Lamento

Lamento

SOTAQUE DE UM POVO NAS BARRANCAS DO VELHO CHICO

“Nós beiradeiros deveríamos ter a consciência mais forte do que o poder do lugar. A naturalidade com que aceitamos a transformação do rio, parece até que o ser humano é quem está sendo destruído pelo rio.

O beiradeiro está preste a virar sertanejo, usando práticas de desertificação à margem do seu maior patrimônio, na esperança de esverdear suas terras com pastos, sem pensar na resposta da natureza.

Plantam-se mangues nas areias das croas,  chamam lama pra riba, assoreando o Velho Chico, alguns inocentemente, outros pela vontade de multiplicar o nascimento de bezerros no ano seguinte.

O infeliz do capitalismo selvagem invadiu o nosso rio. A busca, demasiadamente, pelo capital está corroendo, deteriorando, achacando a alma do ser humano. Amazelando? Não diria. Talvez, numa cantoria, em estado de poesia poderia, conjugaria, verbalizaria o substantivo.

Na luta das carrancas contra os maus-espíritos, os demônios conseguiram expulsar do Velho Chico, canoas cargueiras; expulsaram os empurradores; expulsaram o vapor gaiola, calando seu apito ensurdecedor ao partir; expulsaram os surubins, que emergiram diante do pescador Nozim; continuam expulsando as arribadas de curimatá; expulsam o pulo da matrinxã, na calada da manhã; expulsam as matas frondosas, ciliar, dos olho quase fechado do rio. Sobram apenas barrancos e areias desoladas em um leito pobre”.

Coisas de Xique-Xique na Bahia

Arilson B. da Costa Contributor
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