e disse para eu usá-lo como se fosse um cajado. Foi uma bênção. Mais firme, acelerei um pouco o passo e cheguei são e salvo ao fim do trajeto, ainda sentido necessidade de hidratação. Parei no barzinho em frente à Câmara de Vereadores e bebi um litro de água mineral e um refrigerante em lata. As forças voltaram no instante em que os capinadores chegaram ao topo.

Os participantes da Capina do Monte fazem orações e participam de uma cerimônia comandada pelo diácono Dunga, após darem por encerrado os trabalhos. Eles ficam cerca de 50 minutos no local. A decida é festiva. Os trabalhadores cantam e batem pedras nas enxadas. Antes de cruzarem o portão de acesso ao morro, improvisam uma roda de samba. Logo chega a Banda Santa Cruz e tudo se vira Carnaval.

O músico Antônio de Oliveira Santos, 78 anos, é o responsável pelo que chama de filarmônica. Ao todo são 22 músicos, mas para Serra Preta vieram 11. É ele quem negocia o contrato com as prefeituras da região e define o tamanho do grupo em cada evento. Antônio começou a tocar bem cedo. Ele diz ter participado do evento serra-pretense há pelo menos 60 anos.

Depois de novo desfile pela cidade há pausa para os discursos. Durante a falação, o povo resenha. Os comentários são sobre o que consideram pequeno número de visitantes este ano. No entanto, para uma festa que estava fadada a desaparecer, ter esperanças, através dos jovens, de que ela possa resgatar os tempos áureos, é alvissareiro.

O SOM DA FESTA

Jornalista, 58 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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