Fumo grosso

Fumo grosso

SOTAQUE DE UM POVO NAS BARRANCAS DO VELHO CHICO

Andar sobre as águas do Velho Chico, sem-que-fazer, faz com que prestemos assunto a tudo e a todos.

Certa feita, fiquei a observar o comportamento do beiradeiro diante de pessoas estranhas:

À boca-da-noite, descia rio abaixo um barco com capota, motor de popa e casco de fibra. Levava homens de pele encarnada, mulheres bronzeadas pelo sol da Bahia. Todos usavam boias salva vidas.  Decerto eram de outra região. O motor do barco desligado, o rio silencioso e as pessoas sem falar um isto.

Na outra margem, o beiradeiro assunta tudo, desconfiado, bota travessia e apruma o barco em paralela simétrica, beirando o barco dos visitantes. Com feição de discursador, o beiradeiro tirou a faca e o fumo, o que, na convenção do rio São Francisco, indica o desejo de puxar conversa, prosear, apresentar-se.

O beiradeiro soltou o remo dentro do paquete, que descia água abaixo, e foi picando o fumo, minuciosamente, ajuntando-o na concha da mão.

No outro barco, que também descia a esmo, o homem de pele avermelhada ofereceu-lhe o maço de cigarro, o beiradeiro fez menção de pegar, mas encolheu a mão, de sopapo. E disse:

“Muito agradecido… Eu pito é desses nossos, dos de papel… A gente tá acostumado com fumo grosso só… aqui o fumo entra é de rolo, seu moço…”

Aí, o beiradeiro, soltou duas nuvens de fumaça da boca e saiu, remando, remando…

COISAS DE XIQUE-XIQUE NA BAHIA.

–*–*–

DICIONÁRIO BEIRADEIRO

Sem que fazer – Desocupado

De sopapo – De repente

 

 

Arilson B. da Costa Contributor
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